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Disputa-se neste momento a meia-final do campeonato do mundo de futebol.
Donadoni.
Um filme de
NOITES M�GICAS
A Argentina manda Maradona marcar a grande penalidade.
Falha!
Falha!
Quatro remates e quatro golos para a Argentina, cada vez mais perto
da final.
Serena vai marcar o p�nalti.
A Argentina est� na final do Mundial.
Os p�naltis voltaram a ser decisivos.
� uma grande desilus�o para os italianos
e uma noite de celebra��o para os argentinos.
N�o era este o desfecho que esper�vamos estar a comentar.
Valha-me Deus!
Deixem a pol�cia cient�fica tirar fotografias.
O comandante chegou.
Obrigado, boa noite!
- � muito dif�cil para todos... - Tivemos azar com a Argentina...
Leandro Saponaro.
Sabe quem �, n�o sabe?
O Procurador est� ao telefone para falar com o Comandante.
Dr. Travagli, boa noite.
Sim, j� o identific�mos.
Vou prosseguir e mais tarde informo-o.
Bem sei, doutor, mas que podemos fazer?
Os p�naltis deixam-nos nervosos, foi sempre assim.
Encontr�mos isto no bolso dele.
Ela � conhecida. N�o � aquela lambisg�ia da televis�o?
Tento na l�ngua, Mendolesi.
Fa�a favor.
Os seus dados, por favor.
Maria Giuseppina Fusacchia, alcunha Giusy.
Nascida em Pasturago no dia 4 de Mar�o de... 1958.
Morada?
O escrit�rio dele.
Mas escreva...
Via di San Carlo, 34, Cornaredo.
� a casa do tio Alfonso, a minha morada oficial.
Quando � que esta foto foi tirada?
Ontem � noite.
Quer dizer, esta noite... h� bocado.
S�o eles.
Eles � que o mataram, s�o os assassinos.
Eu conto a hist�ria toda. Quem � o comandante?
� o senhor?
Acalme-se.
Como assim, "mataram-no"?
Desculpe...
Por favor,
a que horas parte o pr�ximo comboio para Messina?
- Messina? - Sim.
N�o sei, h� um expresso para Palermo �s 06:05.
Gaita!
Antonio Scord�a? Acompanhe-nos.
Eu?
Porqu�? O que � que eu fiz?
Menina!
Menina?
Eugenia Malaspina?
Venha connosco.
- � para uso pessoal, � legal. - Venha at� � esquadra.
N�o me empurrem!
A porta abre-se e entra...
Sara, desgrenhada...
Onde est� o Ruggero?
A senhora idosa
faz-lhe um gesto com a m�o e olha para ela...
- Como � que olha para ela? - N�o sei.
- Com desprezo? - N�o, mais...
- Com �dio? - Estupefacta ou relutante?
- Angustiada, cheia de ang�stia. - Nada mau.
- Posso juntar-me? - Nem pensar!
Mais tarde, est� bem? Descontrai.
- Continua a escrever. - Casa do advogado. Interior dia.
- Abra a porta, � a pol�cia! - O advogado senta-se � secret�ria...
Pol�cia!
- Como se chama? - Riccardo.
Realiza��o
- Apelido? - Russo.
O que � que lhe fizeram? Assassinos!
- Assassinos! - Pronto, j� chega.
Assassinos!
Que porra � que fizeste?
Como � que te atreves a acusar-me nestas circunst�ncias desagrad�veis?!
- N�o comeces... - Cala-te!
A menina Fusacchia disse-nos que esta foto foi tirada esta noite.
Querem contar-me qual era o motivo de celebra��o?
Eu sabia que voc�s os dois estavam metidos em sarilhos!
- Cala-te ou parto-te a boca. - Sossega, idiota!
Calma! J� que s�o t�o amigos e gostam tanto um do outro...
contem-me como se conheceram.
UM M�S ANTES
Ambrogi!
- Scord�a! Ambrogi... - Sou o Scord�a. Bom dia.
Estamos � espera do outro finalista, Ambrogi. Segure neste cartaz.
Espero l� fora, estou mal estacionado. Despachem-se!
PR�MIO SOLINAS
- Cheguei! - Deves ser o Ambrogi.
Chama-me Luciano, n�o fa�amos cerim�nia. Leva-me a dar uma volta...
- Estou desejoso de conhecer Trastevere. - Eu n�o sou...
Tudo bem, vamos l� ganhar esse pr�mio. Onde est� o carro?
- N�o parecias nada um motorista. - Qual � o aspecto de um motorista?
Parecido comigo, um trabalhador. Ele � demasiado elegante e intelectual.
- A famosa fonte barroca! - N�o � barroca, � de 1901.
Obra de Mario Rutelli, oriundo de Palermo.
P�ra com isso, sabich�o, preciso dos 25 milh�es de liras do pr�mio.
- Fica com a men��o honrosa. - S� cinco milh�es de liras?
Nada mau! E se divid�ssemos aquilo que ganharmos?
- H� um terceiro finalista. - Ele que se lixe.
- Isso n�o � �tico. - N�o � �tico?
Roma excita-me! As c�pulas em forma de seios, o tr�nsito, os pol�ticos corruptos...
As prostitutas, La Dolce Vita! Ol�, lindas, ol�!
Hei-de voltar! Ganhamos o pr�mio, voltamos aqui e compramo-las todas.
Somos os finalistas.
Ambrogi e Scord�a? Sigam-me, o caminho � por aqui.
Eu acompanho-os. Posso?
Por aqui. Parab�ns. Virgilio Barone.
- � muito am�vel. - Abram alas para os finalistas.
Fizeram muito bem em concorrer.
Eu nunca pude participar uma vez que conhe�o os membros do j�ri.
Ugo, Lina, Mario...
Mas quando me oferecem um papel nos filmes, aceito sempre.
Giorgio. Fulvio. Piero. Leo.
� melhor n�o incomod�-los, est� a decorrer o Argentina-Camar�es.
Emma, tudo bem? Li o que escreveste, liga-me.
Eles s�o os finalistas. Vamos tirar as medidas ao bufete.
No ano passado, o Gillo encomendou ouri�os-do-mar frescos para o Franco.
Camarada, amigo, irm�o, escritor. J� conhecem a filha dele, Francesca?
- Como est�? - Bem.
- Eis os finalistas. - Toscano?
- Siciliano? - Exactamente.
- Annamaria! - J� vou.
Finalmente conhecemo-nos! A outra finalista: Malaspina.
- Eugenia, eis os teus advers�rios. - Uma advers�ria. Luciano.
- Est�s gelada, sentes-te bem? - As minhas m�os est�o sempre frias.
- Isto � uma loucura... - A mesa � por aqui.
Primeiro v�o conhecer informalmente o j�ri, e depois eles v�o trucidar-vos.
Volto j�.
- Felizmente aqui tamb�m h� grelo. - Perd�o?
Grelo! Topa-me s� aquela ali, como � que se chama?
- N�o � o Jean-Claude? - O Jean-Claude Bernard, queres tu dizer?
Ma�ador e pretensioso. Como todos os actores franceses.
Na realidade, ele � meio italiano. Como o Yves Montand...
- O verdadeiro nome dele � Ivo Livi. - �s uma seca.
Tens a mania que sabes tudo. O que est�s a fazer?
- Cobre-me. - O que � isso?
- Fendimetrazina. - Tomas speeds?
De que outro modo conseguiria enfrentar situa��es deste g�nero?
- Queres? - Talvez mais tarde. Tens erva?
N�o, fico agitada. Talvez...
- "Poppers", queres? - Ainda nos desqualificam por causa disto!
Cara�as, estou pronto para tudo!
Malaspina?
Parab�ns. Chamo-me Eleonora, sou a assessora de imprensa.
Venha sentar-se com o presidente do Banco Central e o director da RAI.
Por favor, n�o, n�o posso ficar aqui?
Est�o l� tamb�m o Cristaldi e o Cecchi Gori. Lalla Stanza quer entrevist�-la.
N�o, obrigada, fico aqui. Estou com os meus amigos.
Cheiras t�o bem!
� hora de... surpresas!
Aquela �... quem eu julgo que �?
� ela que vai apresentar a cerim�nia. Depois do Celentano e do Pozzetto,
fez uns filmes de autor, e ganhou um La�o de Prata com o Ferreri.
- Quando � que apareceu na Playboy? - Isso j� n�o sei.
Venho j�. Se n�o voltar, n�o fiquem � minha espera.
- Quem � ela? - A s�rio que n�o sabes?
Ol�, tu n�o me conheces mas eu conhe�o-te muito bem.
Estivemos juntos no meu quarto milhares de vezes, como se f�ssemos amantes.
- Quem �s tu? - Luciano Ambrogi, o vencedor.
- J� ganhaste? - N�o, mas podias recompensar-me.
Recompensar-te, filhote?
D�-me as tuas calcinhas, para eu provar aos meus amigos que te conheci.
J� podia morrer feliz.
Querido, n�o uso roupa interior.
Deixa-me ver, suplico-te.
- S� gosto de homens maduros. - Eu sou maduro, tenho um filho.
Estes convencidos sempre me trataram como merda.
Nunca me ofereceram nenhum papel, mas est�o sempre a atirar-se a mim!
E agora pediram-me para ser a apresentadora.
Afasta-te, filhote. N�o quero uma radiografia ao corpo todo.
V� l�, mostra!
- Tem calma. - Estou calm�ssimo.
Ai Nossa Senhora!
�s uma lenda!
- �s uma Marilyn, uma Nilde lotti... - Nilde lotti?
Eu n�o conto a ningu�m.
Ningu�m iria acreditar em ti.
E pronto... acabou o espect�culo.
Roma!
- Desanda. - Quero ficar aqui para sempre.
Claro!
O pr�mio para melhor argumento vai para...
- � este o t�tulo? - Sim, l� l�.
�leo, de Antonino Scord�a.
Bata palmas, porra.
N�o ganhaste.
Bravo!
Bom trabalho.
N�o quero aborrecer-vos, mas tenho de fazer alguns agradecimentos,
�s extraordin�rias pessoas que contribu�ram para a minha educa��o,
nomeadamente a minha professora de italiano e latim, Maria Carla Pasciuto...
Que amabilidade, Antonino! Muito obrigado!
Um beijo.
Nos anos 60, toda a gente ia ao Checco,
mas depois mudaram para o Nino na Via Borgognona,
o Otello na Via della Croce, mas agora que t�m menu do dia,
voltaram ao Checco.
Ettore, Mario, Citto, a maravilhosa Lina...
- N�o t�nhamos combinado dividir o pr�mio? - Tu � que disseste isso.
Tu tens o teu pr�prio cheque.
A m�tica Suso, j� para n�o falar do Marcello...
Quase toda a gente, j� percebemos, obrigado.
At� o Tullio, o Ennio, o Dino...
Fizemos com�dias, dramas, e at� westerns.
E agora s� fazemos merda.
Vamos dar lugar aos jovens!
- Os finalistas do pr�mio Solinas. - E uns grandes idiotas.
Chama-lhe o que quiseres, Uni�o de Esquerda, Uni�o Socialista...
O Furio zangou-se com o Mario e agora escreve com o Suso, o Piero, e o Leo.
Ou por outra, o Suso fala, o Piero escuta e abana a cabe�a.
Esparguete com queijo ou molho de tomate?
N�o como esparguete, tenho problemas com coisas compridas.
O meu primo tamb�m, sofre de ansiedade de asfixia.
� realmente uma pena que tenhas problemas com coisas compridas, entendes?
- Onde vais? - Tenho de fazer um telefonema importante.
Parab�ns!
Quero o mesmo de sempre: esparguete com queijo, com chic�ria ralada.
Pede por mim. D�-me licen�a.
