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Acabou. Está acabado, quase acabado.
Deve estar quase acabando.
Os grãos se acumulam, um a um, e um dia, de repente...
... lá está um monte, o amontoado, um monte impossível.
Não podem mais me punir.
Vou para a minha cozinha, três metros por três metros, por três metros...
... esperar até que ele apite.
É um bom tamanho. Boas proporções.
Vou me encostar na mesa e olhar a parede, esperando que ele apite.
Minha vez... de jogar.
Trapo velho!
Pode haver miséria mais sublime que a minha?
Sem dúvida. Naquele tempo.
Mas e hoje?
Meu pai? Minha mãe?
Meu... cão?
Ah, é claro que admito que sofram tanto quanto criaturas assim podem sofrer.
Mas isso quer dizer que nosso sofrimento seja comparável?
Sem dúvida. Não, tudo é... absoluto.
Quanto maior o homem, mais pleno ele é. E mais vazio.
Clov!
Não, estou sozinho.
Que sonhos! Aquelas florestas.
Chega, está na hora disso acabar no abrigo, também.
E, mesmo assim, eu hesito. Eu hesito em ter... um fim.
Sim, é isso mesmo. Está na hora disso acabar.
E, mesmo assim, ainda hesito em ter um fim.
Estou cansado. Devia ir pra cama.
Você polui o ar.
Apronte-me. Vou para a cama.
Acabei de levantá-lo.
E daí?
Não posso ficar levantando e deitando você a cada 40 minutos. Tenho o que fazer.
- Por acaso você já viu os meus olhos? - Não.
Nunca teve curiosidade, enquanto eu dormia, de tirar meus óculos e espiar meus olhos?
Levantando as pálpebras? Não.
Qualquer dia, vou mostrá-los a você.
Parece que ficaram completamente brancos. Que horas são?
A mesma de sempre.
- Você já olhou? - Olhei.
- E então? - Zero.
- Teria que chover. - Não vai chover.
- Fora isso, tudo bem? - Não me queixo.
- Você se sente normal? - Já disse que não me queixo!
Eu me sinto um pouco estranho...
- Clov. - Sim?
- Você não está cheio disso? - Sim.
- Do quê? - Disso. Dessa coisa.
Desde sempre. Você não?
Então não há razão para que isso mude.
Pode acabar. A vida inteira as mesmas perguntas, as mesmas respostas.
Apronte-me. Vá buscar os lençóis.
- Clov! - Sim?
- Não vou lhe dar mais nada para comer. - Então vamos morrer.
Darei apenas o suficiente pra não morrer. Você vai ter fome o tempo todo.
Então não vamos morrer.
- Vou buscar os lençóis. - Não.
Vou lhe dar um biscoito por dia. Um e meio.
- Por que você continua comigo? - Por que você não me manda embora?
- Não há mais ninguém. - Não há outro lugar.
- Mesmo assim, você vai me deixar. - Estou tentando.
- Você não gosta de mim. - Não.
- Você gostou uma vez. - Uma vez.
- Fiz você sofrer muito, não é? - Não é isso.
- Não fiz você sofrer muito? - Sim!
Ah, que susto você me deu. Perdoe-me.
- Eu disse perdoe-me. - Eu ouvi.
- Você sangrou? - Menos.
- Não está na hora do meu analgésico? - Não.
- Como estão seus olhos? - Mal.
- Como vão suas pernas? - Mal.
- Mas você pode se mover. - Posso.
Então mexa-se!
- Onde está você? - Aqui.
Volte.
- Onde está você? - Aqui.
Por que você não me mata?
Não sei a combinação da despensa.
- Vá buscar duas rodas de bicicleta. - Não há mais rodas de bicicleta.
- O que você fez com a sua bicicleta? - Eu nunca tive uma bicicleta.
- Isso é impossível. - Quando ainda havia bicicletas...
...eu chorei pra ganhar uma. Implorei a seus pés. E você me mandou ir pro inferno.
Agora não há mais nenhuma.
E seus passeios? Quando você visitava meus indigentes. Ia sempre a pé?
Às vezes, ia à cavalo.
Vou deixá-lo. Tenho o que fazer.
- Na sua cozinha? - É.
Fora daqui é a morte. Tudo bem, vá.
Estamos progredindo.
- Minha papa. - Maldito progenitor.
- Minha papa. - Os velhos da casa. Não há mais decência.
Embriagar-se, embriagar-se, é tudo no que pensam.
Olhá só. Pensei que estava me deixando.
Ah, ainda não. Ainda não.
- Minha papa. - Dê a papa dele.
Não há mais papa.
Ouviu isso? Não há mais papa. Nunca mais vai ganhar papa.
- Quero minha papa! - Dê-lhe um biscoito.
Maldito fornicador.
- Como estão os seus cotos? - Esqueça os meus cotos.
Voltei, com o biscoito.
- O que é isso? - Bolacha de água e sal.
É duro! Eu não consigo.
Tampe-o!
- Sente nele. - Eu não posso sentar.
É verdade. E eu não posso ficar de pé.
- Isso mesmo. - À cada homem, a sua especialidade.
Alguém telefonou?
- A gente não ri? - Não tenho vontade.
Nem eu...
- Clov. - Sim?
- A natureza nos esqueceu. - Não existe mais natureza.
- Não existe mais? Que exagero. - Nas redondezas.
Mas nós respiramos, mudamos. Perdemos cabelos, dentes! A juventude! Os ideais!
- Então, ela não nos esqueceu. - Mas você disse que ela não existe mais.
Nunca ninguém pensou de modo tão tortuoso como nós.
- A gente faz o que pode. - Não deveríamos.
- Você se acha o tal, hein? - Um pouco.
Isso não leva a nada.
- Não está na hora do meu analgésico? - Não.
Vou deixá-lo. Tenho o que fazer.
- Na sua cozinha? - É.
O quê? Eu gostaria de saber.
- Fico olhando a parede. - A parede.
E o que você vê na sua parede? Mené, mené? Corpos nus?
- Vejo minha luz morrendo. - Sua luz morrendo. Escutem só isso.
Bem, ela pode morrer tanto aqui, como lá, a sua luz.
Olhe pra mim, então volte e diga o que acha da sua luz.
- Você não deveria falar assim comigo. - Perdoe-me.
