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[música suave ao piano tocando]
[música continua]
[mulher grita] Sarah! Sarah!
Filha não é pra ir na água! Sozinha jamais!
[garota] Eu encontrei um velho álbum de fotografias
que minha mãe gostava de organizar.
- [Edmund, em inglês] Um... - [garota] Em quase todas elas...
- Sa... Sarah? Fi... Filha? - [Sarah] Hum?
[Sarah] ...eu estou de costas. [ri]
Querida, está tudo bem! Sarah, sorria!
Está me ouvindo?
Vou lhe contar um segredo, está bem?
Está bem, Papai.
[Sarah] Um dia, meu pai encontrou meu nome pintado em uma pedra à beira-mar.
Eu nunca tinha visto o meu nome assim, tão grande,
com letras maiores do que eu.
Olha, os alienígenas...
Ele me dizia que os alienígenas leriam meu nome escrito na pedra...
lá do alto, no espaço.
[ri] Lá do alto, no espaço.
[Sarah] Essa era eu, a menina de costas.
Não é estranho?
[mulher] Talvez você tivesse apenas
reagindo ao mundo que também lhe dava as costas.
Sarah, a toda ação corresponde uma reação de igual intensidade,
mas que atua no sentido oposto.
A terceira lei de Newton.
Não há nada estranho nisso.
Uma questão de simetria.
Se o mundo me vira as costas, eu viro as costas pro mundo.
[celular vibrando]
Um instantinho, Sarah.
Tecnicamente, faltam 12, não dez minutinhos para acabar a consulta.
O quê?
Ultimamente, eu tenho conseguido ler o que os dedos digitam nas telas por aí.
Ainda não compreendi muito bem o conceito,
mas o movimento dos seus dedos, seguindo o padrão dos teclados,
montam o texto muito claro na minha cabeça.
Você digitou: "Estou em consulta.
Falo com você em dez minutinhos."
Sarah, isso é invasão de privacidade.
Estela, isso é uma habilidade específica.
Uma habilidade específica também, Sarah.
Você não pode esperar que os neurotípicos
tenham a mesma percepção de mundo que você.
Eu sei, mas os neurotípicos
também não deveriam esperar que eu tivesse a mesma percepção de mundo que eles.
Mesmo assim... estou tentando.
[música suave volta a tocar]
[carros buzinando]
Até você terminar de organizar esse prato, a sua comida vai ter esfriado, Sarah.
E se eu colocar mais batatas, elas podem ultrapassar um terço do prato.
O que evidentemente seria um desastre para a humanidade.
Eu nunca questiono as suas manias, Deborah.
Elas são bem mais estranhas que as minhas.
Vamos jantar em paz, por favor!
Você precisa assinar os papéis do banco para a nova aplicação que eu fiz.
- Eu vou ficar rica? - [homem ri]
Não. Mas você tem mais do que o suficiente para viver bem.
Não se preocupe, papai cuidou disso.
[zomba] Pelo menos, de alguma coisa ele cuidou, né?
De qualquer maneira, não é muito bom você pensar
que você pode cuidar de si mesma, Sarah? Não é maravilhoso?
Eu estou trabalhando nisso.
Eu estou trabalhando nesse sentido, Deborah.
Eu fico tão feliz em escutar isso.
E eu também consegui falar com a professora de quem você me contou.
Leonor Delise.
Quem é Leonor Delise?
- É uma cantora de ópera, Deborah. - [Deborah] Ah.
Passou muitos anos fora e hoje dá aula de canto.
- Sarah quer fazer uma aula com ela. - Ah.
Sinceramente, eu acho
que a Sarah devia procurar uma coisa mais objetiva, sabe, mais...
mais concreta.
As empresas de hoje tão superinclusivas.
Eu sei do que eu sou capaz, Deborah!
[suspira] Com licença.
Vocês limpem a mesa.
Ela não gosta de mim, John.
Me tolera porque você é meu irmão.
E porque eu te amo. Ei, senta, meu amor.
Ei. Ei! Eu marquei uma aula com Leonor Delise pra você.
Você não ouviu o que eu disse?
