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As Maletas de Tulse Luper
Uma vida em 16 epis�dios
Funileiro, alfaiate...
...soldado, marinheiro...
...homem rico, homem pobre...
...mendigo, ladr�o.
Cozinheiro e amante...
...palha�o e avarento...
...algoz, vagabundo...
...vagabundo, rei... ...holand�s.
Era uma vez,
Uma bela mulher que amava imprudentemente um homem mais velho.
Era uma vez,
Uma bela mulher que amava imprudentemente um homem mais velho.
Entretanto � muito prov�vel...
que todas amem imprudentemente.
E
Compositor, Tirano, C�o
E
Cantor
Querida Carrie,
minha m�e tinha um irm�o...
que lavava seu cabelo com sua pr�pria urina para mant�-lo negro.
A av� lhe gritava para que usasse um chap�u.
Foi um surto ir�nico de cinema ''Arc-en-Ciel'',
a noite de novembro, 652 assuntos post-mortem...
ou talvez sob a influ�ncia de Dreyer.
Enviamos tudo. Quadros, m�veis, desenhos,
espelhos, escadas, plantas,
�rvores, est�tuas, fontes, junto com os arquitetos,
os jardineiros e os decoradores, tudo a Versalhes.
As Maletas de Tulse Luper. Epis�dio 4.
Luper, venha c�!
Quero falar em ingl�s com voc�.
Tulse Luper foi levado a Vaux Le Vicomte,
um castelo nos arredores de Paris.
O carcereiro de Luper, Lephrenic, queria que estivesse a salvo,
seguro, tranq�ilo e... estimulado.
Tulse Luper era um investimento.
A Fran�a estava ocupada pelos alem�es.
Bem como o castelo de Vaux Le Vicomte.
Seu comandante encarregado era o general Foestling,
um angl�filo, historiador aficionado.
Um homem interessado em todos os tipos de l�nguas.
Um homem como Luper, interessado nas comunica��es com o mundo.
Um homem certamente interessado...
em comunicar ao mundo suas id�ias sobre a hist�ria.
N�o existe essa coisa de hist�ria.
Existem apenas historiadores.
Aqui � Tulse Luper.
Aqui � Tulse Luper.
Estou preso em Vaux.
Aqui � Tulse Luper.
MALETA # 36, EQUIPAMENTO DE R�DIO.
Tenho sido um prisioneiro por toda minha vida.
Do ex�rcito.
Mas nunca uma pris�o...
foi t�o atrativa.
O Secret�rio de Finan�as de Lu�s XIV, Fouquet,
construiu o castelo em Vaux...
seguindo um plano completamente novo, em 1660,
com novos arquitetos, com novos paisagistas de jardins,
e novos decoradores de interiores.
Despertou a inveja de seu amo, de 23 anos, Lu�s XIV,
que ordenou deter Fouquet, o processou e encarcerou por toda a vida.
Lu�s decidiu reconstruir Vaux numa vers�o ampliada em Versalles.
Alguns dizem que Lu�s ordenou que Fouquet usasse uma m�scara de ferro.
Ordem. Beleza. Natureza. Matem�tica. Controle.
Um pequeno para�so alem�o.
Uma obra-prima constru�da por um homem perspicaz.
Que passou metade da vida na pris�o.
Ter tudo isso e ver-se obrigado a trocar por uma cela escura.
Voc� � escritor. O que escreve?
-Listas. -Cat�logos.
Invent�rios.
N�o acredito que voc� seja t�o simpl�rio.
E por acaso uma lista � algo simples?
-Fa�a uma lista. -Vamos come�ar com uma f�cil.
-De lavanderia. -Dois len��is.
Quatro fronhas. Duas lisas e duas com encaixe.
Duas brancas, duas blusas. Duas brancas, duas de cor marfim.
Quatro camisetas, quatro cuecas.
Uma branca com bordado ingl�s. Uma camisola.
Um par de calcinhas. 16 pares de meias.
Uma cinta-liga branca. Uma toalha branca adamascada.
E um jogo de doze guardanapos adamascados.
Como v�, tudo de uma casa. Tudo de uma mesma cor.
As rela��es dom�sticas desnudadas.
Riqueza, classe e tens�es.
Extravag�ncias. E sensualidade.
Talvez hist�ria. Inclusive felicidade.
Excita a imagina��o do leitor. E a lista pode ser reordenada.
E colocar os cat�logos em dia. Tudo cabe nos invent�rios.
MALETA # 37. ROUPA BRANCA LIMPA.
Todas as coisas do mundo foram criadas para serem guardadas em...?
-Um livro? -Uma pris�o.
Uma maleta.
MALETA # 38. �GUA.
Durante uns dez anos, minha fantasia pessoal...
foi a de encontrar e adotar duas crian�as.
Uma menina e um menino. Para cuidar e criar.
Inclusive para me darem mais crian�as. Isso � um crime t�o terr�vel?
Talvez poderiam escrever minha fantasia pessoal.
Poder�amos falar do drama de um velho soldado.
E da fantasia secreta de reproduzir-se.
Agora que vi Vaux, tem algo mais.
Este lugar...
Supondo que minha fantasia �ntima fosse maior.
Vaux poderia ser um jardim de inf�ncia.
O para�so de Vaux para crian�as. Crian�as alem�es.
Talvez num futuro n�o muito distante, para crian�as francesas.
Talvez algum dia... para crian�as inglesas.
N�o consta a resposta de Luper a esta pergunta.
Havia ouvido falar do plano alem�o da eugenia. Era darwinista.
E � certo que escreveu uma esp�cie de f�bula.