- Eu disse perdoe-me. - Eu ouvi.
- Suas sementes cresceram? - Não.
- Cavou um pouco, pra ver se brotaram? - Não brotaram.
- Talvez ainda seja cedo demais. - Se tivessem que brotar, já o teriam feito!
- Não vão brotar nunca. - Isso não tem muita graça.
- Mas é sempre assim no fim do dia, não é? - Sempre.
- O fim do dia, como qualquer outro, não é? - Parece que sim.
O que está acontecendo?
- O que está acontecendo? - Algo segue seu curso.
Tudo bem, vá embora.
- Pensei ter dito pra você ir embora. - Estou tentando.
Desde que eu nasci.
Estamos progredindo.
O que foi, meu querido? Hora do amor?
- Você estava dormindo? - Oh, não.
- Beije-me. - Não podemos.
Tente.
Por que esta farsa? Dia após dia?
- Meu dente caiu. - Quando?
- Eu o tinha ainda ontem. - Ah, ontem.
- Você pode me ver? - Mal.
- E você? - O quê?
- Pode me ver? - Mal.
- Melhor assim, melhor assim. - Ah, não diga isso.
- Nossa visão piorou. - Sim.
- Você pode me ouvir? - Sim.
- E você? - Sim.
- Nossa audição não piorou. - Nossa o quê?
- Nossa audição. - Não.
Você tem algo mais para me dizer?
- Você se lembra... - Não.
Quando nos acidentamos com a bicicleta de dois lugares e perdemos nossas pernas?
- Foi nas Ardenas. - Na estrada para Sedan.
- Você está com frio? - Sim, morrendo de frio.
- E você? - Estou congelando.
- Você quer entrar? - Sim.
Então entre.
- Por que você não entra? - Não sei.
- Ele mudou sua serragem? - Não é serragem!
Você não consegue ser um pouco preciso, Nagg?
- Sua areia, então. Não é importante. - É importante!
- Antes era serragem. - Era.
Agora é areia. Da praia.
- Agora é areia que ele traz da praia. - Agora é areia.
- Ele trocou a sua? - Não.
Nem a minha. Eu não permitirei isso!
- Quer um pedaço? - Oh, não.
- De quê? - Biscoito. Guardei metade pra você.
Três quartos! Pra você. Tome.
Não? Não está se sentindo bem?
Quietos, quietos! Vocês não me deixam dormir. Falem mais baixo.
Se eu pudesse dormir, talvez fizesse amor.
Iria para a floresta. Meus olhos veriam o céu, a terra.
Eu correria. Correria tanto que não me pegariam.
Natureza.
Há algo gotejando na minha cabeça.
Um coração. Um coração na minha cabeça.
Você ouviu? Um coração na cabeça dele!
Não devemos rir dessas coisas, Nagg.
- Por que você sempre ri delas? - Shhh, não tão alto.
Nada é mais engraçado que a infelicidade, eu admito. Mas...
- Oh! - Sim. É a coisa mais cômica do mundo.
E nós rimos. E rimos com gosto, no começo.
Mas é sempre a mesma coisa. É como uma história engraçada que ouvimos demais.
Ainda achamos graça, mas não rimos mais.
- Você tem algo a mais pra me dizer? - Não.
Você tem certeza?
- Então, vou deixá-lo. - Você não quer seu biscoito?
Vou guardá-lo pra você.
- Pensei que fosse me deixar. - Eu vou deixá-lo.
- Será que daria pra me coçar antes? - Não.
- Onde? - Nas costas.
- Não. Se esfregue contra a borda. - É mais embaixo que isso.
- No buraco. - Que buraco?
O buraco! Você não poderia? Ontem, você me coçou lá.
- Ah, ontem. - Você não poderia?
Você gostaria que eu te coçasse?
- Está chorando de novo? - Eu estava tentando.
Talvez seja uma pequena veia.
- O que foi que ele disse? - Que talvez seja uma pequena veia.
O que isso quer dizer? Não quer dizer nada.
- Quer que eu conte a história do alfaiate? - Não.
- Para quê? - Para alegrá-la.
- Não é engraçada. - Sempre fez você rir.
Da primeira vez, pensei que fosse morrer.
Foi no lago Como. Uma tarde de abril.
- Dá pra acreditar? - O quê?
Que uma vez, remamos no lago Como.
- Uma tarde de abril. - Tínhamos ficado noivos no dia anterior.
- Noivos! - Você ria tanto, que até emborcamos.
- Mais um pouco e teríamos nos afogado. - Era porque eu me sentia feliz.
Não foi por isso, não foi!
Foi a minha história e nada mais! Feliz...
Ainda não dá risada dela? Toda vez que eu conto! Feliz...
Era fundo. Tão fundo...
E você podia ver o fundo. Tão clara. Tão limpa.
Deixa eu contar de novo.
Um homem inglês, precisando de calças de risca, para as festas de fim de ano...
...vai ao seu alfaiate, que lhe tira as medidas.
"Isto basta. Volte em quatro dias e estará pronta."
Ótimo. Quatro dias depois.
"Sinto muito. Volte em uma semana. Cortei errado os fundilhos."
"Tudo bem. Fundilhos bem cortados são difíceis de acertar."
Uma semana depois.
"Sinto muitíssimo, senhor. Volte em 10 dias. Enganei-me no cós."
"Tudo bem, o que se há de fazer, o cós é essencial."
Dez dias depois. "Desculpe-me. Volte em 15 dias. Fiz uma bagunça na braguilha."
"Correto. Uma braguilha em ordem é estratégica."
Ah, jamais contei tão mal.
Eu conto essa história cada vez pior.
Bom, pra resumir, as quaresmeiras já floriam e ele abotoava a camisa.
"Maldição, senhor, não é possível! É indecente! Existem limites."
"Em seis dias, ouviu bem, em seis dias Deus criou o Mundo!"
"Sim senhor, não menos senhor, o Mundo!"
"E você não é capaz de me fazer uma calça em três meses!"
"Mas meu caro senhor, mas senhor... olhe... para o mundo."
"E olhe para as minhas calças."
- Silêncio! - Você podia ver até o fundo.
Vocês já acabaram? Não vão acabar nunca? Isso nunca vai acabar?
Meu reino por um lixeiro.
