All language subtitles for Trents_Last_Case_(1952)_mp4_1h26m03

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Original subtitles

O ÚLTIMO CASO DE TRENT

Isto acaba de chegar.

Fala Tim O'Reily, o seu disk-jóquei preferido.

Vão ter que aguardar um pouco enquanto lhes dou as últimas notícias.

Sigsbee Manderson, o grande financista americano…

nascido e criado em Chicago,

foi encontrado morto no jardim de sua casa na Inglaterra.

Suspeita-se de atividade criminosa.

É a vida… mas o espetáculo continua.

Fala Tim O'Reily, o seu disk-jóquei preferido com…

Sigsbee Manderson morreu

Sim, isso deverá causar um abalo.

- Onde estávamos? - "Ao saber da morte…"

Ao saber da morte dele,

os mercados de ações mundiais entraram em pânico.

Os valores atingiram recordes negativos.

Wall Street tornou-se um inferno de clamor e desespero.

Na Europa,

vários homens decidiram acabar com vidas que estavam ligadas…

ao destino de um financista que a maior parte desconhecia.

Tudo isso porque numa vila remota de Hampshire,

a vida abandonou um homem totalmente dedicado à ganância.

Assim está bem.

O Record orgulha-se de anunciar…

que o caso Manderson e todos os fatos…

serão relatados exclusivamente por Philip Trent,

cujos despachos…

cujos despachos admiráveis no caso Bournemouth…

levaram à detenção de…

Lamento, entrada proibida. Somente os familiares.

- Procuro a Sra. Manderson. - Ninguém pode entrar.

Nem os familiares?

- Quem é o senhor? - O irmão dela.

Nesse caso, faça o favor.

Incrível… até parece impossível.

Burton Cupples! Regressou à cena do crime?

Trent, caro amigo… você aqui?

Vem por conta do seu jornal para escrever um artigo?

Como conseguiu entrar? A polícia tem ordens.

Também me disseram. Foi aqui que encontraram o corpo?

Eu mesmo o vi aqui estendido. Custou-me acreditar.

- Por que razão veio até aqui? - Eu?

A esposa do falecido, ou seja a viúva Manderson…

Sou seu familiar.

- É mesmo familiar dela? - Sim, é minha sobrinha.

Nunca contei a ninguém.

Custa-me comentar o casamento dela.

Não me dava com ele.

Gostaria de conhecê-la.

Ela tem horror aos jornalistas.

Preciso falar com ela.

Pode contar com o meu tato e a minha discrição.

Duvido que seja possível.

Está agora mesmo sendo interrogada pelo detetive Murch.

Já imaginava. Ele chegou há muito tempo?

Apenas uma hora após termos encontrado o corpo.

Posso dar olhada na casa?

Já que veio até aqui…

Eu lhes digo que está aqui. O detetive está na biblioteca.

Obrigado, Cupples. Vou lhe agradecer.

O Trent cobre este caso. Estranho…

É mesmo incrível.

Desejo falar com o detetive Murch.

Claro.

- Qual é o seu nome? - Philip Trent.

- Com que então… Det. Murch. - Estava à sua espera.

Parecia-me tê-lo ouvido dizer que ia deixar estes casos.

Devia sentir-me aborrecido.

Porque será que acabo sempre com os seus casos?

É assim.

- Importa-se que desenhe? - A vontade. Estou tomando notas.

Mas creio que seja uma perda de tempo.

Tenho muito tempo a perder.

Que tal vão a Sra. Murch… e as crianças?

Sabe muito bem que não tenho criança nenhuma.

Pare de piadas. Está tentando ler as minhas notas.

- Estava vendo se aprendeu a escrever. - Aprendi.

O que é isso tudo?

Nada de especial. Cartas de negócios e documentos.

O secretário insistiu para revistarmos tudo.

Está convencido de que Manderson suicidou-se por causa de ameaças.

- Encontrou algo anormal? - Pouca coisa.

A não ser um monte de notas e alguns diamantes brutos.

Parece que o Manderson andava especulando com diamantes.

Ele especulava com tudo.

Sim.

Parecia-me que tinha olho para os detalhes.

Esqueceu-se do telefone.

O Manderson foi visto telefonando antes de ser morto.

Quando foi isso?

Depois de ter conduzido o Marlowe até Dover.

O mordomo lhe trouxe uma bebida para dormir.

Ninguém mais o viu?

Se quiser saber algo mais, sugiro-lhe que assista ao inquérito.

Temia que dissesse isso.

O que acha deste caso?

No início, pensei que fosse um simples assalto.

Obrigado. Mas os fatos não concordam.

Não há rastros de assalto dentro da casa ou sobre o corpo.

O encontramos vestido.

Mas a dentadura estava em cima do criado-mudo.

Parece que andava esquisito ultimamente.

Obrigado.

Andava inconstante, abatido e sombrio.

Parece ser óbvio que se trata de um suicídio.

Talvez óbvio demais.

Mas não sou tão especialista em suicídio como em homicídio.

Viu isto?

- Essa é a bala? - Sim.

O médico a extraiu após a descoberta do corpo.

Estas marcas são dos instrumentos dele.

As outras foram causadas pelo tiro.

Esta é a arma?

Bem poderia ser, mas não é.

Reparou nisto?

JM?

John Marlowe. A arma pertence é dele.

Com licença.

Sr. Trent? O Sr. Cupples nos avisou da sua chegada.

É o Sr. John Marlowe?

A Sra. Manderson me mandou assisti-lo.

- Importa-se que o interrogue? - Como quiser.

Agora não, tenho muito trabalho.

Está ciente de que a morte do Sr. Manderson foi um choque.

Tenho muito para fazer apesar do cansaço.

Cheguei ainda há pouco de Dover.

- O regresso deve ter sido sinistro. - Foi mesmo.

Antes de ir, diga-me só uma coisa.

Esta arma é sua?

É minha.

Tem absoluta certeza?

As minhas iniciais estão gravadas.

Estão mesmo. Obrigado.

Se não se importar, tenho que ir cuidar da Sra. Manderson.

Ele manejou a arma com habilidade.