A escreveu como obra teatral intitulada "O Acasalamento",
dramatizando a cria��o de dois filhos para o papel de futuros pais,
um menino e uma menina, por um marqu�s sem filhos do s�culo XVII.
A obra foi proibida na Fran�a.
Aqui � Tulse Luper. Sou prisioneiro de Vaux.
Aqui � Charlotte Courcy. Sou prisioneira de Vaux.
Aqui � Tulse Luper. Chamando de Vaux.
Aqui � Charlotte, chamando de Vaux.
Cissie, est� a�?
Hippolyte,
te amo mais do que palavras podem expressar.
Pode me ouvir?
Pode me ouvir?
Sem voc�, todos os dias s�o uma lenta e tediosa perda de tempo.
Entre dist�ncias imposs�veis de cruzar.
Pode me ouvir quando digo o quanto te amo?
Meu cora��o bate. Meus dedos se retesam.
Meus olhos se enchem de l�grimas.
Aqui � Tulse Luper, chamando de Vaux.
Cissie, te amo.
Me chamo Charlotte Des Arbres.
Sou prisioneira em Vaux.
Era uma vez...
uma linda mulher que amava imprudentemente um homem mais importante.
Cozinhava para ele. Limpava suas botas.
O penteava. Lavava sua roupa.
Tinha amantes para poder lhe dar dinheiro para seus gastos.
O observava at� que ca�a no sono sorrindo.
A cabe�a em seu peito.
Trancou-o num dormit�rio, com uma colcha branca...
e um velho bid�.
Passado um tempo, ele escapou.
Conseguiu fugir com uma vi�va... que lhe odiava.
Viviam em Madri a base de mel�es e de abacates.
Quando se fartar dela... e de seus mel�es,
ele voltar� para mim.
Me chamo Tulse Luper, e sou prisioneira do amor!
Me chamo Tulse Luper, e sou prisioneira do amor!
Nos primeiros meses de 1809, o marqu�s enterrou sua esposa.
Foi um obst�culo eliminado. N�o tiveram filhos.
N�o devem pensar que sou t�o m�. Minha m�e � alem�, sabem.
E eu estava cuidando dela,
e, bem, fiquei, e eles a trataram muito bem.
E a mim.
E n�o era apenas porque minha m�e...
era a melhor amiga da irm� de Nietzsche.
Levando-se em conta no que ela se tornou.
Bem, at� que poderia ser.
Minha m�e foi � Patag�nia para ajudar no experimento colonial...
dos fazendeiros alem�es.
� verdade que esses homens possuem uma apar�ncia espl�ndida?
T�o eretos, sabem.
T�o extremadamente brancos.
E, bem, t�o transbordantes de sa�de.
Mas para que meus amigos na Inglaterra n�o pensassem...
que sou t�o m�, me ocorreu de ajudar um pouco.
Eu me converti numa esp�cie de espi�.
Iriam fuzila-la.
N�o, nada disso.
Isso n�o seria justo. Sabendo que minha m�e � alem�..
e a melhor amiga da irm� de Nietzsche...
e de ter ido � Patag�nia e tudo o mais. Tem que me ajudar.
Fuzilariam a mim.
N�o v�o te fuzilar de qualquer jeito?
Correntes no jardim, em p�blico. � t�o humilhante.
O que est� escrevendo?
N�o me diga. Provavelmente vou ler quando voltar a Londres.
Eu gostaria de escrever artigos de Vaux para...
um jornal ingl�s. Um bom jornal.
Um bom jornal provinciano.
No creio que meu estilo seja suficientemente sofisticado...
para um jornal da capital.
Pelo menos, ainda n�o.
Um jornal provinciano respeit�vel,
como o ''Manchester Guardian''. Gostaria de fazer isso.
Gostaria de escrever artigos sobre o jardim paradis�aco de Vaux.
Para o ''Manchester Guardian''. Em c�digo.
Por que em c�digo?
Os espi�es fazem isso, n�o?
N�o hav�amos falado disso?
Como disse?
Sobre espi�es que s�o fuzilados?
N�o seja t�o sens�vel. Eu s� quero ajudar.
Bom, d�-me algo para codificar.
Farei isso.
Escreverei algo esta tarde e logo lhe darei,
de forma sub-rept�cia.
Que emocionante.
Em Vaux havia outra prisioneira volunt�ria,
mesmo que ela possa n�o se descrever assim.
Ela admitira que suas pris�es tendiam a ser homens jovens.
-Por que fez isso? -Achei que te excitaria.
N�o foi assim. Mas isto aqui sim.
Beije-me. Ou voltarei a faz�-lo.
Te beijarei...
mas precisa prometer que voltar� a faz�-lo.
Seria imposs�vel para mim. Tem sido. � muito doloroso.
Mas antes devo cheirar-lhe as axilas.
Voc� � uma dama extremamente cosmopolita.
Mas gosto que seja t�o inglesa.
Mant�m limpo apenas o que est� vis�vel.
Oh, Deus.
O que acharam?
Sr. Luper!
Sr. Luper! Est� em casa?
Parece muito impressionante.
Isto � o que escreveu, mas em c�digo?
Tem muitos "p".
"P" de pintassilgo.
E "u". S�o letras pr�prias de c�digos, n�o?
Por que tem tantos "f"?
Para elogiar um excelente jardim bot�nico.
Entendo.
Vejo que fez muitas refer�ncias � natureza...
para converter-me numa esp�cie de "amante da natureza".
N�o consigo lembrar de seu nome de batismo.
O que acha se, apenas pelo bem da simetria,
n�s tamb�m form�ssemos um par?
J� me disseram que tenho certa habilidade para...
Deixarei que tente me persuadir para que a mostre.
O "Manchester Guardian"...
recebeu muitas cartas codificadas da Fran�a ocupada.
