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William Burroughs
A morte cheira
Tem um odor especial, como cianeto,
p�lvora, sangue, carni�a ou carne queimada.�
� um odor cinza, para o cora��o, corta a respira��o,
odor de corpo vazio, hospital e gangrena.
Agora, amigos, se me seguirem,
v�o conhecer o completo, sossegado homem americano.
William S Burroughs Um homem dentro
William Seward Burroughs,
membro da Burroughs Adding Machine Company,
fundada por seu av�,
nasceu em 1914 em Saint Louis, Missouri.
Depois de se graduar na Universidade de Havard
e viajar pela Europa, se mudou para a cidade de Nova York,
onde conheceu sua futura esposa, Joan Vollmer,
e fez amizade com Jack Kerouac e Allen Ginsberg.
Experimentando novas formas de literatura, e tamb�m de drogas,
os tr�s amigos formaram a vanguarda de um fen�meno cultural
que seria conhecido como a "Gera��o Beat".
Dia de A��o de Gra�as, 28 de novembro de 1986.
Obrigado pelos perus selvagens e pombas mensageiras,
destinadas a ser cagadas pelas tripas dos americanos.
Obrigado por um continente devastado e envenenado.
Obrigado pelos �ndios, que fornecem um pouco de desafio e perigo.
Obrigado pelas grandes manadas de b�falos para matar e esfolar,
deixando que a pele apodre�a.
Obrigado pela generosidade de lobos e coiotes.
Obrigado pelo sonho americano, por vulgarizar e falsificar
at� que a fraude saia � luz.
Nos anos 50, tudo era uma avenida para o pensamento.
Porque quando se fala dos anos 50,
veem dias felizes e pensam que era divertido.
Era terr�vel nos anos 50, uma �poca terr�vel.
A primeira lembran�a que tenho era como
voc� tinha que ser exatamente como os outros.
A Gera��o Beat chocava
havia o objetivo de livrar-se disso.
Foi um chute na bunda do sistema,
branco, correto, e rico sistema americano.
Burroughs: - Garoto, que t� fazendo a�
com os negros e os macacos?
Por que n�o se endireita e age como um homem branco?
Al�m do mais, n�o s�o mais do que lixo humano.
Voc� sabe bem.
Odeio ver um jovem brilhante todo fodido
e indo pelo mal caminho.
O que era o movimento Beat?
Era real!
Claro que era, e trouxe muitas mudan�as.
Nos anos 60 se converteu em algo pol�tico.
Mas como sempre disse,
era mais sociol�gico que um fen�meno liter�rio.
Era um movimento sociol�gico de import�ncia mundial,
nova import�ncia mundial.
Uma revolu��o cultural
Eu chamaria um movimento de libera��o espiritual,
uma libera��o feminina, racial e espiritual,
que come�ou nos anos 40, como um movimento liter�rio,
com a produ��o de um n�mero de express�es not�veis.
A primeira publica��o de Allen Ginsberg foi "Howl" (Uivo),�
publicado em 1956.�
Em 1957 Jack Kerouac com ''On the Road'' (Na Estrada),
e em 1959 ''Naked Lunch'' (Almo�o Nu) de William Burroughs.
Estes tr�s livros foram lan�ados.
Os Beatniks eram populares.
Era enorme,� era como um hula-top.�
Para sua vergonha, acredito.
Porque come�ou em North Beach
com coisas como poesias.
De modo que, quando ficaram famosos,
se envergonharam disso.
Todos esses poetas,�
n�o cabiam no estere�tipo do que era o Beat.
Era uma rotula��o da m�dia para vender jornais.
E exploraram esse garoto, usaram esse cara mau.
Burroughs nunca se identificou com a Gera��o Beat.
Era um padrinho e mentor.
Era um pouco maior, e ao ser educado em Harvard,
trouxe consigo um monte de ideias,
baseadas na cl�ssica educa��o que teve.
E inventou um estilo de literatura.
Era t�o original!
E qualquer coisa que seja t�o original � de longa dura��o.
Todo homem tem dentro um parasita nem sempre atuando em seu benef�cio.
Provavelmente Freud o veria como algu�m muito perturbado,
mentalmente doente.
Todos estavam apaixonados por William�
porque ele foi famoso antes que qualquer outro,
e tamb�m era famoso por todas as coisas ruins.
Foi a primeira pessoa famosa por coisas
que supostamente se escondem.
Era gay, drogado,� e n�o era bonito...
Atirou em sua esposa, escreveu poemas sobre idiotas e hero�na.
N�o era f�cil de se gostar.
A classe social era um fator essencial no trabalho e na vida.
William vinha de uma tradicional, superior e quebrada fam�lia americana.
E ainda que a fortuna tivesse sido perdida,
a semente era profunda e inculcada.�
E assim o cavalheiro que conhecemos foi criado.
Eu o relaciono ao seco,
essa coisa de vendedor que ele criou.
Algo subestimado e rebelde.
Muito revoltado.
E muito interessado na morte.
E acredito que isso gerou medo nos norte-americanos,�
mais que sua pr�pria escrita.
Se ele tivesse essa vis�o de mundo, e houvesse escrito de uma forma mais cordial,
e n�o houvesse se metido com armas de fogo e drogas,
De modo geral, os trabalhos mais radicais se originam
das classes altas.
Porque tratam de deixar para tr�s,
de desapegar-se de suas ra�zes.
� um personagem fascinante, muito norte-americano nesse sentido.
Penso que essa notoriedade n�o teria existido se n�o viesse
da incr�vel meia-voz do meio oeste.
N�o havia rebeli�es naqueles dias.
Certamente n�o em nossa classe.
Ou talvez alguns casos isolados.
Mas, no geral, estavam em um lugar tranquilo.
suas fam�lias estavam em um lugar c�modo,
e os filhos s� queriam seguir da mesma forma.
� que n�o posso respirar nos EUA, especialmente nos sub�rbios.
Obrigado pela Ku Klux Klan,�
pelos policiais que matam negros e os contabilizam.
Pelas mulheres religiosas e decentes, com suas caras
mesquinhas, amargas e perversas.
Obrigado pelo slogan "Mate um viado em nome de Cristo".
Obrigado pela AIDS de laborat�rio.
Obrigado pela proibi��o e pela guerra contra as drogas.
Obrigado por um pa�s onde n�o se permite
fazer o que mais se deseja.
Obrigado por uma na��o de buf�es.
Sim, obrigado por todas as mem�rias.�
E agora vamos aos teus bra�os.
Tem sido sempre um estorvo e sempre aborrecido.
Obrigado pela �ltima e maior trai��o
do �ltimo e maior dos sonhos humanos.
Burroughs conseguiu muito mais�
que ser possivelmente o escritor mais genial do mundo
na segunda metade do s�culo XX.�
Porque rompeu muitas barreiras
e se atirou de cabe�a e influenciou outras express�es.
como o rock and roll e o cinema.
William parecia ter uma conex�o
com tudo e todos.
Se assistimos a um filme como ''Blade Runner'',
� porque a frase "Blade Runner'' veio dele.
O termo ''heavy metal'' � atribu�do a ele.
"Soft Machine'', h� tantas frases,
nomes de bandas que v�m do trabalho de William.�
� como um outro tipo de B�blia.
� um grande pioneiro do movimento de libera��o gay,
da postura dos gays em todo o mundo.
Onde aprendeu sobre sexo originalmente?
Dos amigos?
Livros.
Havia um livro chamado ''The Plastic Age''
de Percy Marks, un livro audacioso da d�cada de 1920.
''The Green Hat'' e ''Coming of Age in Samoa''...
todos dos anos 20.
Era uma �poca muito diferente.
Tenho que escrever este romance estranho, sou o �nico que pode faz�-lo, � meu dever.
Burroughs me disse certa vez, se um homem se levanta,
e rejeita a mentira da sociedade,
� poss�vel que todos os outros o sigam.
E ele era esse homem, at� certo ponto.
