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Vai, Marcelo! Tá indo bem!
Boa, Eliana!
Vai, vai, vai!
Isso!
- Vamos lá, isso! - Boa, time!
De quem é esse vira-lata?
Gente, tira ele daí. Tira o cachorro.
É de vocês?
Marcelo!
Segura. Ele tá atrapalhando o jogo.
Que bonitinho.
- Você deveria ficar com ele. - Eu não posso.
Calma aí.
Você sabe o nome daquele gatinho? Aí, Marcelo!
Olha que bonitinho o nosso novo cachorrinho.
Eu dúvido que a mamãe vai deixar. Ele é todo pulguento.
- Cadê ela? - Eu sei lá.
Me dá um pouco.
Ele vai matar a gente se a gente chegar bronzeadas no balé, né, Nalu?
É pra isso que tem pó de arroz.
Vamos, vamos!
Cuidado com a rua, Marcelo!
Vamos, vamos.
Licença, licença, licença.
Ah não gente, limpem os pés, faz favor.
Acabei de varrer a casa.
Que bonitinho. Deixa eu pegar.
- Que invenção é essa, menino? - É o nosso cachorrinho.
Um cachorro imundo, Marcelo. Tua mãe está sabendo disso?
Meu pai está aqui?
Trabalhando no escritório com o tio Baby, não é pra atrapalhar ele, Marcelo.
- É urgente. - Vai sobrar pra você. Marcelo!
É uma loucura a gente ter aceitado fazer uma obra desse tamanho.
Se fosse fácil a gente não pegaria, você pegaria?
- Você pegaria, te conheço. - Ah, eu pegaria.
- Pai? - Entra.
Não, não, não. Cachorro em casa, não.
- Não, não. - A gente pode ficar com ele, por favor.
- O que a mamãe falou? - Falou que era pra falar com você.
O que eu tenho a ver com isso? Olha aqui.
Ah Baby, leva com você.
Eu? Eu não.
Eu tenho um túnel pra fazer. E Dalal ainda me bota pra fora de casa.
Eu tô achando que esse safadinho aqui.
Tem cara de...
- Pimpão! - Deixa eu ver.
Eu sei fazer.
Espera aí, gente.
O que é isso?
Apaga esse boré. Esconde.
- Encosta, encosta que eu mandei. - Já te dei meu documentos.
- Cê quer mais o que? - Cala a boca!
Ó, você do carro amarelo!
Encosta aqui.
Entra aqui, entra aqui.
Já falei! Mão na parede!
Desliga o motor.
Abaixa essa câmera, porra.
Anda, sai do carro.
Mão no muro.
Mão no capô.
Vai lá cabeludo, pro muro.
- Que isso, não precisa disso! - Fica quieta aí, garota.
Vira para frente.
Seus documentos.
- Não precisa emburrar ele! - Fica quieta.
Eu vou pegar, estão dentro do carro. Posso pegar?
Anda! Anda!
Tira o cabelo da cara.
Tira o cabelo da cara.
Duas vezes. Isso. Babiu, o primeiro é pratiado.
Mas de que horas terminava esse filme da Veroca?
Calma, deve tá chegando. Eles foram deixar os meninos em casa, entendeu?
Cuchimbas, aumenta o som.
Giovanni Bucher teve seu automóvel interceptado a caminho da embaixada
pouco antes das 9 horas da manhã de hoje.
Os sequestradores capturaram o diplomata após ferirem seu segurança,
que foi baleado na nuca e está hospitalizado em estado grave.
Em uma ação rápida e violenta,
oito homens e uma mulher usaram um veículo do modelo Aero Willys
para bloquear o automóvel no bairro de Laranjeiras, na Zona Sul...
- Já não tinham soltado esse cara? - Não, filha, aquele era alemão.
- Esse é suíço. - ...As pessoas nas proximidades
disseram que após ouvirem os tiros, viram passar em alta velocidade
um Volkswagen de duas portas seguindo em direção ao Flamengo.
No local da ação, foram deixados panfletos assinados pela
organização responsável pelo sequestro,
que se auto denomina "Aliança Libertadora Nacional".
- Ah, ele é bonitinho. - Mas não é você que vai cuidar.
- O que é isso, o que foi? - Tô tremendo até agora.
- Foi foda! - Que aconteceu, gente?
Olha a língua, Veroca. Onde você estava?
Eu fui deixar a Helena em casa e fomos parados numa blitz.
Os policiais estavam agressivos, revistando todo mundo.
Foi horrível.
Outro embaixador foi sequestrado.
- Outro? - Outro. Passou na televisão agora.
Minha Nossa Senhora.
Ainda bem que a carteirinha da OAB do pai do Pimpão tava no carro.
O que é OAB?
Por isso é bom ter advogado na família.
- Queria eu ter essa sorte. - É a Ordem dos Advogados do Brasil, filha.
- Quer que eu prepare um prato pra você? - Não Zezé, tô sem fome. Obrigada.
Dona Eunice, tá comendo nada essa menina, hein.
Escuta, vai lá falar com o teu pai, ele ficou preocupado.
Dá aqui.
Que loucura essa negócio do embaixador.
Veroca, Veroca.
Olha, o papai deu o nome de Pimpão.
- Não fala para ele. - Ele já foi?
Ele me prometeu que eu ia dar uma volta no Dodge.
- Outro dia. - Pangaré. Tem isso não.
Num vai ficar andando no carro daquele playboy, não.
Engraçado, achava que playboys bebiam whiskey e fumavam charuto o dia inteiro...
Não, filha, eu sou o cara que paga o seu filme no meio da tarde.
O que vocês foram ver?
Blow-Up. O som tava uma merda.
Sua mãe fica nervosa quando você desaparece desse jeito.
Pai, vocês pretendem fazer o quê? Me trancar dentro de casa?
Avisa.
A culpa não é minha se tem militares arrochando as pessoas...
Ó, o cafezinho.
Pai, quantos presos você acha que eles estão pedindo dessa vez?
- Não sei. - Todo mundo pra cama. Agora.
Não, quero terminar de ver o jornal.
Não, não. Pra cama.
Marcelo, esse cachorro é na garagem.
Vou ligar pra Dalva pra saber se a Helena chegou bem. Parece que foi feia a coisa.
Dalva, hoje, veio insistir de novo pra gente ir pra Londres com eles.
Mas depois ela ofereceu levar a Veroca.
Achei bom.
- Achou? - É.
Ano que vem, ela vai pra faculdade, então já viu...
Viu o que?
Você acha que não tem chance da Veroca se envolver com o mundo?
Do jeito que ela é.
Vamos esperar. Deixar eles se acalmarem primeiro.