Muitos alem�es consideram que o jornal ingl�s...
era um peri�dico provinciano com uma moral muito r�gida...
e com muito poucos leitores dos Adventistas do S�timo Dia,
Batistas e Metodistas.
MALETA # 39. C�DIGOS. Crist�os conservadores com ambi��es modestas.
Os alem�es acreditavam que em Manchester...
viviam os enfadonhos ingleses inconformistas.
e a palavra "Guardian" parecia associada � palavra "Governanta",
o que equivalia a uma bab� puritana e inofensiva.
O jornal come�ou a receber artigos de uma mulher...
que se auto proclamava "A Dama Malva".
O editor dos artigos logo reconheceu os maneirismos de Luper.
Um excesso de duplas nega��es, a falta de um "s" em progresso,
complexas met�foras relacionadas com o v�o e a �gua.
E uma grande paix�o em fazer listas.
O jornal entrou em contato com a Intelig�ncia do Ex�rcito Brit�nico,
que por sua vez entrou em contato com Martino Knocavelli.
Parece que as tr�s autoridades, ao manterem esse contato,
eram felizes ao por a vida de Luper em perigo.
Pelo visto Luper havia encontrado outro condutor...
para seus falsos informes de Hist�ria Natural.
Preservou-se a continuidade,
pelo menos at� setembro de 1940,
quando o corpo da Sra. Hats-Mills...
foi encontrado numa fonte de Vaux.
O veredicto foi de suic�dio, mas foi mantido secreto,
para n�o constranger...
a irm� de Nietzsche.
Do final do s�culo XVI.
Poderia ser de Heinrich Goltzius.
Ou de Bartholom�us Spranger.
Por encargo do marqu�s de Alsacia.
- V�nus e Cupido? -V�nus e Marte.
De Goltzius? Calisto e Diana.
Goltzius era manco?
Perdeu a m�o direita num inc�ndio, quando crian�a.
Gravuras.
Dif�cil dizer quanto valem hoje.
Antes de 1938, talvez... 20.000 libras.
Sabe-se l� quantos francos franceses.
''Pin-ups'' do s�culo XVI.
Est�o pensando em roub�-los?
Nunca pensei que valiam a pena.
Confesso que sou um homem de pouca imagina��o.
''Harpsch, voc� tem pouca imagina��o'', me diziam no ex�rcito.
Dessa forma... vou aonde v�o os homens de pouca imagina��o.
�s mulheres... e aos cavalos.
As mulheres levantam a saia porque n�o tenho imagina��o.
Os cavalos levantam as patas porque n�o tenho imagina��o.
D�o saltos por divers�o. Para mim.
Os cavalos saltam cercas, para mim.
E os p�ssaros cantam lascivamente.
E os c�es me adoram. Levantam a pata e latem.
Au, au, piu, piu, te amo.
Os cavalos n�o riem. Os p�ssaros n�o precisam rir.
As mulheres n�o sabem contar piadas, dizem no ex�rcito.
O ex�rcito tem muitos ditados convenientes,
e um deles diz: ''As mulheres n�o devem ter senso de humor''.
Me apaixonei pela cozinheira, Anna-Maria.
Se chama Anna-Maria.
� cozinheira. Tem um grande senso de humor.
� alsaciana. Grandes ancas.
Au, Au, piu, piu, te amo. Nada mau, certo?
O Sr Julian Lephrenic sabe que voc� � um homem culto.
Insistiu que devemos mant�-lo como prisioneiro...
num lugar que possa desfrutar.
Ele nos disse que voc� deve se manter estimulado.
Esse homem realmente lhe d� valor.
Algumas vezes, vejo o motivo. Outras vezes, n�o.
Eu vim aqui quando crian�a.
Minha prima trabalhava aqui, na cozinha.
92 OBJETOS PARA REPRESENTAR O MUNDO.
N�MERO 84. GUARDA-CHUVA.
Minha prima foi a primeira mulher que beijei.
Muito antes de Mathilde.
Confesso que fui o primeiro que pensou em lhe trazer a este lugar.
O que acha de Zeloty?
Eh, Zeloty. Mostre o dinheiro.
Deixe os beijos e comece a contar. Precisa me dar uma gorjeta.
Voc� � o motociclista da moeda.
O qu� est� melhor cotado na Bolsa nestes dias?
Eu aceitaria marcos.
Lhe oferecerei um tipo especial de c�mbio.
O tipo de c�mbio de moto, mais um extra por periculosidade.
Meu Deus.
Que forma de calcular. Que cabe�a... Que sagacidade...
Prepare-se para apertar o cinto. Pip, o espremedor.
Dinheiro vivo. Pegar ou largar.
Eu vim atrav�s de Gante e Lille para chegar antes.
O que poderia comprar de voc�?
O que voc� poderia me vender?
J� sei. Primeiro, darei a voc� 20 francos...
por essas coisas asquerosas.
Tire-as.
� dinheiro quente. Estou com o traseiro em carne viva.
Meu corpo d�i todo. Estou com o rabo congelado.
Cale sua boca suja. Tem muitas mulheres presentes.
Lhe ofere�o um trato. Me pague mil. N�o!
Me pague o valor de sua motocicleta.
A moeda se desvaloriza. N�o � o suficiente.
Tenho de voltar para casa.
Mathilde est� sozinha.
J� tive este problema antes.
Precisa desesperadamente de um homem a todo instante.
Devo voltar. Pode ficar com o dinheiro.
Lhe oferecerei um bom pre�o de mercado, pode acreditar.
Acho que deveria entregar-se, Luper,
e assim todos poder�amos ir para casa.
Poder�amos arranjar para que Luper sofra um acidente.