Leve daqui essa sujeira. Jogue-os no mar.
Tão limpa.
- O quê? Do quê ela está falando? - Deserto.
- Ela não tem pulso. - Que bobagem ela estava dizendo?
- Ela me mandou ir embora, para o deserto. - Mas que intrometida.
- Isso é tudo? - Não.
- O que mais? - Não deu pra entender.
- Você a tampou? - Sim.
- Ambos estão tampados? - Sim.
Parafuse as tampas. Temos bastante tempo.
Minha raiva está passando. Quero fazer xixi.
- Vou pegar o cateter. - Sem pressa, temos tempo.
- Dê-me meu analgésico. - É cedo demais.
Logo depois do estimulante. Não faria efeito.
De manhã, lhe dão força. À noite, o acalmam. A não ser que seja o contrário.
Aquele velho médico já morreu, naturalmente, não?
Ele não era velho.
- Mas está morto? - Naturalmente.
- E você me pergunta isso? - Leve-me para uma voltinha.
Não muito rápido. Daremos a volta ao mundo.
Primeiro rente às paredes, depois de volta ao centro.
- Eu estava bem no centro, não é? - Sim.
Precisamos de uma cadeira de rodas de verdade. Com rodas grandes. De bicicleta.
- Estamos próximos da parede? - Sim.
- Mentira! Por que mente para mim? - Pronto, pronto.
Pare! Velha parede. Além é... o outro inferno.
- Mais perto, mais perto! Na frente. - Tire sua mão daí. Pronto.
Está ouvindo?
Está ouvindo? Tijolos ocos. Tudo isso é oco.
- Já chega. Volte! - Ainda não demos a volta.
De volta para o meu lugar.
- Este é o meu lugar? - Sim, é o seu lugar.
- Estou bem no meio? - Eu vou medir.
- Mais ou menos. Mais ou menos. - Pronto.
- Estou mais ou menos no centro. - Eu diria que sim.
Você diria que sim. Coloque-me exatamente no centro!
- Vou buscar a trena. - A olho nu! A olho nu!
Pronto.
Sinto-me um pouco à esquerda demais.
Agora sinto-me um pouco à direita demais.
Sinto-me um pouco pra frente demais.
Agora sinto-me um pouco pra trás demais.
- Não fiquei aí parado. Me dá arrepios. - Se pudesse matá-lo, morreria feliz.
- Como está o tempo? - Como sempre.
- Olhe a terra. - Já olhei.
- Com a luneta? - Não preciso da luneta.
- Olhe com a luneta. - Vou buscar a luneta.
Não é preciso a luneta.
Voltei com a luneta.
- Preciso de uma escada. - Por que? Você encolheu?
Eu não gosto disso. Não gosto disso.
Voltei com a escada.
- Preciso da luneta. - Você já está com ela!
- Não, não estou com a luneta! - Que idiotice.
As coisas estão tomando vida.
Eu fiz de propósito.
Vejo uma multidão, delirando de alegria.
Isso é o que eu chamo de lente de aumento.
- E então? Nós não rimos? - Eu não.
Nem eu.
Vejamos. Zero... zero... e... zero.
- Nada se mexe. Tudo está... - Zer...
Espere até que falem com você! Tudo está... tudo está... está o quê?
- Tudo está o quê? - Como está o quê?
Em uma palavra? É isso que quer saber?
Um momento.
Cadavérico.
- E então? Contente? - Olhe o mar.
- Dá na mesma. - Olhe o oceano.
- Nunca vi nada igual. - O quê? Um veleiro? Barbatana? Fumaça?
- O farol afundou. - Ah, já sabíamos disso.
- Tinha sobrado um pouco. - A base.
- É. - E agora?
- Mais nada. - Sem gaivotas?
- Gaivotas. - E o horizonte? Nada no horizonte?
O que, em nome de Deus, poderia haver no horizonte?
- As ondas? Como estão as ondas? - As ondas? De chumbo.
- E o sol? - Zero.
- Mas devia estar se pondo. Procure de novo. - Dane-se o sol!
- Já é noite, então? - Não.
- Então o que é? - Cinza.
Cinza!
CINZA!
Cinza.
- Cinza? Eu o ouvi dizer cinza? - Preto claro. De um pólo a outro.
Está exagerando.
Não fiquei aí parado. Me dá arrepios.
- Por que esta farsa? Dia pós dia? - Rotina. Nunca se sabe.
Noite passada, eu vi dentro do meu peito. Tinha uma ferida imensa.
- Ah, você viu o seu coração. - Não, estava vivo.
- Clov. - Sim?
- O que está acontecendo? - Algo segue seu curso.
- Clov. - O que é?
Não estamos começando a... a... significar algo?
Significar algo. Eu e você... significar algo.
Ah, essa é boa.
Eu me pergunto. Imagine se um ser racional voltar à Terra...
...ele não estaria propenso a tirar conclusões, só de nos observar?
Ah, agora entendo o que é. Agora entendo o que eles estão fazendo.
Mesmo sem ir tão longe, nós mesmos... nós mesmos, às vezes...
Pensar que talvez não terá sido tudo isso em vão.
- Estou com uma pulga! - Pulga? Ainda há pulgas?
Em mim há uma! A não ser que seja um piolho.
Mas a humanidade pode se reconstituir a partir dela. Pegue-a, pelo amor de Deus.
Vou pegar o pó!
Uma pulga! Isso é horrível. Que dia.
- Voltei com o inseticida. - Que tenha o que merece!
- Bastardo. - Você o pegou?
Parece que sim. A menos que esteja trepado escondido.
Trepado. Deitado, você quer dizer. A menos que esteja escondido, deitado.
Deitado? Por que não trepado?
Use a cabeça! Se tivesse trepado, estaríamos fodidos!
E aquele xixi?
Já estou fazendo.
- Este é o espírito. Este é o espírito. - Vamos embora daqui. Nós dois.
Para o sul! Você pode fazer uma jangada e a corrente irá nos levar para longe...
... para longe, até outros... mamíferos. - Deus me livre.
Sozinho. Vou embarcar sozinho. Vá trabalhar na jangada imediatamente.
- Amanhã terei partido para sempre. - Vou começar agora mesmo.
- Espere! Acha que terá tubarões? - Tubarões? Não sei. Se tiver, terão.