Estava aflito em nos dizer que tinha viajado na hora da morte.

O que quer dizer com isso? Está o acusando?

Como soube que ele estava em Dover?

Foi encontrar com a polícia de lá.

Então não há dúvida.

Os amadores têm todos a mania de ser desconfiados.

Até suspeito da Sra. Manderson. Como ela é?

Não parece coisa boa. É linda, secreta e senhora de si.

Peço-lhes para prestarem toda atenção.

O veredicto deve ser apoiado apenas pelas provas.

A primeira testemunha é a Sra. Manderson.

Peço à senhora para se apresentar.

Pegue o livro na mão direita. Tire a luva.

Leia o que está escrito.

Juro dizer a verdade, toda a verdade e nada mais do que a verdade.

Identificou o falecido?

Sim. Era o meu esposo.

Como qualificaria o estado dele antes da morte?

Estava bem de saúde, mas parecia deprimido.

- Por algum motivo em particular? - Não.

Assunto de negócios?

Não sei. Nunca comentava os negócios comigo.

Quando o viu vivo pela última vez?

No sábado à noite, após o jantar.

Estava vestido para sair de carro com o Sr. Marlowe.

- Marlowe? - O secretário do meu esposo.

A que horas é que saiu de carro?

- Que horas eram? - Cerca das 10.

- Parecia estar tudo normal? - Sim.

Voltou a vê-lo nessa noite?

Não, mas o ouvi fechar a porta do quarto dele.

- Onde fica o quarto? - Junto ao meu.

Que horas eram?

Pouco depois das 10 e meia.

Não ouviu mais nada?

Ouvi um barulho que parecia vir da entrada.

Desci para ver, mas não havia nada.

Voltei para a cama até a minha criada me acordar com o chá às 7.

Por volta das 9 e meia, disseram-me que tinham encontrado o corpo.

Lembra-se de algo que possa tê-lo levado a suicidar-se?

Não. Mas andava muito preocupada com o seu mau humor.

Obrigado. Pode sentar-se.

Testemunha seguinte: Horace Evans.

É empregado como jardineiro da casa?

Não, como ajudante do jardineiro.

- Trato apenas dos… - Sim, sim…

Quando o viu pela última vez?

Fui eu que dei com ele ali esticadinho…

Sim, sim. Onde encontrou o corpo?

Atrás do barracão.

- O que fez? - Fui buscar o Martin.

- Quem é esse Martin? - O mordomo…

Certo, já chega. Obrigado.

Chamo o Sr. Martin.

Confirma que ele te chamou às 10 e meia?

Sim. Quando ouvi chamar, soube logo para o que era.

Trouxe-lhe o uísque e o pó para a digestão.

- O que ele estava fazendo? - Estava telefonando.

Foi lá que o viu vivo pela última vez?

Ouviu algo fora do normal?

Nada… a não ser um tiro.

- Um tiro? - Mas não prestei atenção.

Tem sempre caçadores clandestinos pela propriedade.

- Que horas eram? - Às 11 ou 11 e meia.

Terá sido o tiro que matou o Sr. Manderson?

- Duvido muito. - Por que razão?

Porque tinha ouvido o senhor pouco tempo antes.

- Ouviu-o? Onde? - Quando foi para a cama.

Obrigado. Chamo o Sr. Bunner.

É o Sr. Bunner?

Sou. Calvin C. Bunner.

É o secretário privado do Sr. Manderson?

Somente um deles. John Marlowe era o outro.

Mostre a prova A ao Sr. Bunner.

Alguma vez já viu essa arma?

Sim, pertence ao Marlowe. O Sr. Manderson a comprou.

Quando soube que o Sr. Marlowe possuía essa arma?

Há um mês, quando me pediu para treiná-lo.

- Treiná-lo a quê? - A usar a arma.

- Deu-lhe lições? - Dei sim.

No fim, tinha muito boa pontaria.

Como sabe que essa é a arma dele?

O Manderson mandou gravar as iniciais dele aqui…

Parece que me enganei…

Enganou-se bastante. Mas essa é uma arma comum.

Deve ser.

Diria que a relação entre os dois homens era amigável?

Sim, até o Sr. Manderson decidir despedi-lo.

- Quando foi isso? - Há um mês.

Por que motivo queria despedi-lo?

Bem faço ideia.

Mas creio que a Sra. Manderson poderá lhe explicar.

Obrigado, pode sentar-se. Chamo o Sr. Marlowe.

A Sra. Manderson disse-nos que tinham ido juntos de carro.

Percorremos uma milha.

Depois mandou-me parar para regressar a pé.

- Onde? - Junto ao buraco 9 do campo de golfe.

Depois disso, para onde seguiu?

Fui para Dover, encontrar-me com um cliente do Sr. Manderson.

Encontrou-se com ele?

Não. Quando cheguei lá, não estava nem tinha deixado recado.

Portanto regressei à casa, como me tinham mandado.

A que horas chegou lá?

Por volta da meia-noite e meia.

- Qual é o nome do cliente? - George Harrison.

Esse senhor está aqui?

Não conseguimos encontrá-lo.

Sr. Marlowe… esta arma é a sua?

É minha.

Acha que tem boa pontaria? Ouviu o Sr. Bunner.

Creio que ele está enganado. Não sou nenhum perito.

Não costumo usar armas nem me agrada ter uma.

Quando viu essa arma pela última vez?

Há bastante tempo.

Não a trazia sempre comigo como me tinham mandado.

Alguma vez ouviu o Sr. Manderson falar em suicídio?

Por inferência, sim. Em várias ocasiões.

Como assim?

Por vezes, parecia muito deprimido.

Sentia-se incomodado por algo, o que o tornava taciturno.

Ouviu o Sr. Bunner dizer que estava para ser despedido.

Sabia disso?

Soube hoje.

Dava-se bem com o Sr. Bunner?

Em geral, sim. Mas não éramos grandes amigos.

Bem. Pode sentar-se.

Sra. Manderson, faça o favor de se aproximar.

Desejo fazer-lhe mais algumas perguntas.

- Ouviu a testemunha do Sr. Bunner? - Ouvi.

