All language subtitles for 2019 My Mexican Bretzel

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Original subtitles

A mentira � apenas outra forma de dizer a verdade.

Paravadin Kanvar Kharjappali

Os textos que acompanham as pr�ximas imagens

s�o excertos do di�rio de Vivian Barrett.

Finalmente, hoje consegui falar com o L�on ao telefone.

Antes de o fazer,

pus o batom de que ele tanto gosta.

Sinto a falta das m�os dele,

da minha cabe�a sobre o seu peito,

dos dedos dele a acariciar-me o cabelo,

do riso,

de ouvirmos discos juntos...

Acho que tiveram problemas na fronteira ontem,

mas ele n�o quis entrar em pormenores.

Ele disse-me que se sente muito mais seguro

quando est� sozinho a milhares de metros de altura

do que rodeado por pessoas e com os p�s assentes no ch�o.

Ele tamb�m me disse que por vezes,

quando voa,

sente-se como uma folha

que quer embater brutalmente contra o ch�o

mas que n�o consegue.

Quando o tio Paul nos deixou esta casa,

imaginei-nos imediatamente, o L�on e eu com cinco ou seis filhos,

todos a brincar felizes no jardim.

Na altura eu n�o sabia que n�o podia ter filhos.

N�o sabia que a minha barriga era como a de um homem,

t�o est�ril quanto a terra �rida.

O galho seco da �rvore.

Acabei de perceber que n�o escrevo desde setembro.

Tem sido muito dif�cil nos �ltimos nove meses, desde o acidente.

Mas o L�on est� a recuperar a pouco e pouco.

Ontem fomos fazer o check-up do L�on.

O problema de audi��o dele n�o tem solu��o.

Disseram-lhe que ele nunca mais vai poder pilotar um avi�o.

Foi a primeira vez que o vi a chorar.

Vamos para Fran�a na quinta.

Vamos visitar um amigo do L�on que � farmac�utico.

Ele quer falar com ele sobre uma proposta de neg�cio que tem em mente.

O Jacques prop�s-lhe sociedade numa empresa

que vai comercializar um medicamento apenas.

Uma p�lula que ser� feita de uma planta

que s� existe junto do vulc�o Popocatepetl.

Na ter�a fui ao s�t�o e encontrei uma caixa com coisas do tio Paul.

Fiquei impressionada com um livro vermelho sem t�tulo.

� de um certo Paravadin Kanvar Kharjappali

e foi publicado no M�xico em 1919.

Na primeira p�gina diz:

Deus tamb�m duvida da sua exist�ncia.

Comecei a l�-lo e estou fascinada.

Diz, por exemplo:

O problema de uma multid�o que grita � que � quase imposs�vel saber

se cada indiv�duo est� a gritar porque os restantes gritam

ou se gritariam tamb�m caso estivessem sozinhos.

O v�nculo mais pr�ximo que existe entre seres humanos

nasce do �dio que sentem por um inimigo comum.

� por isso que n�s, misantropos, gostamos uns aos outros.

Na guerra, o combatente mais radical de um dos lados

parece ignorar

que se tivesse nascido e sido criado do outro lado

ele seria igualmente radical,

mas em defesa do oposto.

Espanta-me tanto o facto de n�o passarmos o dia inteiro a matar-nos,

quanto o facto de n�o passarmos o dia inteiro a fazer amor.

Os primeiros ensaios cl�nicos correram bem.

Se passar nos testes finais,

Lovedyn come�ar� a ser vendido muito em breve.

O Dexamyl � um forte competidor,

mas o L�on acredita que podem venc�-los.

� a primeira vez que nos damos t�o bem desde o acidente.

Muito bem mesmo.

Quase toda a gente chegou

e a casa � perfeita.

A Olivia e o Peter chegaram hoje.

O Peter est� horrorizado com toda a ideia do Lovedyn.

N�o percebo porqu�.

Para mim a felicidade,

seja artificial, tempor�ria ou enganadora,

� sempre bem vinda.

Como diz Kharjappali,

vivemos em busca de formas que nos fa�am esquecer a nossa vulnerabilidade

se n�o for atrav�s de Lovedyn,

tequila, manteiga, um amante, Deus ou guerra.

Ontem tocamos os Assobiadores Antigos.

Perguntaram ao L�on se ele era ego�sta.

Ele disse que n�o.