- Espere. Não é hora do meu analgésico? - Não.
- Espere. Como estão seus olhos? - Mal.
- Mas você pode ver. - Tudo o que eu quiser.
- Como estão suas pernas? - Mal.
- Mas você pode andar. - Eu venho... e vou.
Na minha casa. Um dia, você ficará cego como eu.
Estará sentado aqui, uma mancha no vácuo, no escuro, para sempre, como eu.
Um dia, dirá a si mesmo, estou cansado, vou me sentar, e irá se sentar.
Então você dirá, tenho fome, vou me levantar e pegar o que comer.
Mas você não levantará. E não pegará o que comer.
Ficará olhando para a parede, então dirá, vou fechar os olhos, talvez dormir um pouco.
Depois disso, vou me sentir melhor, então você irá fechá-los.
E quando reabrir os olhos, não terá mais parede.
O vazio do infinito estará ao seu redor...
...nem todos os mortos ressucitados de todas as eras o preencheriam...
...e então lá estará você, como um pedregulho perdido na estepe.
Um dia, você saberá como é, será como eu, só que não terá ninguém...
...porque não terá tido pena de ninguém, e não haverá ninguém de quem ter pena.
Não pode ter certeza.
- E você se esquece de uma coisa. - Ah?
- Eu não posso me sentar. - Bem, estará deitado então, que diabos.
Ou então ficará em pé, parado e estático, como está agora.
Um dia dirá, estou cansado, vou parar. Que importância tem a postura?
- Então vocês querem que eu os deixe. - Naturalmente.
- Então vou deixá-los. - Não pode nos deixar.
- Então não vou deixá-los. - Por que não acaba conosco?
Eu lhe dou a combinação da despensa, se prometer acabar comigo.
- Eu não poderia acabar com você. - Então, não vai acabar comigo.
- Vou deixá-lo, tenho o que fazer. - Lembra-se quando chegou aqui?
- Não. Era pequeno demais, você me disse. - Lembra-se do seu pai?
Mesma resposta. Você me fez estas perguntas um milhão de vezes!
Adoro as velhas perguntas.
Ah, velhas perguntas, velhas respostas. Não há nada como elas.
- Fui eu quem foi um pai pra você. - Sim. Você foi isso para mim.
- Minha casa, um lar para você. - Sim, ela foi isso para mim.
Mas para mim, nenhum pai. Mas para Hamm, nenhuma casa.
Eu vou deixá-lo.
- Você já pensou numa coisa? - Nunca.
Que aqui, estamos enfiados num buraco.
Mas e atrás das montanhas? Talvez ainda esteja verde, hein?
Flora, pomona, ceres... Talvez não precise ir muito longe.
Eu não posso ir muito longe. Vou deixá-lo.
- O meu cão... está pronto? - Falta uma perna.
- Ele é macio? - Ele é um tipo de... pomerânio.
- Vá pegá-lo. - Falta uma perna!
Vá pegá-lo.
Estamos progredindo.
Seu cão está aqui.
- Ele é branco, não é? - Quase.
- Como assim, quase? É branco ou não é? - Não.
- Você esqueceu do sexo. - Mas não está acabado. O sexo vem no fim.
- Você esqueceu de pôr a fita. - Mas ele não está acabado, já disse.
Primeiro, você termina o cão. Depois coloca a fita.
- Ele pode ficar de pé? - Eu não sei.
Tente. E então?
- Espere. - E então?
- Ele está de pé. - Onde? Onde ele está?
- Ali. - Está olhando pra mim?
- Está. - Como se pedisse pra dar um passeio?
- Se você quiser. - Ou como se implorasse por um osso?
Deixe-o aí, como está, de pé implorando para mim.
- Vou deixá-lo. - Tem tido aquelas suas visões?
- Menos. - Tem luz na casa da Mãe Pegg?
Luz? Como a luz de alguém poderia estar acesa?
- Apagada. - Óbvio. Se não está acesa, está apagada.
- Não. Quis dizer a Mãe Pegg. - Mas é claro que ela "apagou".
- Qual o problema com você hoje? - Estou seguindo o meu curso.
- Ela está enterrada? - Enterrada. Quem iria enterrá-la?
- Você. - Eu?
Já não tenho o bastante pra fazer, sem enterrar pessoas?
- Mas você me enterrará. - Não, não vou enterrá-lo.
Ela era bonita, naquele tempo. Como uma flor no campo.
E ótima para os homens!
Nós também éramos bonitos, naquele tempo. É raro não ter sido bonito outrora.
Vá buscar o gancho.
Faça isso, faça aquilo e eu faço.
- Nunca me nego. Por quê? - Você não consegue.
- Logo, não vou mais fazer. - Não conseguirá mais.
Ah, as criaturas, as criaturas... tudo tem que ser explicado para elas.
Aqui está o gancho. Pegue.
- Eu me movi? - Não.
- Vá buscar a lata de óleo. - Para quê?
- Para lubrificar as rodinhas. - Eu lubrifiquei ontem.
Ontem. Que quer dizer isso? Ontem!
Quer dizer aquela merda de dia, há tempos, antes desta merda de dia.
Uso as palavras que me ensinou. Se não querem dizer mais nada, ensine-me outras.
Ou deixe que eu me cale.
Uma vez, conheci um louco que pensava que o fim do mundo tinha chegado.
Era pintor e fazia gravuras. Gostava muito dele.
Eu costumava ir vê-lo no asilo. Tomava-o pela mão e o arrastava até a janela.
Olhe, ali. O trigo começa a brotar. E lá! As velas dos pesqueiros.
Toda essa graça!
Ele soltava a mão dele e voltava para o seu canto, apavorado.
E tudo o que ele tinha visto eram cinzas.
Apenas ele tinha sido poupado... Esquecido.
Parece que o caso não é... não era tão... tão... incomum.
- Um louco? Quando foi isso? - Há muito tempo. Muito tempo.
- Você ainda não estava no mundo dos vivos. - Bons tempos!
Eu gostava muito dele. Ele era pintor e fazia gravuras.
- Há tantas coisas terríveis. - Não, não. Não há mais tantas assim.
- Clov. - Sim?
- Não acha que isso já durou o bastante? - Sim.
- O quê? - Isso... essa coisa!
Eu sempre achei isso. Você não?