Diga-me por que motivo é que o seu esposo…

queria despedir o Sr. Marlowe.

Não faço ideia.

O Sr. Bunner sugeriu que podia esclarecer o assunto.

Também o ouvi dizer isso.

O meu esposo sempre pareceu satisfeito com o Sr. Marlowe.

Aliás, confiava mais nele do que no Sr. Bunner,

o qual era considerado como indiscreto.

Entendo. Pode ir sentar-se.

Membros do júri, ouviram as testemunhas.

Será que o falecido foi alvejado por um ou vários desconhecidos,

ou então como foi sugerido, será que se suicidou?

Todas as testemunhas apontam para a segunda hipótese.

As provas médicas indicam que a morte ocorreu…

6 ou 8 horas antes da descoberta do corpo.

A morte foi devida a uma bala que causou extensos danos cerebrais…

e disparada de muito perto.

Estão aqui duas armas idênticas.

Uma delas com as iniciais JM, ou seja a arma do Sr. Marlowe.

As impressões digitais provam que o falecido…

foi morto com a própria arma dele…

e não com a do Sr. Marlowe.

O aspecto exterior da ferida apoia a hipótese…

do suicídio.

No que diz respeito ao estado mental do falecido,

contam muito as testemunhas da Sra. Manderson e do Sr. Marlowe.

Será que houve homicídio…

por parte de desconhecidos…

ou será que houve suicídio?

Nesse caso, em que estado de espírito estava o falecido?

São essas as perguntas às quais têm que responder.

Façam o favor de decidir quanto ao veredicto.

- Deixe ver se aprendeu a desenhar. - Aprendi.

Tem muita imaginação.

É para tentar animar o processo. O que acha?

Vão confirmar o suicídio, é claro.

Pois é.

Silêncio.

Decidiram sobre o veredicto?

Decidimos.

Achamos que o falecido se suicidou num momento…

em que estava perturbado.

Obrigado, concordo totalmente com esse veredicto.

A simpatia do júri e do tribunal…

vai para a viúva enlutada…

que teve que passar por esta provação…

durante o processo.

Vou buscar o carro.

Trent não acredita no suicídio.

Ele quer continuar a investigar certos fatos.

É melhor o mandarmos voltar aos desenhos dele.

- Também acho. É tudo? - Sim, obrigado.

Escreva.

Esqueça o Manderson, volte à pintura.

Calvin C. Bunner, secretário do Sr. Manderson.

Sim, aqui fala o diretor.

Claro que não. Tem certeza do que afirma?

Esteja à vontade, nunca revelamos as nossas fontes.

Sim, ouvi dizer.

Agradeço muito, Sr. Bunner.

Obrigado.

Risque tudo e escreva o seguinte.

Continue a investigar. Também não acredito no suicídio.

Arranje algo sobre… a "Dama vestida de preto".

- Posso ajudá-lo? - Desejo falar com a Sra. Manderson.

- A respeito do processo? - Exatamente.

Lamento, mas ela não dá mais entrevista nenhuma,

nem quer ver ninguém.

- Não posso entrar? - Não.

Olá.

Chamo-me Philip Trent.

Eu sei.

Costuma sempre entrar pelas janelas?

Não fui muito bem acolhido à porta.

Queria saber quem tocava Mozart. Pode continuar.

Estava tocando para mim, não sabia que me ouviam.

Antes de deixá-lo ir, quero agradecê-lo pela sua ajuda.

Foi com muito prazer. A multidão não era perigosa.

Mesmo assim, fico agradecida.

- Reparei em você no tribunal. - Estava te desenhando.

Eu reparei.

- Espero não tê-la incomodado. - Faria alguma diferença?

Trata-se de uma mania minha. Tal como você e o piano.

- É para o seu jornal? - Não, só para mim.

Agora que a vejo, acho completamente inadequado.

Mas não é assim tão mau.

Muito curioso.

Se gostar, posso lhe dar.

Porquê?

Não quero que me considere como um intruso,

mas sim como alguém que quer ajudá-la.

Porque acredita que preciso de ajuda?

Sra. Manderson, o seu esposo não se suicidou.

- O tribunal confirmou. - Enganaram-se.

Diga-me algo…

Acha que não disse tudo ao juiz?

Francamente, acho.

Respondi a todas as perguntas sinceramente.

As perguntas estavam erradas.

Disse a verdade, mas não toda.

Não faço ideia do que está falando.

É bastante simples.

Explicou ao juiz que o seu marido tinha mudado de comportamento,

mas não disse que tinha tornado a sua vida num inferno.

Parece saber muito…

Mas não sei o suficiente.

Sra. Manderson, me autoriza a revistar a casa?

Não vejo necessidade para investigar. O caso foi encerrado.

Talvez seja reaberto. Por interesse do público.

Muito bem.

Vou pedir ao Martin para acompanhá-lo.

A propósito, aquele juiz simpático esqueceu-se…

de lhe fazer uma pergunta.

Que pergunta?

A mudança no comportamento do seu esposo…

teve algo a ver com John Marlowe?

Olá.

Lamento, mas tinha dito ao Sr. Trent para não incomodá-la.

Espero não a ter incomodado.

Dei autorização ao Sr. Trent para revistar a casa.

Se precisar de mais algo, peça ao Sr. Marlowe.

- Vou fazer-lhe a visita. - Não se preocupe.

A Sra. Manderson mandou o Martin tratar disso.

O que ele veio fazer?

Não acredita no suicídio.

Esteve sempre de olho em nós.

Diz querer esclarecer alguns fatos.

Ele não acredita que já disse tudo?

Tudo?

Não… Fico agradecido consigo. Sempre ficarei.

Falou em reabrir o caso.

- Deveria tê-lo mandado embora. - Para confirmar as suspeitas dele?

- Quero ver o quarto do Sr. Manderson. - Entendido. Por aqui.

Foi o último a vê-lo vivo?

Correto. Estava na biblioteca quando chamou por mim.

- Que horas eram? - 10 e meia.

- Em ponto? - Sim.

Martin… ele costumava chamá-lo a essa hora?

Pelo contrário.

Desde que trabalho aqui, ele nunca pediu a bebida antes das 11.