Daí a gente vê. Sem pressa.
Se não tem pressa, por que o Gaspa e a Dalva estão indo embora?
O Gaspa tá paranóico. Acha que está sendo perseguido.
Vamos mandar, vai? Pelo menos até essa fase dela passar.
Daqui a pouco, passa.
Lembra quando ela ficou macrobiótica?
Durou duas semanas.
É, mas ninguém vai preso por ser macrobiótico, Rubens.
Tem razão.
Vou falar com o Gaspa.
- É? - Sim. Vai ficar tudo bem.
- Alô? - Alô. É o Rubens Paiva?
- É sim. - Eu vim deixar uma entrega.
Trabalho. Vou atender lá embaixo. Desliga para mim, por favor?
...Belfim Moreira, 80.
Exato.
Não, você pode deixar no escritório.
Exato, lá no centro. Você tem o endereço, né?
Eu sei, você vai querer saber...
Tá bem.
O que esse esquilo está fazendo acordado essa hora?
- Senti o cheiro do charuto. - Faro fino mais do que do Pimpão.
Para serve isso daqui?
É para fazer contas, medir o nariz de mentiroso.
Com quem você estava falando?
Papai está em uma missão secreta. Sabe qual é?
Conclui que você não tem a menor chance de ganhar de mim no totó.
Suas chances são zero.
Posso provar que você está errado?
- Você quer provar agora? - Vamos.
Não vai chorar para não acordar a casa.
- Pangaré, por gentileza. - Por favor.
Se for chorar, chore baixinho.
- Chora? - Fale baixo.
Um a um!
- Um a um, pai? - Um a um!
O Brasil viu. O Brasil sabe.
Porra, Marcelo! Vai dormir!
É o início da virada. Vai.
Lava ele direito, Marcelo. Nossa, é moleza gente.
Agora ele vai ficar cheiroso.
Você ainda não me respondeu, hein? Que sua cama deve tá um nojo.
Depois que você dormiu com ele, assim sujo.
Então, quer dizer que o senhor dorm...
Você pode encontrar um garoto inglês. Se apaixonar pelo próximo John Lennon.
Gente, eu vou voltar. Vou prestar Sociologia.
Mas você não precisa decidir isso agora, né, filha?
Viaja, aproveita e na volta, decide.
Eu já me decidi, mãe.
Passas ao rum no capricho para a minha Mediterrânea.
Do que você chamou a mamãe?
Filho, é uma mistura de italiana, espanhola, grega e turca.
Sua mãe, a mulher mais linda do mundo.
Eu.
Veroca, Veroca. Arranje um namorado inglês pra mim.
- Você não pode namorar ainda. - É claro que eu posso.
Veroca, você vai sentir minha falta?
É claro que vou sentir sua falta, meu amor.
- E a minha? - Não.
Ô amor. Veroca. Tadinho.
Eu vou, eu vou.
- Esse aqui é para você. - Obrigada tia Dalva.
Veroca prometeu não te dor de cabeça.
Dor de cabeça nenhuma, imagena.
Qualquer coisa você despacha ela e eu vou no lugar.
É mais fácil eu querer que despachem a família inteira pra lá.
Fazer assim, quando a casa estiver mais adiantada. A gente dá um jeito de ir.
Até parece, Eunice. Quando vocês se mudarem para aquela casa,
vocês não vão sair do Rio de Janeiro nunca mais.
- Esse é da Babiu? - Esse é pra Babiu.
E esse daqui ó, eu separei pra você.
Nossa...
Tá ficando perigoso demais aqui, Rubens. E não vou esperar para ver.
E eu acho que você devia fazer o mesmo e vir com a gente de uma vez.
Eu tô mandando a Veroca na frente, sabe por quê? Pra ver se não é golpe.
Oferecendo abrigo para uma família inteira em Londres?
Ei, o que é isso? Vocês são da minha família também.
Daqui a pouco, vocês voltam. Você vai reabrir a livraria e a editora, tudo.
Vai demorar não, você vai ver.
Filho da puta.
- Te amo, cara. - Te amo.
- Vai levar todos? - Não.
Só esse.
- Toma. - Sério?
Só não deixa a Eliana pegar.
Vera?
Opa.
Não é para gastar em discos, tá?
Chegando lá, você compra uma bota, que um bom sapato é essencial para o frio.
Obrigada.
Mãe, você ainda tem aquele casaco marrom?
- Qual? - Um com pelo dentro.
Esse aqui.
Esse.
- Mas é tão antigo. - Mas ele tá novinho.
Presente do seu pai, de lua de mel em Bariloche.
Me empresta?
Juízo lá, tá, filha? A Dalva já vai tá cheia de preocupação na cabeça.
Não dá trabalho pra eles.
Eu sei me cuidar, mãe.
Então cuida do meu casaco, que vou querer ele de volta.
Prometo.
E vê se não some hoje, que eu vou fazer um suflê para senhora.
Nalu!
Gol!
Um a zero!
Olha ele ali.
Você sabe se tem alguém interessado nessa casa?
Você, né?
Tô procurando um lugar que nem esse, aqui na Zona Sul.
Essa casa vai demorar para liberar. O Rubens nem começou a obra.
Mas se você quiser eu posso eu te apresento uma corretora ótima.
Eu quero. Nosso sobrado não tá dando conta de tantas alunas novas.
Eu não sei como a Dalal consegue administrar uma escola sozinha.
Não tenho cinco filhos, né, Eunice?
- Ela tem seis, se contarmos com... - Rubens.
Ah, que cheiro bom é esse.
Como é que você faz, de verdade, para a massa não grudar na fôrma?
Beatriz, já te falei. Você passa a faca envolta da massa antes, bota no forno
bem quente, não abre, tá pronto.
- Mentira. - É.
Olha que graça as meninas dançando.
Que bom que não entendem nenhuma palavra em francês, né?
- Você viu tua irmã? - Ela não tá no quarto?
- Tira essa mão da boca. - Já tá caindo.
Eu sei, mas deixa cair sozinho. Tem alguém lá em cima?
Não.
Brasília tá pegando fogo.
Os militares vão cair matando.
Setenta prisioneiros por um embaixador. Estão esticando a corda.
E no jornal tá como?
Cada dia mais tenso, claro.
Nunca vi tanta gente assim ser trocada por um embaixador.
Se soltarem essas pessoas, matam ele?
Não, filha.
Até porque nessa hora, o embaixador deve tá... Baby, tá como?
- Como ele está? - Com um belo Chandon na boca.
O suflê está no forno. Quem tá com fome?
Suflê de queijo suíço.
Não acredito Eliana. Biquíni molhado no sofá? Vai trocar.