Fulvio, meu caro!
- E tu? - Eu, o qu�?
Tens namorado? �s de Roma? �s l�sbica?
- Isso s�o muitas perguntas. - Escreveste o qu�?
Autobiografia, hist�ria, drama...? Com�dia n�o � de certeza.
S� escrevi isto, demorei dois anos e acho que n�o vale um chavelho.
Isso deixa-me ansiosa.
Demos um aperto de m�os! Dei um aperto de m�os ao Zappellini.
E agora h� um turbilh�o de energia. � incr�vel, Caterina.
Tu e os teus colegas n�o passam de charlat�es!
Todos armados ao pingarelho!
- D� c� isso. - Tem calma! Isto n�o � porcaria nenhuma.
Os di�logos s�o mesmo bons.
V�o bem al�m da cena.
- Est�s a fazer pouco de mim? - Pelo contr�rio...
Gosto tanto que te vou roubar. Vou reescrever e torn�-lo ainda melhor.
Desculpa? N�o estou a perceber.
N�o fui eu que escrevi, foram as personagens. Est�s a roubar-me o qu�?
Anda.
Em que sentido?
Ganhei um cheque de 25 milh�es de liras!
Est�s louco?
Desculpa, eu n�o sou vaginal.
Tenho problemas com penetra��o. Est�s a ser muito insistente
e fascista. P�ra! - Eugenia! Espera...
Pontani? Mestre! Vi todos os seus filmes.
S�o lentos, mas t�o belos!
Agora estou a jantar, Caterina. Com pessoas do teatro...
- Esqueci-me de escrever uma p�gina... - Como � que te atreves?
O que se passa?
Est�vamos a conversar sobre como as pessoas falam e porque...
Sim, mas eles est�o a discutir porqu�?
O cinema � muito mais do que dollies and zoom-ins!
Impostor!
A senhora desculpe, mas est�o a discutir porqu�?
O Alberto come�a a filmar na segunda-feira e o Vincenzo n�o entregou o argumento.
� baseado num livro que n�o leu.
Tu disseste: "O romance tem uma estrutura s�lida..."
V� o que eu fa�o com a tua estrutura! Vai buscar.
Era daquele livro que eu estava a falar!
Muito bem, palmas!
Estou sempre a ser importunada por p�nis.
N�o estou zangada, entendes?
- Mas fazem-me sentir claustrof�bica. - Compreendo.
E n�o podia escrever o senhor? Pagava-lhe o seu peso em ouro.
Como? J� estamos atrasados com o Fantozzi.
- O Marione vai matar-nos. - A senhora escreve, realiza ou interpreta?
N�o, eu sou a escrava destes palermas.
A Giovanna � "a" advogada, agente e deus ex machina.
Eu escrevo o argumento. Aceito um d�cimo do que eles ganham.
Mas �s capaz? Ou �s um incompetente como todos os jovens?
Trago amanh�. Posso ficar com o livro?
Mas tu quem �s?
Ambrogi, finalista. Quase ganhava, mas o sonso do italiano levou a melhor.
- Ele � bom, como dizia na carta. - Qual carta?
Tamb�m te amo, Caterina. Adeus, meu amor.
Bem...
"Caros companheiros, Ettore e Giuliano, leiam a obra do jovem Luciano,
filho do saudoso Ambrogi...
esgotado pelo combate pela emancipa��o dos trabalhadores."
N�o se ri de coisas destas!
Que cretinos!
O que significa "esgotado pelo combate"?
- Desculpa mas vou-me embora. - N�o v�s. � uma piada!
Foram uns amigos toscanos... Como no vosso filme Oh! Meus Amigos...
- S�o mesmo cretinos. - J� tens o teu cheque.
Os trabalhadores toscanos podem ficar descansados.
Desculpe, onde � que tenho de entregar o argumento?
- Amanh� levo-te l�. - Esta merda deixou-me esgotado.
Adeus, at� � vista, vai levar no cu.
Estou na reina��o.
Pensei que compreendia as coisas.
Porque motivo escrevo, porque � que estou triste, porque � que estou triste...
Est�s a rir porqu�?
- N�o acredito que disseste isso. - O qu�?
- Ningu�m sabe porque est� triste. - Porqu�? Quem � que est� triste?
Tu que �s de Roma, conheces alguma pens�o barata ou parque de campismo?
- Tenho mesmo de trabalhar. - Estou em casa de uma tia, que � directora.
- Fica na Via dei Consoli, � perto daqui? - N�o sei.
- Diz "Guidonia". - Isso � muito longe. Que horas s�o?
Venham ver uma coisa sublime. Venham!
- Tenho de trabalhar. - Despacha-te, corre.
- Jovens cheios de pressa! - V�o � festa de encerramento do Carlo?
Por aqui, despachem-se.
Minha querida, n�o te via h� tanto tempo.
Importam-se de dormir em minha casa?
Perd�o?
Importam-se de dormir em minha casa?
- Quando olham um para o outro... - Podes crer...
Esse �leo que me ficou com o pr�mio � sobre qu�? Um lagar de azeite?
O subt�tulo explica: "A Vida Imagin�ria de Antonello da Messina".
- Perdeste o in�cio... - � a hist�ria real com recorte on�rico
do mais inovador dos pintores italianos, que era da minha cidade.
- Antonello da Messina, est�s louco? - N�o � uma narrativa biogr�fica.
�leo cont�m importantes elementos inovadores de linguagem cinematogr�fica,
inspirado por elementos visuais de incr�vel impacto.
Ele s� pode estar a gozar comigo!
H� grandes produtores interessados, tenho uma reuni�o marcada com...
D�-me um beijinho. Est�s com muita tes�o?
- P�ra! - O sabich�o n�o sabe s� de cinema!
- Quais s�o as tuas habilita��es? - Um mestrado e um doutoramento.
- Quem mora aqui, o presidente da c�mara? - O secret�rio do partido comunista.
O Occhetto mora aqui? Vamos tocar-lhe � campainha,
o meu amigo Armando est� lixado porque ele quer mudar o nome do partido.
- Pol�cias... V�o prender-nos. - Est�o a dormir.
N�o tem o nome, vou tocar em todas.
Fujam!
Mas que porra est�s a fazer?
Para onde vamos?
C'um cara�as, vives aqui? Deves ser rica.
� tua ou � alugada?
- A menina � fina! - Que apartamento bonito.
O teu pai � magnata, traficante ou fugiu ao fisco?
- N�o me irrites. - D�-me o teu cheque, n�o precisas dele.
- Deixa-a em paz. - Est� bem, ent�o d�-me o teu.
Luciano, pe�o-te com bons modos que me devolvas isso.
Por gentileza.
D�-me isso, j� te disse! Eu mato-te!
- Imbecil. - Estava a gozar.
- �s uma besta, fizeste-o chorar. - � s� um cheque.
- Desculpa, amig�o. - Preciso de abrir uma conta em Messina.
- Eu n�o tenho conta banc�ria. - Nem eu, ela tem uma conta na Su��a.
Eugenia, isto � um Morandi?
- Uma r�plica perfeita. - Deram-me de presente aos 18 anos.
Mas � muito valioso, j� pedi � minha m�e que o levasse.
Vamos vend�-lo, compramos um pr�dio e vivemos todos juntos.
Que pivete! S�o os teus p�s ou tens um cad�ver debaixo do sof�?
N�o durmo contigo.
- Posso dormir na tua cama? - N�o, j� fal�mos sobre isso.
- Falaram sobre qu�? - Nada de penetra��o, fa�o-te festinhas.
N�o me obrigues a dormir com a cabe�a junto aos p�s de um tipo do sul!
Quando os meus primos vinham no Natal tamb�m dorm�amos assim.
- Era s� rir! - "Era s� rir"!
- J� te fa�o rir, puxa. - Desculpa?
Puxa!
- Cheira l�. - Que nojo.
Isso n�o � uma gargalhada, � um prolapso da traqueia!
Est� a sair-te da orelha!
- Ofendi-te? - Nunca ouvi nada assim... ao vivo!
Porque os teus amigos n�o se peidam, v�o a est�ncias de ski.
As est�ncias de ski s�o deprimentes. Assalariados de barretes garridos.
- Podes dormir comigo, confio em ti. - Eu?
Obrigado, se insistes...
Lindo pijama. O facto de ela confiar em ti n�o � coisa boa.
Eugenia, meu amor. D�s-me um daqueles comprimidos para ficar acordado?
Est�o na bolsa preta em cima da mesa.
- Tomo quantos? - Um, dois.
Vais ficar bem acordado.
- Capit�o. - Sim, Savatteri?
Ap�s um exame detalhado, que n�o revelou vest�gios de �gua nos pulm�es,
pode concluir-se que a morte de Saponaro n�o resulta de afogamento.
Importa-se de traduzir em linguagem que estes jovens entendam?
Ele j� estava morto quando caiu � �gua.
Obrigado.
Vamos prosseguir. E depois?
- N�o dormiste? - Ainda me faltam seis cenas.
- Fiz muito barulho? - Adoro ouvir-te a escrever � m�quina...
e com a respira��o do Antonino n�o preciso de Bromazepam.
- Fartaste-te de escrever. - Podes numer�-las? J� que aqui est�s...
Conta-me como acaba: O Carlo morre, casa com ela, tem filhos?
Est�s louco.
- J� foste a Viena, � �bvio. - �bvio.
- Descreve-a com dois adjectivos. - Viena �... limpinha.
- Opulenta, enjoativa, vazia. - Opulenta, perfeito.
Depende do bairro...
A Lina esteve l� com o Enrico, o encantador Gigi com a Lucia.
A deslumbrante Monica com o Roberto. O majestoso Vittorio com a Diletta.
O Ettore e a Gigliola, Furio e Cora, Bernardino e Fran�oise.
- Nino e Erminia... - J� percebi. Por aqui?
N�o, por aqui. Depois o Franco e Zeudi, Vittorio e Rita...
Est� bem.
Ambrogi? A doutora vai receb�-lo.
Espera aqui. Obrigado.
� esquerda ao fundo do corredor.
Fecha a porta, por favor.
Desculpe.
Obrigado.
Ent�o?
Como � que isso corre, jovem?
Tens feito progressos?
Acabaste numa noite? Mas isso � not�vel.
Aposto que � trabalho de m� qualidade. Porque � que est�s t�o calado?
- Aquele era o Mastroianni? - Est� a chorar?
- Aos solu�os. - Pois, aquela vadia deixou-o novamente.
Depois passa-lhe. Filhote, precisas de dinheiro.
- N�o � verdade? - Dava jeito.
Aqui � s� gente velha, gasta mas com contratos s�lidos.
- Queres ser fantasma? - Fantasma?
Escrever para outras pessoas sem assinar.
O Vincenzo � que recebe cr�ditos por isto. Mais � frente logo se v�.
- Quero l� saber de cr�ditos. - Esse � que � o esp�rito!
A maioria dos jovens escreve uma bosta qualquer e acha-se logo um Rossellini.
Gostava de ler o teu argumento, ouvi dizer que n�o era mau, bem bom.
N�o diria que � bom, mas as pessoas gostam.
N�o me digas que queres ser realizador!
O que aqui n�o falta s�o jovens que n�o fazem porra nenhuma, como o Fosco, Maldestri...
- Jovens? - Est�o na casa dos 60-65... mais jovens.
Vais come�ar a trabalhar com o Ennio, o nosso melhor fantasma. Achas bem?
Perfeito. Mas...
A vadia que acabou com o Mastroianni �... a Deneuve?
Ennio, interrompo-te?
Tenho aqui um novato rapid�ssimo.
- O pap� est� a ler o que tu escreveste. - V�o fazer um filme a seguir?