E aqui est� o reverendo Blaswell� no "Denver Post"...�
''A homossexualidade � uma abomina��o e nunca deve ser
reconhecida como um direito humano legal mais que um roubo ou um assassinato".
Na atualidade, no Colorado, onde isto foi escrito,
os atos de abuso prevalecem.
E quando digo abuso digo "meu pr�prio assunto".
N�o h� crimes sexuais nos livros,
voc� pode currar uma vaca bem em frente ao xerife,
e tudo o que ela pode dizer � "muuu"...
Mas n�o pode esperar que derrube o est�bulo por algo assim.
E com o v�rus adequado,
talvez possamos conseguir que este show saia do curral e se v� ao espa�o.
Esta � a era espacial e estamos aqui para ir.
Perguntaram a ele em uma entrevista
o que pensava do movimento gay pelos direitos.
E sua resposta foi: "N�o fui gay nenhum dia da minha vida".
"Nem nunca fiz parte de nenhum movimento''.�
No entanto, Burroughs era um desconstrutor de etiquetas.�
Esse era apenas outro sutil esfor�o para n�o ser marginalizado.
E ele foi um dos poucos, talvez com Jean Genet,�
ou Pier Paolo Pasolini,� que teve culh�o de assumir,
antes que fosse moda,
e certamente quando era perigoso de dizer "Eu sou gay".
Mas ele estava al�m disso, porque n�o respeitava
nenhuma das regras da comunidade gay.
Ele n�o era um cara a mais no grupo,
e odiava tudo isso.
Essa cultura lhe era estranha,
porque havia muitas regras.
Havia muitas regras no mundo hetero tamb�m.
E tamb�m violava as regras do mundo das drogas.
Ele deu in�cio n�o � cultura gay, mas � rebeldia gay,
aqueles que n�o curtiam a cultura gay,
que eram muito diferentes.
Tenho que dizer que Burroughs� nos dias de hoje, com sua obra,
tem uma rela��o dif�cil com a cultura gay nos Estados Unidos,
ou escrita gay ou o que seja.
Burroughs nunca foi visto como parte disso,
era muito transgressor.
Mesmo quando estava tudo bem ser gay,
ele estava muito al�m disso.
Jantar com Andy Warhol, 1980.
Eu vejo Burroughs e Warhol como duas figuras paralelas,�
duas pessoas que no final dos anos 50 e come�o dos 60,
se expuseram pelo que acreditavam.
N�o tinham pretens�es a respeito, estavam al�m de tudo.
Nesse tempo isso era absolutamente ultrajante.
� dif�cil de entender para quem n�o viveu nessa �poca.
Quando me mudei para os Estados Unidos em 1965,
n�o se podia mencionar a palavra homossexualidade
sem que todos pensassem que voc� era gay.
Era algo proibido.
E � por causa de Burroughs e Warhol,�
e os que seguiram seus passos,
que o movimento de libera��o gay surgiu.
Que idade tinha na primeira vez?
Treze, quatorze?
N�o, dezesseis.
No Ensino M�dio.
No Ensino M�dio!
Ent�o com dezesseis, e com quem?
Com meu companheiro de quarto.
Os casos de William� foram uma s�rie de obsess�es,
quase todos pobres condenados.
O primeiro, este primo, Prynne Hoxie, em St. Louis,
que foi para outra universidade, Princeton,�
e morreu um ano e meio depois, alcoolizado, em um acidente em Nova York
decapitado por um t�nel
E ent�o se apaixonou por um menino na escola de Los Alamos Ranch,
e ocorreu uma grande desgra�a, e Billy foi para sua casa em St. Louis
e n�o pode voltar a Los Alamos nunca mais.
Foi expulso por seus di�rios, e como escreveu,
quando o correio chegou contendo os di�rios,
n�o via a hora de abri-lo
para se assegurar de destruir as p�ginas ofensivas.
Algumas destas coisas foram exemplos
de como havia tratado de escrever e porque tinha se dado por vencido.
Dizia que tinham um significado doentio, como uma condena��o.
Os namorados, como Jack Anderson,�
o mesmo que lhe cortou um dedo,
e que o ajudou a destruir o carro da fam�lia...
Lewis Marker, o estudante norte-americano na Cidade do M�xico,
que foi provavelmente uma boa companhia intelectual,
mas n�o ia comprometer sua vida com Bill Burroughs...
Em grande medida ele pensava em seus namorados
como membros de uma classe diferente da sua.
Depois de viver com William� durante v�rias semanas,�
e logo que comecei minha rela��o com Richard Elovict, meu primeiro amante,
lembro de William� comentando uma vez
"Olha, voc� e Richie t�m essa ideia intelectual
e social de ser um casal".
E disse: ''No meu tempo isso era desconhecido''.
Era... uma coisa entre classes.
No outono de 89, eu o vi em seu antigo lugar,
estas velhas terras no Bowery, o Bunker.�
Nessa �poca eu tinha 18 anos, era um jovem universit�rio.
Eu era praticamente o namorado de Allen Ginsberg�
mas estava quase combinado que ficava com William,
sempre e quando a oportunidade se apresentava.
Estava sexualmente interessado em mim nesse momento?
N�o particularmente,� n�o me recordo...
Por qu�?
Porque eu era meio bonito, olhando para tr�s.
Era como uma simples rela��o em um de seus romances.
Era o caso de buscar algu�m
que n�o queria ter nada com o autor
daquilo que estava lendo.
Penso que era algo que mostrava,
escritos que usava.
Eram cartas de amor para rir da pessoa que lhe interessava.
Porque eram como roteiros c�micos.
De certa forma, era algu�m que parecia
incrivelmente triste para mim, com o passar do tempo.
Algu�m que havia sido ferido.
Por exemplo, voc� l� que William�estava loucamente apaixonado por Allen Ginsberg,�
e que era quase sempre uma paix�o n�o correspondida.
E acho que essa decep��o que teve quando se apaixonou,
que era algo raro nele,�
o fez se desenganar, sexual e emocionalmente.
Evitando o medo de se tornar vulner�vel e ser ferido.�
Ent�o come�ou a se fechar muito, emocionalmente.�
Quer ser amado?�
Bem, na verdade n�o.
Depende por quem ou pelo qu�?
Por meus gatos, sem d�vida.
Havia algo essencialmente estranho em William,
e acredito que, quando isso afetou sua vida f�sica e rom�ntica,
ele se tornou um dos personagens mais raros do mundo.
Embora apresentasse uma fachada de cavalheiro,
havia um homem muito solit�rio debaixo desse traje de tr�s pe�as.
E foi apenas uma vez que o escutei falar de algu�m
por quem estava realmente interessado e obcecado,
Mark Ewert, a quem descreveu como
''Um homem jovem, com pele de alabastro...''�
Uma noite tive vontade, voc� sabe, de lhe dizer que o amava.
Era tarde da noite, e eu n�o estava muito certo
se ele j� havia dormido.
Assim que o despertei e lhe disse: ''William, William''.�
''Qu�?''�
Lhe disse ''William, te amo. Te amo, William''.�
Ele disse: "Mas voc� gosta de mulheres!"
Lhe disse: ''N�o, n�o. Amo voc�, William''�.
E o que ele disse?
Disse: ''Bem, ent�o t� bom". Ou algo assim.
E meio que me ignorou.
Mas ent�o a pergunta �: o que ele sentia por mim,
ou o que sentia pelos outros seres humanos em geral.
Me lembro de ter lido essa entrevista com ele,
em que ele estava falando sobre a guerra nuclear,
e se diz que de repente come�ou a solu�ar.
Em primeiro lugar,
foi muito dif�cil para mim imagin�-lo chorando.
Mas disse que chorava porque
come�ou a pensar sobre uma guerra nuclear
e foi atingido por uma terr�vel sensa��o
"O que seria dos meus gatos, dos meus seis gatos, se eu morresse?"
E isso o destruiu.
Pode-se ver que os gatos eram, para ele, puros seres espirituais.
E me lembro de algumas de nossas primeiras conversas,
a primeira vez que nos encontramos, falamos sobre as esp�cies em perigo de extin��o.
e sobre os l�mures, que ele conhecia bem.