- Tá muito calor. - Não.
- Eu falei. Não ouviu. - Veroca sumiu.
Deixa para lá.
Ontem eu quase quebrei o braço. Na hora que eu tava brincando com eles.
- Eu cai em cima do meu braço. - Filho, suas histórias são longas e confusas.
Conte essa história para honrar o seu pai. Conte.
Eu vou mandar benzer.
Essa aqui é mais calma, mas esse aqui, dá vontade de...
Você já repetiu.
Dessa vez, eu tenho que passar direto do suflê.
Pai, a festa não é minha? Sou eu que escolho as músicas.
O que essa paz e amor está reclamando aí?
Você vai enjoar de ouvir música gringa. Vamos dançar?
Eu posso dançar com a moça?
- Por que você tá perguntando pra ele? - Pergunto. Vamos dançar?
Nem pensar.
Acredita que nossa Veroca tá indo viajar sozinha?
Daqui a pouco, só sobra a gente.
Meu dente caiu!
Babiu! Babiu!
Pai, e se alguém pegar antes da gente?
Filha, sem chance. Olha o tamanhão dessa praia.
E se a gente não achar?
A gente vai achar, porque eu contei os passos de casa até aqui.
Junta pra tirar uma foto. Babiu! Babiu!
Vem, vamos tirar uma foto. Vem, Rubens.
Junta aí. Junta.
Vai, Rubens.
Vamos lá, vamos lá. Vem, vem, vem.
Eunice, não, não. Deixa que eu tiro.
Você tem que aparecer na foto.
- É? - Claro.
Vamos lá.
Atenção, todo mundo pronto?
Ninguém sério não, hein? Vai.
Atenção. "Abaixo a Dentadura"!
Um, dois, três e...
Deixa que eu atendo, Zezé.
Alô?
Não tá em casa.
Quem é?
Alô?
Rubens, alguém deixou isso para você.
- Obrigado. - De nada.
"Isso não é só uma carta, é uma experiência sensorial que nem o show dos Mutantes"
"Essa é a nossa rua, é bem engraçada como as de Blow-Up. Todas as casas são iguais."
Eu e a chaminé.
"Só as portas que são diferentes. É meio estranho passar o Natal sem praia."
"Mas a gente descobriu que também tem como se divertir no frio."
"Deu até para fazer um boneco de neve."
"Ele parece alguém que vocês conhecem?"
- Até que deu uma melhorada. - Não.
"E essa lugar? Quem sabe onde é? Que emoção!"
"Nalu. Você acredita que meus pés tocaram o mesmo chão que John Lennon?"
"Nem dá pra acreditar que os Beatles gravaram aqui..."
O ônibus, cuidado!
- Olha, o meu namoradinho inglês. - Você não fala inglês, não né?
"Olha essa loja de discos. Eu podia morar nela, juro."
"A gente ficou lá até quase fechar. Mas comprei só um compacto, viu, mãe?"
"E não é para mim. É pro...
Pimpão".
- Se isso serve de consolação. -"Ele vai curtir essa onda de glam rock."
"Espero que esteja tudo bem. Beijos, saudades de todos vocês, Vera 'Lennon'."
- Bota de novo. - De novo?
Espera, eu vou rebobinar.
Está rebobinando.
Espera. Pronto, foi.
- Posso ler dessa vez, pai? - Sim, filha.
- Foi? - Pode ir?
- Espera, vou apagar. - Posso começar?
"Essa é a nossa casa, é bem engraçado por que ela é igual todas as outras."
"São igualzinhas mesmo, que nem aquelas do Blow-Up."
"Só as portas que são diferentes."
Espere, só um estantinho.
Sai da frente.
"É meio estranho passar o Natal sem a praia."
"Mas a neve também é legal. Deu até pra fazer o nosso primeiro boneco de neve."
"Ele faz vocês lembrarem de alguém?"
"E essa rua?"
Vou organizar logo essas fotos, se não vou acabar me confundindo.
Amor, não dá mesmo pra colocar um ar condicionado no quarto das crianças?
Não. A casa é super ventilada.
Parede cobogó, um varandão.
- Atende, amor. - Tô jogando, né?
Alô?
Isso, na esquina do Almirante Guimarães.
A gente vai tá aqui a tarde toda. Obrigado.
Vê se tem algum filme bom passando no Pax?
Não. Combinei com a Dalal de jantar lá. Baby não falou?
Depois a gente vê um filme.
- Preparado para o gamão? - Sempre preparado.
- Onde você vai? - Ver como está o almoço.
Senhor Rubens?
Tem uns homens aqui...
O que está acontecendo?
Deputado Rubens Paiva?
Deve ter algum engano, não sou deputado a anos.
Não tem nenhum engano não, o senhor vem com a gente.
- Para onde? - Prestar um depoimento.
É coisa de rotina.
- Um depoimento de quê, Rubens? - Calma, Eunice.
- Eu só preciso me trocar. - É claro.
Acompanhe o doutor.
Tem mais alguém em casa?
Só meus filhos pequenos. Estão lá em cima.
Não tem necessidade de armas.
- Oi, mãe. - Oi, filha.
Cadê o papai?
Tá lá em cima.
Eu vou pegar um copo d'água na cozinha, tia.
Eu pego pra você, Cristina.
Bom dia.
- Pai? - Oi.
- Pai? - Eu.
Me empresta?
Tem jeito não, né, Nalu? Pega.
O beijinho.
Para onde o senhor vai todo lindo desse jeito, hein?
Tô indo pro escritório.
Mas é feriado.
Eu só vou ajudar esses senhores. Eu já volto, filha.
Tá bom.
Filha, eu mudei de ideia. Dorme na casa da Cris hoje e amanhã
vocês vão pro balé juntas, tá?
Obrigada, tia.
Cristina, fala pro Sebastião aparecer qualquer hora.
Vou falar com ele.
- Eu posso ir com ele? - Seu marido já volta pra casa.
Volto a tempo para o suflê.
E onde é esse depoimento?
Eu não tenho essa informação.
E os senhores?
A gente vai ficar fazendo companhia para a senhora.
- Mãe? - Oi meu filho, dormiu bem?
Quem são esses caras?
Eles vieram pra dedetizar a casa. Tá com fome?
Vem cá. Sente aqui para tomar o café.
Chocolate?
O meu pai foi pra praia?
Ele deu uma saidinha. Daqui a pouco tá voltando.
Minha Nossa Senhora. Dona Eunice, o que tá acon...
Onde fica a extensão?
Tem uma no escritório e outra no quarto de cima.
Se for para o seu marido, você diz que ele tá viajando.