Depois puseram-no perante o seguinte dilema:

Imagina-te que tu ou a Vivian

tinham de saltar de um penhasco

para salvar a humanidade.

Deixarias a Vivian saltar ou saltavas tu?

Ele disse:

Daria a m�o a Vivian e saltava com ela.

H� um momento quando estou a esquiar muito depressa na pista

em que sinto que n�o h� um fim.

Parece que eu podia continuar por ali abaixo sem parar

at� perder o mundo inteiro de vista.

� noite sinto algo de semelhante.

Mas por raz�es diferentes.

Tenho o mesmo pesadelo vezes e vezes sem conta.

Uma coruja gigante fixa-me da porta do quarto.

Procuro desesperadamente um lugar para me esconder,

mas o quarto est� completamente vazio.

Eu quero sair, mas a porta transforma-se numa parede.

De repente, apercebo-me que n�o tenho sa�da.

E ent�o acordo encharcada em suor.

Todos bebemos demais ontem

e a Rita contou-me uma hist�ria que me perturbou muito.

Parece que a Kati teve uma irm�, a Eva,

que morreu no bombardeamento de Schaffhausen.

Foi no dia 1 de Abril de 1944,

no anivers�rio da Rita.

Foi um erro.

Os Americanos pensaram que estavam a bombardear a Alemanha.

Podem ter havido Alem�es

que pensaram estar a bombardear a Am�rica.

O barco de L�on est� terminado.

Amanh� sa�mos pela primeira vez.

Eu n�o gosto muito do barco

Mas � a primeira vez que vejo o L�on t�o entusiasmado

como quando ele voava.

� maravilhoso v�-lo assim.

Vamos passar as f�rias todas no barco.

Passou uma semana e j� quero ir para casa.

L�on est� continuamente obcecado com o barco e a c�mara.

Estou farta que ele s� me olhe atrav�s da lente.

� como se ele estivesse a apontar-me uma arma

e fosse disparar contra mim a qualquer momento.

Pedi ao L�onque me ensinasse a conduzir o barco.

N�o s� gosto de conduzir,

como tamb�m n�o enjoo quando o fa�o.

O problema � que o L�on quase n�o me deixa faz�-lo.

Tamb�m me ensinou como funciona a c�mara.

Mas eu prefiro escrever.

Acho que filmar �

uma das melhores formas de auto-ilus�o.

� tamb�m uma luta desesperada contra a solid�o.

E uma bela forma de desaparecer

e se tornar um animal ou Deus.

Se filmas, n�o tens de viver.

Nem tens de dar explica��es.

Eu j� n�o sei

se filmamos o que fazemos

ou se fazemos o que fazemos porque o filmamos.

O mesmo acontece com o L�on quando filma e quando conduz.

Isso satisfaz um desejo sexual,

e ele sente que est� a desafiar a morte.

De acordo com Kharjappali, as propor��es de cada elemento

variam conforme a criatura e as suas circunst�ncias.

Vimos um belo porco preto junto ao mar hoje.

Bem, eu vi-o.

O L�on filmou-o.

Ele continua obcecado.

Esta noite, h� uma festa em toda a ilha.

O L�on vai filmar o fogo de art�ficio a partir do mar.

Ontem pela primeira vez beijei um homem que n�o o L�on.

Fui atra�da na sua dire��o sem pensar e sem for�a de vontade.

Ele � Mexicano, mas vive em Maiorca.

Chama-se Leonardo.

Bem, eles chamam-lhe Leo.

� seguro dizer o nome dele nos meus sonhos.

Sinto-me culpada por n�o me sentir culpada.

N�o posso evitar sentir-me feliz.

Devia sentir remorsos.

Devia mesmo.

Mas prefiro seguir o conselho de Kharjappali:

O desejo n�o deve ser desperdi�ado.

Enviei-lhe uma carta.

J� nem me lembro do que possa ter projectado.

Nem mem�rias nem desejo.

Is that death or is it freedom?

Quando voltarmos a casa, o L�on vai aos EUA por um m�s.

O Lovedyn foi bem recebido l�

e eles querem expandir os pontos de venda.

Eu disse ao L�on

que tenho medo de fazer uma viagem t�o longa de barco

e que irei depois de avi�o.

� mentira.

Vou a Maiorca ver o Leo.

S� penso que v�-lo de novo.

Hoje parto para Nova Iorque para ver o Leo.