E acredito que era
um lugar para onde fazer fluir o amor.
Seus animais, esses gatos e esses l�mures.
N�o acho que isso significasse que esse amor era falso,
mas eu tinha a sensa��o de que esse tipo de fluxo
era um canal muito estreito porque era muito dif�cil para ele,
nesta vida, abrir-se a outras pessoas.
E espero que em sua pr�xima vida
seja mais f�cil para ele, e n�o t�o amea�ador.�
Ele era um tipo liberal nesse tempo,
em que a sexualidade era um esp�rito livre e todo esse tipo de coisas.
Mas n�o acredito que pensasse que tudo seria confort�vel.
Acredito que havia conflito em torno de sua orienta��o sexual,
n�o acho que fosse tudo muito claro para ele.
Penso que lutou contra a homofobia, como muita gente da �poca.
H� �reas da sua vida que nunca entendeu.
� evidente que aconteceram coisas quando ele era pequeno.
Foi provavelmente abusado
pelo namorado de sua bab�, ou algo assim.
E ficou muito tempo em an�lise
tratando de descobrir essas coisas.
E falou sobre isso, mas j� est� profundamente enterrado.
Nunca foi realmente capaz de descobrir.
Voc� acha que as pessoas devem pagar por sexo?
Sim, acho que sim.
Eu tamb�m.
Depende das circunst�ncias.
Posso te perguntar...
Voc� disse que gosta de jovens.
� mais f�cil com eles? N�o somente sexo?
� poss�vel sair e jantar, conversar com eles...?
Em muitos casos, n�o.
Eles n�o se concentram?
N�o � preciso.
N�o � preciso, em absoluto.
A primeira vez que o vi, nos anos 70,
vivia em Londres,
e havia um irland�s, salva-vidas, chamado John,
que dividia o apartamento com ele,
e costumava frequentar o Piccadilly...�
fazendo uma ou outra coisa sexual para ganhar dinheiro.
E William sempre parecia preferir esses salva-vidas jovens,
porque n�o era necess�rio um v�nculo emocional.
N�o havia perigo de estar envolvido mais que isso.
Assim que acredito que foi uma das raz�es pelas quais come�ou a,
quase exclusivamente, buscar prazer sexual entre os garotos de programa.
Tinha medo de se envolver em alguma rela��o amorosa.
Voc� fala de manter-se aberto, ser capaz de ver..
� sobre se sentir encurralado...?
Essa ideia de possess�o, em que n�o se quer que se v�...
Sim, em geral, sim...
� tudo uma quest�o de...
Quando se est� aberto a experi�ncias
essa � a forma de viv�-las...
Tamb�m � perigoso se abrir a algo
pelo que se pode se arrepender.
E como se sabe?
N�o se sabe, � como...
Quando deixa de se preocupar com sua imunidade e pode contrair AIDS.
� sempre um problema ser receptivo,
e ao mesmo tempo saber se defender de ataques e influ�ncias.
Porque est�o ali...
� como uma doen�a.
William tinha uma dif�cil rela��o com as mulheres,
no sentido de que n�o havia muitas mulheres em sua volta.
Mas eu sinto que tinha uma boa rela��o com ele
e talvez isso se devesse ao fato de que n�o havia distin��o de g�nero
quando est�vamos juntos.
Troc�vamos receitas...
mas eu diria que nesse mundo, sobretudo quando se estava no Bunker,�
e se ia ao banheiro,
topava com um desenho de um p�nis feito por Keith Haring.
N�o era o mundo que se esperava.
Tinha muita intimidade com William.
Realmente.
Inclusive eu sonhava
que ele se apaixonava por mim e nos cas�vamos.
Quer dizer, estava muito envolvida com William.
E ele sabia, e n�o se importava de modo algum.
Quando fic�vamos a s�s, ele dizia
"Bem, minha querida, � o final da noite.
Choremos um pouco de Bobby Staftoe".
E eu cantava para ele:
Bobby Shaftoe foi ao mar� com fivelas de prata nos joelhos.
Um dia se casar� comigo O belo Bobby Shaftoe.
Havia outra:
Oh querido, qual ser� o problema?
Querido, querido qual ser� o problema?
Oh querido, qual ser� o problema?
Johnny n�o voltou da feira.
E ele me incentivou a cantar, antes que fizesse em p�blico.
Acho que William se encantava com Brion Gysin mais que qualquer um.
Ele foi meu amigo por muitos anos,
um pintor, escritor, m�sico e extraordin�rio contador de hist�rias.�
Cara, sei que podia contar uma hist�ria.
Seus estudos sobre m�sica e magia da �frica do Norte,�
da caligrafia japonesa e �rabe e tamb�m sua pr�pria pintura e escrita,
Influenciaram toda uma gera��o de pessoas criativas
que colocaram em marcha a revoluc�o cultural dos anos 60 e 70.
Gostava de Rolling Stones,�
dos m�sicos da antiga Jajouka,�
das princesas e duquesas da Europa,�
e os jovens imigrantes que chegaram ao Beat Hotel de Paris na d�cada de 50.
Quando viv�amos ali e come�ou nossa colabora��o,
Brion inventou a m�quina de sonho e o m�todo cut-up,�
e suas ideias foram fundamentais para meu pr�prio desenvolvimento como escritor.
O cut-up (bricolagem) foi inventado por Brion Gysin no Beat Hotel.�
Queria criar um marco para sua obra,
e tinha alguns jornais sobre a mesa.
E cortou as bordas usando uma folha Stanley,�
e cortou os jornais e quando olhou,
realinhou as p�ginas e pode ver que as palavras
tinham uma forma particular de sentido, quase como um sentido telep�tico.
E sentiu que tinha descoberto algo verdadeiramente excepcional.
e mostrou a William Burroughs.�
E se sentiu t�o inspirado,
e foi capaz de fazer formid�veis cut-ups.
De fato, William produziu tr�s livros cut-ups.�
William havia lido muita filosofia,
a natureza da consci�ncia, e a ci�ncia e a viagem mental,
magia, tantr�smo, gen�tica, os mundos clonados, a sem�ntica,
buscando uma natureza intr�nseca, buscando a imperman�ncia,
buscando como nomeamos e qualificamos, e de onde vem isso.
Sua dedica��o � altera��o de estados, e o conhecimento,
e pensando com consci�ncia,
e tudo isso sempre o levou a um conflito com os poderes,
porque isso tamb�m � uma atividade ilegal.
Pun��es administradas em doses grandes e repetidas depois,�
d�o lugar a um transbordamento de �reas do c�rebro, sons e inclusive odores,
que � uma caracter�stica categ�rica da consci�ncia,
expandindo a mat�ria cinza que produz muitos dos fen�menos,
tudo o que se pode fazer quimicamente, se pode fazer de outras formas.
As primeiras coisas que William estava pesquisando,�
como uma cruzada pessoal ou como uma filosofia pessoal,
todas essa coisas o tornaram um p�ria, um estranho fora da lei, literalmente.
Quando existe algu�m que intencionalmente escolhe estar fora da lei,
ou se nega a aceitar a regula��o da legalidade
que alguma sociedade imp�s,
ent�o h� em potencial certo grau de caos,
ou destrui��o desse status quo, esse sem sentido que � a realidade.
William escolheu um caminho que sabia que lhe traria
conflitos com os poderes f�ticos,
com as normas sociais e o sistema legal.
E escolheu porque seria intoler�vel para ele
ser um hip�crita e ocultar esse sentido real do ser.
n�o trago paz, mas uma espada!
N�o � um mist�rio que a principal obsess�o de Burroughs era o controle.�
A primeira vez que nos vimos, em 1971,
um pouco antes de deixar este apartamento, me disse:
"Como desligar a chave geral?"
Isso � o que quero que voc� pense o tempo todo.
Quer dizer, minha vida.
E isso � basicamente o que temos feito.
Enquanto voc� n�o se decide a reagir ou dizer,
sen�o a ocultar e ser um hip�crita,
ent�o trabalhar� para eles.