- N�o sei. - Aposto que morrem todos no fim.
� a hist�ria de um cemit�rio.
Parem com isso, meninas.
O presidente.
Sim?
Estou a comer, mas n�o tem import�ncia.
Sim, � um bom nome.
Mas o director-geral devia ser dos liberais.
Eu trato do assunto. Obrigado.
Ent�o sou eu?
- Quem? - O homem vazio?
O rapaz idealista que se tornou num c�nico.
N�o exactamente.
- Est� bem. - Quer dizer que n�o gostaste?
N�o comeces, o pai n�o disse isso.
- Quem vai ser? - Quem vai ser o qu�?
Eu? Quem vai fazer de mim?
O papel de Carlo...
Escrevi-o a pensar no Jean-Claude Bernard.
- Que tolice a minha. - Quem � esse?
- O actor franc�s. - Entrou em Cr�nicas de Inverno.
S� entra em filmes s�rios, nunca aceitaria...
Giulio, podes meter uma cunha?
- Logo se v�. - N�o, mam�, pap�. Por favor, n�o...
Porqu�? Tu tamb�m mereces uma gratifica��o.
Antonino Scord�a!
- Entre. - Que amabilidade, obrigado.
Reconhece-me?
- N�o me reconhece. - Sinceramente, n�o estou a ver quem �.
N�o tem import�ncia. Com que ent�o � argumentista?
Ou por outra, espero vir a ser.
N�o seja modesto.
Se ele quer encontrar-se consigo, � porque o seu material s� pode ser bom.
Espero que sim.
� para chorar, rir, ou provocar medo?
Obriga-nos a pensar, em certo sentido.
Formid�vel! Isso faz falta, hoje em dia.
Um conselho: deixe que seja ele a falar.
Oi�a e aprenda.
E n�o tente explicar-lhe as cenas, mas se ele pegar na bomba de asma,
tome a palavra para que consiga recuperar o f�lego.
Est� bem.
- Como vai isso? - Vai-se andando, n�o v�?
Chica-esperta...
Tesouro, est�s a ouvir-me?
N�o, n�o estou a ouvir-te.
S� eu, a Giusy, e o Montezemolo � que temos isto.
N�o consigo ouvir. Se me est�s a ouvir, fala mais alto.
Percebeste o que eu disse?
Estou a falar mais alto, mas tu n�o me est�s a ouvir.
- Agora j� te estou a ouvir. - Porque estou aqui.
N�o oi�o porra nenhuma. Mas o do Montezemolo tamb�m n�o funciona.
Isto nunca ir� pegar, � demasiado volumoso.
Claro que funciona, s� tens de carregar no bot�o verde.
Como respondo ao pedido de entrevista?
Entrevista? Sei l�, sai daqui.
- Como est�, jovem? - Muito bem.
- J� lhe ofereceram caf�? - Estou bem assim, obrigado.
Jovem, o que lhe posso dizer?
O seu argumento � cinco estrelas, sensacional.
Dos melhores que j� li.
E, n�o � para me gabar, n�o fazemos s� cagada, at� ganh�mos...
- Uma Palma de Ouro. - O Encerramento do Pontani � uma obra-prima.
O pr�mio foi contestado de forma injusta porque uma certa cr�tica
achou que o melhor trabalho de Pontani esteve a concurso dois anos antes, mas...
Nem me fale nessa merda!
Ganh�mos a palma de ouro, assunto encerrado.
- N�o tenho raz�o? - Tem sim senhor.
Mickey Rourke.
N�o estou a entender.
Para fazer o papel do outro, o protagonista.
- Antonello? - Sim.
Espero que n�o me leve a mal, mas � capaz de ser...
um pouco jovem demais.
Tudo bem, faz o papel do melhor amigo.
N�o h� melhor amigo, desculpe.
Pode fazer de pintor amigo, mas...
mas tem de ser um daqueles famosos, como o Caravaggio.
O Rourke no papel de Caravaggio era bestial.
N�o parece convencido.
Bem, o Caravaggio �...
Isso seria de uma monumental inconsist�ncia cronol�gica.
Uma qu�?
Se quisermos determinar uma figura relevante dessa era...
- Vamos l� determinar. - Isso, determine l�.
Segundo alguns documentos, Antonello conheceu Bellini.
Ainda n�o era t�o famoso como viria a ser, mas talvez funcionasse.
- J� tinhas ouvido falar neste Bellini? - O cocktail?
Sim, na realidade a bebida � uma homenagem � toga cor-de-rosa
de um santo num quadro dele.
Quem diria? Perfeito. Estou convencido.
O Rourke pode fazer de Bellini.
Estou?
- N�o se ouve porra nenhuma! - O bot�o verde.
- Que bot�o verde? - � este aqui.
Veja l� agora.
- Estou? - Est�s a ouvir-me, amor?
Agora sim, estou a ouvir-te! Esta coisa � brutal.
- Vem c�, tesouro. - Aqui estou.
Estou farto disto.
Estava a dizer aqui ao nosso amigo...
que ele devia dar mais destaque ao papel da namorada do Antonello.
Para o meu tesouro ficar contentinha...
Ela seria perfeita, n�o � verdade? Foi escrito para ela.
A namorada...
Consta que Antonello casou-se bastante cedo
com Giovanna Cumminella. Por isso, quando muito faria de mulher dele.
De mulher dele? Mas qual mulher?
E vai fazer o qu�? Limpar, passar a ferro e coser?! Nem pensar!
Que tristeza!
Malaspina!
Bem-vinda, vem c�. O Gianni n�o p�de vir receber-te.
- Mas mandou cumprimentos ao teu pai. - Ao meu pai?
- Onde est� o Jean-Claude? - Vamos filmar a cena 39.
Algu�m v� chamar o Jean-Claude!
Leva-lhe caf�, diz-lhe que a pausa acabou, d�-lhe o teu gui�o.
- Ele est� ali dentro. - Eu?
Sim, ele n�o morde. Mexe-te. Mimmo!
Perd�o, est�o a dizer que a pausa acabou.
- Fecha a porta. - Est� bem.
Vou deixar o caf� aqui.
D�i-me, d�i-me muito aqui.
- Aviso que n�o se est� a sentir bem? - N�o, vem c�.
Est� bem.
Senta-te, por favor.
- D�-me a tua m�o. - Est� bem. Aqui?
- Sim. - Uma massagem no pesco�o?
N�o tenho muito jeito.
Tenho uma tia que me alivia as dores de cabe�a com simples press�es.
- �s muito am�vel. - Obrigada.
- �s um doce, obrigado. - Obrigada eu.
Espera...
Aqui tamb�m.
Isso! � mesmo a� que me d�i.
Muito bem!
Espera.
�s a vida...
a minha salva��o!
Eu tamb�m o admiro muito.
Jean-Claude!
O Mimmo quer ensaiar.
J� estou a ir.
Obrigado.
Fico aqui � espera?
Fico aqui � espera?
N�o �s a Daniela?
- Obrigado. - Obrigada eu.
� aqui que me d�i.
�s a vida...
A minha salva��o.
N�o acredito em ti, �s um cobarde.
Corta! Perfeito, Jean-Claude.
Sorri menos. Veronica, estavas muito bem.
Vamos filmar outra take. Pode ser?
Aquela n�o � a Daniela?
- Eu � que sou a Daniela. - Pe�o desculpa!
Quem � aquela?
Esta � bastante boa.
Mas esta est� uma merda.
Esta n�o � m�, � c�mica.
Aqui est�.
No epis�dio quatro, a Greta descobre que o Vincenzo a traiu.
No fim, Annapaola regressa e fica � nora.
- Percebeste? - Percebi.
- Bravo. - Obrigado.
Pronto, j� est�.
Um... e dois.
- Obrigado, Ennio. - Traz-me tudo amanh�.
Est� bem, obrigado.
- Como � que isso corre? - O segundo epis�dio est� quase pronto.
Boa. E tu?
- Est�s a divertir-te? - Sim.
- O que � que tens para mim? - Por agora, nada.
Mas se precisar de alguma coisa, a advogada disse que...
Tu � que �s o ma�arico, vamos l� ver do que �s capaz.
- Aldo? - N�o!
- Juro que fiz o que me pediste. - E aposto que � uma foleirice.
Este � o primeiro epis�dio de uma nova s�rie.
Queremos que os espectadores se apaixonem pela nova mulher do comandante.
Felizmente, escolheram uma actriz menos merdosa.
Ao menos agora podemos escrever cenas em que ela se zanga.
Perfeito, vou fazer com que ela se zangue.
- N�o o vou desiludir. Para amanh�? - Para agora.
Luciano, nem calculas como � fant�stico o cinema italiano.
Cinema de autor e cinema popular: A palma de ouro e as com�dias er�ticas.
Foi na Royal Film que assisti � palma de ouro do mestre Pontani.
- Eugenia... - Eugenia! Vi o Mastroianni a chorar.
Juro! Tamb�m arranjei um trabalho, posso ficar c� mais uns dias?
- Passa-se alguma coisa? - Tive um encontro.
Um... encontro �ntimo?
N�o posso falar agora, foi de doidos. Ainda estou a digerir.
Se precisares de falar, estamos aqui.
- N�o me deixem sozinha! - Tamb�m queria pedir-te...
se podia c� ficar mais uns dias, o Saponaro convidou-me para uma recep��o.
- Leandro, amig�o! - Marione!
- Como vai isso? - Estamos a ver o Carnevale levar um golo.
Esquece l� o golo, vamos comer!
- Isso, vou p�r umas costeletas na brasa. - Boa ideia!
- Ainda queres caf�? - J� n�o quero.
Menos mal.
Os argumentistas Ambrogi, Scord�a, Malaspina. O grande Nino.
- Director da RAI. - Muito prazer. Luciano.
- Como est�? - Muito prazer. Scord�a.
- Actriz? - Espero que sim, tenho uma audi��o marcada.
Nino, espero que venhas � entrega do Guarda-Rios de Ouro...
Como est� a correr a rodagem? Est�s cansado?
O que � que achas dos di�logos?
Aqui a Simona seria perfeita para o papel da irm� do advogado.
Mostra-lhe l�: "Giorgio, n�o te preocupes com a minha felicidade".
J� chega. Ainda tem de treinar. Boas filmagens!
Como � que sabe tanta coisa sobre o meu filme? Quem � o senhor?
- Ningu�m. - Quem � o senhor?
Querida Malaspina! Como correu? Soubeste alguma coisa...
- do Jean-Claude? - N�o.
Diz ao teu pai que vos apresentei. Claudio Giovannini.
Fa�o-lhe uma visita para a semana.
Sabe, caro Scordia, contemplei pela terceira vez esta semana suicidar-me.
Estou exausto, farto. Leonardo!
Caro amigo! Leste o fax que te enviei?
Ent�o l�. Ligo-te daqui a uns dias.
Brunch...
Viemos para o "brunch".
- O que � um brunch? - Uma mistura de pequeno-almo�o e almo�o.
Olhem com aten��o, escutem e observem.
E quando escreverem sobre eles, com ironia, claro,
n�o se esque�am de mostrar alguma pena por eles.
E tamb�m por voc�s.
Eis o nosso anfitri�o.
Que honra, caro Fulvio!
� muito am�vel.
Obrigado, obrigado.
Antonino... onde se meteu aquele idiota?
Antonino? Antonino?
C� est� ele. O mestre gosta de n�s.
- Decidiu dar-nos uma ajudinha. - N�o tenhas medo.
Eles parecem insens�veis, mas se procurares, ver�s como s�o realmente!
O grande mestre mata-me.
Este � que � o teu padrinho. Foi gra�as a ele que ganhaste o pr�mio,
e agora vai dar-nos uma m�ozinha.