Isto �, o L�on.

Foi dif�cil despedir-me do Leo.

Mas tamb�m sinto falta do L�on.

E agora o remorso � impar�vel, e cresce implac�vel por dentro.

Eu nunca entendi o desejo de subir ao topo de uma montanha,

mas sempre entendi o desejo de algu�m se afastar de todos.

A tenta��o de desaparecer sem deixar rasto.

Um dia o meu tio Paul disse � mulher

que ia dar uma voltinha

e estaria de volta para o jantar.

Voltou 40 anos mais tarde.

Quando a mulher abriu a porta e viu-o,

disse apenas isto:

O teu jantar arrefeceu.

Instru��es do L�on:

Primeiro finge que n�o me v�s.

Depois olha para mim e sorri.

Eu percebi ontem que nunca haver� ningu�m

que sabia absolutamente tudo sobre mim.

No in�cio, fiquei confusa,

depois senti uma esp�cie de al�vio

e por fim invadiu-me uma profunda ansiedade.

Depois pensei numa frase de Kharjappali que eu adoro:

A lucidez faz-te mergulhar na escurid�o absoluta.

Esta cidade maravilhosa n�o � uma ilha

mas podia ser uma.

As vendas de Lovedyn continuam a subir.

Quase n�o existem efeitos secund�rios

portanto o Dexamyl est� prestes a desaparecer.

Fico feliz pelo L�on.

� a primeira vez que o vejo em ac��o

e descubro qual � o seu trunfo quando vende.

Como um sedutor inseguro, ele recorre a lisonjas excessivas.

E lisonjear algu�m � a arma de defesa mais eficaz.

Acabei de encontrar uma nota que Leo tinha escondido na minha bolsa.

Quero esquecer toda a gente, incluindo eu pr�prio, menos tu.

O L�on conseguiu!

O Lovedyn ser� o patrocinador oficial do Mille Miglia deste ano.

O Leo prop�s-me que eu fosse viver com ele.

N�o durmo h� v�rias noites.

Penso que tomei uma decis�o

mas custa-me a aceit�-la.

Vou morar com o Leo depois do Le Mans.

Sobre as decis�es que tomamos, Kharjappali diz:

Evitar transgress�es por temor a deus

n�o demonstra bondade

mas cobardia.

Quanto ao sofrimento, ele diz:

A eternidade de um instante de dor

dura muito mais

do que a eternidade de um instante de prazer.

Tanto eu quanto o L�on estamos a tentar seguir normalmente.

Fazemos o poss�vel para evitar o assunto.

Mas estamos ambos devastados.

Em vez de dormir, especulo em v�o at� � exaust�o.

E se n�o tiv�ssemos, e se em vez de, e se naquele dia, e se aquele homem, e se

Isto tamb�m nos separou.

Pela primeira vez prefiro a liberdade do esquecimento

� escravid�o da mem�ria.

O L�on insiste para que eu fique com o Lovedyn,

mas eu n�o quero.

Sinto-me zangada e triste em igual medida.

E penso que a ira pode mover

tantas montanhas quanto a f�.

Mesmo que n�o as leve para lugar nenhum.

K. sobre a morte:

Quando confrontados com a morte

n�s, os curiosos, temos uma vantagem adicional.

E:

Se a natureza humana implicasse viver para sempre,

todos os nossos esfor�os concentrar-se-iam

em descobrir como morrer.

Hoje eu encontrei a �ltima carta de Leo numa gaveta.

Aquela que nunca me atrevi a abrir.

Continua por abrir. E na gaveta.

N�o consigo abri-la

nem deit�-la fora.

Pergunto-me como estar� ele.

Se ainda � vivo, se se lembra de mim.

N�o sei se me arrependo de n�o ter ido com ele.

Como seria a minha vida se ...?

O lago congelou.

Parece um sonho, um conto, uma pintura de Bruegel.

A �ltima vez que aconteceu foi em 1929.

No domingo abri uma caixa que n�o devia ter aberto.

Havia uma pulseira dentro,

igual � que o L�on me ofereceu no anivers�rio.

A Olivia veio c� esta manh� para levar uns documentos.

Trazia a pulseira.

Assim que ela saiu,

Espreitei para a gaveta e vi que estava vazia.

�s vezes procuro por sinais que sugiram se as coisas v�o correr bem ou n�o.