Aceita que lhe dê algo pelo incômodo?

Vai contra os princípios do Sr. Manderson…

o pessoal aceitar regalias.

Quer dizer que era o único a poder ganhar a vida.

Não posso dizer.

Agora que ele faleceu, mudemos de tradição.

Obrigado. Agradeço muito.

Sabe com que sapatos ele estava calçado?

Aqui estão.

Eram os seus sapatos favoritos que ele estava usando.

Sabe se eram apertados para ele?

Pelo contrário, eram largos por causa da artrite.

Parece que foram alargados. Até a lingueta está rasgada.

Apertava sempre os atacadores desta maneira?

Engraçado, nunca reparei. Deve tê-los amarrado às pressas.

Com certeza.

Sabe se ele caminhava rápido?

Para ser bem exato,

diria que caminhava com agilidade, tendo em conta a artrite.

Martin, a que distância fica o campo de golfe?

O campo de golfe? Deixe-me pensar…

Diria que fica a uns 2,5 km.

- Até chegar ao buraco 9? - Creio que sim.

Ele sempre usava luvas?

Sempre. Era uma fobia dele.

Como se não quisesse que lhe vissem as mãos.

Falta uma luva quando o encontraram.

Deve tê-la tirado para puxar o gatilho.

Ele era ambidestro?

Pode repetir?

Era hábil com as duas mãos?

Pelo contrário, era canhoto.

- Canhoto? - Sim.

Martin, sabe se ele ficava quietinho na cama?

Quer saber se ele se mexia muito?

Mexia-se tão pouco que nem sequer o ouvíamos deitar-se.

Mas os lençóis atestavam da luta que devia ser…

antes dele adormecer.

Há quanto tempo é que o Sr. Marlowe era secretário dele?

Deixe-me pensar.

Espero que não tenha tido qualquer dificuldade.

Nenhuma, obrigado.

Com licença.

Agradeça a Sra. Manderson e diga que o Martin ajudou muito.

- Conte comigo. - Obrigado.

Obrigado, Martin.

Ele acaba de sair.

Pelo visto.

Vou embora amanhã e jamais voltarei.

O que quer que faça?

Fique aqui e trate da propriedade.

Se for o que deseja.

Quando vai precisar de mim?

Não vou precisar. Melhor não voltarmos a nos ver.

Acho que sim.

Lamento.

A senhora me chamou?

Peça à Celestine para fazer as minhas malas.

Com certeza.

Em nome do pessoal e de mim próprio,

apresento-lhes os pêsames.

Obrigada, Martin. É muito amável.

Adeus.

Está à procura disto?

Sim, procurava.

Enganou-se de taco ou anda preocupado com algo?

Ando preocupado.

Venha comigo ao buraco 19, que eu já te conto.

Interessa-me estar a par do caso.

- Eu lhe conto tudo. - Obrigado.

- O de costume? - Por favor.

- E o senhor? - Pode ser a mesma coisa.

Cupples… sabe de algo do caso que não me queira dizer?

- Explique-se. - Há algo que me intriga desde o início.

Sei que o Manderson era um homem desagradável.

De repente, é morto violentamente…

Está falando da atitude da minha sobrinha.

Pouco antes da morte dele, recebi uma carta dela.

Ela parecia aflita.

Decidi ir falar com ela.

Convidei-a para almoçar, mas ela nunca apareceu.

Foi o Manderson quem veio.

Resolvi lhe dizer o que tinha em mente.

O que lhe disse?

Brigámos.

Ao meu ver, ele fez muito mal com o seu joguinho financeiro.

E decidi lhe dizer.

Mas os homens iguais a ele não estão dispostos a ouvir.

Falei bem alto, na frente de todos os clientes.

Saúde.

Não voltou a vê-lo vivo?

Voltei sim. Muito mais tarde.

Mas não lhe falei. Estava passeando pelo campo.

Perto do buraco 9?

Agora que fala nisso, parece que era.

Por volta das 10 e um quarto?

Devia ser.

Obrigado pela sua ajuda.

Ajudei?

Apenas me falta solucionar o enigma.

Vou escrever o meu relatório. Obrigado pela bebida.

Ajudei?

Caro Molloy

Tal como suspeitava, Sigsbee Manderson não se suicidou.

A não ser que um cadáver possa caminhar 2,5 km.

Reparei em algo desde a tua infância.

Quando inquieta, toca música.

Quando muito inquieta, toca Mozart.

O que foi?

- Conhece bem Philip Trent? - Há muito tempo.

Como crítico de arte, o ajudei bastante.

Fiquei desiludido quando ele abandonou a pintura.

Pode lhe pedir que deixe de investigar?

- Você lhe disse… - Sim, mas mudei de ideia.

Eu sei o que faço. Tenho motivos para te pedir isto.

- Pode ir encontrar com ele? - Se desejar.

Desejo sim.

Resolvi ir embora. Regresse logo que o tiver visto?

Está bem. Volto já.

Quem me dera entender…

- Me dá licença? - Por favor.

Caro amigo, não deixe de trabalhar.

Sim.

A Margaret lhe faz um pedido.

- Que pedido? - Para deixar isso tudo.

Ela anda preocupada.

É muito tarde, o meu relatório está prestes a ser despachado.

Acho que provei que Manderson não se suicidou.

O tribunal discorda.

Consegui provar que houve engano. Está tudo aqui escrito.

- Sou curioso, mas muito discreto. - Não é nada.

Prometeu.

Prometi contar-lhe tudo, mas pode haver consequências.

Podemos almoçar juntos?

Preciso ir para Londres.

Esse caso para mim é um mistério.

Pois deve ficar.

Deve ser o Sr. Cupples. Estou na biblioteca.

O Sr. Trent.

Sra. Manderson, vou apanhar o trem do meio-dia para Londres,

mas antes, tenho algo importante para lhe contar.

- Sente-se. - Não, obrigado.

Desde o nosso último encontro, descobri algo sobre a morte do seu marido.

Pedi ao meu tio para impedi-lo.

Foi muito tarde. Já tinha concluído o meu inquérito.

Está tudo aqui escrito.