Com a revis�o dele, o teu argumento vai ficar � prova de bala!
- � ou n�o �? - J� viram as tretas que os produtores dizem?
"Um argumento � prova de bala", anotem.
Mestre, o seu interesse genu�no � uma honra para mim
pois sou um admirador confesso dos filmes que escreveu com Bargelli,
obras que combinam entretenimento popular
com rigor filol�gico e sobretudo uma indomin�vel paix�o humana
e civil que...
Ele pode ser jovem, mas � barra pesada.
� um filho da m�e!
� a Ludovica, n�o �? Venceu o pr�mio no ano passado.
Ouvi dizer que � muito inteligente, quando fazemos o seu filme?
- Ainda est� a escrever, deixa-a em paz. - Ligue-me quando quiser.
Comemos um peixinho fresco no Quinzi & Gabrieli.
Jovens!
Despe�am-se do famoso produtor de cinema Saponaro.
Vamos.
- O empad�o est� quase pronto. - Anda, Ludovica.
- Liga-me. - Assim farei, mestre. Obrigado!
- Tesouro, podes vir aqui? - Est� bem.
- Antonino... - Preciso que me d�s um conselho.
O que achas melhor: este vestido de ver�o ou um fato de banho
muito decotado, assim?
Esse faz-te parecer uma prostituta,
veste o fato de banho, � mais f�cil de despir.
Obrigada, Sra. Saponaro. Ainda bem que gosta.
Foste tu que ganhaste o pr�mio?
Estou pronta, falta-me s� arranjar o cabelo e podemos come�ar.
Depois p�e tudo no s�tio, logo � noite tenho convidados.
Esteja descansada, Sra. Saponaro.
- �s o novo brinquedo do Leandro? - Perd�o?
Tem cuidado, o meu marido n�o � mau, mas � est�pido.
N�o julgues que o odeio,
ele j� se odeia o suficiente.
E isso d�-me muita pena.
Se algu�m gostasse verdadeiramente dele,
faria o que fosse necess�rio para o impedir.
No fundo, a salva��o dele seria morrer.
O seu argumento � sobre qu�?
Chama-se: �leo: A Vida Imagin�ria de Antonello da Messina.
Per�odo siciliano ou veneziano?
Num certo sentido, ambos.
Porque no seu leito de morte v� a vida passar � frente dos olhos
simultaneamente de forma realista e on�rica.
- On�rica? - Sim.
O meu marido jamais far� esse filme.
Foge enquanto podes, querido.
Meninos, vamos! Vamos deixar o pai brincar.
Ele que fa�a figura de palha�o.
Muito gosto, minha senhora. Foi um prazer.
- Quer uma salsicha? - N�o, a carne deixa-me agitada.
- N�o queremos que fique agitada. - Os meus amigos abandonaram-me.
Acho que me vou embora.
Tire as m�os!
- Menina, est� tudo bem? - Sim, est�vamos s� a expressar o nosso amor.
O Luciano � outro dos finalistas.
- Ah est� bem... - Viva!
- De onde � que te conhe�o? - Conheces-me?
Claro que sim!
Entraste naqueles filmes todos com o Maurizio Merli e o Tomas Milian!
Roma � M�o Armada, Roma Violenta!
Aquela cena super sensual com a Barbara Bouchet! D� c� cinco, meu!
Antonino, vem c�! Despacha-te!
- Sabes quem � este? - O motorista do Leandro...
O tanas! Em quantos filmes � que entraste, 200?
Uns 87.
E �s motorista agora porqu�, o Saponaro n�o te escolhe para filmes?
Eu n�o era grande actor, sabia fazer acrobacias e persegui��es,
lutas... Uma vez por outra, l� tinha uma fala ou um grande plano...
Desculpa, Gianfranco, n�o sabia que eras um �cone de filmes de culto.
Um �cone? O teu amigo est� a gozar comigo?
Eram filmes a s�rio, e o Saponaro foi o primeiro a dar-se conta disso.
Ele produziu O Encerramento do Pontani.
Ganhou muito dinheiro com os nossos filmes,
foi o cinema de autor que o arruinou.
A mulher ficou-lhe com a casa, mas o Saponaro � um dos grandes,
tem uma sensibilidade enorme.
Puta que pariu, Gianfranco! Que droga!
- Que se passa? - O empad�o queimou-se!
- Ajuda-me. - Calma, p�e-se mais umas costeletas na brasa.
Boa ideia, companheiro.
- P�e estas costeletas na grelha. - Tesouro, vem c�!
J� vou.
- Quem � o Saponaro? - Um produtor...
Pega no meu roup�o.
Despacha-te l� com essa porcaria.
O Saponaro fica atr�s.
Atr�s? O Leandro devia ficar � minha frente.
Vem c�, tesouro.
Por acaso, esta Sic�lia...
enevoada e miser�vel...
parece-me bonita.
O Germi fazia-a parecer...
deslumbrante, toda a preto e branco.
Tu tornaste-a desbotada, bom trabalho.
Obrigado.
N�o sejas como aqueles ot�rios que deixam o realizador definir o tom,
que depois o delega no director de produ��o...
O Dickens tinha um director art�stico, um figurinista ou um director de fotografia?
Estou a fazer-te uma pergunta!
N�o... certo?
Que mais � que te posso dizer? Parece que n�o olhas � tua volta.
- Quem? - Quem � que achas? Tu!
Quando retratas o presente, sou eu, tu, as tuas virilhas,
os teus intestinos...
Caso contr�rio, mais vale fugires para 1463,
para a �ndia ou para o Pa�s dos Brinquedos,
o que, no fundo, � a mesma coisa, e tornam-se todos burros.
Estamos a tentar trabalhar! Desculpa, Gillo.
Ligo assim que puder, tamb�m te amo.
E se olhasses atrav�s da janela?
Ent�o n�o gostou?
N�o percebeste porra nenhuma.
N�o.
O que � que se passa aqui?
Que fofos, parecem macacos amestrados.
Est�o a bater teclas ao calhas, n�o �?
Fulvio, fizemos uma escala.
Diga-nos se n�o presta ou se podemos dividir o trabalho.
De certeza que n�o presta.
Nem ou nenhum?
Est�s a falar comigo?
Podem ser ambos adv�rbios e conjun��es,
depende do contexto e da concord�ncia.
Pessoalmente, prefiro "nem mesmo".
Embora a palavra "nem" lhe confira um lado c�mico.
- � verdade, obrigada. - De nada.
Anda c�.
Concordo consigo, quero olhar atrav�s da janela.
L� est�s tu com o teu pretensiosismo cin�filo!
Est�s convencido de que uma c�mara � a solu��o para tudo.
Isso � neglig�ncia criativa, por conseguinte pol�tica e narrativa!
- Mas eu tentei incluir... - E o sofrimento!
Onde est� o sofrimento? Se n�o existir sofrimento, ningu�m se ri.
Como � que � poss�vel? Onde est� a subst�ncia?
Teria Tot� existido sem mis�ria e fome?
Ou o Charlot sem morte e melancolia?
Onde est� a sombra, o tom? Nem p� deles!
Restam apenas uns exteriores em tons de merda de Roma no Ver�o
com actores mal vestidos e com a maquilhagem a escorrer-lhes pela cara,
e os 18 figurantes do costume fingindo que est�o ali a passar.
- Fulvio, eu espero aqui. - Vou j�.
N�o podes olhar para ela, entendido?
At� dirigir-lhe a palavra
� um insulto � minha pessoa, percebeste? Diz que sim.
- Sim. - Agora podes sair.
- Gosto muito de ti. - Eu tamb�m.
Abrevia o final.
Ali�s, elimina-o, os finais n�o servem para nada.
O tempo a passar n�o te chega?
Haver� algo mais belo
e terr�vel de transmitir do que a passagem do tempo?
Liga-me quando quiseres.
Deixa o teu reles produtor fora disto. Ali�s, diz-lhe que...
se o volto a ouvir pronunciar a palavra "jantar" mais uma vez...
Jantar... a ela...
Mato-o com as minhas pr�prias m�os. D�s-lhe o recado?
Certamente.
Estou � procura de Fosco, o realizador.
Tamb�m eu, estamos todos. V� ver al�m.
- Al�m? - Sim.
Fosco!
Empurra.
Vim cedo demais, estava a descansar?
N�o, estava a pensar em enquadramentos. Senta-te.
Oferecia-te caf�, mas com este frio bebi-o todo.
- Mas estamos em Junho. - Pois, mas esta maldita pleurite...
Aceitas uma pinguinha de vinho?
- Dividimos. - N�o, obrigado.
Ora bem, a tua hist�ria � atroz, medonha.
- N�o gostou? - N�o � isso, eu quero fazer o filme...
Mas n�o nos deixam.
O in�cio � alucinante! O suic�dio do trabalhador...
Roubaste a cena ao Grito do Antonioni, n�o foi?
E o flashback da morte dele � do Billy Wilder.
Filho da m�e!
Que mundo fodido! Aquelas pessoas!
Bravo! Fizeste pesquisa, andaste a ler.
- Bravo! - Se assim o diz.
Mas...
os manda-chuva da RAI preferiam ver-me na cadeia.
Por causa do filme sobre o caso Lockheed.
Fez um filme sobre o caso Lockheed? N�o vi, desculpe.
N�o. Mas pensei em fazer, eles descobriram e impediram-me.
Pensei nisso, n�o disse a ningu�m, eles descobriram e impediram-me.
N�o interessa, n�s vamos fazer este filme.
Tamb�m adoro o t�tulo: Oper�rios no Verde Prado.
A met�fora para a falta de dinheiro e a cor da esperan�a.
- Puta que pariu... - � um verso famoso de Sandro Penna.
Na verdade, temos de mudar o t�tulo. � demasiado condescendente, percebes?
Num momento hist�rico destes, temos de ser duros.
Precisamos de um t�tulo com palavras como "morte", "sangue", "suic�dio"...
Puta que pariu!
Bom dia.
Bom dia.
Tudo bem?
A beber de est�mago vazio?
Trouxe alm�ndegas e ratatouille.
Tenho os restos de ontem, uns feij�es e batatas.
Estava a falar de cinema com o meu amigo Luciano.
- � a Jeanne, a minha ex-namorada. - Vou-me j� embora, n�o quero incomodar.
- Mas primeiro o teu suposit�rio. - N�o, depois, por favor...
N�o pode ser, o Giorgio e os mi�dos devem estar a chegar.
O Minist�rio da Cultura tem uns fundos. A Giovanna disse-te?
Mas querem que o Andrei fa�a de Valerio.
- Quem? - O Max Andrei, n�o conheces?
O pr�ncipe Sinbad? Do telefilme infantil?
Ele nunca entrou em filmes de um certo n�vel,
mas posso trabalhar com ele, � muito famoso.
As meninas...
atiram-lhe as cuequinhas. Vai encher as salas, atrair espectadores.
Ele mora perto daqui, eu depois apresento-to.
Se come�as a fazer concess�es depois de nos arruinares, mato-te.
Pronto?
Cobre-me.
Tens de ver este terra�o.
Resumidamente, o meu agente, Pierpaolo, disse que estava na hora
de eu fazer um filme mais pesado, um filme de autor,
daqueles que v�o a um determinado tipo de festivais.
A minha carreira tem de ter uma espessura que v� al�m
das expectativas das pessoas. Foi o mestre que me ensinou
que temos de surpreender o p�blico.
Por isso este filme tem de ser um murro no est�mago.
Um murro no est�mago. Percebeste, Luciano?
- N�o nos querem deixar faz�-lo. - Ent�o estamos a conversar para qu�?
Al�m disso, mestre, sinto que h� aqui boas vibra��es.
- Boas a valer. - Ent�o um dia destes...