As pessoas agem de maneiras diferentes.
Penso que William era muito pol�tico, um homem radical, anarquista.�
Em Oklahoma o encontraram com pouca articula��o em sua perna direita.
Deram a ele perp�tua sem condicional.
Por quase nada.
Onde? Nos Estados Unidos?
Oklahoma.
Sua forma��o foi de classe m�dia, mas tinha uma governanta
que o introduziu ao �pio.
Assim que n�o surpreende que tenha ido na dire��o que foi.
Existem os "Yage Papers",
Ele � o �nico homem que conheci que tomava yag�,
que � o absoluto sine qua non das drogas alucin�genas.
Tamb�m uma vez Timothy Leary�
e Baba Ram Dass foram ao Marrocos e fizeram ele provar psilocibina.
� o �nico homem que se sabe
que tomou a vers�o original do LSD da CIA, o LSD-6,
que � como uma p�lula da loucura para cavalos.
Ou seja, as coisas que os hippies fizeram nos anos 60
eram como chicletes,
como ouro de tolo em compara��o com a ampla experi�ncia desse cara.
Era um farmac�logo ambulante, uma enciclop�dia humana.
H� um gesto chapado que marca o drogado
como a munheca dobrada marca o viado.
A m�o se abre para fora do cotovelo, dedos r�gidos e palma para cima.
Ele romantizou o uso de drogas,
mas n�o da forma que as pessoas consideram rom�ntica.
Acho que n�o havia escrito nada sobre isso, n�o havia lido nada a esse respeito,
era uma coisa oculta, terr�vel,
era impens�vel que algu�m escrevesse sobre isso de forma desenfreada, como ele fez,
divertida, terr�vel e maravilhosa ele romantizou isso.
Algu�m j� leu "Naked Lunch" (Almo�o nu) e provou hero�na?
Provavelmente. E da�?
Isso n�o quer dizer que o livro n�o deve ser lido.
Sou a favor dos que escrevem sobre sua obsess�o,
um assassino pode escrever um livro sobre a grandeza que � matar,
isso n�o significa que n�o seja um bom livro.
A ruptura do fim dos anos 50, depois de "Howl" (Uivo),
foi um avan�o para os norte-americanos
que n�o estavam conscientes de si mesmos.
Toda a quest�o das drogas,
Inclusive com a forma fant�stica com que Burroughs a concebeu,
a ideia de que havia viciados nos Estados Unidos,
foi uma esp�cie de avan�o social.
Burroughs era cool, sobretudo neste personagem.
De modo geral, quando dizemos cool, comparando o mundo hippie
com o mundo Beat, estamos falando da diferen�a entre o �lcool e a hero�na.
Os hippies que usavam drogas, ou eram viciados nelas,
pensavam que o m�ximo era comprar um saco,
talvez do doutor Nova.
Inclusive tinham um gosto pr�prio, como tinha William,
e compravam um saco e levavam ao Bunker
para dividir com o "papa das drogas".
Na esquina da Rivington com a Bowery
havia um grande fornecedor.
Os viciados do bairro corriam ali.
Howard disse certa vez: "John, comprei algo
para William", e foram injetar juntos.
Howard nesse momento devia ser HIV positivo,
mas William, experiente, se injetava primeiro.
William dividiu muitas vezes,
com as pessoas que vinham visit�-lo
mas sempre se injetava primeiro, por isso nunca contraiu AIDS.
Eu achava isso brilhante.
Quero dizer, todo mundo morrendo!
� triste.
sempre h� a quest�o de...
algu�m que tem a imagem glamorosa,
e se diz, Burroughs fez isso, Keith Richards faz aquilo,
ou Lou Reed faz, e tendem a glamourizar o uso da hero�na,
a veem como algo muito cool.
Mas se a pessoa l� tudo o que William escreveu sobre a hero�na,
ele advertia para n�o us�-la.
E ele estava utilizando como uma imagem ou s�mbolo do controle.
Este � o �ltimo controle,
� preciso comprar o produto sen�o fica doente.
Onde vou o que quer que fa�o, sempre tenho a camisa de for�a
da droga, sem poder mover um dedo para me libertar.
Quero me libertar disso, mais que tudo no mundo.
Estava nessa entrevista com Bill.
E disse a ele: "Sabe, Bill, tive muita enxaqueca � noite,
encontrei esses comprimidos em meu arm�rio,
tomei um par de Percodans".
Seus olhos se abriram e ele disse: "Qu�?"
Eu disse: "Bem, qual o problema?"
E ele disse: "O que quer dizer com o que s�o?"
Eu disse: "O que � Percodan?"
Ele p�s seu rosto a um palmo do meu e disse:
"� lixo!" E se mandou.
E me sentei ali com minha bunda metaforicamente castigada.
E imediatamente vi a distin��o entre este ator,
que era Bill Le com seus v�cios, e um cara que
vivia nos esgotos do mundo, preso por essa merda.
O incidente, com ele gritando para mim
"� lixo!",� foi como um laser me atravessando,
em dire��o a tudo que fa�o da minha vida,
ou tomo sem cuidado, n�o s� p�lulas.
Sexo, fama, cigarros, o que seja, o que penso,
o que posso ter, o que posso provar hoje,
posso respirar e suportar porque isso n�o � nenhum problema.
E de repente voc� desperta, e � um verdadeiro problema.
� uma vida servida na privada em vez de em uma bandeja de prata.
Ele abriu um t�nel para uma sa�da.
Porque se voc� est� fazendo algo e quer parar,
n�o pensar� em parar at� que entenda o que realmente est� fazendo.
A lenda diz que foi para Londres e encontrou
a cura com a apomorfina, em 1956.
A realidade � que a rondou, de vez em quando,
de uma maneira ou outra, durante toda a vida.
Quando o encontrei em 74 estava limpo com exce��o
de algum comprimido, mas em dois anos estava nisso de novo.
E nesse tempo estava t�o enrolado que a �nica sa�da
foi se inscrever em um programa de manuten��o com metadona.
Seu m�dico era o Dr. Harvey Carcass.
Me d� algo para atirar!�
Quero atirar em alguma coisa!
Pr�ximo a uma ca�ada, sempre querem remover as armas
das pessoas que n�o as usam.
N�o quero viver em uma sociedade em que s� s�o permitidas armas
aos policiais e militares.
Este terr�vel aparato foi um presente de Hunter Thompson.�
� um Cassul 454,�
o maior rev�lver fabricado naquele tempo.
O rev�lver que mais usava, quando eu estava com ele,
era uma Smith & Wesson calibre 38,
ele a levava na cintura o tempo todo.
Menos quando ia
ao barbeiro ou ao m�dico,
e poderia incomodar as pessoas que viam
um velho com esse peda�o de ferro na cintura.
Michael n�o gostava que ele andasse com essa arma,
de modo que combinaram que levaria uma pequena Derringers,
em vez de um grande rev�lver na cintura.
Mas quando estava em sua casa sempre tinha uma arma perto,
dormia com uma embaixo do travesseiro...
Quando dorm�amos junto na cama,
sempre havia uma arma carregada na cama conosco.
Bem, sim, havia uma arma carregada e na cama conosco.
Havia armas por todos os lados em sua casa. Em toda parte.
Me lembro que em uma das primeiras noites
est�vamos dormindo juntos em sua casa em Kansas,�
e eu estou brincando com meus p�s debaixo das cobertas
e meu p� encostou em algo, algo muito duro,
e eu disse "William, o que � isso?".�
E ele disse "� um rev�lver".
E eu disse "Ok, e est� carregado?"�
E ele disse "Sim, sempre deve estar carregado,
ent�o n�o se preocupe se est� carregado ou n�o."
Isto � um silenciador.
Isto estava no s�t�o de William.
Pegava o 38 e disparava no s�t�o. Havia um objetivo ali,
e no piso de cima, isso � o que se ouvia.
E assim � como se silencia.
E mal...
nos sent�vamos � mesa para comer,
e sab�amos e pergunt�vamos: "Ouviram isso?"