Ouvi, mas eu estou tentando me comportar como se eu fosse uma neurotípica
e... e não me mostrar muito ansiosa.
Quando, quando, John? Quando você marcou a aula?
- Amanhã. - [Sarah] Amanhã que horas?
Ah... Quatro da tarde.
- Eu vou chegar às duas [ofega] - Não, não vai.
Você vai controlar sua ansiedade e chegar na hora.
Parabéns!
Sem muita pressão, por favor, por favor.
Eu te amo.
♪ [mulher cantando ópera] ♪
Tá, os dias de glória que não voltam mais.
Você fazia muito bem a Manon Lescaut.
[ópera para]
Combinava com você.
Uma mulher que morre à míngua no deserto.
"Só, perdida, abandonada."
Pode tomar, não está envenenado.
Se alguma coisa aprendi na vida, Angelina,
foi a ter sempre a mão o antidoto dos seus venenos.
Que bom.
[inspira] Porque, no fim das contas,
fui eu quem lhe sobrou.
Achei que você tinha ido embora.
Eu estava organizando a agenda.
Amanhã você vai conhecer a moça especial. Não se esqueça.
Aliás, especial em que sentido, Leonor?
Foi o irmão dela que marcou a aula.
Eu não sei exatamente qual é o diagnóstico,
mas ela está em algum espectro e, aparentemente, extremamente musical.
Eu deixei claro que é uma aula experimental.
Enfim, vamos ser cuidadosas.
♪ [mulher cantando ópera] ♪
[mulher] Edmund?
Não é impressionante? Ela... Ela parece anestesiada com a música.
Ela não ouve música como a gente.
Há muitos segredos naquela mente, Selma. Ela é uma menina muito especial.
Eu sei, eu só não sei é como lidar com isso.
[zomba]
Essa não é a minha caneca.
Você quebrou sua caneca, esqueceu? Essa é outra.
É de plástico.
Essa, você não consegue quebrar, nem que você tente.
Eu não sou mais criança, Deborah.
Mas, às vezes, você se comporta como tal!
[John] O que foi?
A Deborah quer que eu use uma caneca de plástico.
Simplesmente porque quando você tem essas suas tempestades cerebrais,
você quebra as coisas, Sarah.
Mudanças de rotinas são complicadas, Deborah, você sabe disso.
Vem, Sarah, eu vou te levar pra tomar um café da manhã especial comigo.
- Eu posso convidar a Laura? - Você pode convidar quem quiser.
E hoje você vai se encontrar com a professora, não se esqueça.
Ele defende porque ele é irmão do estorvo.
Bom dia!
- Bom dia. - Bom dia, Deise!
[samba alegre tocando]
Deise, por favor. Suas correspondências.
E o violino?
Ah... Não tenho tempo de estudar, não posso tocar aqui na portaria.
E quando você vai me convidar para te ouvir tocar?
Quando você quiser. Posso até cozinhar para você, Deise.
- É uma promessa? - Palavra dada.
Eu ontem subi pra ver o quadro de luz e ouvi você cantando.
Era La Bohème, não era?
Era, eu estou estudando a personagem.
Eu vou me inscrever no concurso de canto internacional.
Dona Leonor vai perder uma excelente secretária.
Mas é só por isso que eu sou secretária dela, Antônio.
Pra poder correr atrás do meu sonho.
É, você tem razão, é importante ter um sonho.
Vou retomar o violino.
E eu vou esperar o meu convite para jantar. Bom dia.
[homem] Bom dia.
Ah, Deise, por favor.
Por gentileza.
Tem caroços na minha bebida.
E qual o problema?
Caroços são assustadores pra mim.
Ah, não sabia. Nunca conheci ninguém com fobia a caroços.
Fobias não se explicam, é... é uma cadeia de reações químicas.
Nada pode impedir uma reação involuntária de sobrevivência.
Caroços ameaçam a sobrevivência?
A dela, sim.
Toma, Laura, pode ficar com o meu. Eu sou capaz de encarar alguns caroços.
Bom, eu preciso ir. Boa sorte na aula, hoje.
Tchau, Laura.
Hum.