Pus-me a pensar
e, se n�o se importam, vou dizer-vos o que pensei.
Diz, porra! O cinema � colectivo, estamos aqui para conversar.
- Formid�vel! - � ou n�o �, Luciano?
O filme � sobre um oper�rio. Os oper�rios usam fatos-macaco.
Mas como ir� ele usar o fato-macaco?
Vai us�-lo desca�do, assim!
Ele � firme como uma rocha, de peito nu...
assim, bem firme.
N�o li a hist�ria at� ao fim mas o Pierpaolo leu.
Ouvi dizer que ele ganhou um pr�mio qualquer...
- O Solinas. - N�o interessa!
Se quiser chegar ao cora��o das pessoas, n�o pode ser um falhado,
pode ser um oper�rio, mas falhado � que n�o.
Vamos l� melhor�-lo com adrenalina, optimismo...
Est�o a ver?
Topam?
Sim, claro, continua...
� s� isto. A porra da mensagem � que ele � firme como uma rocha, assim...
Topam?
Um oper�rio que se suicida, que � optimista e um vencedor?
Na mosca! Como � um oper�rio anda um pouco curvado
mas n�o � falhado nenhum, mant�m-se firme at� ao fim.
Ele � um vencedor. D� uma passa, Giovanni.
- Luciano. - Ou l� como caralho te chamas.
- De peito nu? - Brutal, n�o �?
Brutal�ssimo.
- N�o tenho receita. - O habitual?
Lexotan, Luminal, Serotonal...
- Prometa-me que n�o vai mistur�-los. - E um teste de gravidez.
Com certeza.
N�o, diz-me!
Como...
Deixa-me... Deixa-me falar, porra!
Cala-te!
Ent�o v�o ou n�o dar-nos um bili�o de liras?
Est� bem, compreendo.
Vai levar no cu!
O que � que se passa? V�o-se mudar?
Sei l� eu...
- O mi�do chegou. - Meu menino prod�gio, meu salvador.
Vem c�, querido.
Aqui est� o contrato, eu j� assinei, agora s� faltas tu.
Toma... esta � a caneta com que todos eles assinaram.
Eles... tu percebes.
- Senta-te. - Pe�o desculpa.
O que est�s a fazer? Espera!
Gianfranco, vem c�.
- N�o te ponhas com ideias... - N�o me fa�as rir, isto � assunto s�rio.
- Assina l�. A� em baixo. - Pe�o desculpa...
A caneta tamb�m?
Execu��o de penhora de bens, est� aqui a lista.
N�o interessa, um aperto de m�o basta!
Gianfranco, vai buscar o carro antes que o levem.
Temos de passar primeiro em casa daquela pessoa.
J� me est�s a enervar! Depois, depois, depois!
N�o te deixes assustar por este epis�dio, est� sempre a acontecer.
- Vai conseguir recuperar tudo? - Espera s� at� veres onde vamos.
Tesouro, j� est�s pronta?
Estava a pedir-lhe que, ao menos, deixasse o colch�o.
Tenha d�. Deixe as almofadas e os len��is para termos onde dormir.
Um pouco de piedade. Despacha-te.
- Eu tamb�m vou? - Sim.
- O que � que eu visto? - Qualquer coisa elegante, simples, sei l�.
Ele acaba o filme hoje, e depois fica livre.
- Ele quem? - Vai ser � grande!
Mickey Rourke, o tanas, estes americanos s�o s� garganta.
N�s somos o grande cinema italiano. Gianfranco, para Pontina.
Mas primeiro temos de ir ter com aquela pessoa.
Oh... Que chato, Gianfranco!
J� te disse que � depois.
Verifique novamente, no jornal disseram que a acredita��o era v�lida.
Saponaro... Saponaro! Saponaro!
- Desculpe... - Estou com eles.
- N�o podem entrar... - Temos entrevista marcada.
- Tenho uma acredita��o. - J� pedi que saiam.
- Espera aqui, j� te venho chamar. - Leandro!
Espera!
N�o podes fazer isto.
Eles est�o � nossa espera, Arrisquei-me por ti.
O artigo saiu. N�s os dois juntos, � oficial!
Queres que ta leia?
Ele ficou nervoso porque eu disse que queria um beb�
e agora os advogados da esposa v�o p�r um processo por danos emocionais.
Desaparece daqui, porra!
- N�o mandas em mim! - O que � que se passa?
Repara, eu era morena. Mas o Leandro gosta de me ver loura.
- Vais-te embora? - Sim, ele nunca ouve o que eu digo.
- Tamb�m vais abandon�-lo? - Ele est� a dificultar-me a vida.
Se s� precisa de mim para conduzir o carro, pode faz�-lo sozinho.
Ele n�o tem carta!
Mas tu tens, n�o tens? Boa viagem.
N�o te preocupes, faz sempre isto. Ele depois volta.
Agora vou ficar com a cara toda borrada!
Espera, Giusy.
Toma.
Toma.
Est�o todos fartos dele.
At� a mulher, s� quer o dinheiro dele.
Gosto do Leandro como um pai, at� mais do que um pai.
O meu pai batia-me at� ficar inconsciente e fazia-me coisas horr�veis.
Poupo-te aos detalhes.
- Nota-se que estive a chorar? - N�o.
Mas... estamos exactamente onde? Que filme � que aqui est�o a fazer?
N�o sei, essas coisas n�o me interessam.
O Leandro est� obcecado com a ideia de me tornar actriz.
Achas que tenho algum jeito?
N�o sou capaz de memorizar coisas como as outras pessoas.
Mas quero fazer o teu filme. Estou a tratar do assunto:
ando a ler livros sobre todos aqueles teus artistas chiques.
Ouviste o que o Leandro disse, ela n�o pode ser uma santinha.
N�o, ela � uma personagem pouco convencional e moderna.
Como as raparigas de hoje, como eu.
Por isso estava a pensar que enquanto o outro pintava,
ela...
enquanto tentava inspir�-lo, podia fazer-lhe...
Qual � a express�o cient�fica? Fela qualquer coisa, n�o �?
Fel�cio?
Tamb�m sabes?
Como � �bvio, isto fica entre n�s, � uma coisa art�stica.
Se o Leandro descobre, mata-te.
P�ra!
Ele vai faz�-lo.
Mais uma take, acaba o filme e depois recebe-nos!
Venham. Sabem o que ele disse?
Ele disse que o Antonello era o seu preferido.
Obrigamo-lo a assinar um contrato provis�rio.
A prop�sito, ainda tens o cheque do pr�mio?
- Sim. - D�-o ao mestre...
- Vais ficar na hist�ria do cinema. - Qual mestre?
- Preciso dele para abrir uma conta. - Depois pago-te com juros.
Cubro-te de dinheiro. Vens connosco?
Ouve bem, nem uma palavra.
Querem entrar? Eu deixo-vos entrar.
Deixem passar o produtor Saponaro, o vencedor do Solinas,
e Giusy, a corista.
Est� bem... Pessoal, � agora.
Sil�ncio, por favor, vamos filmar.
M�quina de fumo, ligada! For�a, Roberto!
- C�mara... - A filmar.
M�sica.
Terceira take.
- Roberto. - Ac��o!
Devagar...
Se tiv�ssemos um pouco mais de sil�ncio,
se todos fic�ssemos em sil�ncio,
talvez se percebesse melhor.
Corta!
Obrigado, Robert�! Obrigado a todos. Est� feito.
D�-me o cheque.
� isto?
Aqui tens o cheque...
- Ele cumprimentou-me! - N�o me digas...
Amanh� vamos �s Produ��es Titanus e damos cabo deles.
Est� feito, o acordo era esse.
Incr�vel, Eugenia.
O filme � para avan�ar, nem vais acreditar quem � o realizador!
N�o vais adivinhar? Est�s a ouvir-me?
Sim... que coisas belas e estranhas nos est�o a acontecer.
- Que tempos m�gicos. - � verdade.
Tamb�m queria brindar com o Luciano. Onde � que ele est�?
- N�o posso beber. - Porqu�?
- Est�o doidos por ti! - Por mim?
O Angelo est� radiante.
Contou-me que te fez um resumo enquanto comia as entradas
e que, quando chegou a sobremesa, j� tinhas um esbo�o.
- Como se chama a tua amiga argumentista? - Irene.
Ela passou pela rodagem do Nanni em Testaccio, estava a filmar na sede do PC.
- Vamos at� l�. - Vem comigo ver o Bernardo.
Vemos o It�lia-EUA com o Peter O'Toole, a Debra Winger...
- A Margarethe von Trotta... - Gosto das duas, n�o consigo decidir.
N�o te chateias se tamb�m me atirar a ela?
Gostava de escrever sobre ti e da tua amiga argumentista.
- Gostam dos mesmos... - Vem c�.
Volto j�, Emma.
Mas que diabo? Fui convidado para ir a casa do Bernardo Bertolucci
com o Peter O'Toole, o "Lawrence da Ar�bia"!
Sim, est� bem. Entra no carro. Entra.
A Katia tomou 40 comprimidos para dormir, percebeste?
A pobre criatura queria deixar este mundo.
Por tua causa. Que bico de obra que me sa�ste!
Por minha causa? Tenho muita pena... Como � que ela est� agora?
Salvaram-na � �ltima da hora.
Agora j� foi para casa.
Parto-te a cara!
- Est�s a magoar-me. - Parto-te a cara!
J� chegou. Maldito desgra�ado!
Olha que s� te deixo entrar por respeito � minha filha.
- Entendeste? - Entendi.
Est�s t�o crescido...
P�ra, nem sequer lavaste as m�os!
Fizeste-o tossir. �s um monstro!
Vieste.
Deixem-nos sozinhos.
Obrigada por teres vindo. A m�e disse que te estavas nas tintas.
J� viste como � querido o beb� Luciano?
Faz-me impress�o.
Quando olha para mim n�o sei o que lhe dizer.
Felizmente, � a m�e que toma conta dele.
Katia, o que foste tu aprontar?
Sem ti, sinto-me...
vazia.
Tenho tantas saudades tuas.
Katia, n�s n�o estamos juntos.
- N�o quero estar numa rela��o. - Ent�o porque tens ci�mes?
Queres ficar sozinho para sempre?
Ci�mes, eu?
Viste-me com o Fabio e deste um pontap� no carro dele.
Isso n�o s�o ci�mes, � outra coisa.
O qu�?
Sei l�, irrita��o.
P�ra...
Seppia! Tiveste saudades minhas, rapag�o?
N�o comeces tu agora!
Que vergonha, nem consigo ir �s compras.
Pede para te entregarem em casa. Agora vai dormir.
A �ltima de que preciso � que me d�s um serm�o neste pardieiro.
Vem c�, tonto.
Est�s a pensar voltar?
Voltar? Estou cheio de trabalho.
Est�o a pagar-me. A advogada � a minha agente,
o Mastroianni e o Scola s�o clientes dela. Olha.
- Toma, eu n�o preciso. - N�o vale a pena...
D� antes ao teu filho e � Katia.
- V�o fazer um filme da tua hist�ria? - Talvez.
- Quem vai fazer do pai? - N�o � o pai, j� te disse...
Logo se v�...
- Acho que o Gassman era perfeito. - � demasiado velho.
Mas tem talento. Faz-me lembrar o pai.
Meu amor!
Bruno! Vem c� dizer ol� ao teu irm�o.
N�o.
- Como est� ele? - Na mesma.
Se vais voltar para Roma, deixa-me ir buscar-te umas roupas.
S� levaste a m�quina de escrever, n�o foi?
P�ra, m�e!
N�o posso acreditar, o Luciano!
Pedi � tua m�e para me avisar quando tu voltasses!
- Armando, estou de partida. - Vem cumprimentar o pessoal.