E eles diziam: "o qu�?"
Atirava seis vezes com o 38.
Suponho que ele sentia certo al�vio com isso,
no sentido de que � melhor que injetar hero�na.
Quer dizer, dispara outra coisa e acontece um bang.
Tinha uma fascina��o com as armas de fogo.
Sempre me perguntei de onde isso surgiu.
Talvez por ser gay, e estar submetido a esse tipo de abuso,
que os gays sofrem.
E ele era um homem magro, nunca foi um cara grande.�
E talvez o ajudasse a se sentir mais seguro,
porque sei que ele sempre tinha uma arma em casa.
Falava de se defender...
Acho que fantasiava
com o que faria se algu�m o amea�asse.
Como quando teve um cachorro nos atacando no caminho a Dylan.�
O cara tinha 14 planos diferentes de como resolver aquilo.
Burroughs dizia que sempre se devia ter tr�s linhas de defesa.
Tinha a espada-bengala, se apertava um bot�o
e se transformava em lan�a.
Tinha um bengala, e conhecia a arte de golpear com uma bengala.
estudou como fazer, tinha um livro sobre isso; e depois havia a Cobra,
e tamb�m havia uma faca afiada que se podia atirar muito r�pido.
Estudou todas essas artes de autodefesa.
Em seus escritos, se v� que sempre est� se empurrando em dire��o aos limites.
E a sensa��o de perigo que � evocada ali,
Se havia algo que o intrigava eram as serpentes.
As serpentes representavam, entre outras coisas,
uma forma de arma� para William Burroughs.�
O processo de inje��o de veneno de serpente � muito,
muito similar � do proj�til de uma arma.
Ele era fascinado pelas propriedades viciantes do veneno de serpente.
Kim, se tivesse que optar,
preferiria ser uma serpente venenosa ou n�o venenosa?
Venenosa, senhor, como uma mamba verde ou uma cobra cuspidora.
Por qu�?
Me sentiria mais seguro, senhor.
Mais seguro?
Sim, senhor.
Os mortos s�o menos perigosos que os vivos.
� um passo na dire��o correta.
Jovem, acho que voc� � um assassino.
Escrevi uma carta a ele,
e lhe ofereci uma v�bora de Gab�o.�
E terminei a carta com uma esp�cie de advert�ncia,
Se n�o houver resposta,
seja positiva ou negativa, considere a serpente a caminho.
Assim que rapidamente respondeu.
De fato, tenho dois ou tr�s cartas breves
onde me pede para n�o enviar a v�bora do Gab�o.
Mas tamb�m recebi um convite para sua casa.
Naqueles dias, eu andava com serpentes nas malas.
E ele queria v�-las se alimentando. Acho que tinha uma cascavel,
e um par de cobrinhas.
E pus uma ratazana ou um rato ali para que pudessem comer.
E o rato saltou para fora para n�o ser mordido.
E William instintivamente reagiu com sua m�o
e agarrou a ratazana ou o rato para coloc�-lo na posi��o
de forma que a serpente podia ter lhe mordido.
E quando fez isso, a serpente atacou.
Acho que s� ro�ou sua m�o, a rasgou.
Estive perto de ser o respons�vel pela morte de William Burroughs,
quando reagiu assim.
um cara muito corajoso, mas n�o muito prudente, como deveria ter sido.
Havia bebido algo com Fred,
e vinho e disse: "Olhe, minha m�o est� est�vel agora".�
Algumas vodkas com coca te ajudam.
Mas a coisa com William, e Tom tamb�m pensa isso,
� que dizia "Te contei sobre..."
e se tomava um trago,
e pensava que ia terminar, que ia cair.
Eu poderia te liquidar como um alco�lico acad�mico.
Est� armado?
William, por um tempo,� alugou esta casa.�
E uma vez, me contaram, eu estava fora da cidade,
atirou contra umas bandejas de prata no muro de pedra ali.
Escutei isso e disse "Oh meu Deus, � um milagre que esteja vivo."
Porque, suponho, as balas� furam as bandejas
e retornam.
Uma vez estava fazendo isso
e havia algumas garrafas pretas penduradas por cordas,
Assim que o cara estava ali disparando,
e de repente se volta,
e aparece esta grande mancha em seu rosto.
E naturalmente o primeiro impulso,
de quem estava com ele, foi pensar que tinha tomado um tirado.
Mas ent�o se deram conta de que n�o era vermelho, era preto.
Ao que parece, um peda�o de vidro da garrafa havia rebatido ferindo-o.
� um milagre que tenha vivido tanto tempo com todas as coisas que fez.
Joan Vollmer era a companheira de quarto de Eddie Kerouac-Parker.
Todos achavarm que ela era uma mulher encantadora, inteligente,
e que tinha que conhecer William Burroughs.
Ent�o come�aram a sair, a se drogar juntos.
William tamb�m sa�a com homens e Joan sofria por isso.
Na �poca que foram para a Cidade do M�xico,
Joan estava tomando grandes quantidades de benzedrina,
e bebendo muito.
William Burroughs tinha voltado ao M�xico depois de uma longa viagem
com Lewis Marker, seu jovem namorado.
Em uma festa de recep��o organizada por sua esposa,
Burroughs, b�bado, lan�ou a ideia de mudar-se para a Am�rica do Sul
onde poderia ca�ar javalis selvagens.
Joan brincou que, se Bill fosse viver como ca�ador,
morreriam de fome.
Burroughs, em resposta, desafiou Joan.
Para demonstrar que tipo de atirador era, a la William Tell.
P�s uma garrafa de gim sobre sua cabe�a, ela se virou, riu,
e disse: "N�o posso olhar, voc� sabe que n�o suporto sangue".
William Burroughs atirou e errou a garrafa,
acertando um disparo mortal na frente de Joan.
Para algu�m como Burroughs,� era uma brincadeira.
Estava brincando de William Tell� com uma 45, pelo amor de Deus!
Acredito que estavam b�bados ou drogados,
e estavam jogando, como se fosse roleta russa,
esse tipo de coisas.
P�s a ma�� em sua cabe�a, tratou de atirar e errou.
Quero dizer, foi previs�vel. Quase como um esquete c�mico.
Allen Ginsberg pensou que poderia ter sido
uma esp�cie de desejo de morrer por parte dela.
Acho que Allen estava decidido a salvar William,
ajudando como podia, tratando de compreend�-lo,
sem ver que havia sido um ato de descuido e viol�ncia,
ou que havia algum estranho, obscuro elemento.
Mas algo certo � que houve energia fora do controle.
O acidente deixou seus dois filhos sem m�e.
Julie, a filha de Joan de um casamento anterior,
ficou sob os cuidados de seus av�s.
William nunca voltou a v�-la.
Seu filho, Billy Burroughs Jr., teve uma vida curta e problem�tica.
Apesar das hist�rias de William sobre o incidente,�
conseguiu escapar do M�xico e nunca foi preso.
Sobre Joan, Burroughs mais tarde comentou:�
"Cheguei � terr�vel conclus�o
de que nunca teria sido um escritor se n�o fosse pela morte de Joan".
"Existem erros muito monstruosos para o arrependimento ou o perd�o".
Edward Arlington Robinson.
Qualquer pessoa que errou dessa forma,
e pagou por isso, n�o confiar� numa troca de alma.
O melhor que poderia haver dito sobre aquilo seria:
o remorso � arrogante,
Ainda para o remorso � preciso orgulho,
e se basear na ideia de que poderia corrigi-lo,
que teria o poder para consertar.
Uma das obras mais extraordin�rias � essa introdu��o de "Queer".�
Porque ele dizia essas coisas com frequ�ncia ali,
e com o passar das d�cadas, b�bado e sozinho,
ele falava disso em termos de algo que havia acontecido
no momento de sincronicidade,
algo que acontece e te causa uma rea��o
e n�o se sabe o que �.
E ele falava sempre de como na Cidade do M�xico
estava caminhando pela rua e come�ava a chorar.