A publicação deste relatório vai depender da sua decisão.

Leia-o.

Não quero lê-lo.

Peço que mude de ideia.

Estou disposto a fazê-lo desaparecer se me disser que é o que deseja.

Não quero lê-lo.

Sra. Manderson, preciso lhe fazer uma pergunta.

A mesma pergunta à qual não respondeu por estar inquieta.

Pode garantir que a mudança no comportamento do seu marido,

tal como explicou ao juiz,

não teve nada a ver com o John Marlowe?

O senhor entrou em minha casa sem qualquer autorização.

Deveria tê-lo posto para fora. Não vou cometer o mesmo erro.

Vá embora, por favor.

Vou, se ler isto.

A senhora chamou?

O Sr. Trent vai embora. Escolte-o até a porta.

Com certeza.

Vou deixar isto aqui.

Se resolver guardá-lo para você, entenderei.

E não investigarei mais.

Ele foi assassinado e creio saber por quem.

Esta carta deverá incriminar alguém definitivamente.

Avise a polícia e veja o que acham.

É tudo.

- Notícias do Trent? - Não.

- E no correio? - Nada.

Encontre-o. Ele me prometeu o relatório há seis semanas.

Ligue para o atelier dele.

- O seu café da manhã. - Obrigado, Jimmy.

O que foi? Não consegue finalizar?

Não sei. O que acha?

Parece estar ligada ao homicídio do marido?

Deixe disso…

É verdade que a acho parecida com a Lady Macbeth.

Lady Macbeth não matou o marido.

Ora essa… aprendi uma.

Atenda. Se for do jornal, diga que fui pescar na Jamaica.

Residência do Sr. Trent.

Não. Está fora.

Foi pescar na Jamaica.

O diretor diz que o viu ontem à noite em Londres.

E me viu mesmo. Estava pescando no Tâmisa.

Ele viu…

Pergunte se recebeu alguma carta.

O Sr. Trent pergunta se recebeu alguma carta sobre o caso Manderson.

Diz que não. O diretor quer vê-lo imediatamente.

Desligue rápido.

- Não estou para ninguém. - Muito bem.

Este senhor não quis nem ouvir.

- Quem é? - Calvin C. Bunner.

Desejo lhe falar em particular.

- Posso tomar o meu chá? - Claro, vá em frente.

- Sente-se. - Não, obrigado.

Por que razão se retirou do caso Manderson?

O seu diretor está a par de tudo. Não sabia?

Não nos falamos. Saiba que o caso está encerrado.

Para mim, não está.

Vim vê-lo porque sei quem matou Sigsbee Manderson.

Concluíram pelo suicídio.

Foi homicídio. Sei quem foi e porquê.

O senhor fala muito.

Só falo para quem entende.

Vou lhe dizer por que motivo Marlowe matou Manderson.

O veredicto foi proferido. Essa acusação é difamatória.

Quando um cara como ele se vê entalado…

Porque não disse nada no tribunal?

Teve medo que ele dissesse que foi despedido?

- Mentira! - Sabe bem que é verdade.

Você errou em várias transações.

Se não fosse o Marlowe, teriam perdido tudo.

- Vim aqui para… - Você fala muito.

Deixe-me almoçar. O senhor conhece o caminho.

Sra. Manderson comparecerá ao concerto de caridade.

Concerto de caridade com Eileen Joyce e a Orquestra Sinfônica de Londres

Ali está o Philip Trent.

Está ali, sim.

Meu caro Philip… como está?

O dois já se conhecem?

Nos conhecemos.

Poderia ir buscar uma bebida para a Sra. Manderson?

Com certeza. Um xerez, como de costume?

Sim, obrigada.

- E para você? - Um uísque duplo.

Peça também um para você.

Ótima ideia. Deveria ter pensado antes.

Leu o meu relatório?

Li, sim. Trata-se de uma fábula fascinante.

- Não seja cínica. - Não estou sendo.

Agradeço por não o ter publicado.

Foi um peso na consciência.

Deve ter sido.

Acredita que Marlowe matou o meu marido.

Os fatos são esses.

Desde a sua partida, me convenci que a sua opinião não importava.

Mas percebi que importava muito.

Vou lhe contar a verdade. Acredite em mim.

Obrigado.

Com licença.

Outra ronda, por favor.

Na semana anterior à morte do meu mnarido,

era para irmos ao teatro.

Mas por causa dos seus negócios, pediu ao John para me acompanhar.

Eu estimava muito o John. Éramos bons amigos.

Naquela noite, percebi que estava apaixonado por mim.

Quando regressamos para casa…

Sirva-se.

Apavorada vi alguém fechando a porta.

Soube que o meu marido tinha nos visto.

Depois disso, minha vida tornou-se um pesadelo.

Tentei lhe explicar, mas não queria me ouvir.

Na noite da morte dele, desconfiei que iria acontecer algo.

Creio que se suicidou por causa dos ciúmes.

Porque não falou antes?

Teria sido pior para John.

Faltava eu acreditar.

Fiz o que pude para protegê-lo. Até ocultei parte da verdade.

A senhora é uma amiga sincera. Mas acredito que ele o matou.

Não matou, tenho certeza disso.

Prefiro me certificar disso.

Posso vê-lo?

É claro. Ele mora em White Gables.

Posso visitá-la para lhe dizer se estava certa?

- Estarei à sua espera. - Obrigado. Fico feliz.

Tem tanta gente lá, que não conseguia me aproximar do balcão.

Que felicidade é essa?

O Sr. Trent vai encontrar-se com Marlowe em White Gables.

Ainda tem algumas dúvidas para esclarecer.

O assunto não estava encerrado?

Posso ir com você? Gostaria de pôr à prova umas teorias.

Com muito prazer.

À sua, amigo.

Margaret…

Philip.

Sr. Marlowe, vários indícios provam…

que Sigsbee Manderson não se suicidou.

Em primeiro lugar, ele não costumava vestir a roupa que usava…

quando o encontraram.

Sobretudo, nem tinha os sapatos apertados.

Também é muito estranho ele ter deixado a dentadura no quarto.

Sr. Marlowe… Manderson não chegou a regressar a White Gables.