Um acidente de motocicleta.
Vou acender o cigarro, se isso vale alguma coisa.
Voc� inalaria?
Fumante ou n�o fumante? Direto o indireto?
Comum.
Acenda meu fogo.
N�o h� fuma�a sem fogo. Fogo em seu est�mago.
Fogo nos... olhos. Fogo!
Tem uma coisa boa. Uma compensa��o.
Voc� j� n�o � um menor.
O que significa que pode ser oficialmente seduzido.
E eu posso oficialmente te seduzir sem que me mandem para a cadeia.
Voc� quer ser seduzido,
n�o � mesmo?
No primeiro anivers�rio da grande aventura militar do F�hrer na Pol�nia,
Vaux receber� a visita do Marechal de Campo von Planting.
Comandante Supremo das for�as de ocupa��o no norte da Fran�a.
Em sua honra, representaremos um famoso festejo de Vaux.
O grande banquete de 17 de agosto de 1661.
Quando o Lorde do Tesouro, Nicholas Fouquet,
ofereceu este castelo e seus jardins a Lu�s XIV,
que declinou a generosa oferta.
E ordenou prender Monsieur Fouquet, falsificou provas contra ele,
o encarcerou por toda a vida e roubou todas suas propriedades.
O general Foestling interpretar� Fouquet.
Acho que o Sr. Luper deveria ser Lu�s XIV.
Seria uma honra interpretar o rei da Fran�a,
num momento em que a Alemanha n�o era mais...
que um lugarzinho insignificante.
Cuidado, Luper.
O sol brilha no traseiro de Foestling, n�o no seu.
O prisioneiro Luper continuou desenhando e escrevendo.
Todos seus esfor�os se dirigiam a Cissie.
Seguiu o exemplo do �ltimo amigo de seu pai.
Escreveu intermin�veis cartas de amor.
E sonhava em escapar...
cruzando a p� o norte da Fran�a para reunir-se com seu amor.
Era uma vez uma bela mulher...
que amava imprudentemente.
Era uma vez uma bela mulher...
que amava imprudentemente um homem mais velho.
Li tudo o que escreveu.
Suas cartas, seus di�rios, seus pensamentos mais �ntimos.
Tentou prend�-lo no seu quarto,
mas ele escapou.
Ela o esperou.
Em segredo, lhe lavava o rosto, e os p�s.
Penteava seu cabelo.
Ele era uma esp�cie de escritor.
Ele adorava os lugares com nomes ex�ticos.
Fazer listas.
Sonhar com uma mulher que enviava mensagens.
Cissie.
Cissie, � voc�?
� voc�? Ser� voc�?
Sou eu.
Como chegou at� aqui? Tamb�m � prisioneira?
N�o. Eu sou a mulher louca.
Cissie... Des Arbres.
O que?
Bom, esta noite serei sua substituta.
Nada muito lentamente.
� muito velho. Tem 80 anos.
Move-se lentamente e vive muitos anos.
Mas continua sendo um prisioneiro.
Um peixe grande num lago pequeno. 80 anos nas mesmas �guas.
� poss�vel que j� estivesse nadando...
quando os alem�es passaram por aqui a �ltima vez, em 1871.
Dever�amos nadar em busca da liberdade.
O lago foi constru�do pelo homem.
N�o desemboca no mar. N�o h� possibilidade de liberdade.
Se eu entrei com tanta facilidade...
-Facilidade? -Sim. Poderei sair.
Dever�amos elaborar um plano para sua liberta��o.
Um plano que deveria ser permanente.
Se for agora, com certeza te encontrar�o.
Voc� � um trof�u muito caro. Vale muito dinheiro.
MALETA # 40. MULHER ADORMECIDA.
Suspeito, Herr Foestling,
caso Fouquet tivesse se comportado como voc�,
teria sido preso por sua ostenta��o extrema.
Com certeza voc� o admira por suas maneiras civilizadas,
n�o por sua arrog�ncia.
Creio que voc�, Herr Foestling, seja prisioneiro de uma obsess�o.
Voc� � prisioneiro de uma hist�ria fict�cia.
Tudo mudou.
A hist�ria foi corrigida. Ponham a coroa nele.
Seu prisioneiro, cavalheiros,
adquiriu uma import�ncia ainda maior...
que jamais puderam sequer imaginar.
Agora possuem um prisioneiro...
que deve ser encarcerado perpetuamente.
Pris�o perp�tua.
E voc�s ser�o seus eternos carcereiros. Para sempre!
Poderia ser este seu marido desaparecido, Madame?
J� que n�o pode ver seu rosto,
Era uma vez uma bela mulher...
que amava imprudentemente...
entretanto...
provavelmente todas as mulheres amem imprudentemente.
Lhe re�no a sua esposa, Luper.
Agora os dois podem viver num encarceramento perp�tuo.
E deste modo poder�o manter vivos seus sonhos,
porque voc� n�o pode v�-lo e refutar seus temores.
E ele...
pode crer que voc� � quem ele desejar.
Talvez te chame de William.
E cozinhe para voc�.
E te conven�a a voltar a me amar.
Meu sorriso brilhante.
Meus olhos miram-lhe tal qual diamantes �midos.
Guarda, fa�a ela se calar!
� rid�cula, mas contagiante.
O Superintendente de Lu�s XIV, Fouquet,
construiu o castelo em Vaux...
seguindo uma planta completamente nova, em 1660,
com novos arquitetos, novos paisagistas,
e novos decoradores de interiores.
Despertou a inveja de seu senhor de 23 anos de idade, Lu�s XIV,
que ordenou prender Fouquet, o processou e o encarcerou por toda a vida.
Alguns contam que Lu�s ordenou que Fouquet...
usasse uma m�scara de ferro.