E, sabe William era um cara dur�o,
ent�o chorava durante dez segundos, e seguia caminhando
pelas ruelas do M�xico antigo.
E isso aconteceu tr�s ou quatro vezes.
E ele ia se encontrar com Joan �s 5 em um bar.
N�o sabia por que estava chorando.
E s� depois que ela morreu, lembrou-se disso.
A ideia � que sua mente sincroniza, que
sua mente prev�, ou v�, que algo vai acontecer
no futuro imediato e voc� reage a isso,
estava chorando por essa sensa��o de horror.
Perto do final de sua vida nos reunimos,
e fizemos uma performance para ele,
e eu decidi ler
a introdu��o de "Queer".�
E estava lendo, muito concentrada,
e costumo improvisar quando leio.
Assim que, lendo algo t�o �ntimo dele,
estava consciente de que ele estaria plenamente concentrado
em como eu leria, e o que poderia descobrir dentro disso.
E, de repente,� ca� no inferno.
Era como se minha l�ngua estivesse presa, e comecei a balbuciar um pouco.
E quando terminei, todo mundo estava...
houve uma fra��o de segundo de sil�ncio total,
porque foi uma esp�cie de momento forte.
E ent�o acabei.
E depois me aproximei de William
e n�o sabia se pedia desculpas.
N�o sabia o que dizer.
E ele apenas segurou minha m�o, e seus olhos me olharam quase com l�grimas,
e simplesmente disse: "Obrigado!"
� como hipnotizar algu�m.
Sinto que se William tinha alguma d�vida em sua mente,
se foi um acidente, ou o que seja que eu canalizei,
ou a partir do ar, ou do pr�prio William,�
isso ajudou a lhe dar algum descanso.
A negatividade desse karma o impulsionou a ser escritor.
Tinha que batalhar com esse pesado fardo,
transformando em arte esse karma negativo, porque ele amava Joan.
Era um homem gay mas teve uma esposa e a amava.
Tiveram uma vida juntos.
Foi uma grande trag�dia para ele.
N�o acredito que se tem um acidente como esse
e n�o marque por toda a vida.
Marca o que significa ter uma arma de fogo;
marca o que significa andar brincando com isso...
quando se fez.
Estou certo de que esse acidente o pegou de cheio.
Por certo... sim.
Depois de matar sua esposa,
William Burroughs se mudou para Tanger, Marrocos,
onde lutou contra seu v�cio em hero�na.
Ali, em forma de notas, confiss�es, di�rios e cartas
a Allen Ginsberg e Jack Kerouac,�
produziu os textos do que seria "Naked Lunch" (Almo�o Nu).
Burroughs � justamente o personagem desse livro.
Encontro um Burroughs muito divertido.
Alguma pessoas s�o como... Deus, "Naked Lunch" � obsceno!�
Todos esses caras enforcados, todo esse juda�smo, o repugnante...
o que faltava na leitura de Burroughs, algo totalmente divertido.
Como um grande esc�rnio,
mas o material que usa s�o imagens brutas do insconsciente.
Por que sempre uso a par�dia? Porque nem na vida nem nos escritos encontro sinceridade.
William Burroughs� era distante de muita gente,
e definitivamente do "mainstream", da cultura ocidental que o marginalizava.
E s� um marginal teria o enlevo
de escrever sobre a cultura ocidental como ele fez em "Naked Lunch".
"Naked Lunch" se destacou porque era muito diferente.
Era um romance que voc� amava ou odiava.
Tamb�m inaugurou toda a era do extremo,
porque era t�o subversivo� que tinha sua marca pr�pria.
Em 1962, o romance foi julgado em Boston, Massachusetts, por obscenidade.�
Os tribunais o acusaram de infantic�dio e pedofilia.
As testemunhas de Burroughs� inclu�am Allen Ginsberg e Norman Mailer.�
Seria a �ltima grande audi�ncia de censura liter�ria nos Estados Unidos.
Finalmente, em 1966, a Corte Suprema de Massachusetts�revogou a senten�a,
afirmando que o livro, efetivamente, possu�a um redentor valor social,
e foi amplamente publicado nos Estados Unidos.
Ele venceu a censura porque n�o havia leis contra isso.
N�o entendiam de gays viciados em hero�na e que se gabavam disso.
e falavam disso, e o faziam parecer atrativo.
Isso n�o estava nos livros da lei.
Ningu�m havia pensado em algo que n�o era, todavia, ilegal.
E esse livro era t�o apaixonante, e para come�ar
n�o se pode ter melhor publicit�rio que um censor.
Especialmente nos anos 50 e 60.
Este � William falando sobre a acusa��o de pornogr�fico a "Naked Lunch".
Assim, disse, "Algumas passagens do livro que t�m sido chamadas
de pornogr�ficas foram escritas como uma alegoria contra a pena de morte,
� maneira de "A Modest Proposal" de Jonathan Swift.
Estas se��es t�m por objetivo revelar a pena de morte
como obscena, b�rbara, um repugnante anacronismo
assim como o almo�o est� nu.
Se as sociedades civilizadas querem retornar aos ritos druidas enforcando gente
no boque sagrado, ou bebendo sangue com os aztecas,�
ou alimentando os deuses com sangue de sacrif�cios humanos,
vamos ver o que na realidade comem e bebem,
fazendo-os ver o que est� no extremo da carga da ca�amba.
O homem � levado nu por dois enormes negros,
que o depositam em uma plataforma com uma brutalidade bestial.
O homem se retorce, sua pele se torna viscosa,
como gelatina transparente� que se deixa no nevoeiro verde...
Creio que os escritos de Burroughs,�
particularmente "Naked Lunch", eram bastante revolucion�rios.�
Falavam de coisas que n�o se dizia,
especialmente nos Estados Unidos que era, eu diria,
muito mais repressor sexualmente,
devido � tradi��o puritana e tudo isso.
N�o era apenas a homossexualidade, era essa sexualidade estranha.
Nos anos 60 se tornou bastante pol�tico com os hippies.�
Se tinham um programa definido, a maioria dos objetivos se tornaram realidade:
o fim da guerra do Vietn�, a legaliza��o da maconha, o fim da censura,
o reconhecimento dos direitos das minorias, quase todos esses objetivos foram alcan�ados.
Quando Bill testemunhava eventos como esses, ele escrevia.
E o que se v� em seus textos � o que ele via.
Ele dizia coisas �bvias... que havia um Estado fascista, de terror.
Em Grant Park, quando a pol�cia chegava,
perguntou a si mesmo se seria capaz de suportar ou se sairia correndo,
Ele estava preocupado com isso, e tamb�m estava preocupado com
sua capacidade de se mover r�pido para escapar, porque al�m de tudo,
a maioria eram de garotos e ele estava adiantado nos 50 naquele momento.
Allen Ginsberg era mais hippie.�
Os hippies sempre me deixaram nervoso.
�ramos punks sem saber que �ramos punk...�
nos parec�amos com os hippies,� mas t�nhamos valores punk.
William era como nosso atalho, meus amigos,
porque era bravo, e causava problemas, e n�o era politicamente correto.
Enquanto Allen era politicamente correto dentro do movimento hippie,�
Burroughs sequer era politicamente correto no movimento hippie.
H� uma liga��o real entre os beats e os punks.
Os punks s�o os neo-beats.�
Grande parte da filosofia punk ou estilo de vida ou atitude...
punk vinham da�.
Nessa �poca em que o conheci, em 75,
seu trabalho era influenciado pelo punk rock.
E acho que a cultura queer fez nascer o punk rock,
sempre pensei isso.
N�o se esque�am que ele tinha essa coluna, "O Tempo dos Assassinos",
na revista "Crawdaddy", naqueles dias.
"Crawdaddy" era uma popular revista de rock.�
Assim que, nesse contexto,�
ele abria as portas para estes jovens,
que certamente s� leram um livro seu, provavelmente "Junkie",
e o adoravam como o padrinho do punk, que � o que ele foi.
E tamb�m temos que lembrar que Bill vivia em Bowery,�
a cinco quadras do CBGB's,�
em uma regi�o onde muitas estrelas do punk-rock viviam.