Pois já estava morto quando um impostor entrou nesta casa.

Deixe-me lhe explicar.

Entre as 10 horas, quando saiu de carro, e as 11…

Manderson foi morto.

Provavelmente longe de casa.

Digamos… junto ao buraco 9 do campo de golfe.

Depois trouxeram o corpo até aqui e trocaram sua roupa.

Alguém fazendo-se passar pelo Manderson…

entrou pela janela da biblioteca.

Trazia junto com ele a arma que tinha sido usada…

e a dentadura.

Tinha calçado os sapatos, vestido o casaco e posto o chapéu dele.

Sentou-se para telefonar, de costas para a porta…

e chamou o Martin.

Quando Martin chegou, ele estava ao telefone.

Foi feita uma chamada para Dover. Verifiquei.

Quando Martin saiu,

ele foi ao quarto do Manderson,

desfez os lençóis da cama…

e pôs a dentadura sobre o criado-mudo.

Era quase o álibi perfeito.

Pois Manderson a tinha posto quando saiu com você.

Até falou com a Sra. Manderson.

Também a tinha quando telefonou, segundo o Martin.

Nessa ocasião, você estava a caminho de Dover.

Mas já não a tinha quando o encontraram morto.

Devo admitir que isso me intrigou muito.

Também fiquei intrigado pelas impressões digitais dele estarem na arma.

Mas ao meu ver,

só apareceram depois da morte.

Quem fez isso cometeu um erro.

As impressões na arma eram as da mão direita.

Mas como sabe, Manderson era canhoto.

Depois disso, o impostor desceu as escadas e desapareceu.

Estou vendo que entendeu tudo.

Marlowe…

Quem era o impostor?

Precisava ter a mesma altura.

Digamos… 1 metro e 85.

Precisava ter os pés maiores, para rasgar a lingueta dos sapatos.

Os cadarços estavam amarrados como os seus.

Também precisava ter algum talento de representação e imitação.

Mandei um telegrama ao meu amigo diretor de teatro em Oxford.

O famoso OUDS.

Na resposta dele, dizia:

"O ator que melhor representou Mercúcio e Hamlet…

chamava-se John Marlowe."

Além disso, acrescentou…

que era um excelente imitador.

O que responde a isto?

Quer beber algo?

Obrigado.

Nunca pensei que se pudesse aproximar tanto da verdade.

Vale mais contar-lhe tudo.

- Preferi avisá-lo antes… - Entendo.

Devem entender a minha relação com Manderson.

Sempre acreditei que ele estava satisfeito comigo,

que me estimava.

Na noite da morte dele, percebi que me odiava.

Não suspeitava que a relação de vocês não era assim tão amigável?

Suponho que sim.

- Como assim? - Não sei dizer.

Não sabia que ele era muito ciumento?

A Sra. Manderson me disse que estava apaixonado por ela.

Ainda estou.

Sempre estarei.

Manderson sabia de tudo.

Isso o enlouqueceu.

Ele era louco.

Não tinha percebido antes daquela noite.

Aproveitou todas as oportunidades para ser desagradável com a esposa.

Recusei jantar com eles por não tolerar vê-lo humilhá-la.

Resolvi ir passear. Ao sair da casa,

disseram-me para encontrá-lo na biblioteca.

Desculpe, o senhor está à sua espera na biblioteca.

Obrigado, Martin.

Entre.

Entre, Sr. Marlowe.

Sente-se.

Sente-se ali.

Fique à vontade, Margaret.

Vamos todos nos pôr à vontade.

Querem saber o que me faz rir?

- Quer que te diga, Margaret? - Por favor.

Estava pensando no engenho do Sr. Marlowe.

Ouvi o talento de imitador dele outro dia.

Repetiu algo que tinha dito, ao imitar a minha voz.

Vou lhe pedir que atenda uma chamada de Paris por mim.

Vai gostar.

O Sr. Marlowe é muito engenhoso.

Talvez tenha reparado.

Diga-me uma coisa…

Diga-me, Marlowe.

Sim, Sr. Manderson?

Você é muito habilidoso em banalidades matemáticas…

Quantas horas do meu trabalho são necessárias…

para poder estragar tantos charutos sem fumá-los?

Bem…

Alguma vez já pensou no motivo que me levou a contratá-lo?

Bem…

De todos os indivíduos ambiciosos que se candidataram,

foi o único a responder às minhas perguntas sem a resposta…

começar pela palavra "Bem…".

- Fume um charuto. - Não, obrigado.

Também é muito sensato.

Não cede aos vícios que não pode sustentar.

Não é, querida?

Faça o favor de atender.

É a chamada de Paris.

Aguarde.

Imite a minha voz.

A Sra. Manderson vai achar muito divertido.

Alô? Aqui fala Sigsbee Manderson.

Aguarde.

- É a propósito do mercado afegão. - Diga-lhe que venda tudo.

Alô? Venda.

Venda tudo.

Ouviu? Tudo.

O que foi, querida? Não achou divertido?

Não fique assim, estávamos apenas brincando.

Tinha certeza de que não era capaz de nos diferenciar.

Ou é?

Ouça, Marlowe…

Já que a minha esposa resolveu sair, tratemos de negócios.

Tenho aqui uns papéis para entregar ao Sr. Harrison.

Sente-se.

Lembra-se de ter me ouvido falar nele?

Fez uma reserva nesse nome para um barco com destino a Calais.

- Lembra-se do dia? - É para a saída de amanhã.

Tenho muito respeito pela sua aptidão em recordar tantos pormenores.

Tome.

Apetece-lhe experimentar o seu talento para algo que necessite mais…

iniciativa própria?

Estou às suas ordens.

Não é ordem nenhuma, mas sim um favor.

Na realidade, trata-se da maior aposta da minha carreira.

Pois é, Sr. Marlowe… a maior aposta. Pode me ajudar, se quiser.

- Farei o possível. - Agradeço.

Agradeço muito.

O verdadeiro Harrison talvez não possa ir,

mas quem entregar os papéis deve apresentar-se com esse nome.

- Entende? - Creio que sim.

Ainda bem. Eis no que preciso da sua aptidão.