Lu�s confiscou o castelo e os jardins de Vaux le Vicomte,
deixando-o sem nenhum objeto.
Tirou tudo; quadros, m�veis, desenhos,
espelhos, escadas, plantas,
�rvores, est�tuas, fontes, junto com os arquitetos,
os jardineiros e os decoradores, tudo a Versalles,
onde reconstruiu Vaux numa vers�o maior,
com mais grandeza e com mais jeito de Vaux para ele mesmo.
Em 1940, Vaux le Vicomte foi ocupado pelos alem�es...
e utilizado brevemente como Quartel General de Estado Maior.
Depois de uma tentativa de convert�-lo...
num centro de reabilita��o dedicado � eugenia,
foi saqueado.
E com o Alto Comando alem�o para o norte da Fran�a,
seus quadros, m�veis, desenhos, espelhos, escadas, plantas,
�rvores, est�tuas, fontes, foram enviados a Versalles.
O que poderia ser chamado de um segundo saque de Vaux le Vicomte.
-Monsieur Fouquet. -Monsieur Fouquet.
-Tem uma apar�ncia espl�ndida. -Tem uma apar�ncia espl�ndida.
Ainda que use o chap�u de meu antepassado ao contr�rio.
A pena deve ficar na frente.
Est� a�, meu amor?
N�o tenha medo.
Poderia ter sido pior, muito pior.
Poderiam ter encarcerado outras partes de sua anatomia.
Que n�o seu lindo rosto.
Pense nisso.
E ent�o,
O que eu faria?
� evidente, coronel Foestling, que voc� se excedeu.
Voc� tem sido um perdul�rio.
Gastando nossos escassos recursos, que n�o s�o seus, com seus caprichos.
E ser, de fato, um potentado fora de moda,
assumindo poderes que n�o tem direito de assumir.
Confraternizando com duvidosos patriotas...
e convertendo-se num ''nativo'', como podemos ver.
E j� que a hist�ria sempre se repete,
Por que deve se repetir com tanto sucesso a de 1871 em 1939?
Bem, Foestling,
em sua preocupa��o por mudar um veredicto hist�rico,
o que conseguiu, simplesmente, foi confirm�-lo.
Podemos dizer com seguran�a...
que repetiu, sem d�vida, os erros de Fouquet.
E se Fouquet e Foestling s�o um s�,
voc� j� conhece o veredicto da hist�ria.
� o mesmo agora.
Sou obrigado a lhe tirar do comando.
Mas tem uma �ltima miss�o.
Entendo que tem um prisioneiro da Antu�rpia.
Eu recebi not�cias...
de que poderia ser um pe�o muito �til em nossas rela��es...
com os simpatizantes dos americanos.
N�o tenho a menor d�vida e estou certo que tem a mesma opini�o,
que a Am�rica republicana entrar� nesta guerra...
do lado errado.
Sua �ltima miss�o em Vaux...
ser� acompanhar esse homem ao meu escrit�rio esta noite, � meia-noite.
Voltaire disse que em 17 de agosto de 1661, �s seis da tarde,
Nicholas Fouquet era o Rei da Fran�a.
e que � meia-noite... j� n�o era ningu�m.
Em 17 de setembro de 1940, �s seis da tarde,
o general Foestling era uma esp�cie de rei da Fran�a.
Mas � meia-noite era evidente que j� n�o era ningu�m.
Muito bem, Sr. Luper. O que sente?
Minha cabe�a est� encarcerada, mas meu corpo � livre.
Tenho a vis�o, a audi��o,
o paladar e o olfato, todos presos.
O rosto apodrecer� por n�o lav�-lo e pela falta da luz do sol.
N�o posso co�ar o nariz nem escovar os dentes.
O cabelo e a barba crescer�o at� me sufocarem.
Apenas me restam tr�s meses de vida.
N�o tenho meu pr�prio rosto.
Talvez dever�amos sentir curiosidade pela pris�o definitiva.
Um caix�o?
Era uma vez...
Uma bela mulher que amava imprudentemente.
Era a amante do filho de Lu�s XIV.
E gr�vida de oito meses. Morreu devido � var�ola.
Foi enterrada num caix�o de carvalho, num sarc�fago de m�rmore,
numa m�sera capela provinciana.
Talvez tenha tentado suicidar-se. Porque a var�ola...
desfigura al�m do alcance da lasc�via mais ardente.
Entretanto, n�o estava morta e deu � luz no caix�o
Pensem um pouco em tal horror.
Um espa�o �nfimo, escurid�o, frio,
as duas pernas juntas, ar escasso.
Tal fato foi descoberto cinco dias depois,
quando seu amante quis recuperar um colar ...
que lhe havia dado.
Eles pensaram em recuperar o colar do caix�o.
Encontraram o colar, n�o em volta de seu pesco�o,
mas dividido em duas parte.
Uma parte no pesco�o da crian�a, como um �ltimo presente,
ou talvez como um instrumento para enforcar o menino.
E a outra metade se encontrava no intestino da mulher.
Ela o havia engolido...
numa tentativa de morrer mais r�pido.
J� que foi minha inten��o de refazer a hist�ria...
o que colocou esta m�scara em sua cabe�a,
deveria ser eu, dadas as circunst�ncias, quem deve tir�-la.
E tens o direito de coloc�-la em mim.
Eu me tornei Fouquet de um modo que n�o esperava.
E devo ser obrigado a pagar o mesmo pre�o.
Zeloty e Figura persuadiram Luper...
para que roubasse 23 das gravuras er�ticas de Vaux.
Depois da festa de Fouquet, Luper e Cissie tentariam escapar.