Você vai engolir os caroços? Eu não quero ver.
[música intrigante tocando]
Quatro, acho que hoje nós vamos bater o recorde de cara feia do dia.
Cinco, cinco, Laura.
Você não está contando aquele rapaz que estava saindo
e fez uma careta quanto a gente entrou.
- Não contei porque achei ele bonito. - [ambas riem]
Está ansiosa para a aula de canto?
É... no máximo, e isso não é bom.
Eu quero tanto que ela me aceite como aluna.
Leonor Delise.
Ela já foi grande.
Já foi grande e não é mais? E como é que a gente deixa de ser grande?
Eu acho que a gente deixa de ser grande
quando as pessoas percebem que a gente se decepcionou.
Os neurotípicos, geralmente, são melhores em esconder suas decepções.
Os gatinhos chegaram.
[inaudível]
Acho que eu só vou conseguir esconder as minhas decepções
quando encontrar a metade oposta da alma gêmea da laranja.
- Isso faz sentido? - Nenhum.
- Sete! - Sete!
♪ Eu canto ♪
♪ Eu canto ♪
- Outra vez, por favor. - Leonor.
- Algum problema, Angelina? - Nossa menina está chegando.
Agora você não vai mais poder fugir desse encontro.
♪ [mulher cantando ópera] ♪
[público aplaudindo]
Eu vou deixá-las conversar à vontade.
Não é preciso, Deise.
O meu problema com minha filha é um caso público.
Ou você não sabe o que aconteceu?
Eu sei, e se me permite o comentário,
acho que talvez seja bom para você reencontrar a sua filha.
[Sarah vocalizando]
[clique]
A Monserrat segurou a nota final de Dom Carlo por 16 segundos,
e você só 11, Sarah.
Não tem como você fazer igual, desiste.
Não, eu quero tentar de novo. Vai!
- Tá bom, três, dois, um, vai! - [clique]
[Sarah vocalizando]
[ambas gargalham]
Dez segundos, piorou, amiga.
Que horas são?
Calma, ainda faltam duas horas pra sua aula.
Eu quero chegar cedo, é a melhor maneira de acalmar a minha mente.
Assim, eu tenho certeza que eu vou estar lá.
[música suave ao piano tocando]
Boa tarde, posso ajudar?
Eu tenho uma aula marcada com Leonor Delise, Antônio.
Ah. Não quer esperar na portaria?
É só daqui uma hora.
É, mas não precisa ficar parada aí durante uma hora.
Pode esperar sentada na portaria. É mais seguro.
- Qual o seu nome? - Sarah.
Sarah Leighton, meu pai era inglês.
Eu tenho um diagnóstico, estou no espectro autista.
Você sabe do que se trata?
[hesita] Muito vagamente. Mas Dona Leonor avisou que você viria.
Vamos entrar, por favor. Hum?
Sua aluna nova chegou.
A aula dela é daqui uma hora.
Ela não é especial? Não deve ter noção de horário.
É melhor mandar a moça subir.
Você pode subir. É aquele elevador.
Obrigada, eu vou pelas escadas.
São seis andares!
Elevadores podem ser muito claustrofóbicos.
[Antônio hesita]
♪ Dó, Ré, Mi, Fá, Sol, Lá, Si, Dó ♪
♪ Si, Dó, Si, Lá, Sol, Lá ♪
♪ Sol, Lá, Lá ♪
♪ Dó, Ré, Mi, Fá, Fá, Fá ♪
[segue cantarolando]
[Edmund] E lá de cima, lá do espaço sideral,
os alienígenas poderão ver o seu nome na pedra. Sarah!
[Selma] Para de falar essas coisas.
Você sabe que ela já não é boa, fica colocando minhoca na cabeça dela.
Vamos almoçar, filha? Vamos, hum? Vem!
Não?
Sarah, por favor, me ajuda. Senta aqui e toma o suquinho, tá?
[música suave ao piano tocando]
- Sarah? - [Sarah ofegando]
Por favor.
Leonor, essa é a Sarah.
Ela veio pelas escadas.
Por favor, sente.
Com licença.
Seja bem-vinda, Sarah.