Pegue o carro e vá encontrar com ele em Dover. Entendeu?

Sim.

Se ele não estiver, viaje para Paris no lugar dele.

- O que farei do carro? - Deixe-o em Dover sob outro nome.

- E isso? - Entregue na Rua St. Honoré em Paris.

- Aqui tem o seu bilhete. - Quando quer que vá?

Tenha cautela, o conteúdo do envelope tem muita valia.

Quando? Hoje à noite.

Saímos daqui às 10 horas, tem 15 minutos para fazer a mala.

- Tire o carro da garagem. - Muito bem.

Espero que tenha entendido.

Creio que sim.

Posso contar com você?

Sr. Marlowe…

É melhor levar a sua arma.

Talvez possa servir.

Tal como disse o Sr. Trent,

pode parecer estranho ter obedecido sem fazer qualquer pergunta…

e ter aceitado fazer algo fora das minhas obrigações.

Mas conhecia os métodos do Manderson.

Ele contava com que cada um obedecesse às ordens.

Em 10 minutos estava pronto para ir para Dover.

Já está pronto, muito bem.

Vou com você de carro até o campo de golfe…

e depois regresso a pé.

Algo errado?

Não levo dinheiro suficiente para as despesas.

Não trago nenhum. Peça dinheiro em Paris.

Sacou 1.000 libras ainda hoje.

- Está pedindo que lhe dê contas? - Claro que não.

Não leva dinheiro suficiente… Não recebe um bom ordenado?

Pois talvez já não seja que chegue, considerando os seus gostos custosos.

Margaret…

Vamos dar um passeio de carro.

O Sr. Marlowe acha que talvez possa acalmar os meus nervos.

Traga o carro até a porta. Vou já te encontrar.

Adeus, Margaret.

Espere!

Por favor, te peço para não ir com ele.

Não fique assim, vamos só dar um passeio.

Deixe-me ir com você, por favor.

Estás com medo de perdê-lo de vista?

Não diga isso.

O que quer que diga?

Apenas queria ir com você. Só nós dois…

E o Sr. Marlowe?

Quer saber a verdade?

Que mais poderia querer?

Ele me ama. Me ama muito.

Mas eu não sinto nada por ele.

Porque não acredita em mim?

Ouça… não vá com ele.

E amanhã de manhã, despeça-o. Livre-se dele.

Não basta te pedir que se livre dele?

Porque não fala?

Quer que te diga, querida?

Os ingleses não têm fama de perder o controle.

Deve haver algo.

Te acho nervosa demais para quem diz ser inocente.

Margaret, vá se deitar e trate de se recompor.

Se pode te servir de consolo… vou me livrar do Sr. Marlowe.

Não espere por mim.

Talvez regresse tarde.

E então… aposto que praticou teatro quando jovem.

Apenas como amador em Oxford.

- Em peças de Shakespeare? - Algumas.

- Gosta de Shakespeare? - Gosto.

É mais um ponto que temos em comum.

- Ouviu o que disse? - O que?

É mais um ponto que temos em comum.

Não entendo.

"Maldição do casamento.

Ser-nos facultado nossas chamar a essas criaturas frágeis…

e não seus apetites…"

- Conhece a referência? - Sim, é de Otelo.

"Se a escrava tivesse quarenta mil vidas.

Uma só será pouco, muito pouco, para minha vingança."

Otelo…

Assisti a uma nova encenação no teatro St. James.

Não gostei nada do ator principal, mas adorei a peça.

Ao chegar em casa, voltei a lê-la várias vezes.

"Não quero ter com ela nenhuma explicação…"

Lembra-se?

"De medo que seu corpo e seus encantos me desarmem a intenção."

"Preferira ser um sapo…" Lembra-se do resto do texto?

"E viver só dos vapores de um cárcere a ceder uma partícula da coisa amada…

para que outrem a use."

Esse Shakespeare sabia muito da natureza humana, não acha?

Como sabia.

"Mas agora… adeus, tranquilidade de espírito.

Adeus, contentamento."

Sim, senhor.

Quando se faz parvo de um homem, não pode haver tranquilidade.

Já nem vale a pena viver. Shakespeare sabia disso.

Acha que vale a pena viver a sua vida?

Acho que vale a pena, sim.

Tem graça…

Já estamos bem longe. Vou descer aqui.

- Trouxe a arma com você? - Trouxe.

- Me dê. - O senhor disse para levá-la.

O caminho não é seguro, é melhor eu estar armado.

Obrigado, Sr. Marlowe. Boa noite.

Algo me levou a olhar para trás.

Manderson me observava com ar de ódio e triunfo.

Se não soubesse que era ele mesmo não o teria reconhecido.

A situação revelou-se logo para mim.

Manderson era louco.

Ele regozijava-se ao me ver ir ao encontro do meu destino.

Que destino era o meu?

Tentei me acalmar-me e ponderar os fatos.

Porque disse à Sra. Manderson que o passeio era ideia minha?

Porque me disse não ter dinheiro?

Onde estavam as 1.000 libras que tinha sacado para ele?

Repeti para mim a mesma pergunta várias vezes.

Onde estão as 1.000 libras?

Resolvi parar o carro para pensar.

Onde estava o dinheiro?

Ali estavam as 1.000 libras.

Junto com uns diamantes brutos.

Percebi logo porque tinha me dito para ter muita cautela.

A história da viagem a Paris sob o nome George Harrison…

era uma encenação.

Não havia Harrison nenhum.

Graças ao dinheiro e aos diamantes…

Manderson iria me acusar de roubo.

Bastava ele fazer queixa na polícia para eu ser detido em Paris.

Resolvi logo o que fazer.

Precisava regressar até a casa e confrontar Manderson.

Nessa hora ouvi um tiro.

Posso lhes jurar, Srs. Trent e Cupples,

que não estava perto dele quando atiraram.

Dei meia-volta para ver o que tinha acontecido.

Ele estava estendido na valeta.

Soube logo que estava morto.

A minha arma estava perto dele com as minhas iniciais.

Junto com as minhas impressões digitais.

Quando lhe tinha dado a arma ele usava luvas.