MALETA # 41. GRAVURAS ER�TICAS. Roubando um avi�o na estrada cruzando o lago em dire��o a Paris
Luper foi capturado e o levaram diante de um pelot�o de fuzilamento.
N�o pode fuzilar nosso prisioneiro.
N�o pode fuzilar nosso prisioneiro.
� meu prisioneiro.
Como � que de repente este homem � seu prisioneiro?
Porque eu estou no comando.
Este homem pertence a um importante oficial de Berlim.
Eu estou no comando, imbecil.
Voc� n�o faz nada al�m de se lamentar de sua maldita e preciosa fam�lia.
Vai ver, ele � o bilhete da salva��o.
-Eu cuidei dele durante esse tempo. -Fui eu, maldito est�pido.
Eu lhe comprava as malditas cerejas e o Camembert. Cozinhei para ele.
Eu limpava seu nariz, e seu maldito traseiro.
Voc� s� lhe deu um maldito bigode!
Afaste-se.
Estou dizendo que se afaste ou fuzilamos os tr�s.
Fuzile ele.
-Ele? -Sim. � o culpado.
Era ele quem queria roubar esses desenhos imundos.
Que valor t�m?
Dez mil francos.
-Dez mil? -Sim, belgas.
-Belgas? -Est� bem, franceses.
Sim, 20.000.
Mostre-nos o dinheiro.
Mostre-nos o dinheiro.
Mostre-nos o dinheiro.
Uma parte � dos meus filhos.
Vejam. Est� choramingando Fuzilem-no.
-Tire a roupa! -Fuzilem-no!
Tire a maldita roupa. Temos que chantagear.
Tire a maldita roupa. Temos que chantagear..
� um imbecil assustado que est� num aperto.
Vai gritar.
Tire a roupa.
O que v�o fazer?
Ataremos cintas ao seu p�nis...
e meteremos uma torta em seu traseiro e depois...
tiraremos umas fotos. Simples.
Fizeram o que prometeram.
E mais. Durante duas horas.
Era o pre�o que Zeloty tinha de pagar...
para que fuzilassem o homem equivocado.
E fuzilaram Figura.
Ainda que com a excita��o, inicialmente n�o conseguiram mat�-lo.
Provavelmente seguiria consciente das ironias da vida...
quando obrigaram Zeloty a cometer atrocidades com seu corpo,
que sequer a experi�ncia sexual de Figura...
lhe permitira imaginar.
Provavelmente teriam tamb�m fuzilado Zeloty e Luper,
se n�o tivessem se distra�do.
Tr�s caminh�es carregados de mulheres de cabelos loiros,
menores de 25 anos,
chegaram em Vaux descendo pela parte traseira dos caminh�es de carga,
para n�o excitar em excesso o batalh�o...
que estava h� tr�s meses e meio fora de Hamburgo.
Vamos. Vamos.
Poderia ter sido pior, Luper.
N�o teve que se humilhar. Eu fiz tudo por voc�.
Eu te salvei a pele. Est� em d�vida comigo, amigo.
Vai me pagar pelo que me fez fazer.
Se meteu numa boa encrenca, maldito ingl�s.
Me fez transformar essas crian�as em �rf�os,
para salvar seu precioso traseiro ingl�s.
Me chamo Tulse Luper, e sou prisioneira do amor!
Me chamo Tulse Luper, e sou prisioneira do amor!
N�o me despedi. Eu improvisei a bagagem.
Por que ele tem que vir conosco? Que fique.
N�o pertence a nosso grupo. � um risco.
Cale-se. Quase foi fuzilado.
N�o precisamos de passageiros. Insisto para deixarmos ele.
Por que devemos levar esse ingl�s irritante?
Ele � meu seguro. Preciso dele.
Seu nome � belga, o que � um obst�culo.
N�o quero ser associado a ele. Olhe sua roupa.
Escute, veja a minha, por Deus.
Pare o carro! Pare-o!
Bobagem. Est� aproveitando muito.
N�o pare, pelo amor de Deus!
N�o tem espa�o para ela neste m�sero carrinho!
Que diabos est� fazendo?
Estou tentando salvar-lhe a vida, e voc� quer nos matar.
Esta mulher estava sempre pedindo coisas emprestadas.
Sempre desejava o que n�o podia ter.
-Sim, como voc�. -O que est� insinuando?
Enfim, j� sabe, queria salm�o quando lhe ofereciam truta,
abacaxi quando lhe serviam laranjas.
Enquanto que a pobre fam�lia de Figura morria de fome...
num s�t�o da Antu�rpia.
N�o me fale Figura, esse macaco de cara triste.
Cale-se. Ele vale mais que seis de voc�.
� um pai de fam�lia muito devotado.
� honrado. � honesto. � respons�vel.
O conhe�o h� anos.
E por que n�o est� conosco agora?
Devem t�-lo distra�do. Logo irei busc�-lo.
Agora quero ver se seus filhos est�o bem.
-Os doze. -Doze filhos? C�us.
Estamos em guerra, n�o tinha o direito de ter tantos filhos.
E o que voc� sabe de ter filhos?
Todo bom cat�lico tem tantos filho quanto deseje.
� seu dever patri�tico.
E voc�? Por que n�o cumpriu seu dever patri�tico?
Porque conheci voc�.
Eu n�o quero ser t�o patri�tica.
Acabar feito um trapo parindo filhos para que acabem falando alem�o.
O que quer dize com "alem�o"? Achei que gostava.
Confraternizar com esses ''cabe�as quadradas''
Por que acha que me insinuei a voc�?
Mas n�o lhes chame de ''cabe�as quadradas''.
S�o homens muito educados, s�o homens muito refinados...
Ora, n�o me venha com essas tolices.