Eu sou Leonor Delise, e o seu irmão me disse que você quer estudar canto.
Entre outras coisas, eu gosto de matemática também.
O que mais meu irmão lhe disse?
Que embora não fosse um profissional,
achava que você é uma soprano com possibilidades.
E me disse também que você é especial.
Especial.
Ele adora essa palavra.
Como se atrás da palavra "especial"
se escondesse algum monstro desconhecido.
Pois eu lhe afirmo que não é um monstro.
Também não é desconhecido. Isso faz sentido?
Todo.
Eu sou diagnosticada como uma pessoa do espectro do autismo.
Transtorno do espectro do autismo nível um é o termo certo.
A minha mente funciona de uma forma diferente da sua.
O que não quer dizer que a sua mente seja melhor ou pior do que a minha.
Por que colocar todas as mentes em uma única caixa,
como se fossem sardinhas enfileiradas,
se a grande beleza da aventura humana
é a singularidade da mente?
E por que você não olha pra mim?
Porque eu tenho dificuldade em conhecer pessoas.
Mas não se preocupe, eu vou me acostumando.
São... muitos arquivos abertos ao mesmo tempo.
É uma sobrecarga sensorial, eu... eu posso ficar confusa.
Mas eu não sou só confusão e tempestade.
Eu também tenho várias habilidades.
- Como cantar? - Também.
As minhas conexões neuronais são diferentes das suas.
Eu posso memorizar qualquer conteúdo em pouquíssimo tempo.
Por exemplo, matemática pra mim é uma coisa extremamente simples.
[hesita] São habilidades específicas.
Tudo em mim é particular.
Por isso, eu sou uma pessoa atípica.
Não deve ser fácil, suponho.
É muito difícil, eu não consigo me comunicar muito bem com as pessoas.
Eu também tenho muita dificuldade em esconder minhas decepções.
Já vocês, neurotípicos,
acreditam que felicidade é saber esconder as suas decepções.
Isso faz sentido?
[celular vibrando]
Desculpa. [suspira]
[ri] Eu sei que sou esquisita, pelo menos é o que todo mundo diz.
- Perdão? - Foi o que você digitou aí.
"A moça é esquisita."
Provavelmente respondendo a alguém que te perguntou: "Como é a nova aluna?"
"Esquisita." Acertei?
Eu consigo ler o que você está digitando.
É uma técnica que envolve a posição fixa das teclas,
o movimento dos dedos e a probabilidade combinatória da frequência das letras.
Eu desenvolvi essa habilidade
depois que o uso do celular se tornou frequente.
Não precisa se sentir constrangida.
Eu escuto dizer que sou esquisita desde que eu nasci.
Você não está sendo nem um pouco original.
Sarah, eu preciso ser honesta com você.
Eu trabalho com profissionais. Eu não sou uma professora.
Eu sou, ou fui, uma cantora, eu só estou professora.
Não sei de que maneira posso te ajudar.
Você não tem ideia do que é a real situação do canto lírico nesse país.
- São partituras? - São.
Então eu vou te propor um jogo.
Eu vou apanhar qualquer partitura que está ali na estante, sem olhar.
Se eu puder cantá-la, você me dá aulas.
Se eu não conseguir,
eu desço as escadas.
Você nunca mais vai ter que olhar pra mim.
Posso?
Hum. Lakmé.
O Dueto das Flores, eu posso cantá-la.
Pois, muito bem.
Vamos no tema.
Eu faço Mallika, e você canta Lakmé.
- [piano tocando] - ♪ [cantando ópera] ♪
O que você quer de mim, Sarah?
Eu preciso ter um trabalho.
Pessoas como eu precisam de duas coisas na vida:
um trabalho e alguém que lhes tenha amor.
Mas eu não estou lhe pedindo que me ame.
Estou lhe pedindo que me estenda a mão.
[música melancólica ao piano tocando]
Quarta-feira, às 15h em ponto.
Eu vou chegar às 14h30.
Não é preciso, eu tenho aluno antes de você.
[hesita] Eu vou chegar às 14h.
Boa tarde!
♪ [Dueto das Flores: Lakmé] ♪
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