Se n�o te virem, matam-me.
- Surpresa! - Que bom! Luciano!
- Grande Luciano! - Ol� a todos.
Como vai o mundo do cinema?
J� partiste muitos cora��es em Roma?
- Quem me dera. - Ent�o a nossa carta funcionou?
A que eu escrevi ao Scola e ao Montaldo.
Sim, obrigado. Correu bem. Fiquei em terceiro lugar.
- Ena! - Entre tr�s candidatos.
Gostamos de ajudar os nossos...
O teu pai teria ficado orgulhoso,
tal como n�s.
Tens aqui muitos pais. N�s todos.
N�o est�s sozinho.
- Armando, n�o chores. - Filhote!
Ah, est�s aqui n�o estava a encontrar-te.
- O que fazes aqui? - Vou contigo para Roma, nunca l� estive.
- Sais na pr�xima paragem. - Nem penses.
- N�o estou a brincar. - O Fabio convidou-me para ir a Elba.
Vou contigo ou com ele. O beb� ficou com a minha m�e, est�o bem.
Ajuda-me com esta mala. Ol�, com licen�a.
Van Basten d� meia volta,
remata de longe para Gullit, que tenta...
Arranc�mos cabelos por causa da morte da com�dia,
por causa da morte do cinema italiano, mas e a morte do corredor?
O Fulvio tem raz�o!
Os arquitectos s�o incapazes de perceber
a import�ncia mental e narrativa do corredor.
Permite que haja mais espa�o.
Estamos a tentar expandir horizontes.
Sentem-se agrilhoados por este pa�s? Ludovica, n�o fumes.
- Leste o Hillman? - Claro, at� tirei notas.
Mas n�o encontrei o cap�tulo em que falava de mim.
Tudo tem sempre de girar � tua volta. N�o sejas cretino.
- Ent�o � assim que tu �s? - Perd�o?
- Est�s com a Katia? - Eu com uma mi�da assim, achas?
- Porqu�? Parece ador�vel. - N�o me irrites!
� verdade que t�m um filho, o Luciano Junior?
- Eu disse-te, tu � que n�o acreditaste. - Mudaste quando tiveste um filho?
Sentes-te mais forte? Ela mudou, ficou melhor?
Nem por isso.
Convida-a a vir c� a casa, quero falar com ela.
- Katia, est�s bem a�? - N�o h� crise.
Estou muito bem aqui a ver o jogo.
Est� sentada � frente do mestre Pontani!
- Parecemos dois ulmeiros. - Perd�o?
Na Toscana, plantam os ulmeiros isoladamente no meio da floresta
para criar sombra para os trabalhadores.
Importa-se que me sente � sua beira?
- Claro que n�o. - Obrigado.
"Uma solid�o mais outra solid�o
n�o � necessariamente igual a duas solid�es."
Era o que dizia o Trintignant num dos meus filmes mais antigos.
Estou a aborrec�-la?
- Ele est� a falar. - Quem?
O Pontani est� a falar.
O mestre da incomunicabilidade est� a conversar.
A �ltima vez que ele abriu a boca foi em Mar�o
de 1979.
Porque � que a convidaste? Valha-me Deus!
�s vezes um homem est� sozinho porque tem estranhos pensamentos na cabe�a,
como diz Pooh.
- O "Pu" � um poeta japon�s? - N�o sabe quem s�o os Pooh?
O Riccardo Fogli, que depois seguiu carreira a solo, Dodi Battaglia, Facchinetti...
E na alma...
Est� a brincar comigo, claro que conhece os Pooh!
Acordo todos os dias sem saber o que o mundo tem para me oferecer.
Caterina, o Fellini � capaz de me ligar discutir o gui�o.
- Percebes o que isso significa? - Pareces estranho.
- Porqu�? � incr�vel. - Pareces exaltado e... est�pido.
Achas que o Fellini trabalharia com uma pessoa est�pida? N�o sei...
- Est�s apaixonado por outra? - Isso n�o tem l�gica.
- Ent�o est�s! - S� dizes banalidades.
Estamos a falar de um v�rtice de emo��es, de intimidade...
At� mesmo com a Eugenia, partilhar esta aventura com ela...
- � diferente, � especial. - Ama-la.
Credo, n�o reduzas tudo a essa �ptica provinciana.
- Agora sou provinciana? - N�o vou dizer que n�o a amo.
A Eugenia � uma pessoa que... tamb�m ias gostar dela.
Mas tu �s tu, Caterina. Eu e tu...
n�o estamos em quest�o, mas ela agora faz parte do cen�rio.
- De certa maneira. - Ent�o ama-la de certa maneira?
N�o acho que ela me veja como sujeito amoroso,
mas enquanto sujeito pensante, que escreve, somos um s�:
eu, ela e o Luciano. Ainda n�o te falei dele.
Um m�nage � trois, como em Jules e Jim.
N�o! O Luciano tenta coagi-la a manter com ele uma rela��o f�sica
mas ela rejeita-o redondamente.
Mas n�s os tr�s estamos ligados
por um sentimento cultural e art�stico.
Ent�o tu e essa Eugenia...
t�m uma rela��o f�sica?
A pedido dela, dormimos juntos.
Ela sofre de ansiedade � noite.
Mas este sentimento n�o � claro, especialmente para mim.
E tamb�m acho que a pr�pria Eugenia o ignora.
- Como � que ela �? - Ela?
Anda sempre vestida de preto, est� de "luto pela vida".
Tem as m�os geladas, quando fala n�o olha para n�s
porque tem sempre a franja a tapar-lhe um dos olhos.
�s vezes anda inclinada para um dos lados,
no in�cio at� pensei que fosse um problema de postura.
Mas � apenas o estilo cognitivo, art�stico dela.
- Aonde vais? - O meu comboio vai partir.
Toma este dinheiro, vou ficar em casa da tia Rosetta em Turim.
N�o compreendo a tua reac��o. Porque est�s a ser t�o tacanha?
Como � que a nossa rela��o, que considero "de facto",
como um assunto definitivo est� a ser posta em causa?
- � melhor n�o voltarmos a falar. - N�o estou a perceber.
Ent�o com quem � que eu falo?!
Mas...?
Desculpa, amor, n�o percebi nada do que disseste.
- Aleluia! Temos um namorado. - Namorado...
Que palavra rid�cula. N�o � uma rela��o f�cil de definir.
J� se conhecem h� muito tempo ou � uma coisa passageira?
Eu conhe�o-o muito bem, mas...
- Ele nem por isso. - N�o percebo nada do que dizes.
- O que queres dizer com isso? - N�o sei bem...
se ele percebeu quem eu sou.
Se calhar, devia ter o beb�, o que � que achas?
O Brasil acertou no poste.
Est�s a ligar a quem?
Dra. Scarsellati, por favor.
� uma amiga,
a melhor do mundo.
Nem uma palavra ao pai, ouviste?
Meu Deus, que nervos!
Malaspina?
Quem � Malaspina?
Preciso de folha de louro para as iscas.
No terra�o h� algum loureiro?
Vou l� ver, se n�o tenho de viver sem ele.
"Presumindo que eu sou tu e tu �s eu..."
D�-me isso!
"Os nossos seres respectivos est�o unidos por um la�o
que defino como ancestral!"
O que est�s a fazer � inaceit�vel, Luciano.
- Fant�stico! - N�o sei rir-me de mim como tu.
Eugenia, ouve s� o que o Antonino escreveu � namorada!
- Fecha a porra da porta. - Passaste o dia a dormir.
- Estou a pensar, n�o estou a dormir. - Desculpa.
- D�-me um beijo. - N�o me chateies.
Antonino!
Quem �?
Sim, �ltimo andar.
- Quem �? - � um tal de Fosco � tua procura.
Porque � que o deixaste entrar? Imbecil!
- Porque � que �s t�o mau para mim? - Credo...
O Fosco do Terra Maldita vencedor de um Leopardo de Ouro?
� uma pena o Luciano n�o estar, tenho boas not�cias.
Recebemos financiamento para reescrever o argumento,
que j� � bastante bom,
mas querem que o protagonista seja mais novo.
Parece que o Andrei � fundamental para selar o acordo.
O "Pr�ncipe Sinbad".
Vai fazer o filme do Luciano? N�o posso acreditar...
Aquele pateta nunca me conta nada!
Surpreende-me que um cineasta do seu calibre, cuja obra admiro,
aceite adaptar o texto �s exig�ncias do mercado.
Quer mais salada de tomate?
- Foste tu que ganhaste o pr�mio Solinas? - Sim.
Muito entusiasmo, ilus�es...
Tudo tanga!
- Eles n�o querem fazer o teu filme. - Acabei de fechar um contrato vantajoso
com o produtor Saponaro.
Levei 40 anos a perceber que o sistema deve ser derrubado por dentro.
- O Saponaro? - Sim.
Leandro Saponaro?
Sim.
Um vigarista desgra�ado!
Arruinou-me! Empatou o meu filme durante 12 anos!
Um filme necess�rio e profundo sobre os mineiros de Sulcis.
Saponaro! Pessoas como o Saponaro deviam ser
julgadas e condenadas por um tribunal popular. Filho da m�e!
D�-me licen�a.
Estou?
Doutora! Viva. Calculo que esteja � procura...
Sim, � este o n�mero...
S� um momento.
Eugenia, � uma chamada importante. Devias atender.
�s actriz?
Eu?
�s gira, podia arranjar-te umas audi��es...
Ainda existem pap�is femininos com alguma complexidade.
Mostra-me os teus olhos.
Vem ter comigo uma tarde destas e fa�o-te uma audi��o.
- Fa�a favor. - Por aqui, Malaspina. Entre.
- O seu argumento � impressionante. - Obrigada.
Quer ch� ou caf�?
A advogada vem j�, vou deix�-los � vontade.
- Ol�. - Ol�.
Encontrei este argumento na minha rulote.
Pensei que n�o era para mim, mas depois a Giovanna disse-me
que queria que eu lesse uma coisa e era isto.
Primeiro, folheei-o apenas
e depois li-o duas vezes.
Poderoso.
"Merci"... quer dizer, obrigada.
� o retrato de um homem poderoso, a sua ascens�o pol�tica...
e as suas neuroses privadas...
A opress�o da religi�o cat�lica...
Para mim, Deus e pol�tica juntos... � a It�lia.
J� nos conhec�amos?
Quer dizer que est�s... est�...
- Interessado em interpret�-lo? - Absolutamente.
Deve pensar que estou maluco, mas vamos falar com o Marco.
Se quiser.
Ol�. � a Malaspina?
Desculpe, Jean-Claude, o Amedeo e o s�cio chegaram mais cedo.
Desculpe... Desculpe...
Acabe a reuni�o. Como correm as filmagens?
Muito bem. Temin�mos ontem.
Esperem por mim, vou j�. Obrigado, obrigado.
O que � que eu estava a dizer...?
Conhecemo-nos h� 18 dias, fizemos amor e agora estou gr�vida.
Gr�vida.
Estava sempre a pensar em si enquanto escrevia.
Se calhar, � o destino, um des�gnio, Jean-Claude,
que nos trouxe at� aqui.
O Marco agora est� a fazer uma abordagem mais pessoal...
mais psicanal�tica...
Tenho de ver a minha agenda com a Giovanna, porque...
tenho dois filmes em vista, deixa-me perguntar.
Com licen�a.
O Claudio est� interessado, e tamb�m temos o apoio do Bruno e do Pasquale.
Malaspina, car�ssima!
Vamos l� ver o que a advogada acha...
Isto � de loucos...
Tenho um contrato assinado pelo Federico
e n�o me queres receber?
Acaba l� isso, est� deliciosa, o Leandro foi busc�-la ao Giggetto.