E o que me diz das tolices que saem de sua boca?
E o que me diz das tolices que saem de sua boca?
''Todos somos prisioneiros, se admit�ssemos.
O para�so de um homem � o inferno de outro''.
-Cale-se de uma vez. -Cale-se voc�, homem.
Quem voc� mandou se calar, sua esnobe raposa francesa?
Acabou. Quero descer. N�o posso continuar assim.
Percorrendo todo o pa�s. Voc� � um p�ssimo condutor.
N�o percorremos todo o pa�s. E eu n�o sou um p�ssimo condutor.
-Se n�o te agrada, pode ir. -Possivelmente o farei.
Est� indo muito r�pido. N�o deveria correr tanto.
Se n�o deixar de reclama��es e lamenta��es, pode descer.
Na verdade, des�a agora. Des�a!
Pra fora!
Era uma vez...
Uma bela mulher que amava imprudentemente.
Estou olhando para o c�u,
numa estrada,
em algum lugar do norte da Fran�a.
Muito distante de minha casa.
E estou prestes a morrer.
sem filhos.
N�O EXISTE ESSA COISA DE HIST�RIA, Sem ser amada.
S� EXISTEM HISTORIADORES. Sem ser feliz.
S� EXISTEM HISTORIADORES. .
Sozinha.
Que Deus se apiede de minha triste alma,
porque eu pequei. Oh, Deus.
As Maletas de Tulse Luper. Epis�dio 5
Re�na-se comigo em frente � catedral no s�bado � noite, �s dez.
64 UMA BONECA
A boneca � um substituto do beb�.
47 LUVAS
As luvas s�o como uma segunda pele que protege e esquenta a m�o.
59 MOEDAS
Dinheiro. Para demonstrar interc�mbio.
45 ROUPA �NTIMA FEMININA
Em Viena, em 1992,
foi celebrada uma exposi��o no emp�rio Hofburg e Semper,
que se denominou "Cem Objetos Para Representar O Mundo".
MALETA # 42.
92 OBJETOS PARA REPRESENTAR O MUNDO.
...foi um ir�nico exerc�cio de invent�rio...
pr�vio � troca de mil�nio,
de como poderia ser representado o s�culo XX.
Era uma cole��o baseada numa lista de compras...
original de Luper feita em 1940.
80 UMA ARMA
Armas.
Para demonstrar agress�o. O desejo de matar.
A carreira armamentista. Cobi�a. Inven��o. Destrui��o.
A mosca.
81 A MOSCA
A mosca comum. Para demonstrar insetos.
Entomologia. Enfermidades potenciais.
Medo. A mesquinhez insidiosa.
A mosca demonstra...
por que os cavalos e as girafas t�m rabo.
25 CINEMA
Luper havia meticulosamente medido sua nova pris�o.
182 poltronas numeradas.
Audit�rio, 26 x 30 metros.
Doze luzes de sala.
Uma tela de 6x8 metros.
53 PEIXE
54 COELHO MORTO
Luper, j� limpou os banheiros?
12 O ARCO-�RIS
Deus prometeu n�o inundar o mundo novamente.
O arco-�ris � um fen�meno desnecess�rio...
de que nenhuma criatura viva obteve nenhum benef�cio.
Nenhum animal � parasita do arco-�ris.
Ningu�m coloniza o arco-�ris.
Ningu�m utiliza um arco-�ris como o fazem com uma nuvem, ou o ar quente.
Ningu�m pode explor�-lo para medir algo, ou provar nada.
MALETA # 43 ARCO-�RIS
Os �nicos exploradores s�o os escritores,
os pintores e os fabulosos te�logos.
"Mesmo que separassem minha alma de meu corpo..."
Acorde, Tulse. Est� bloqueando o corredor.
� espantosa, n�o?
Uma mulher pisando forte num mundo de homens.
Est� vendo o mesmo filme que eu?
Praticamente queima a tela.
Mas n�o se apaixone por ela. Queria ser uma virgem m�rtir.
E j� sabe como defendem suas cren�as.
Encanta a todos,
porque se trata de uma mulher que est� sendo humilhada.
� a Fran�a que est� sendo humilhada.
Mas desta vez, o inimigo eram os ingleses.
Ingleses, alem�es, n�o importa. Todos sobrevivemos, pequeno �ndio.
-N�o ela. -Sim, claro que sim.
"Para me fazer sofrer, o dem�nio enviou a ti".
F 12. O calvo. P�s grandes. Bunda pequena.
Escada de servi�o. Lambedor. Bastante limpo. Casado.
Joana monta um cavalo dourado na corte de Tuller�as.
E � da esfera de Franco.
Qualquer um pode tocar Joana, pequeno �ndio.
Sim, mas apenas o rosto.
''Quero pegar este bilhete entre suas bochechas,
e n�o me refiro ao seu rosto...
76 TESOURAS
''...e tr�s outros ainda vir�o''.
Cafajeste!
Pense em quem tocou este bilhete.
Todo mundo da Rua Principal.
Que contato t�o �ntimo com a comunidade.
Dinheiro do c�u caindo direto no seu bolso.
''Minha xoxota est� � venda, mas minha alma � s� minha".
Arletty, falando baixo enquanto toma um copo de champanhe
que lhe havia sido oferecido por um general alem�o.
Maxims, Montecarlo. Setembro de 1938.
A Fran�a foi ocupada tantas vezes.
Poderia se dizer que � uma puta prussiana.
69 CRUCIFIXO
''� melhor ser bem governada pelos outros, do que mal pelos seus''.
A dama do casaco de peles.
Berlim. Por volta de 1880. Sacher-Masoch.
Outro alem�o de mente pervertida.