Ele era uma esp�cie de Deus nesse mundo.
Me lembro da Patti Smith em St. Mark em 74, depois de uma leitura,
terminou dizendo para todo mundo que William Burroughs estava de volta na cidade.
N�o � demais? Bem-vindo a Nova York, William Burroughs!�
Eu estava em Amsterdam,�
e n�o tocava em Amsterdam desde que est�vamos ali,
Ele lia em Max, e Patti Smith lia, ou cantava,
e foi como um movimento punk cedo, e estava relacionado com isso.
Vinha ao CBGB's o tempo todo quando est�vamos com nosso trabalho,�
e nos anos 70 era poss�vel v�-lo sentado ali
como o cavalheiro que era.
H� muitas passagens nos livros de William,
sobretudo em "Naked Lunch"� e "The Wild Boys",�
em que ele profetizou o punk rock.
William tinha uma vis�o do futuro que era paralela ao punk rock.
Essa ideia de um grupo de garotos ou um grupo de almas andr�ginas
de um futuro cheio de putas e vis�es febris,
e todo o mundo de Johnny em "The Wild Boys"...
e meu primeiro disco, "Horses",� est� ligado �s refer�ncias de Burroughs.
O punk rock foi influenciado por Burroughs,�
porque eu vejo o punk rock como algo amplo, internacional, anti-autorit�rio,
um redescobrimento cultural e uma revolu��o criativa.
Se tratava de acabar com todas as categorias e hierarquias,
era algo totalmente anti-autorit�rio,� que veio contra essas vozes
bastante tolas, que ditavam valores
de outra classe social, a sociedade burguesa.
A forma como o punk tratava de dizer a verdade,
e ser anti-autorit�rio,� e ter humor negro,�
e acredito que Burroughs � extremamente� punk rock, e um modelo a seguir.�
� curioso, o punk rock era excitante para ele,
mais que a contracultura, a m�sica dos anos 60.
Me lembro que em 77 eu via Burroughs.�
Leu essa obra� Bugger the Queen...
Foi t�o extremo o que fez que
o p�blico estava completamente� surpreso com o que ele fez.
Ele disse: "A banda Sex Pistols fez uma m�sica chamada "God Save the Queen",�
e a recomendou, e disse, "Eu gostaria de encerrar
com uma obra que escrevi chamada Bugger the Queen".
E leu seus versos, e ent�o ele, como que
exclamava a cada vez �Bugger the Queen!
E o p�blico se unia quando chegava
"Bugger the Queen"!
Fomos a sua casa algumas vezes
fizemos uns filmes em super 8 e tiramos fotos,
e s� sacaneamos com William um pouco.
Est�vamos no quintal, na parte de tr�s,
e vimos as diferentes coisas que tinha l� fora.
Tinha uma caixa chamada Orgone Box,
era como uma caixa, ou algo assim,
um feixe de galhos de madeira juntos com um pequeno buraco na porta,
e voc� se sentava ali e...
Acho que a teoria de Reich de se sentar ali
permitia reunir certa reserva de Energia Orgone,�
como era chamada.
� um pouco dif�cil de explicar, mas entendi que tem algo
a ver com o sentimento de que qualquer falta na vida
contribui para n�o se chegar a um orgasmo verdadeiro e puro.
N�o sou punk e n�o sei porque me consideram o padrinho do punk.
Acho que ele pensava que o rock and roll� era uma merda... e grande parte �!
E a maioria dos romances tamb�m!
De modo que, voc� sabe...
N�o acredito que ele sentisse grande afinidade por tudo isso.
Muitos dos pioneiros do punk tinham lido extensamente a Burroughs,�
como Iggy Pop e Lou Reed, e Will Stather do "Negative Trend".
Muitas de suas ideias influenciaram esse pessoal,
e depois outros absorveram esse trabalho,
sem saber que grande parte disso havia vindo de Burroughs.�
"Lust for Life" de Iggy Pop tem algo de Johnny Yen,
e galinhas hipnotizadas, e
achei que ficou �timo.
Escrevi uma can��o chamada Gimme Some Skin,
que � uma das minhas m�sicas mais depravadas, � o que dizem,
Eu a adoro.
E falo dele nessa m�sica.
Eu tinha 23 anos quando a escrevi.
E um desses personagens � uma refer�ncia a ele,
e a letra diz:
Maria Tif�ide tem uma alma.
Chupa a noite toda um velho babaca.
L�ngua pra fora, l�ngua pra dentro.
Me d�, baby, me d� um pouco de pele.
E depois a segunda estrofe �:
Billy Billy Lee n�o � nenhum ot�rio.
Todos os viciados creem que ele est� bem.
� uma boa m�sica, voc� devia escut�-lo algum dia...
� uma zombaria ao estilo punk.
Com certeza algu�m como Dylan foi inspirado,
como art�fice da palavra, de coisas que Allen e William estavam fazendo.
A forma como se aproximavam da linguagem e o que estavam escrevendo.
Uma esp�cie de forma moderna de se aproximar da linguagem,
utilizando-a para descobrir verdades diferentes.
E acredito que por isso as pessoas do meio musical
tem correspondido ao trabalho de William,�
porque havia um monte de ideias inspiradoras.
Uma das primeiras m�sicas dos Dead Kennedys,
o lado B do nosso primeiro single foi "O homem com os cachorros",
A can��o em si, as letras estavam rebeldes,
n�o podia entender como queria contar a hist�ria,
ou onde p�r o que, era uma esp�cie de grande desordem.
Finalmente deixei as m�os ca�rem e pensei,
o que tenho a perder, vou provar o m�todo de Burroughs,�
vou cortar todos os peda�os dessa can��o,
e mexer at� conseguir algo de que goste.
E, de fato, funcionou.
Alguns exemplos disso, �s vezes, quando me dou conta
que devo fazer com os rascunhos, �s vezes�
devo guardar em sacos de pl�stico e deixar cair assim
Isso � o Vulcanus 2000,� do tardio projeto Lard.
Lutem contra a tuberculose, gente,
no Natal, um velho viciado vende selos de Natal em North Park Street.
O chamavam de sacerdote.
Lutem contra a tuberculose, gente.
A m�dia da contracultura era a colabora��o.
Come�ando pelo �bvio exemplo de uma banda de rock.
Est�vamos tendo um bom momento no Bunker,
e no meio da conversa chegamos a Marlene Dietrich.�
Marlene aparentemente cancelou toda sua
turn� pela Austr�lia porque estava muito b�bada.
N�o queria se tratar.
Recusou a possibilidade de uma cirurgia.
Era uma vadia.
E ele come�ou a cantar "Falling in Love Again" em alem�o,
e isso para mim marcou o come�o do disco.
H� um outro William.�
Qualquer descri��o ou transcri��o art�stica
tender� sempre a ser imprecisa.
Se eu pintasse ou desenhasse
meus sonhos, seriam parecidos,
mas as palavras s�o mais desajeitadas...
Com frequ�ncia os descrevo como cenas complicadas e estranhas.
Mas nunca � mais que uma aproxima��o.
Lamentavelmente.
N�o � f�cil, sendo um grande escritor como William,�
renovar e trabalhar com imagens.
E ele conseguiu.
De alguma maneira, floresceu no final de sua vida
e foi capaz de fazer todas essas magn�ficas obras visuais.
William sempre alegou que foi a morte de Brion em 86
o que o liberou para tornar-se um artista.
Est�vamos filmando por a� por v�rios anos,
um dia William e as pessoas que o trouxeram para c� se apresentaram.
e tinham algumas latas de tinta.
Pegaram as latas.
e as colocaram em frente a uma placa de madeira.
E William come�ou a atirar na tinta diante da madeira.
E esse foi o come�o, ao menos que se saiba,
da t�cnica do rev�lver.
Para mim, as tintas voando tinham muito de falso machismo.
N�o tinha, para mim, a riqueza dos seus escritos.
Era algo divertido para mim.
Parte da arte � ironia, � zombar de tudo.