- Então é um dia como qualquer outro. - Enquanto durar.
A vida inteira as mesmas tolices.
- Eu não posso deixar você - Eu sei. E não pode me seguir.
- Se me deixar, como saberei? - É só apitar. Se não vier, eu o deixei.
- Não me dará um beijo de despedida? - Oh, acho que não.
Mas você poderia simplesmente estar morto na cozinha.
- Daria no mesmo. - Sim, mas como eu saberia ...
... se você estivesse simplesmente morto na cozinha?
Bem, mais cedo ou mais tarde, vou começar a feder.
Você já fede. A casa inteira fede a cadáveres.
- O universo todo. - Que se dane o universo!
- Pense em algo! - No quê?
Uma ideia. Tenha uma ideia! Uma ideia brilhante!
A dor nas minhas pernas. É inacreditável Logo não poderei mais pensar.
Você não vai poder me deixar.
- O que você está fazendo? - Tendo uma ideia.
- Que cérebro! E então? - Espere...
Sim. É isso! Eu ajusto o despertador.
Este talvez, não seja um dos meus dias mais brilhantes, mas, francamente...
Você apita, eu não venho. O alarme toca, fui embora. Se ele não toca, estou morto.
Está funcionando? O despertador está funcionando?
- Por que não estaria? - Por ter funcionado demais.
- Mas ele quase não foi usado. - Então por ter sido pouco usado.
Eu irei lá ver!
Feito para acordar os mortos!
- Você ouviu? - Vagamente.
- O fim é incrível. - Prefiro o meio.
- Não está na hora do meu analgésico? - Não.
- Vou deixá-lo. - Está na hora da minha história.
- Você quer ouvir a minha história? - Não.
Pergunte ao meu pai se ele quer ouvir a minha história.
- Está dormindo. - Acorde-o.
- Ele não quer ouvir sua história. - Eu lhe darei um bombom.
- Ele quer um caramelizado. - Ele terá um caramelizado.
Negócio fechado.
- Você acredita numa vida após a morte? - A minha sempre foi assim.
- Peguei-o de jeito agora. - Eu estou ouvindo.
- Seu patife! Por que você me procriou? - Eu não sabia.
- O quê? O que você não sabia? - Que seria você.
Você me dará um doce caramelizado?
- Depois da história. - Você jura?
- Sim. - Pelo quê?
Minha honra!
- Dois. - Um.
- Um para mim, e um para... - Um! Silêncio.
Onde eu estava? Está acabado.
Estamos acabados. Quase acabados. Não haverá mais fala.
Algo está pingando na minha cabeça, desde o tempo da moleira.
Pinga, pinga, sempre no mesmo ponto.
Talvez seja uma pequena veia, uma pequena artéria.
Chega disso, é hora da história. Onde é que eu estava?
O homem vinha lentamente em minha direção, rastejando sobre sua barriga.
Pálido, lindamente pálido e magro, parecia a ponto de...
Não, eu já passei este pedaço...
Calmamente, enchi meu cachimbo, o de espuma-do-mar...
...acendi-o com, digamos, fósforos finos. Dei algumas tragadas. Ahhh.
Bem, o que você quer?
Era um dia extraordinariamente frio, me lembro, o termômetro marcava zero.
Mas, considerando ser natal, não havia nada de extraordinário nisso.
De acordo com a estação, afinal de contas.
Então, que maus ventos o trazem a mim?
Ele ergueu o rosto para mim, negro, coberto de sujeira e lágrimas.
Assim está bom.
Não, não olhe para mim, não olhe para mim.
Abaixou os olhos e murmurou qualquer coisa. Desculpas, eu presumo.
Sou um homem ocupado, os toques finais antes das festividades, você sabe como é.
Vamos lá, qual o propósito desta invasão?
Era um glorioso dia claro. Os heliômetros marcavam cinquenta.
Mas o sol já mergulhava em direção a... mergulhava junto aos mortos.
Lindamente colocado, isso.
Vamos lá, apresente sua petição e deixe-me reassumir minha labuta.
Isso é que é o Português. Enfim...
Enfim, ele tomou coragem. É o meu pequeno, ele disse.
Tsc, tsc... um pequeno, que transtorno.
É o meu pequeno filho, ele disse, como se o sexo importasse.
De onde ele veio? Ele disse o nome do buraco.
Quase metade do dia a cavalo. O que está insinuando?
Que o lugar ainda é habitado?
Não, não. Mais ninguém por lá, além dele e do filho, supondo que ele exista.
Informei-me sobre a situação em Kov, do outro lado do estreito.
Nem um pecador. Ótimo. E quer que eu acredite que deixou seu filho lá, sozinho...
...e, ainda por cima, vivo? Até parece.
Ventava muito aquele dia, eu me lembro, o anemômetro marcava cem.
O vento arrancava os pinhos mortos e os varria... para longe.
Um pouco fraco, isso.
Vamos lá, homem, fale o que quer de mim. Ainda tenho que enfeitar o pinheiro.
Em resumo, compreendi que ele queria... pão para o filho. Pão?
Mas eu não tenho pão. Não me faz bem.
Tudo bem. Então, talvez, um pouco de aveia?
Assim está bom. Eu tenho aveia nos meus silos. Mas use a cabeça...
Eu lhe dou aveia, um quilo, um e meio. Você leva para o seu filho...
...e o faz, se é que ele está vivo, uma tigela de mingau, uma e meia, bem nutritiva.
O menino fica corado novamente, talvez. E então? Perdi a paciência.
Não consegue usar sua cabeça? Você está na Terra. Não há cura para isso!
Aquele era um dia muito seco, eu me lembro. O higrômetro marcava zero.
Clima excelente para o meu reumatismo.
Mas o quê, em nome de Deus, você imagina? Que a terra renasça com a primavera?
Que os peixes voltem aos mares e rios?
Que ainda tenha maná no céu para imbecis como você?
Aos poucos, fui me acalmando...
...ao menos, para lhe perguntar quanto tempo levara para chegar aqui.
Três dias inteiros. Bom. Em que condições havia deixado a criança?
Dormindo em sono profundo.
Mas dormindo em qual sono? Já dormia em qual sono?
Em resumo, propus que trabalhasse para mim. Ele havia me comovido.
E depois, imaginava que eu não teria muito mais tempo neste mundo.