Alô?
Oi, Dalal.
É, mas hoje não vai dar. Porque o Rubens teve que viajar de última hora.
Não, nada grave.
É assunto de família, mas amanhã ele já tá de volta.
Tá, dou sim.
Dá um beijo pro Baby para mim.
Ainda não fomos apresentados.
Me chamo Eunice.
Schneider.
Os senhores ficam para almoçar?
Não precisa se preocupar.
Eu faço questão.
Um carro de porta aberta é um convite para o crime.
Babiu, come.
O senhor faz exatamente o que, senhor Schneider?
Eu sou especialista em parapsicologia.
Parapsicologia?
Mãe, por que a casa está toda fechada?
Eliana, vai tomar banho pra almoçar.
Depois do jogo. Eu vim só pegar a bola.
Não. Agora não pode, filha.
- O que é isso? - Ninguém sai até seu pai voltar.
Pra onde o papai foi, mãe?
Vamos subir para o seu quarto.
Mas mãe, eles estão me esperando na rede.
- Não, depois você joga. - Mãe, eu literalmente tô com a bola.
Não, Eliana.
Mãe, o que tá acontecendo? Quem são esses caras?
- Por que eu não posso sair? - Eliana, levaram o seu pai.
- Para onde? - Eu não sei, filha.
Eles disseram que ele precisava responder umas perguntas. Não sei.
- Eles são da polícia? - Eu acho que do exército.
Calma, filha.
Não, não. Calma.
Vai ficar tudo bem. Só não conta pro teus irmãos.
Babiu. Você pode me ajudar numa coisa aqui na cozinha?
Vem cá.
Chega, Marcelo.
Já vou.
Já vou não. Vá pro quarto, que sua irmã já está na cama. Vai.
Amanhã a gente termina.
Amanhã, esses senhores não vão estar mais aqui.
Você ganhou.
Tem mais alguma coisa que eu possa fazer pelos senhores?
Tem comida na geladeira se estiver com fome, é só se servir.
A gente se vira por aqui, obrigado.
Será que não tem como verificar se o Rubens já está voltando?
É que ficou tarde e eu estou preocupada.
Não tem como, infelizmente.
Vamos dormir?
- Mãe, eles estão armados. - Eu sei, filha.
- Posso dormir com você? - Fica com teus irmãos.
Por favor.
É só uma troca de turno, dona Eunice. Pode voltar a dormir.
Não estou com sono.
Eliana?
Filha.
O papai voltou?
Não, filha. Nós é que vamos ter que prestar um depoimento também, tá?
- Eu? - É, filha.
Veste essa roupa. Mas não se preocupa, que à tarde estamos de volta.
Cuida das crianças para mim.
Bota isso, por favor.
Cadê minha filha?
Eliana está lá fora. Desculpe pelo capuz, dona Eunice.
A senhora aceita?
Onde está meu marido?
Quanto tempo vocês estão casados?
Eu quero ver ele.
Aqui diz, dezoito anos.
Seu marido já era aliado dos comunistas quando vocês se conheceram?
Meu marido foi do Partido Trabalhista.
Eu gostaria de falar com o meu advogado.
Não tem necessecidade. São perguntas de rotina.
Eu só respondo depois de ver a minha filha e o meu marido.
Ele está no andar de cima. Já contou tudo o que sabe.
- Só tá esperando a senhora confirmar. - Confirmar, o quê?
Que ele deixou o país em 64 por conspirar contra a revolução.
Rubens foi um deputado. Cassado e teve que se exiliar.
E desde que ele voltou pro Brasil, nunca mais se envolveu com política.
Então, por que ele continua metido com os terroristas?
Ele não tem nada a ver...
Filhos da puta, vocês vão me matar!
Nós estamos de olho no entra e sai da sua casa
faz um tempo, dona Eunice.
Gostamos muito de receber amigos em casa.
E tem algum desses amigos aqui?
Não.
Dona Eunice, estou tentando garantir que a senhora continue cuidando de sua casa.
Levando seus filhos para escola pela manhã e jogando seu gamão.
É esse o meu trabalho.
Aliás, como está a Vera em Londres?
Você fez alguma coisa com a minha filha?
- Ela fez algo errado? - Não.
Então não precisa se preocupar.
Vamos tentar de novo?
Quem é esse aqui?
Rubens.
Viu? Não é tão difícil.
Quem mais você reconhece?
Olhe com cuidado.
Martha, a professora das minhas filhas.
Eu não sei o que ela está fazendo aqui.
Martha foi interceptada no aeroporto ontem.
O filho dela dá suporte logístico para os subversivos que fogem para o Chile.
Não pode ser a mesma pessoa.
Ela trazia cartas para Rubens.
Eu quero saber como ele faz para entregar essas cartas aos terroristas.
Eu já falei que o Rubens não tem nenhuma ligação com terroristas.
Dona Eunice, a senhora precisa repensar seu comportamento.
Eu vou ver minha filha agora?
- O que é isso? - É protocolo.
Mas você falou que se eu respondesse eu veria minha família...
A gente não terminou ainda.
Minha filha está aqui?
- Minha filha está aqui? - Mãe?
- Eliana! - O que está acontecendo?
- Se sente. Fique quieta. - Só vão te fazer algumas perguntas.
- Depois a gente vai para casa. - Vamos, dona.
É minha filha!
Ela é só uma criança.
Só uma criança.
Não deixe fazerem nada com a minha filha.
Fica quieta. Senão só vai irritar eles mais.
Eliana, sua vez.
Nome?
Quanto tempo eu estou aqui?
Diga seu nome.
Eunice Paiva.
Nome completo.
Maria Lucrécia Eunice Facciolla Paiva.
Eu quero falar com o meu marido.
Olhe mais uma vez.
Já disse o que sei.
Eu só queria trocar minha roupa.
Mais uma vez.
Minha filha.
Onde ela está?
Eu não tenho essa informação.
Reconhece mais alguém?
- Eliana? - Cala a boca.
Eliana?
Sua filha não está mais aqui.
Ela só ficou uma noite.
E eu tô aqui a quanto tempo?
- Cinco dias. - Meu marido...
O nome dele é Rubens. Você o viu?
Cala a boca, porra!
Para! Pelo amor de Deus. Eu não fiz nada!
Eu tô com medo!
Nome completo.
Maria Lucrécia Eunice Facciolla Paiva.
Para onde eu vou?
Eu só quero que a senhora saiba, que eu não concordo com isso.
Filha.
Vem cá.
Onde você estava?
Calma.
Quer comer alguma coisa?
A mamãe só precisa dormir um pouco, agora, tá?
Amanhã, a gente acorda e come alguma coisa.