Sabe mesmo a mar!
N�o estava a falar contigo!
Gianni! Ol�, Gianni!
Temos um contrato praticamente fechado com o Fellini.
O verdadeiro Federico Fellini. J� est� na folha de pagamentos.
Meu amigo, o chefe � que trata desses assuntos.
- Quando � que posso v�-lo? - Vou fazer uma marca��o para si.
Palavra? Muito agradecido!
Quatro noites na RAI TV!
Esquece o Fellini!
E sejamos sinceros, o Fellini est� acabado.
Acabado?
Desde o Amarcord que s�o s� fiascos.
Mais vale fazer uma coisa para a televis�o com o Placido, o Melato...
Vamos levar a cultura �s casas das pessoas!
For�a, Giusy! At� te apresentei o Craxi.
Em Messina j� sonhavas com isto.
Vai.
Espera, aqui est� ele. A lenda socialista, Craxi.
Obrigado, obrigado!
Como � que transformamos um filme numa s�rie de quatro epis�dios?
Devia ter recusado. Agora preciso da vossa ajuda.
Que est�s para a� a dizer? O filme n�o ia prestar para nada,
nunca iria ver um filme chamado �leo.
- Agora n�o posso ajudar. - Como assim?
Porque n�o? V�o pagar-nos rios de dinheiro. O Saponaro paga, certo?
Neste mundo, as coisas t�m altos e baixos, mas temos um contrato com a RAI.
Ele � muito bem relacionado...
e tem uma namorada jovem.
Al�m disso, n�o sei como dizer isto, aconteceu uma coisa...
- Foi muito inesperado. - Um bico?
- Sim. - Fez-te um bico, n�o posso crer.
O Antonino � o maior! Partilha o que tens, temos de comemorar.
A Emma e a amiga v�o a uma festa, n�o �?
Vamos n�s tamb�m, vamos dan�ar. Isso s�o speeds?
N�o, o Pent�gono criou isto para os veteranos do Vietname.
Pessoas que estavam em p�ssimo estado. Chama-se ecstasy.
Sen�o, tenho isto.
Psilocibina, cogumelos m�gicos.
Cogumelos m�gicos? Vamos experimentar!
N�o � perigoso, pois n�o?
M�e, misturei as iscas com azeite e alcaparras, e torrei o p�o.
N�o encontrei ba�o.
Que estranho, numa cidade t�o grande como Roma ningu�m vender ba�o.
N�o, n�o passes ao Lucianinho, pode ficar triste.
Deve ser um lapso, sou um amigo muito chegado.
De certeza que fui convidado.
Os finalistas! Deixem passar os finalistas.
Menina, vou acompanhar os finalistas, depois volto e d�-me o seu n�mero.
Que bom ver-te, um sentido de oportunidade perfeito.
Meus amigos, hoje, voltei a contemplar o suic�dio.
Fui buscar barbit�ricos. S�o eficazes e muito r�pidos.
Estava prestes a tom�-los mas lembrei-me do anivers�rio do meu amigo
e deu-me vontade de vir dan�ar, uma vontade incontrol�vel!
N�o quero morrer, quero dan�ar! Sim, quero dan�ar.
Desculpe, faz-me... uma coisa qualquer?
Uma coisa qualquer serve.
Prazer, chamo-me Antonino Scord�a,
Escrevi �leo, que venceu um importante pr�mio nacional
e que muito em breve ser� exibido na RAI, menina.
Amigos, camaradas, companheiros, cineastas, escritores e poetas!
S�o todos um bando de imbecis!
N�o param de falar de Marraquexe, dos desertos mexicanos, da China imperial,
a costa de Biarritz... Apanhem mas � o comboio regional para a Toscana
e quando o comboio abrandar, observem as casas com a televis�o ligada.
� a� que v�o encontrar literatura, dos filmes que ningu�m est� a escrever.
Est� tudo a postos para a marca��o da grande penalidade.
Lineker � o primeiro.
O primeiro remate foi � esquerda de N'Kono...
Golo!
Lineker marca. 3-2 para a Inglaterra.
- Tamb�m �s argumentista? - Sou cirurgi� dentista.
Vamos levar a cultura �s casas das pessoas!
A cultura �s casas das pessoas!
Scord�a, muito prazer. Antonino Scord�a, argumentista.
�leo, quatro epis�dios na RAI.
At� sonhei com isso. Estava debaixo de �gua e estava escuro.
Havia um gato com barbatanas que se aproximou
de mim...
Espere, querida, deixe-me ver melhor com o ec�grafo.
Pensei muito sobre o assunto.
N�o quero ser ego�sta, quero o melhor para este menino ou menina.
Ser� feliz comigo? Serei capaz, estarei pronta?
H� uma ligeira inflama��o nos ov�rios que atrasou a matura��o.
- Vai prejudicar a gravidez? - N�o h� nenhuma gravidez.
- O que disse? - N�o est� gr�vida.
- Palavra? Nem um pouco? - Palavra! Nem um pouco.
Vamos fazer umas an�lises, verificamos a VHS...
Se for necess�rio, administramos antibi�tico.
- Eu fiz um teste. - �s vezes d�o falso positivo.
Tanto melhor, n�o �?
N�o. Podia ter-me dito com mais tacto.
Os m�dicos s�o todos c�nicos.
Adeus.
E eis-nos, finalmente, chegados ao jantar com o Saponaro.
Voc�s os tr�s, sem a Katia.
Eu disse-lhe, comandante, era um jantar de trabalho.
- N�o � verdade? - Sim.
- Eu porto-me bem, prometo. - � trabalho. Vou levar a m�quina de escrever.
N�o choramingues, n�o vimos tarde. V� o It�lia-Argentina e conta-nos tudo.
Tranca a porta, n�o deixes ningu�m entrar.
Quando voltar, vamos dar um passeio. Contente?
N�o, ela est� calma e contente, est� tudo bem.
Um passeio...
como se eu fosse um c�o!
Um passeio!
"Quando voltar, vamos dar um passeio".
O que � que eu sou, um Cocker Spaniel?
Desculpe, o Luciano Ambrogi est� aqui?
Queria despedir-me, vou voltar para a Toscana.
Giannini avan�a, remata de cabe�a, Vialli chuta e... golo!
Agora Tot�! Schillaci novamente!
- Aos nossos quatro epis�dios! - Aos nossos quatro epis�dios.
Foto hist�rica.
- D� 10.000 liras ao mi�do. - Este gajo est� liso.
Estes Bellinis s�o bons, n�o s�o?
- Como te chamas? - Giusy Fusacchia.
Sabe, a minha agente gostava de fazer um acordo consigo.
- Acho que a conhece, � a advogada... - A Giovanna, sim!
� uma grande amiga.
N�o tem escr�pulos, mas � a melhor.
Mas porque � que estamos a falar de dinheiro e contratos? Basta!
� t�o jovem, com a sua idade n�o pensava nessas coisas.
Havia trabalho a fazer e era o que faz�amos.
� verdade, ouvi dizer que assinou um contrato com um realizador importante...
- Ele n�o me quis dizer quem era. - N�o lhe disseste do Federico?
Teria sido bom...
- H� 20 anos. - Federico?
- Ele est� um pouco acabado... - O Fellini? Acabado?
- � ele o realizador? - N�o te preocupes com o cheque.
- Vamos arranjar uma solu��o. - Que cheque?
- Vamos embora. - N�o.
N�o te disse nada porque �s muito competitivo.
Mas orgulho-me de dizer que o cheque foi endossado ao mestre
como adiantamento, mas tenta ser discreto,
n�o quero suscitar invejas.
Endossaste o teu cheque ao Fellini? N�o posso crer.
Sim, porqu�?
- � verdade, diga-lhe. - Ent�o �s mesmo burro.
Deixaste que este palha�o te enganasse!
O que � que est�s a dizer? A quem � que est�s a chamar palha�o?
Quero ir-me embora, posso ir-me embora?
Espera, tem l� calma.
Leandro, desculpe, o que � queremos exactamente que Fellini fa�a?
Ele vai dirigir um dos epis�dios?
Credo!
Achas que o mestre vai dirigir uma s�rie de televis�o? Ele s� faz filmes!
J� devias saber! �s jovem, mas n�o �s burro.
N�o te preocupes com o cheque. Eram s� uns milh�es de liras!
25 milh�es, na verdade...
Comparado com os rios de dinheiro que vamos fazer, que vais fazer.
Al�m disso, vamos l� ser francos, voc�s s�o uns mi�dos espertos, n�o s�o?
De certeza que j� perceberam que estou acabado.
T�m de me ajudar, esta � a minha �ltima oportunidade.
- Ele est� acabado! - Ele produziu O Encerramento do Pontani.
EA Foca Bernarda, A Professora Gosta do Cont�nuo
e toda essa merda que destruiu a reputa��o do cinema italiano.
Um pouco mais de respeito! O Leandro � uma lenda e...
P�ra de me dar apalp�es debaixo da mesa!
O que � que ele est� a fazer debaixo da mesa?
Tem estado a noite toda a apalpar-me!
Quem � que pensas que �s? Ele � o meu homem.
- Nas barbas do Leandro, n�o tens vergonha? - N�o tiveste vergonha com o Antonino.
Que porra est�s a dizer, ot�rio?
Voc�s, homens, s�o sempre t�o agressivos uns com os outros.
- N�o vais dizer nada? - Giusy, por favor...
N�o est�s ciumento porqu�? N�o deixes que eles me insultem.
Giusy, por favor n�o comeces. E cala a boca, porra.
Sempre que a abres armas confus�o.
Toma as chaves do teu carro e conduz tu!
S� que n�o �s capaz, est�pido!
Amei-te muito e profundamente, com o meu corpo e alma.
Mas tudo tem limites, adeus para sempre!
Onde raio vais?
Idiota!
Idiota!
Idiotas!
Estupores, cretinos! Se eu tivesse 20 anos novamente,
dizia-vos como � que se conquista o mundo.
T�m a maior das d�divas, a juventude, e v�m dar-me cabo do ju�zo!
- Trouxas! - Trouxa � voc�, palha�o!
O cinema italiano morreu por culpa dos jovens!
- Essa � impag�vel! - E tamb�m vos damos pr�mios.
Vamos l� ver se nos entendemos, esfalfei-me para ser quem sou!
E quem � o senhor? Um falhado velho igual aos outros
cuja amante podia ser sua neta e faz bicos ao primeiro que passar.
O que � que est�s a insinuar?
A quem � que te est�s a referir?
Fazes coisas dessas? Nunca imaginei...
�leo! Quatro epis�dios na RAI!
V�o-se lixar todos!
Diga ao Gioacchino que eu depois mando algu�m c� para pagar.
Eu pago o jantar a estes desgra�ados.
Fique com o troco. E agora...
Fora da minha vida! Tenho de trabalhar e fazer amor...
- Tenho direito a ser feliz! - Onde vais, Luciano?
Desculpe, Leandro. Com a sua licen�a.
- Desculpe. - Vai-se toda a gente embora?
Calma! Antonino, tamb�m te vais embora?
Doido! �s doido!
Tens no��o de que deste cabo de tudo?
Como � que pudeste tratar uma pessoa daquela maneira?
Eu? Olha quem fala, deixas que o teu argumento seja alterado
por um aldrab�o! �s culto mas �s um fantoche.
- Um fantoche, filho de fantoches. - Quem � que � fantoche?
Quem? Quem?
Mas que merda � esta?
Tu, vai para casa! Fora daqui.
�s uma besta, um fascista, l� no fundo.
Deixas-te guiar por instintos violentos.
Gostas de foder para subjugar os outros, como fizeste com a Katia.
N�o te atrevas a falar da Katia, fr�gida de merda!