A arte contempor�nea trata de destruir as coisas.
De modo que sim, ele est� destruindo a masculinidade e as armas s�o, bem,
Para mim os artistas s�o os arquitetos das transforma��es,
e n�o os pol�ticos que implementaram as mudan�as depois de feitas.
Tem falado de sua arte, segue fazendo arte com tintas?
De todo tipo.
Sim, pincel,
espingardas,
facas.
Como � esse processo? Prepara as latas?
N�o h� processo.
Para a arte com sprays, voc� pega uma madeira,
p�e uma lata de tinta na frente e dispara.
A tinta cobre a superf�cie.
sem sabermos como vai ficar.
Fui ao L.A. County Museum onde havia uma exposi��o de arte,
e no p�tio do museu estavam todas essas coisas,
e havia Absolut e estavam servindo "Burroughs",�
porque essa bebida � vodka com Coca-Cola.�
E depois disso, nos levaram para uma volta pela mostra.
Ent�o come�amos a ver as pinturas,
e chegamos a esta pe�a de madeira, que tinha um �ngulo em cima.
Me lembro do telhado de onde saiu essa madeira,
e ri porque l� estava
esse tro�o de madeira que agora est� l�,
e tem um pre�o de sete mil d�lares,
e est� no L.A. County Museum of Art...
John Wheeler de Recognition Physics disse
nada existe at� ser observado.�
O artista enxerga� algo invis�vel para os demais,
e p�e sobre o papel ou a tela algo que n�o existia at� que ele observasse,
Obviamente ele tinha alguns problemas como pai.
Ainda que os livros de seu filho, penso eu, fossem realmente bons.
Era muito talentoso.
Mas se voc� l� sua biografia, ele teve uma vida terr�vel.
Foi William um bom pai? N�o.
Billy Burroughs Jr. teve pouco contato com seu pai,
a quem tratou de imitar.
Seu pai continuamente o evitava,
assim que Allen Ginsberg muitas vezes resgatava Billy.�
Billy escreveu dois livros sobre sua luta com o �lcool e as drogas.
Foi um dos primeiros nos Estados Unidos
a fazer um transplante de f�gado.
Mas em 1981, com 33 anos, Billy morreu, de alcoolismo agudo.
Ele estava aqui e James estava aqui,
e eu estava em cima quando Billy morreu.
�s 10:30 da manh� James sobe
e bate em minha porte e diz: "John, tenho que falar contigo,
aconteceu algo.
Billy faleceu".
Assim que descemos e o vimos abracei William
e foi a �nica vez em minha vida que vi William chorar.
Abracei-o e, enquanto o abra�ava, vejo estas coisas,
estas grandes l�grimas brotando, n�o por muito tempo,
porque William eram assim, mas chorou por uns minutos,
e depois entrou em sua casa e fechou a porta.
Foi uma dor profunda.
Estava devastado.�
E se sentiu muito culpado por isso.
Sabia que n�o tinha estado presente o suficiente na vida de William Jr.,�
o havia ignorado durante anos,
e estavam se tornando amigos mas foi tarde demais.
E William Jr. estava imitando seu pai, buscando sua aprova��o,
da forma mais destrutiva, da forma mais simplista,
Se me torno um viciado e escrevo um livro sobre drogas,
ent�o serei como papai e papai me amar�.
E foi uma situa��o tr�gica,
ver o jovem William� se destruir publicamente
diante de William Senior,� para ser aceito como seu igual,
como parte da fam�lia Beatnik em lugar da fam�lia de sangue.
E William n�o sabia como lidar com isso,
de que modo se expressar.
Depois da morte de Billy,
Burroughs adotou seu companheiro e secret�rio James Grauerholz.�
Juntos, se mandaram de Nova York, se mudaram a Lawrence, Kansas,�
onde William passou o resto de sua vida.
Vim a Lawrence com a inten��o de trazer Burroughs para c�.
Porque ele estava chegando a uma idade em que era tempo de se retirar.
Todo este projeto,� este projeto caro.�
Olhe ese lugar ...�Porcos!�
Era uma alternativa � cena de hero�na do Bowery.�
E acredito que James� sem d�vida salvou William,
sen�o das drogas de algum outro acidente.
William e Bockris� certamente fantasiaram
com esses impenetr�veis homens grisalhos com bengalas,
lutando com jovens, e poss�veis agressores,
mas ele era vulner�vel.
Um velho com uma bengala � t�o fraco com um velho sem bengala.
Qual � sua cren�a pessoal sobre a morte?
Como sempre disse, como voc� sabe que j� n�o est� morto?
N�o, � s�rio,
O Bardo, no per�odo entre morte e renascimento
supostamente habitado por monstros mitol�gicos,
e penso que s�o mais mitol�gicos do que voc� acredita.
Que n�o � real, e � mais pr�ximo da vida real.
Voc� poderia estar morto, sem saber que est�.
Eu ia dizer
esses monstros s�o proje��es da sua pr�pria mente.
Exatamente, sim.
Mas como sempre digo,
e acredito na vida depois da morte.
E acredito que seja a �nica meta.
Se tornou uma pessoa muito mais agrad�vel no seu �ltimo ano,
gentil e de temperamento doce.
N�o � que fosse muito grosseiro e dif�cil antes, mas...
sofreu uma transforma��o.
Allen Ginsberg morreu em 5 de abril de 1997.
Falei com William quando Allen morreu, e foi muito duro.
E ele morreu poucos meses depois.
Era como se houvesse alguma...
com os dois, duas fa�scas deixaram o mundo.
Quando encontramos James Grauertolz, assim que William faleceu,�
nos reunimos no apartamento de Ginsberg�em East Village,�
e ele me mostrou uma foto de William logo ap�s sua morte,
que algu�m tinha tirado.
E... realmente baqueei.
Me surpreendeu, comecei a chorar.
E perguntamos a James,�
em que estado de �nimo estava no momento da morte?
E James disse "Olhem o que escreveu,
a �ltima anota��o que fez neste di�rio".
E n�s dissemos, ok, gra�as a Deus
conseguiu parar para pensar antes de sua morte.
Finalmente, conseguiu dizer.
Mas levou toda uma vida antes que pudesse dizer em voz alta,
que o amor era parte de uma equa��o da exist�ncia.
1 de agosto de 1997. Amor? O que � isso?
A cura da dor mais natural que existe. AMOR.
A �ltima nota do di�rio de William S. Burroughs.
Eu acredito nesse tipo de santo que descobre ainda jovem
quando est� come�ando, e n�o se encaixa em nenhum lugar,
e quer fazer algo art�stico,
e sabe desde cedo que deseja faz�-lo,
e sabe que vai causar problemas
com o que quer fazer, e n�o se importa, de verdade.
N�o quer se encaixar.
N�o gosta de nada na escola mas n�o se importa.
N�o quer ser como essa gente,
e n�o quer andar com elas, em primeiro lugar.
Assim que William, para essas pessoas, sempre ser� quase uma figura religiosa.
E creio que isso � maravilhoso, e creio que ele era assim.
A nossa � apenas outra pele que simplesmente se vai.
Voc� pode se elevar, e se cobrir com facilidade.
Tudo terminar� bem, aprendi linha por linha.
Um mesmo cabo, um fio de prata.
Tudo o que deseja, roda para frente.
Como uma garrafa lan�ada ao sol.
As estreleas n�o v�o a nenhum lugar. Voc� pode contar cada uma delas.
Para que se espatife contra a terra, e simplesmente se quebra.
Voc� pode navegar na po�a d'�gua, ou simplesmente desaparecer.
Tudo terminar� bem, aprendi linha por linha.
Um mesmo cabo, um fio de prata.
Tudo o que deseja, roda para a frente.
O nosso � apenas um desejo, um bra�o de ferro
tirar� a tampa com abrupta ternura.
Morre, pequeno pardal, e desperta,
cantando tudo terminar� bem, aprendi linha por linha.
Um mesmo cabo, um fio de prata.
Tudo o que deseja, roda para a frente.
A morte cheira.
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