Sinais como n�meros, cores, formas, palavras ou a��es.

Por exemplo, hoje embarcamos no Queen Mary em Southampton, rumo a Nova Iorque.

E eu penso:

Se o primeiro n�mero que vir for �mpar, vai tudo correr bem.

A primeira coisa que vi foi o n�mero 10.

Depois digo a mim pr�pria s� pra ter certeza:

Se eu der nove passos sem ouvir um c�o a ladrar,

isso significar� que tudo vai correr bem

e chegaremos a Nova Iorque s�os e salvos.

E continuo assim at� conseguir enfiar um paralelo

num buraco redondo.

Um dia pensei:

Se quando olhar pela janela vir um p�ssaro a voar,

significa que todos os sinais sobre o neg�cio s�o mentira.

E olhei pela janela e um p�ssaro passou a voar.

Ainda n�o tive oportunidade de dizer ao L�on que sei da Olivia.

Mas sempre que me lembro

sinto que vomito fumo negro quando falo com ele.

E quero ser nova de novo e estar com o Leo.

Lugares no meio do nada.

Lugares sem cora��o.

Lugares que esquecemos enquanto ainda l� estamos.

Lugares que n�o respiram.

Lugares que n�o se movem.

Lugares que n�o cheiram, nem sangram, nem mordem, nem falam.

Lugares que podem passar por ti sem te tocar.

Apesar do sucesso do Lovedyn,

O L�on n�o recuperou totalmente do facto de j� n�o ser piloto.

E acho que nunca recuperar�.

Sempre que entramos no cockpit para dizer ol�,

os pilotos olham para n�s com algum p�nico.

Acho que estamos a come�ar a parecer tolinhos.

Na Ilha Molokai, um homem idoso morreu sem nunca ter visto o mar.

A ilha tem cerca de 600 km2.

Morar numa ilha t�o pequena e nunca ter visto o mar, fascina-me.

Acredito que todos vivamos em Molokai

rodeados de um mar que nunca vimos.

Porque � que � t�o dif�cil para mim dizer-lhe que ele me magoou?

Est� a devorar-me.

Eu sempre preferi desejar do que ser desejada.

E considero ambos igualmente f�teis.

Mas agora preciso que o L�on me deseje.

Parece que est� a tentar redimir-se pela sua falta de desejo

com uma aten��o excessiva.

E isso chateia-me.

Hoje lembrei-me do que � para Kharjappali a doce morte:

quando tudo se move � tua volta

e tu adormeces.

Pessoalmente, �s vezes, acontece-me o oposto:

Sou a �nica que se move,

e tudo � minha volta desaparece.

Em cada ilha h� algo de violento que eu aprecio.

Tive um sonho estranho esta noite.

Sonhei que sei que vou morrer no dia em que o Papa morrer.

Soube da sua morte em Veneza.

No in�cio, n�o quero saber.

Mas de repente ganho consci�ncia,

sinto-me aterrorizada

e embarco numa jornada para enganar a morte.

Subitamente, reparo que a morte se aproxima.

Acabando por encontrar-me.

A av� do Leo disse-lhe uma vez:

N�o conseguimos ver a morte

porque a morte est� sempre em movimento.

O telefone tocou h� uma hora atr�s.

Era o doutor Baumann.

Disse-me que o cancro est� num est�gio avan�ado

e que n�o h� nada a fazer.

Levou uma eternidade a dizer-me

que tenho dois ou tr�s meses de vida.

O L�on quis surpreender-me e trouxe-me a...

Maiorca.

Algo mexeu dentro de mim

e sinto-me incapaz de voltar a coloc�-lo no s�tio.

Tento amparar-me das mem�rias,

mas sinto as m�os a arder e devo largar.

J� n�o entendo nada � minha volta

e isso faz-me sentir desapego, longe de tudo e de todos.

Leviat�.

Assim que resolvo uma incerteza, surgem mais umas centenas.

O que me lembra do epit�fio de Kharjappali:

Obrigado por tudo, Senhor.

Mas n�o percebi nada.

Vivian Barrett morreu na Su�ca em 1969.

L�on Barrett morreu no M�xico em 2010.

Lovedyn foi retirado do mercado em 1971

quando se descobriu que era um placebo.

Em 1983, descobriu-se que os textos do Guru Kharjappali

eram pl�gios de excertos de obras de outros autores.

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