Então? Aqui, se você se cuidar, pode morrer uma morte natural, em paz e conforto.
No fim, perguntou se eu consentiria em também recolher a criança ...
... caso ainda estivesse viva.
Era o momento que eu esperava. Eu consentiria em recolher a criança?
Ainda posso vê-lo, de joelhos, com as mãos apoiadas no chão ...
... encarando-me com olhos dementes, em desafio aos meus desejos.
Eu terminarei a história em breve.
A não ser que eu traga outros personagens.
Mas onde eu os encontraria?
Onde eu procuraria por eles?
Rezemos a Deus.
- Meu doce caramelizado! - Tem um rato na cozinha.
- Rato? Ainda há ratos? - Na cozinha tem um.
- E você não o exterminou? - Pela metade. Você nos interrompeu.
- Ele tem como fugir? - Não.
Acabe com ele depois. Rezemos a Deus.
- De novo? - Meu doce!
- Primeiro Deus! Você está pronto? - Lá vamos nós.
- E você? - Pai nosso que estais...
Silêncio! Em silêncio. Onde estão os seus modos?
Lá vamos nós.
- Então? - Porcaria nenhuma.
- E você? - A mesma droga.
- E você? - Espere!
- Nada feito. - Aquele bastardo.
- Ele não existe. - Ainda não.
- Meu doce caramelizado. - Não há mais doces caramelizados!
É natural. Afinal, sou seu pai. É verdade que se não fosse eu, teria sido outro.
Mas isso não é desculpa.
Bala de goma, por exemplo, não existe mais, todos nós sabemos ...
... mas não há nada no mundo que eu goste mais.
E algum dia, vou pedir um pouco a você.
Em troca de algum favor. E você irá me prometer a bala.
Temos que viver de acordo com a época.
Quem você chamava, quando era um garotinho, e estava apavorado, no escuro?
Sua mãe? Não. Eu.
E deixávamos você chorar.
Então, o levávamos para longe, para que pudéssemos dormir em paz.
Eu dormia, feliz como um rei ...
... e você me acordava, para que eu o ouvisse.
Não era indispensável. Não precisava que eu o escutasse.
Além disso, eu não o escutei mesmo.
Espero que chegue o dia em que realmente precise que eu o escute.
Que precise ouvir minha voz, qualquer voz.
Sim, espero viver até lá, para ouvi-lo me chamar ...
... como quando era um garotinho, apavorado, no escuro ...
... e eu era a sua única salvação.
Nell!
Nell!
A nossa festança acabou.
- O cachorro fugiu. - Ele não é de verdade. Não pode fugir.
- Ele não está aqui. - Está deitado.
Dê-o para mim.
Animal imundo!
- O que está fazendo? - Pondo as coisas em ordem.
- Vou jogar tudo fora. - Em ordem.
Eu amo a ordem. É o meu sonho.
Um mundo onde tudo fosse silencioso e imóvel ...
... e cada coisa em seu último lugar, sob a poeira final.
O que, em nome de Deus, acha que está fazendo?
Dando o meu melhor, pra criar um pouco de ordem.
Largue isso.
Afinal, será aqui ou em qualquer outro lugar.
- O que há de errado com meus pés? - Meus pés?
Passos pesados.
- Devo ter colocado minhas botas. - Os chinelos estavam machucando?
- Vou deixá-lo. - Não.
- O que é que me mantém aqui? - A conversa.
Eu progredi com a minha história. Progredi bastante. Pergunte-me até onde.
Ah, falando nisso, e a sua história?
- Que história? - Aquela que você conta desde sempre.
- Ah, você quer dizer minha crônica. - Essa mesmo.
- Continue, sim? Continue. - Deve ter progredido bastante, imagino.
Oh, nem tanto, nem tanto. Há dias em que a inspiração não vem.
Não se pode fazer nada, apenas esperar que ela chegue.
Sem forçar, sem forçar, é fatal. Mas progredi um pouco, mesmo assim.
Questão de técnica, sabe? Eu disse que avancei um pouco, mesmo assim.
Não acredito. Apesar de tudo, conseguiu progredir.
Oh, não muito, não muito. Mas, em todo caso, melhor do que nada.
- Melhor do que nada. Isso é possível? - Vou contar como acontece.
- Ele vinha rastejando sobre sua barriga. - Quem?
- O quê? - Quem é ele?
- Quem é ele? Qualquer um. - Ah, ele. Eu não tinha certeza.
Rastejando pelo chão, implorando por pão para o seu pirralho.
Recebe uma oferta de trabalho como jardineiro. Antes...
- Qual é a graça nisso? - Um trabalho de jardineiro.
- É isso que acha engraçado? - Deve ser.
- Não seria o pão? - Ou o pirralho.
A coisa toda é muito engraçada, admito. Que tal darmos uma boa gargalhada, juntos?
Eu não conseguiria gargalhar hoje, novamente.
Nem eu.
Vou continuar, então. Antes de aceitar, com gratidão ...
... ele pergunta se pode trazer o filho consigo.
- De que idade? - Oh, pequeno.
- Ele subiria nas árvores. - Faria todo tipo de biscates.
- E depois cresceria. - Provavelmente.
- Continue, sim? Continue. - Isso é tudo. Parei aqui.
- Você não sabe como continua? - Mais ou menos.
- Já está perto do fim? - Temo que sim.
- Ah, você inventará outra. - Não sei. Sinto-me um pouco vazio.
O esforço criativo prolongado. Se eu pudesse arrastar-me para o mar ...
... faria um travesseiro de areia para a minha cabeça e a maré viria.
Não há mais maré.
Vá ver se ela está morta.
- Parece que sim. - E Nagg?
- Parece que não. - O que ele está fazendo?
- Ele está chorando. - Então está vivo.
Você, alguma vez, teve um instante de felicidade?
Não que eu saiba.
Leve-me para baixo da janela. Quero sentir a luz no meu rosto.
Lembra-se, no começo, quando você me levava para dar uma volta?
Segurava a cadeira bem no alto. A cada passo, quase me derrubava.
Ah, quanta diversão tivemos, nós dois, quanta diversão. Depois virou hábito.
Pronto?
- Ainda há luz? - Não está escuro.
- Estou perguntando se há luz! - Sim.
- A cortina não está fechada? - Não.