Mãe, o que tá acontecendo?
Eliana?
Eliana?
- O quê? - A mamãe voltou.
- E o papai? - Não.
Ela está no quarto dela?
Ela pediu para ninguém entrar.
Posso dormir com você?
Pode.
Eu queria esperar por você lá, mas eles não me deixaram.
Desculpa.
Fizeram alguma coisa com você?
Fizeram várias perguntas, mas eu falei que não sabia de nada.
Você viu teu pai lá?
Saiu no jornal que ele fugiu.
Fugiu?
Mas o tio Lino falou que é mentira.
- O Lino esteve aí? - Não, foi na casa do tio Baby.
Tô indo lá todos os dias depois da aula.
Tá todo mundo reunido tentando encontrar vocês.
Não, mãe.
É melhor não usar o telefone. Vamos lá, eu vou com você.
Não, Eliana. Você vai pra escola.
- Mas mãe, eu quero saber o que... - Eliana, você vai para a escola.
- Mãe, eu já estou ajudando eles. - Quem cuida disso agora é sua mãe.
- Mãe! - Mamãe!
Bebês.
Cadê o papai?
Essa matéria é pronta, Eunice.
Pelo menos agora eles não podem negar que ele foi preso.
Eles negaram a prisão do Rubens?
Disseram que não tem nada a ver com o exército.
Aconteceu a mesma coisa com o pessoal do Pasquim, e eles estão bem.
Exatamente. Dois meses presos, todo mundo sumido e depois soltaram.
A comunidade internacional está de olho nessa história.
E uma foto da família sem o pai?
É bom, claro que é. Bota na capa.
- Não dá para fazer isso. - Por que não?
O jornal tá cada vez pior, gente. Só libera o que os militares querem.
Tô pensando em The New York Times, Le Monde. Como tá o teu francês?
- Não sei o que dizer. - Conta da tua prisão.
- A da Eliana também. - Ela não quis vir hoje?
- Não, mandei ela pra aula. Ela tá bem? - Ela tá bem. Pouco assustada, só.
O Rubens é um ex-palarmentar. Não vai acontecer nada com ele.
O que a gente precisa fazer é continuar a pressão, mostrar que estamos de olho.
A gente precisa fazer mais do que isso, né?
É, mas enquanto a gente não tiver uma prova concreta de que ele foi
realmente preso, não tem muito o que a gente possa fazer.
- E o carro dele? - O que tem?
Está estacionado lá no pátio do exército. Eu vi ontem.
Dona Eunice, o senhor Lino chegou. Quer que eu faça um cafezinho?
Não, eu já tô de saída.
Deixa que eu pego as crianças na escola. Só cuida do almoço pra mim, por favor.
- O que a senhora quer que eu prepare? - O que tiver.
Só queria deixar essa troca de roupa e remédio.
Meu marido é diabético, ele precisa muito tomar.
Eu já disse que não tem nenhum Rubens aqui.
O senhor não saberia dizer nem para onde ele foi tranferido?
Para isso, tem que fazer uma solicitação à polícia federal.
Tá certo, obrigado. A gente pode ficar com o recibo, por favor?
Obrigado.
Onde faz essa solicitação?
Não adianta, eles vão continuar negando.
Tem que ser por via judicial, mesmo.
Pelo menos agora, com isso, consigo dar entrada com o habeas corpus.
Queria ler o habeas corpus. Posso ficar?
É pior que grego. Tem certeza?
Tenho, Lino.
Eu vou pegar as crianças na escola, depois passo no escritório pra devolver.
Não precisa, eu tenho uma cópia.
Qualquer notícia, depois eu te aviso. Tá bem?
Eu não sabia que Rubens era diabético.
Ele não é.
Eu só soube para quem eram as cartas quando conheci seu marido.
Então, você viu o Rubens lá?
Fomos colocados no mesmo carro.
- E levaram para onde? - Não sei.
- Cobriram o nosso rosto... - Com um capuz. Fizeram o mesmo comigo.
Qual a dificuldade de devolver no lugar?
Martha, você tem que dizer isso para polícia.
Foi a polícia que prendeu a gente.
Eu sei, mas só que agora estão dizendo que não.
Olha Eunice, me desculpe. Não posso me meter nisso.
Você é a única pessoa que viu Rubens lá.
Você tem que me ajudar.
Se eu não provar que fui presa...
Você tem que ir embora, por favor.
Meu marido está em perigo, Martha.
Todo mundo está em perigo, Eunice.
- Eu posso ir a pé, mãe. - Não, já chega, Ana Lúcia.
Por que o carro do papai voltou, mas ele não?
- Ele ainda tá viajando, meu amor. - Essa mala aqui, não é dele?
Deixa essa mala aí, Marcelo.
Já faz duas semanas que estou faltando no ensaio.
A Cris falou que posso ir com ela.
Não, de agora em diante, eu quero vocês da escola pra casa.
E ninguém anda mais sozinho na rua.
- E o vôlei da Eliana? - Eu saí do time.
Por quê?
Porque eu não quero mais treinar.
...As buscas pelos sequestradores do embaixador...
Mãe. Eles estão falando sobre o embaixador.
Isso não é assunto para crianças, filha.
Zezé, entra.
Você sabe onde está a chave desse portão?
Tem chave essa coisa? Deixa eu ver se tá aqui dentro.
Pimpão, vem. Vem, seu vigarista.
Seu vigarista, não pode.
Não pode. Feio.
Zezé, e esse carro parado aí na porta com esses homens?
Estão aí faz dias, dona Eunice.
Mas eles fazem alguma coisa?
Ficam ali, olhando pra cá o dia inteiro.
Teu avental forrido. Você não trocou, eu tinha falado para comprar outro.
Tive que usar o dinheiro da reserva para o mercado, enquanto a senhora estava fora.
Não consegui trocar.
Claro. Eu vou passar no banco para sacar e repor, tá?
Dona Eunice?
Será que teria como a senhora acertar comigo também?
Eu sei que a senhora está cheia de coisa na cabeça,
mas é que o senhor Rubens só me pagou dezembro.
Desculpa, Zezé. Vou resolver isso.
Obrigada.
- Obrigada. - Senta.
Rubens pode ligar e autorizar o saque.
É que não tem telefone na serra.
Ele acabou tendo que ficar mais uns dias para acompanhar a obra.
Será que não tem como dar um jeito para mim, Ritor?
Eu entendo, mas sem a assinatura dele não tem como te ajudar.
E a Miriam? Tá bem?
Tá bem.
A gente precisa combinar de se ver em uma hora dessas.
Vamos marcar, sim.