Manderson tinha encenado perfeitamente o seu suicídio como um homicídio.

Pensei logo em inventar um álibi. O que fazer para me salvar?

Mas, para todos os efeitos, Manderson tinha saído comigo…

e não tinha regressado vivo.

Foi então que imaginei um plano que pudesse me salvar.

Manderson iria regressar para a casa.

Biblioteca

- Não costuma chamar tão cedo. - São apenas 10 e meia.

Ele anda inquieto.

Vai passar.

Quero falar com o Sr. George Harrison.

Harrison… H-A-R-R-I-S-O-N.

Era para ter chegado a Dover esta tarde…

e registrar-se no hotel às 5 e meia.

Deseja outra coisa?

Boa noite.

Não dá para entender.

Tem certeza de que não está no hotel?

Volto a ligar mais tarde.

Ligo mais tarde.

O elefante tem o passo leve!

Vou apagar as luzes.

Tinha deixado o corpo no parque.

Fui até lá e lhe calcei os sapatos e a luva.

Limpei a arma para apagar as minhas impressões…

e pus na mão dele, para aparecerem as suas impressões.

O Sr. Trent tinha razão. Na hora esqueci que ele era canhoto.

Depois disso tinha que tratar do meu álibi.

A arma do Manderson precisava ter servido.

Esperei por qualquer ruído capaz de cobrir a detonação…

mas o silêncio era total. Então atirei.

- Raio dos caçadores. - Ai deles se o Manderson os apanhar.

A sorte estava comigo. Pus a arma no chão e fugi.

Para garantir o meu álibi tinha de chegar rápido a Dover.

Parecia ter passado uma eternidade.

Na realidade, fora preciso menos de meia hora para dispor do corpo…

e fazer a imitação.

Às 11, estava a caminho de Dover.

Conhecem o resto.

Acredito em você. Bem preciso de outro copo.

- Também acredito. - Não passa da verdade.

Acredito porque falou muito tempo para poder mentir.

Agi como um tolo.

Sim, agiu como um idiota. Mas concordo com você.

Se tivesse agido diferentemente, teria sido condenado pelo júri.

Nunca acreditei que fosse culpado, mas quero lhe fazer uma pergunta.

Imagine que outra pessoa tivesse sido acusada?

O que teria feito?

Teria contado a minha versão e esperado pelo julgamento.

Teria feito o mesmo.

Pela segunda vez, o caso Manderson foi encerrado.

Margaret vai ficar contente. Ela está à nossa espera.

O Sr. Trent.

- Margaret, você tinha razão. - Eu sabia.

Philip vai regressar à pintura. Acabaram-se os casos.

Deus queira que sim.

O último caso do Trent. É para festejar, Margaret.

Claro.

- E você? - Um grande.

Eu sabia que o Marlowe era inocente.

- Como pode ter tanta certeza? - Ninguém pode ter.

A Margaret pensava que era um suicídio,

você acusava o Marlowe enquanto ele acreditava no suicídio.

Tanta confusão.

Mas em realidade, Marlowe não matou o Manderson,

que não se suicidou.

Isso é absurdo.

O que lhes quero dizer é que…

eu matei Manderson.

Parece que os assustei. Deixem-me repetir.

Matei Manderson.

Cupples, deve estar bêbado.

Confesso que estou, mas também matei Manderson.

- Está falando sério? - Perfeitamente.

E estou ciente das consequências.

- Porque não disse antes? - Pelo mesmo motivo que Marlowe.

Se tivesse falado,

teriam suspeitado, me condenado e certamente executado.

Não foi homicídio nenhum, mas sim um acidente.

Lembra-se que quando nos encontramos no campo de golfe,

disse-lhe que tinha brigado com Manderson em público?

Lembro.

Acontece que naquela noite,

antes de ir para a cama, fui passear.

Onde me agrada mais, pelo campo de golfe.

Tinha acabado de chegar ao buraco 9…

quando vi um carro parado na estrada.

Vi logo que era o carro do Manderson. Marlowe estava dirigindo.

Ele arrancou, deixando Manderson ali sozinho.

Havia algo esquisito.

Manderson estava ali parado olhando para as trevas.

Estava prestes a lhe falar quando reparei na arma.

Quando o vi levantá-la bati com a minha vara.

A arma caiu ao chão e eu a peguei. Mas feito um animal…

o Manderson tentou tirá-la das minhas mãos.

Tentei segurá-la. Nós dois lutamos…

E ele ficou estendido no chão. Acabou tudo em alguns instantes.

Fiquei ali parado, olhando para ele… espantado.

Depois me inclinei.

O coração dele tinha deixado de bater.

Todo mundo tinha nos visto brigar durante o almoço.

Fiquei logo imaginando as piores das hipóteses.

Precisava regressar rapidamente ao hotel…

entrar sem ser visto e inventar qualquer história.

Presumi que todos pensassem que tivesse sido um suicídio.

De repente ouvi um carro. Marlowe tinha voltado para trás.

Esperei até ele encontrar o corpo…

e regressei ao hotel.

Quando ouvi dizer que o tinham encontrado uns 2,5 km dali,

pensei ter sonhado.

Mas fui até lá e vi com os meus próprios olhos.

- Foi quando cheguei. - Então.

O amigo sabia que eu suspeitava do John Marlowe…

e que poderia tê-lo mandado deter.

Sim, sabia.

- Não se deixa um inocente… - Não, querida.

Lembre-se do que disse Marlowe se tivessem acusado outro?

Lembro. Teria contado tudo e esperado pelo julgamento.

Lembra de me ouvir dizer que teria feito o mesmo.

É por isso mesmo que andava agitado por causa do seu inquérito.

Não quer tomar nada?

Ótima ideia. Deveria ter pensado antes.

Aqui não, no café da esquina.

Entendo… no café da esquina.

Ouça, Philip…

Se aceitasse apagar o nome Manderson da nossa família,

nos faria um grande favor.

Trent é um sobrenome mais bonito. Não acha, Margaret?

FIM

Revisão, ajuste e conversão para POB das legendas de Cristóvão Pinhal Ferreira por RdeA58 em out/2024.

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