- Que janela é esta? - A terra.
Eu tinha certeza. Mas não há luz nesta janela. A outra.
A terra...!
Isso é o que eu chamo de luz. Parece um raio de sol.
- Não? - Não.
Não é um raio de sol que sinto no meu rosto?
Não.
Eu estou branco demais?
- Estou perguntando se estou branco demais. - Não mais que o normal.
- Abra a janela. - Para quê?
- Eu quero ouvir o mar. - Você não ouviria.
- Mesmo se você abrisse a janela? - Não.
- Então não vale a pena abrir? - Não.
Então abra-a!
- Abriu? - Sim.
- Você jura que abriu? - Sim.
Bem... deve estar muito calmo.
- Estou perguntando. Está muito calmo? - Sim!
É porque não há mais navegadores. Você parou de conversar de repente.
- Não está se sentindo bem? - Estou com frio.
Em que mês nós estamos?
Feche a janela. Vamos voltar.
Não fiquei aí parado. Você me dá arrepios.
Pai?
Pai?
Vá ver se ele me ouviu.
- Sim. - Ambas as vezes?
- Apenas uma. - A primeira vez ou a segunda?
- Ele não sabe. - Deve ter sido a segunda.
- Nunca saberemos. - Ele ainda está chorando?
- Não. - Os mortos se vão rápido.
- O que ele está fazendo? - Chupando o biscoito.
A vida continua.
- Dê-me um cobertor. Estou congelando. - Não há mais cobertores.
Beije-me.
- Você não vai me beijar? - Não.
- Na testa. - Não vou beijá-lo em lugar algum.
Dê-me sua mão, pelo menos.
- Não vai me dar sua mão? - Eu não vou tocá-lo.
Dê-me o cachorro.
- Não. - Não quer seu cachorro?
- Não. - Então vou deixá-lo.
Isso mesmo.
Se eu não matar aquele rato, ele irá morrer.
Isso mesmo.
Minha vez... de jogar.
Estamos progredindo.
Você chora, e chora por nada, para não rir,
e pouco a pouco... começa a se angustiar.
Todos aqueles a quem eu poderia ter ajudado.
Ajudado... Salvado... Salvado...!
O lugar estava lotado deles. Usem a cabeça, não podem usar a cabeça?
Vocês estão na Terra! Não há cura para isso.
Saiam daqui e amem um ao outro. Lambam o vizinho, como a si mesmo.
Quando não era pão, queriam brioches.
Sumam da minha vista, voltem às suas orgias!
Tudo isso! Tudo isso! Nem mesmo um cão de verdade...
O fim está no começo e, ainda assim, você continua.
Talvez eu pudesse terminar minha história, terminá-la e começar outra.
Talvez eu pudesse me atirar no chão.
Cravar as unhas nas fendas e arrastar-me para frente, com meus dedos.
Será o fim e ali estarei eu, imaginando o que teria levado a isso, imaginando ...
... porque motivo demorou tanto.
Lá estarei eu, no velho refúgio, sozinho contra o silêncio e ...
... a inércia. Se eu puder manter a minha paz e sentar em silêncio ...
... movimento e som estarão acabados, tudo estará terminado.
Eu terei chamado meu pai e terei chamado meu ...
...meu filho. Até duas ou três vezes, caso não tenham ouvido da primeira ou segunda.
Direi a mim mesmo: ele voltará. E então?
E então? Ele não pôde. Afastou-se demais.
E então? Todos os tipos de alucinações.
Estão me vigiando. Um rato. Passos.
Respiração contida e então...
Então um balbuciar, como uma criança solitária que se transforma em crianças...
...duas, três, para ter companhia e cochicharem juntas, no escuro.
Momento sobre momento, tamborilando, como os grãos de milho miúdo ...
...daquele grego velho, e a vida inteira você espera que disso resulte uma vida.
Ah, vamos acabar com isso.
O quê? Nem longe, nem morto?
- Em espírito apenas. - Qual?
- Ambos. - Longe de mim, você estaria morto.
- E vice-versa. - Fora daqui é a morte.
- E o rato? - Escapou.
- Não conseguirá ir longe, hein? - Ele não precisa ir longe.
Não é hora do meu analgésico?
Sim.
Ah, finalmente. Dê para mim, rápido.
Não há mais analgésicos.
Bom... Não há mais analgésico.
Não há mais analgésico. Você nunca mais vai ganhar analgésico algum.
Mas e aquela caixinha redonda? Estava cheia.
Sim. Mas agora está vazia.
O que eu vou fazer? O que eu vou fazer?
- O que você está fazendo? - Arrumando.
- Olhe para a terra. - De novo?
- Ela chama por você. - Sua garganta dói?
Gostaria de uma pastilha? Não?
Que pena.
Não cante!
- Não se tem mais o direito de cantar? - Não.
- Então como isso pode acabar? - Você quer que acabe?
- Eu quero cantar. - Não posso impedi-lo.
O que eu fiz com aquela escada?
Você não viu aquela escada? Ah, já era tempo.
Às vezes, me pergunto se estou no meu juízo perfeito.
Depois passa e estou tão lúcido quanto antes.
Cristo, está tudo alagado.
Como pode ser? Nem mesmo choveu.
Ah, que idiota eu sou. Estou do lado errado.
Alagado. Que idiota eu sou.
Às vezes, me pergunto se estou com a cabeça no lugar.
Então passa, e estou tão inteligente como nunca.
Está interessado por alguma região em particular?
- Ou meramente na coisa toda? - A coisa toda.
O efeito geral? Só um momento.
- Clov. - Hum?
- Sabe de uma coisa? - Hum?
Eu nunca estive lá.
- Clov. - O que é?
- Eu nunca estive lá. - Sorte sua.
Ausente, sempre. Tudo aconteceu sem mim. Eu não sei o que aconteceu.
Você sabe o que aconteceu?
Clov?
Quer que eu olhe esse monte de bosta, sim ou não?
- Responda-me primeiro. - O quê?
- Você sabe o que aconteceu? - Quando? Onde?
Quando. O que aconteceu? Use a cabeça! O que aconteceu?
- Que importância tem isso? - Eu não sei.
Quando a Mãe Pegg lhe pediu óleo para a lamparina e você a mandou pro inferno...