Bom, eu trouxe alguns dólares e libras que eu tinha em casa.
Será que você pode, pelo menos, trocá-los pra mim, Ritor?
Claro, Eunice. Só um minutinho. Vou chamar alguém para te ajudar.
- Obrigada. - Com licença.
Mãe?
- Oi. - Oi.
- Você viu onde a mamãe tá? - Não.
Posso dar um trago?
- Não. - Vai.
Não.
Metida.
A Gilda ligou de novo.
Para tentar colocar a Vera na lista de espera de um voo na semana que vem.
Aliás, uma carta da Veroca.
Depois eu vejo isso, porque eu tô achando até bom ela ficar lá mais tempo.
Você quanto está sendo uma passagem?
Eu vejo isso com Rubens quando ele voltar.
Aliás, é bom que ele volte logo, só ele entende essa bagunça.
Filho da puta.
Tá bom.
Lá em casa... Tá todo mundo lá sem ver os amigos.
Por que o Rubens foi preso, Baby?
Eu não sei.
Os militares estão perdidos. Andam atrás de qualquer um.
Você não vai fazer isso comigo, vai?
Eu estive lá naquele lugar, eu vi.
Eu acho que eu tenho direito de saber o que o Rubens andava fazendo.
Você não acha?
Acho.
Eunice, não tem como não fazer nada.
Ainda mais a gente que conhece todo mundo.
Que tem meios para ajudar para quem está precisando.
Então, eu, Rubens, Gaspa, Raul...
Um fala com a imprensa gringa, outro dar abrigo pra quem tá sendo perseguido,
e outro entrega cartas para as famílias sem notícias.
Cada um faz o que pode.
Mas nenhum de nós mexe com luta armada. Muito menos o Rubens.
Vocês nunca falaram nada para mim, para Dalal, para Dalva.
- Para nos proteger. - Claro.
E você acha que o Rubens vai ser solto?
Acho, daqui a pouco ele está de volta.
Vem jantar lá em casa, vem. Dalal vai ficar feliz.
Eu não tenho cabeça. Muito filho para criar.
Obrigada.
"Essas fotos que eu mandei são no metrô. Uma na frente, uma dentro do vagão."
"No dia em que eu estava indo para uma festa na casa dos Arraes..."
Passa aí, Marcelo.
"Você não acreditam quem estava lá."
- Quem, mãe? - Ué, advinha?
Caetano?
Gil.
Gilberto Gil!
"Ele estava usando calças de veludo com bolinhas."
"Daí começou a tocar Bob Marley e ele me tirou para dançar."
- Dúvido. - Mentirosa.
"Foi incrível."
"Saudade da praia, do suflê e de vocês. Saudade de tudo, Vera."
- Acabou? - É isso.
Eu posso ver?
Fica todo mundo aí.
Marcelo!
Pimpão!
Estão olhando o quê?
O que vocês querem?
Cadê o meu marido?!
Vai embora! Sai daqui! Vai embora!
Sai!
Zezé, traz um cobertor para mim. Por favor.
"Os exilados brasileiros ficaram perguntando sobre
o papai, a mamãe e da Eliana."
"Eu não sabia o que dizer. Me bateu uma angústia enorme."
"Por que ninguém não me conta nada?"
"Tive que descobrir da prisão de vocês pelos jornais. O que está acontecendo?"
"Eu quero voltar logo pra casa."
Por que você não leu tudo, mãe?
Me dê essa carta, filha.
Não. Você pulou a parte que a Vera falou do papai e de mim.
Tá todo mundo lá fora falando da gente. A Vera não sabe o que está acontecendo.
- Me dê essa carta! - Você está mentindo pra gente!
Vai pro teu quarto.
"Ainda não tenho condições para descrever as horas angustiosas que passei no quartel,
mas posso garantir que estive lá com o seu marido."
"Apesar de não vê-lo, pude ouvi-lo dizer: Rubens Beyrodt Paiva."
"Antes de ser transferida, ouvi sua voz pela uma última vez, pedindo água."
"Faço votos, que brevemente esteja a família toda reaunida."
"Um abraço para as minhas ex-alunas Vera, Eliana e Ana Lúcia."
- Lino? - Quem é?
Sou eu Lino. Desculpa a hora.
É que nós temos uma prova de que o Rubens foi preso.
Eu acho que ainda dá tempo de dar um mergulho. Alguém quer?
Tá meio tarde. Tô com fome.
Zezé, não precisa nem fazer jantar. Vou levar todos para tomar sorvete.
- Olha! - Tem Toddynho?
- Vem, Marcelo. - Eu quero batata frita.
E eu, um sundae de morango.
Mãe!
Mãe!
"Morreu em guerra", o Médici disse. Só.
Você pode publicar isso?
Não, ainda não.
Eles não vão assumir isso oficialmente.
Temos que falar com Lino. Lino vai saber o que fazer.
Não tem nada que a gente possa fazer agora, Eunice.
Como não?
Tem que obrigar que assumam isso publicamente.
Tentar uma intimação, uma ordem judicial.
A gente acha que temos que continuar pedindo a liberdade do Rubens.
Como se não soubéssemos o que aconteceu com ele.
Pra quê?
Pra minha casa continuar vigiada com um carro parado aí na porta?
Com meu telefone grampeado? E minha família?
Você não tá sozinha.
E o corpo?
Não sei de mais nada.
Mas o que você acha que fizeram?
Fala.
Eu já ouvi de tudo, Eunice.
Que eles enterram na floresta, que jogam de um helicóptero em alto mar.
Que eles mandam para uma vala comum como fosse um indigente.
É tudo boato. Não tem como saber, porque ninguém não fala o nome de todo mundo.
Tem medo de sumir também.
Você se importa se eu não te levar até a porta?
Desculpa, queria ter trazido notícias melhores.
Eu sei.
Tchau, tchau, pessoal.
Do que vocês estavam falando?
Vim trazer uma coisa para sua mãe, só isso.
Você descobriu onde está o meu pai?
Não, ainda não. Se cuida, tá?
Que jornal chato.
Chata é você, então vai lá jogar com sua boneca.
- Estúpido. - Ô, Marcelo?
Mãe?
Fala, filha.
Mãe, Marcelo quebrou minha boneca.
Senta aqui.
Você estava chorando?
Não.
Pronto.
Vamos tomar sorvete?
- Vamos. - Fala pro teus irmãos se arrumarem.
- Você? - P.
G.
- S? - Não.
- Vai, Babiu. - R?
Tem certeza?
Você não quer esperar para vender com a escritura?
Vai conseguir um preço tão melhor.
Tenho muita coisa para resolver. Prefiro fazer assim mesmo.