Porco toscano! Nem sei porque vos deixei c� ficar.
Deixam-me nervosa, nunca mais vos quero ver.
Voc�s aproveitaram-se de mim, metem-me nojo.
S�o uns machistas de merda. Ali�s, s�o apenas machos.
A decad�ncia da humanidade, do cinema, de tudo.
Vou-me embora!
Eu tamb�m.
Eu tamb�m.
Vamos ver a segunda parte ao Cristaldi, querem vir?
At� � vista, rec�m-chegados!
Que ot�rios!
E onde � que foram depois... de se terem despedido?
Sabe perfeitamente, mandou virem deter-nos.
Isso foi duas ou tr�s horas depois.
Entretanto, o que � que aconteceu?
Estou a falar consigo.
O que � que fez?
Porque est� a olhar assim para mim? Est�-me a assustar.
Porque estou interessado... como � que voc�s escritores dizem?
No lado humano. Est� a esconder o seu lado humano mais fraco e isso...
torna-o mais interessante como personagem.
M�e, desculpa-me por n�o ter chorado no funeral do pai.
Desculpa se estive sempre a rir!
Eu n�o suporto o sofrimento, tenho medo.
Sou um cobarde!
Diz ao Bruno que o adoro, apesar de nunca o ter dito...
N�o tenho coragem para o abra�ar e dizer-lhe tudo o que sinto.
O que est�s a fazer?
Emma, ol�.
- Estavas a chorar? - N�o, que disparate.
Estou aqui porque...
- Vim � tua procura. Moras... - Aqui.
- Vamos a tua casa? - Coitadinho, estava a chorar.
- Est� bem, vamos l�. - Por acaso, n�o estava a chorar...
Este vosso resumo n�o � l� grande ajuda.
Respondemos a todas as suas perguntas, comandante.
Sim, Scord�a, mas antes insinuaram que havia outras pessoas
com motivo para matar o Saponaro.
N�o insinu�mos porra nenhuma.
Ai n�o? E a mulher ou ex-mulher...
que disse o que o Scord�a aqui j� repetiu?
No fundo, a �nica salva��o dele seria morrer.
Mas seria demasiado previs�vel.
A esposa que � trocada por uma mulher mais nova e atraente,
retalia��o sentimental ou disputa patrimonial.
Com toda a franqueza, comandante, n�o estava a insinuar nada.
O que disse exactamente aquele argumentista famoso?
Mato-o com as minhas pr�prias m�os.
Agora que penso nisso, quando o Zappellini dizia certas coisas
tinha um brilho meio louco nos olhos.
Tamb�m sugeriram que o outro realizador podia ser um suspeito.
- Como se chama? Nunca ouvi falar dele. - Fosco?
Devia era morrer, filho da m�e!
No fim do vosso resumo, deparamo-nos com duas op��es, pelo menos.
- Quais? - Trazer o Zappellini at� aqui,
o Fosco, a Sra. Saponaro, e a famosa advogada
que falou da v�tima com algum sarcasmo.
Credo, n�o!
Ent�o s� nos resta uma op��o.
Como foram voc�s que fizeram estas insinua��es
ent�o s� podem ser voc�s os autores do crime.
Os tr�s, meus caros.
Meu rico Jesus!
Liguori, um copo de �gua para o Scord�a!
Do que eu entendi, o Saponaro era uma pessoa infeliz e solit�ria.
- N�o � poss�vel que se tenha suicidado? - � verdade, cara jovem.
- � poss�vel. - Obrigado.
E depois de morto atirava-se ao rio?
Sabe que mais?
Vamos chamar tamb�m o mestre Fellini!
Para poder dar o seu testemunho daquele encontro.
A comunica��o social vai ter um dia em cheio!
O cinema italiano em peso na esquadra da pol�cia.
Interrogamo-los a todos at� um deles dar com a l�ngua nos dentes.
- Vai ser o m�ximo. - N�o fa�a isso, comandante.
Vamos tirar as impress�es digitais do corpo da v�tima e ver o que encontramos.
- O que acham? - Vai fazer mesmo isso?
J� chega, vamos falar a s�rio.
Voc�s querem criar enredos, escrever argumentos, fazer filmes,
e n�o percebem nada da vossa hist�ria. Mendolesi, apanharam-no?
Est� com o agente Palmieri.
Acham que o autor do crime deixava a sua foto
no bolso da v�tima?
Querem ser argumentistas mas n�o sabem ser espectadores.
Ser espectador � maravilhoso. Ver, perceber,
apegar-se �s personagens.
Voc�s observam as pessoas, � ou n�o �?
- Maldito assassino nojento! - Menina!
Olha-me nos olhos se tiveres coragem!
Calma! Temos de manter a compostura.
Os jornalistas est�o l� fora.
Vamos recapitular para o comandante. O Saponaro ligou-lhe e a senhora...
foi ter com ele.
Deixei que me fosse novamente ao pacote.
Perdoe a express�o.
Mas... disse-me que tinha um cheque para aqueles fulanos...
- Para uns fulanos que eu conhecia. - Uns agiotas.
Uns fulanos que eu conhecia, a quem eu tinha dado a minha palavra...
Mas ele n�o tinha cheque nenhum.
S� me ligou porque n�o sabia conduzir.
- E eu perdi a cabe�a. - O que � que aconteceu?
- Cuspi-lhe para cima. - E depois?
Foi s� isso, comandante. Juro que n�o o matei.
Pelo menos acho que n�o. N�o sei que raio aconteceu.
- Cuspiste-me? - Sim!
Vai � merda!
Nunca o tinha visto assim. Insultou-me...
como se insulta uma crian�a.
O que mais me afligiu foi v�-lo t�o desesperado.
Leandro, mas que diabo...
O que � que se passa?
Pensei...
em lev�-lo para o hospital.
Mas depois dei-me conta de que...
ele n�o estava a respirar, estava gelado e p�lido.
Os olhos estavam revirados.
De que valia lev�-lo agora para o hospital?
Ent�o pensei...
"Meu Deus!
Matei-o.
Morreu por me ter batido com muita for�a.
Vou preso o resto da vida, vou levar a pena de morte".
Ent�o... perdi a cabe�a.
Ent�o n�o v� que n�o foi homic�dio.
O que matou o Saponaro foi a dor que a vida lhe causou,
que, em muitos aspectos, foi gloriosa.
Digamos que quem o matou foi a mulher dele,
os credores, os directores de televis�o, a Giusy, a pol�tica, o cinema italiano.
De certa forma, voc�s tamb�m o mataram.
O cora��o dele n�o aguentou.
Agora temos de acusar aquele desgra�ado
por causa do fiasco do rio Tibre.
Falta de assist�ncia, ocultamento de cad�ver...
- Naqueles policiais que adoram... - Detesto policiais.
- P�ra de ser t�o chata. - Tudo segue uma l�gica.
A l�gica do autor, mas na vida real as coisas limitam-se a acontecer.
� sobre isto que os vossos filmes se deviam debru�ar.
Ser� que voc�s, aspirantes a argumentistas, s�o capazes disso?
- Quando � que podemos ir para casa? - Um momento. Liguori!
N�o se esque�a disto.
- � a sua carteira? - Sim.
Tom�mos a liberdade de apreender os comprimidos, embalagens e frascos...
Tenha cuidado, menina.
Digo-o como se fosse seu pai.
N�o fa�a isso, detesto o meu pai.
- Com sua licen�a. - At� breve. Quer dizer, adeus.
- Est� livre? - Sim.
- Entras? - N�o...
A esta��o � j� aqui, se for a correr apanho o comboio das 6:05.
Que dia � hoje? Ter�a-feira, 3.
Quarta-feira, 4... Tenho uma reuni�o importante no dia 6. Desculpa.
Vamos falando. Eugenia...
VILLA BIONDI CENTRO DE REABILITA��O
- Ou entra ou sai. O que vai ser? - Desculpe...
Piazza Lovatelli, por favor.
Ainda bem que ficas, seria incapaz de ficar sozinha depois de tudo isto.
Vou levar-te a casa, mas depois apanho a Katia e vou-me embora.
Vais-te embora?
Sim, estou farto, vou voltar para a Toscana.
Tenho um filho,
uma mulher que me ama...
Estou a perder o meu tempo aqui.
O cinema...
n�o � para mim.
D� isto ao Ennio, � o epis�dio em que a Sara engravida.
Vai dar-te 500.000 liras. Podes mandar para mim
ou doar o dinheiro.
A Katia vai ficar feliz por voltar a casa.
Vais deixar-me sozinha novamente.
Madrugada ganhou o Grande Pr�mio em Cannes,
mas eu acho que merecia a Palma de Ouro
que deram ao Encerramento.
Est� sempre a acontecer, Franco. At� no festival de m�sica de Sanremo.
Nunca � a melhor can��o que ganha. Mas o cantor ganha no ano seguinte.
� bem verdade.
Foi aqui que filmei a cena com a Lea.
Fiquei � espera desta luz, deste momento preciso,
quando a luz e a sombra dan�am misteriosamente e... olha!
Ena!
� mais do que um mestre, � um ilusionista.
O senhor � m�gico!
Quem �s tu?
- De quem � que gostas? - Eu?
De algu�m que n�o gosta de mim.
Al�m � a minha casa. Est� vazia,
triste, sozinha.
Vamos.
Claro, porque n�o...
Obrigada.
S� me restam mem�rias confusas e absurdas daqueles dias em Roma.
Se calhar, n�o passou de um sonho!
Mas o argumento que escrevi foi uma experi�ncia on�rica.
Fiquei apenas com conceitos, regras,
que agora uso com os meus alunos, por exemplo, o mais importante
numa hist�ria � a inexor�vel passagem do tempo.
A Caterina n�o gosta que eu fale desse Ver�o,
mas tenho de dizer que, em 2006,
a Funda��o Fellini devolveu-me o cheque.
Nunca foi descontado, emoldurei-o. Vejam!
Vinte e cinco milh�es de liras.
Tive pena que o mestre n�o o tenha gastado.
Adorava dizer �s pessoas que o Fellini me devia dinheiro.
Antonino, vens?
J� vou. Acho que � hora do lanche.
Adoro trabalhar aqui, at� recebi uma estrela Michelin.
O pessoal do cinema tamb�m vem c� comer,
mas eu prefiro ficar � dist�ncia.
Deixo que seja o Luciano Junior a ir servir �s mesas.
Os meus cinco filhos trabalham aqui comigo.
H� uns anos, o Luciano Junior chamou-me: "Pai, a m�e est� na televis�o".
Uma sincera e comovente ova��o de p� ouviu-se ontem
durante a cerim�nia de entrega do Le�o de Ouro � carreira
de Franco Pontani, acompanhado pela companheira, Katia...
H� anos que n�o falo com o Antonino, e da Eugenia nunca mais soube.
Pergunto-me se ter-se-� dedicado ao mundo do cinema...
C'um cara�as! Um acidente de carro?
Sim, sou filha dela. Eugenia Malaspina era a minha m�e.
O que querem?
Ela alguma vez lhe falou do Ver�o de 1990?
N�o, a minha m�e nunca me contou nada.
- Nem sobre os amigos do pr�mio Solinas? - Quem?
Oh, o Luciano e o Antonino.
Falou neles uma vez ou outra, que tinham sido uns dias maravilhosos.
Oi�a, n�o quero falar sobre a minha m�e... Palavra.
Havia uma coisa que ela estava sempre a dizer...
� prov�vel que o tenha ouvido
de um daqueles argumentistas do grande cinema italiano.
Dizia para olharmos sempre pela janela. Sempre.
Quem sabe o que isso significava... N�o sei!
NOITES M�GICAS
Tradu��o e legendagem Marta Lisboa
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