...você sabia o que estava acontecendo, não é?
Sabe do que ela morreu, a Mãe Pegg?
- De escuridão. - Eu não tinha óleo.
Sim, você tinha.
- Você está com a luneta? - Não. Dá pra enxergar assim.
Vá pegá-la.
Há algo que nunca vou entender. Porque eu sempre obedeço.
- Você pode me explicar isso? - Não. Talvez seja compaixão.
Uma compaixão profunda. Você não a encontrará facilmente, não facilmente.
Estou cansado das nossas conversas, muito cansado.
Não está sentado em cima dela?
Não me deixe aqui.
- Estou bem no centro? - Só um microscópio pra achar esta...
Ah, já era tempo.
- Dê-me o cachorro. - Quieto.
Dê-me o cachorro!
- Aqui está o seu cachorro! - Ele me bateu!
Você me deixa louco. Estou louco!
Se tem que bater, faça-o com o machado. Ou com o gancho. Bata-me com o gancho.
Não com o cachorro. Com o gancho. Ou com o machado.
Vamos parar com esse jogo.
- Nunca. Coloque-me no meu caixão. - Não há mais caixões.
Então, deixe que isso acabe. Com um estrondo. De escuridão. E eu?
- Alguma vez, alguém teve pena de mim? - O quê?
- É a mim que você se refere? - Um aparte, imbecil.
Nunca ouviu um aparte antes? Estou me aquecendo para o meu último monólogo.
Estou avisando. Vou olhar esta porcaria, porque é uma ordem.
Mas é a última vez. Vejamos.
Nada. Nada. Bom. Bom. Nada. Bo...
- Mas que azar. - Mais complicações.
Espero que não seja uma trama secundária.
Parece um garotinho.
Um garotinho?
Eu vou lá ver.
- Vou levar o gancho. - Não.
Não? Um procriador em potencial!
Se ele existir, irá morrer lá ou virá aqui. E se não existir...
Você não acredita em mim. Acha que estou inventando.
É o fim, Clov. Chegamos ao fim.
Eu não preciso mais de você.
Que sorte a sua.
Deixe-me o gancho.
Eu vou deixá-lo.
Antes que você vá... diga alguma coisa.
- Não há nada a dizer. - Algumas palavras para eu ponderar...
...no meu coração. - Seu coração...!
Sim. Sim. Com todo o resto, no final, as sombras, os murmúrios...
...todos os males, para arrematar.
Clov. Ele nunca tinha falado comigo...
Mas no final, antes de partir, sem que eu perguntasse, ele falou comigo. Ele disse...
Aaahhh...
- Alguma coisa... do seu coração. - Meu coração...!
Algumas palavras. Do seu coração.
Disseram-me, isso é amor, sim, sim, sem dúvida, agora você vê...
- Articule. - ... como é fácil.
Disseram-me, isto é amizade, sim, sim, sem dúvida, você a encontrou.
Disseram-me, este é o lugar...
...pare, levante a cabeça e olhe toda essa beleza. Quanta ordem.
Disseram-me, vamos, você não é um animal...
...pense sobre estas coisas e verá como tudo ficará claro. E simples.
Disseram-me, quanta atenção eles recebem, todos estes moribundos de suas feridas.
Chega.
Eu digo a mim mesmo, às vezes, Clov, você deve aprender a sofrer melhor...
...se quiser que eles se cansem de puni-lo. Um dia.
Eu digo a mim mesmo, às vezes, Clov, você deve ser melhor...
...se quiser que eles o deixem ir embora. Um dia.
Mas sinto-me velho demais, e longe demais, para criar novos hábitos.
Deus, isso nunca irá acabar, eu nunca irei embora.
Então, um dia, de repente, isso acaba, isso muda...
...eu não entendo, isso morre, ou sou eu, também não entendo.
Pergunto às palavras que sobraram: dormir, despertar, manhã, noite.
Elas não têm nada a dizer.
Eu abro a porta da cela e vou.
Estou tão curvado, que só vejo meus pés, se abro os olhos...
...e entre minhas pernas, um pequeno rastro de poeira escura.
Digo a mim mesmo que a Terra está apagada...
...ainda que nunca a tenha visto acesa.
É fácil... continuar.
Quando eu cair, vou chorar de felicidade.
Clov.
Nada.
Clov.
Isso é o que se chama "sair de cena".
Estou agradecido, Clov. Por seus serviços.
Ah, perdão. Sou eu quem agradece.
Nós dois nos agradecemos.
Mais uma coisa. Um último favor.
Cubra-me com o lençol.
Não?
Tudo bem.
Minha vez de jogar.
Velho fim de partida, perdida de velha...
...jogar e perder, e feita a derrota.
Deixe-me ver.
Ah, sim.
Bom.
Descartar.
Vamos com calma.
E agora?
Levantar o gorro. Paz aos nossos traseiros!
E colocar de novo.
Empatados.
Enxugar.
E colocar de novo.
Estamos chegando.
Mais algumas bobagens dessas e eu chamo.
Um pouco de poesia.
Você rezou...
Você chorou pela noite, ela veio... Ela caiu.
Agora, chore na escuridão.
Você chorou pela noite, ela caiu, agora chore na escuridão.
Bem colocada esta.
E agora?
Momentos para nada, agora como sempre, o tempo foi nunca...
...e o tempo se excedeu, o cálculo está fechado e a história terminada.
Se ele pudesse levar a criança com ele... era o momento que eu esperava.
Você não quer abandoná-lo? Quer que ele floresça, enquanto você definha?
Que esteja lá para confortar seus últimos milhões derradeiros instantes?
Ele não compreende, só conhece a fome, o frio...
...e a morte para coroar tudo isso. Mas você!
Você deveria saber como é o mundo nos dias de hoje.
Oh, eu o coloquei a par de suas responsabilidades.
Bem, aqui estamos nós, aqui estou eu, já chega.
Sim, realmente.
Bom. Pai?
Pai?
Bom.
Estamos chegando?
E para terminar?
Descartar.
Com minhas saudações.
Clov.
Não? Bom.
Já que este é o modo pelo qual estamos jogando...
...joguemos assim...
...e não falemos mais nisso.
Não falemos mais.
Trapo velho.
Você... permanece.
Legendas: Pedro Miranda
Revisão: Marcelo Mangini
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