Te empresto dinheiro, sem problema.
O terreno é um achado, você ainda pode construir a casa lá.
Obrigada por conseguir vendê-la mesmo sem a papelada.
Sinto muito.
Queria ter conseguido fazer mais.
Não foi culpa tua.
Se você precisar de alguma coisa, qualquer coisa.
Para você ou para as crianças, me fala.
Claro.
- Depósito? - Saque.
Obrigada.
- Oi Zezé. - Oi.
- Posso entrar? - Claro.
Moça?
Que saudade. Vocês cresceram.
- Oi, filha. Que falta. - Muita.
- Sabia que o Pimpão morreu? - Marcelo!
- Quê? - O cachorro.
Ah, tadinho.
- Posso ficar com o broche? - Claro. Pode pegar quantos você quiser.
Cadê a Nalu e a Eliana?
Estão em casa recebendo o pessoal da Manchete.
O que essa revista foi fazer lá em casa?
Tirar uma foto da família para a próxima edição, filha.
Vou fazer uma mágica. Presta atenção.
Mãe.
Fala, filha.
Eu deixei seu casaco em Londres.
Helena insitiu, aí eu deixei com ela.
Tudo bem.
- Mesmo? - Mesmo.
Ela vai precisar bem mais do eu, de um casaco em Londres.
Você tá bem, mãe?
Tô, filha. Eu tô bem.
Você teve alguma notícia?
Verinha.
Em Londres, está em todos os jornais. Aqui não saiu em lugar nenhum?
Filha!
Cheguem mais próximo, cheguem mais próximo um do outro, por favor.
- Tá pegando todo mundo? - Mais próximo um do outro, por favor!
Mais próximo, isso.
- Agora foi? - Foi.
Vamos lá. Três, dois, um...
Não precisa sorrir.
Por que não?
- É que o editor pediu. - Pediu o quê?
Ele pediu uma foto mais...
Uma foto menos feliz.
Ele quer triste?
Não, ele não quer uma triste. Ele quer uma foto sem sorrir.
Ele quer triste.
Nós vamos sorrir.
Sorriam.
E que tal uma mais séria? Vamos tentar mais sério, um pouco?
Sorriam.
Aqui, por favor.
Sorriam!
Três, dois, um.
Mais uma.
Eu realmente não consigo entender, como num país
que afirma estar com sua estrutura jurídica em funcionanamento...
Como é que alguém entra na tua casa, leva o teu marido, sabe?
Um pai de família, um engenheiro.
Leva ele preso e depois diz "sumiu".
O inquérito, inclusive, foi arquivado recentemente, certo?
Meu advogado já entrou com um pedido de desarquivamento do inquérito.
É inaceitável que o Estado aja dessa maneira
e ainda é protegido por um sistema de notícias falsas, que visa
justamente, encobrir os atos espúrios cometidos por seus próprios agentes.
Ué, a Zezé tá de folga?
- Zezé não trabalha mais aqui. - Por quê?
Porque a gente ficou sem dinheiro para pagar uma empregada.
Ela trabalha na escola da tia Dalal agora.
Me deixa te ajudar, então, com alguma coisa.
Não precisa. Amanhã você entra no rodízio.
Posso lavar a louça para você hoje, se você quiser, Eliana.
Se você insiste.
Como é que você tá?
Eu sei que levaram você e a mamãe.
Eliana, o que está acontecendo? Ninguém me fala nada.
A gente não fala disso aqui.
Eu queria tanto ter feito um suflê para você, filha.
Imagina.
Não deu tempo. Vamos almoçar?
Como que a gente vai fazer agora que a Veroca voltou? Estou no quarto dela.
Por mim, tanto faz.
Eu pensei da Eliana ficar com o Marcelo e a Babiu, e a gente ficar juntas.
- Não dá. - Mas você já tá lá.
Minhas coisas não cabem, não cabe.
Ei, não adianta discutir.
Ninguém mais vai ter quarto sozinho.
Por quê?
Porque nós estamos de mudança para São Paulo.
- O quê? - Jura?
Juro.
Lá tem a vovó, o vovô, os primos.
E de vez em quando a mamãe vai ter que deixar vocês um pouquinho com eles.
Porque eu vou voltar para a faculdade.
- Você o quê? - Eu não vou.
- Eliana. - Não vou.
Mas e a casa nova?
Isso vai ter que esperar um pouquinho. Tá, meu amor?
Mas e o papai?
Teu pai vai ser um processo longo.
Eu sei que é difícil de entender, mas vocês vão ter que ter paciência.
E se ele voltar pra cá e a gente não estiver mais aqui, mãe?
Esta casa foi alugada, filha. Vai virar um restaurante.
Eu quero que cada um de vocês arrume a própria mala, porque
na sexta-feira um caminhão de mudança vai estacionar aqui frente.
Nós vamos voltar para São Paulo.
Marcelo, me passa o sal.
- Tchau, perna de pau. - Tchau, João.
Tchau, Luquinhas.
- Guarda ela para mim? - Você vai voltar, né, vigarista?
Mas como é que você achou? Só o papai sabia.
É que eu também sei de um monte de coisas.
Vamos?
Nalu, você viu a Eliana?
Não.
Eliana?
Eliana?
Eliana!
Eliana?
Filha?
Chegou cedo.
Oi, filha. Remarquei meu voo.
Que bom.
Vou comer fora com Daniel. Você quer vir?
Não posso, Babiu. Vou esquentar alguma coisa. Obrigada.
Isso foi agora?
Eu morro com você nesses aviãozinhos.
Por terra, é impossível.
Demora três dias para chegar e o território está infestado de grileiros.
Achei que cê tinha tirado eles da última vez.
Eu também.
De que horas a senhora sai amanhã?
Manuela ficou de passar às seis e quarenta.
Ainda nem comecei a preparar minha fala.
Vou acordar mais cedo pra gente tomar café.
As ferramentas jurídicas que nós temos
pra tentar impedir a ocupação ilegal dessas áreas,
e também toda a região afetada pela Transamazônica...
Primeiro, é entrar com um pedir de anulação
dos contratos fraudulentos firmados por grileiros.
Algo que eu e Manuela fizemos para os Pataxós.
E é claro, fazer valer a Constituição de 88,
porque ela obriga a União a garantir os direitos indígenas sobre seus territórios.
Telefonema urgente para você.
Alô?
Você tá pentiando o cabelo, Marcelo?
Já coloquei uma gravata, mãe.
Você tá com os documentos aí?
Sim.
- Bom dia, Marlon. - Com licença.
Me deixe te apresentar meus filhos. Marcelo e Beatriz.
E seu pequeno? Tá melhor?
- Tá ótimo. Voltou pra escolinha. - Que bom.
- Dá um beijo na Ivone pra mim. - É claro.
Doutora, parabéns.
Vamos, Marcelo.
- Saiu mesmo? - Saiu, doutora.
Cristiane, você pode pegar o processo da dourada Eunice, por favor?
- Claro, pego sim. - Obrigada.
Marcelo, desculpe incomodar, mas quando sua mãe disse que você vinha hoje...
- Você se importa? - Que isso? Claro.
- É Carla, num é? - Sim, Carla com C.
- Você curtiu? - Chorei muito.
Jura?
Era para ser engraçado.
A história do teu acidente, eu fiquei muito impressionada.
Você viu se tinha muitos palavrões?
- Não? - Não.
Viu? É porque ela fica implicando com o meu português, sabe?
A imprensa está aí, dona Eunice. Posso deixar subir?
Pode sim.
É uma sensação esquisita, né? Sentir alívio com um atestado de óbito.
Como vocês fizeram para lidar com o vazio deixado pelo seu marido?
Olha, a tática do desaparecimento é uma das mais cruéis, porque...
Mata-se uma pessoa e condena-se todas as outras à uma tortura psicológica eterna.
Você não acha que passada a redemocratização
o Estado tem questões mais urgentes do que tentar remediar o passado?
Não. Eu acho que é preciso indenizar as famílias e
fazer o mais importante:
Esclarecer e julgar todos os crimes cometidos durante a ditadura.
Porque se isso não acontecer, nada impede que eles sigam praticados impunimente.
Foto!
Mãe, não pega o barato de fim de festa.
Isso é bom?
Depois da terceira dose, quem é que nota?
Vem cá, agora que essa história acabou, você vai se aposentar?
- Que aposentar, Marcelo? - É, mas é sério.
Você devia visitar a mim e ao Daniel lá em Berna, descansar um pouquinho.
O dia que for para descansar, eu vou querer a praia.
Então vai.
Mãe, você conseguiu.
O rum é bom.
- É bom. - Num falei.
- Você não vai abrir isso agora. - Eu já estou abrindo.
- Ainda tenho que organizar isso... - O jornal pediu uma foto do papai.
Vou ligar para Vera, que as crianças já devem ter chegado da escola.
- Mande um beijo. - Manda abraço pro George.
Olha, o Pimpão e a Zezé.
Você se lembra de quando foi isso aqui?
Isso aqui foi... No aniversário da Nalu?
Não, tia Dalva e o tio Gaspa não estão.
Eu, você e o papai.
Quando foi que você enterrou ele?
Como assim?
O dia que você percebeu que ele não ia mais voltar.
Acho que foi quando vi a mamãe doando as roupas dele.
Um ano e meio depois.
Jura?
E você?
Acho que foi quando saímos do Rio.
Tão cedo, assim?
Acho que sim.
Vendo a casa vazia.
Vera mandou um beijo.
Vamos tirar uma foto para suas irmãs?
Vamos.
- Quando foi isso? - Isso?
Acho que foi no aniversário da Vera.
Você ensinou o negócio do timer pra ela?
Vamos descobrir agora.
Sorriam.
Quer ajuda, mãe?
Confere, eu acho que está certo.
Assim que eu receber a bolsa, te devolvo.
Está tudo anotado aqui.
Vamos logo, porque não quero pegar transito na voltar pela Marginal.
Mãe, não precisa mesmo.
- Daniel vem me buscar. - Ah, tá.
Me liga quando chegar?
Eu ligo.
Você vai se consultar?
Não.
Vou sentir sua falta.
Eu também, filha.
Vai lá se arrumar.
Manda um beijo pro papai.
Não, o Joca.
Marcelo, eu tenho aquela da Manchete, tenho a da praia...
Acho que tenho as da universidade.
E de Brasília? Sobrou alguma de Brasília?
Acho que não. Não sobreviveu nenhuma de Brasília, não.
- Mas tem aquela da charrete. - É maravilhosa para colocar na capa.
É com a editora, né?
Vou ver o que tenho lá, depois escaneio e mando para você.
Eliana, coloque num pen drive para mim, por favor.
O suflê!
Gente, um fracasso total, não cresceu. Cuidado, tá quente. Sem piadinhas, tá?
Deve tá uma porcaria, né? Dona Eunice?
Se a dona Eunice tivesse deixado a receita, teria sido mais fácil, né?
A culpa é da mamãe agora.
Tá satisfeita? Babiu trouxe seu sorvete de chocolate, quer?
Chico? Você quer, né?
- Acho bom. - Eu quero também.
Juca.
- ...Já tinhamos falado sobre isso. - Quando é o feriado?
- Raquel, pode trazer ela? Por favor. - Pode deixar.
Aqui.
Você vai me embebedar.
Obrigada.
A mãe parece menos irritada, não é? Mais calma.
É, também achei. Joaquim faz bem para ela.
A gente tá junto há quatro meses, mas não sei se é namoro.
Juca disse que é o melhor beijo da cidade.
- Que isso, Juca? - Tá dentro do critério.
- Como assim, cara? - Você ficou com essa menina?
Não, tô zoando. Foi só ele.
Como ela passou essa semana.
Tem dias em que ela está bem. Tem dias em que ela está à deriva.
...Vinte e um anos de ditadura militar no Brasil e os inúmeros crimes
cometidos contra os seus opositores.
A Comissão reuniu mais de mil e duzentas testemunhas,
entre agentes da repressão e vítimas da ditadura.
O texto revela as práticas de tortura e assassinatos que vitimaram mais de
vinte mil pessoas e deixaram centenas de outros desaparecidos.
Também identifica duzentos e trinta locais onde esses crimes foram cometidos,
como quartéis das Forças Armadas,
além de áreas usadas para ocultação de cadáveres.
Como restinga da Marambaia, no Rio de Janeiro.
Algumas dessas vítimas se tornaram ícones da resistência contra o regime militar,
como o jornalista Vladimir Herzog, o estudante Stuart Angel
e o deputado Rubens Paiva.
O corpo de Rubens Paiva, assim como os de pelo menos
duzentos outros mortos, nunca foi localizado.
Vamos tirar nossa foto? Vamos lá, pessoal! Tirar foto!
Nossa tradicional foto. Vamos lá!
Vamos, gente, vamos.
Vamos lá, Facciolla. A foto do ano, vamos.
Tudo bem?
Joca, cadê você?
Vamos lá, Facciolla.
Aqui, dona Eunice. Aqui.
Mãe, alí, ó.
Vamos lá, pessoal. Sorriam!
Legendas por: Mr. Brazilian.
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