A pervers�o n�o conhece nacionalidade, querida.
Os tr�s tenentes regressaram felizes.
Querem uma m�o amiga.
Nem mesmo com luvas, pequeno �ndio.
Vieram ver uma hero�na francesa,
glorificada por um diretor alem�o.
Por que estrag�-lo?
J� n�o restam hero�nas francesas.
Desenterrar�o esse diretor ''cabe�a quadrada'' para fuzila-lo.
O que acha, Luper?
Ele est� vivo e n�o far�o isso. Ele vive na Calif�rnia.
E al�m disso ele � sueco.
''As salsichas de f�gado s�o o calcanhar de Aquiles da Pr�ssia''.
Trixie Boudain. Cinema Arc-en-Ciel. Estrasburgo, 1940.
� uma oportunidade �nica para pegar os nazistas pelos colh�es.
Eh, Luper, o qu� acha?
E acabar fuzilados numa esquina? Deveria organizar isso um pouco melhor.
J� estamos organizados.
Por qu� n�o o fazemos depois da proje��o...
na escada de servi�o?
Organize tudo aqui, durante o descanso.
N�o poderiam queimar uma virgem, pois o fogo apagaria.
Sexo e cinema.
Ambos s�o oferecidos em Arc-en-Ciel.
Um come�o de arco-�ris para o nascimento de uma na��o.
Tinha que arder para destruir o croissant ingl�s que tinha no forno.
Esta mulher estava gr�vida de um ingl�s.
Deslizar-se fora do campo de vis�o da Gestapo.
Reunir-se com os clientes na sala de proje��o.
Sexo na fonte da luz.
Estamos te excitando, n�o �, Tulse, pequeno �ndio?
Talvez tenham deixado Luper excitado.
Sentado num cinema � noite,
com a luz de sua lanterna de lanterninha,
Luper, talvez instigado por Dreyer,
talvez devido � provoca��o de Felicite,
ou talvez recordando os filhos de Figura,
se inclinou sobre seus fotogramas de pel�culas...
e escreveu o libreto de uma �pera.
MALETA # 44. FOTOGRAMAS DE PEL�CULA.
...uma f�bula sobre a humilha��o da mulher...
pela Igreja e Estado,
por ter se atrevido a exceder � expectativas do mundo para a mulher.
O intitulou "O Beb� de Estrasburgo".
Muitos anos depois, em 1993,
o livreto virou um filme, e n�o uma �pera.
Para evitar complica��es de direitos de autor,
o t�tulo foi modificado.
� verdade que nascemos assim?
-� um menino. -T�o nus?
-Tem dez dedos. -T�o molhados?
-Tem as orelhas perfeitas. -E esse cheiro...
N�o � grande?
Deus ou o Dem�nio,
� o respons�vel por este nascimento?
Tem um cora��o.
-Esfregue os olhos. -S�o azuis. Como o cometa.
Os manuscritos originais de Luper para "O Beb� de Estrasburgo"...
foram encontrados, em bom estado, na catedral de Estrasburgo,
ocultos muito pr�ximos do quadro de Robert Campin,
"A Descida da Cruz".
Cristo nasceu assim, da Virgem Maria?
Jos� viu o filho de Deus assim?
Tem dez dedos.
Traz os olhos abertos.
MALETA # 45.
OS MANUSCRITOS DE ''O BEB� DE ESTRASBURGO''
79 UM F�SFORO
Deus, de onde voc� saiu?
Como diabos entrou?
Por favor me diga, para eu saber como sair.
Me tranquei no banheiro.
Creio que o espet�culo terminou.
Longe disso. Estou esperando a sua carcereira.
N�o venha para c�. Tem muita gente.
Quer fazer uma reuni�o?
Me interessaria escutar. S� profissionalmente, entenda.
Poderia dizer algo com balas?
Isso seria de grande ajuda.
...com meus cumprimentos.
Por favor, assegure-se de despentear seu cabelo.
Nunca suportei que fosse t�o bem penteado.
80 UMA ARMA
N�o se preocupe. Nada nos acontecer�.
� o lugar mais seguro de Estrasburgo.
Os aviadores ingleses t�m ordens de n�o bombardearem a catedral.
Venha c�!
O que acha?
Acha que Maxi vai gostar?
Seja sincero. Acha que Maxi vai gostar?
Tem cinco anos. Acha que � muito grande?
Acha que � muito grande para um bichinho assim?
Em momentos de tristeza as crian�as precisam de mais consolo, n�o?
Uma caixa de pinturas para Hyacinth.
Sim, diz que quer colorir desenhos do F�hrer.
Para que pare�a mais sadio, segundo ela.
Apare o bigode!
Sabe, pelo menos clare�-lo um pouco. Como o de Ludwig V.
Figura sempre quis ter...
um artista na fam�lia. Est� trabalhando ou n�o?
Me ouviu, amigo? J� disse que venham.
-Sim? -Sim!
Podem vir comigo.
Bom, exceto Antoine.
Est� na faculdade de engenharia, na Antu�rpia.
Fabrica armas. Sim, ele est� muito bem.
Precisarei de mais dinheiro para cuidar de voc�.
Estou precisando.
Deve escrever-me uma carta pedindo mais subs�dios.
Algo como...
Querido Sr. Lephrenic,
depois do triste falecimento do meu querido amigo Stephan Figura,
devido a circunst�ncias imprevistas...
N�o, Stephan Figura...''. Sim, bla, bla, bla. Algo nesse estilo.
Algo assim. O que acha?
Lephrenic est� triunfando, projeta foguetes.
Segundo os alem�es, tem contato com os americanos.
Desenhando foguetes para enviar bombas atrav�s do Atl�ntico.
Isso por� fim na guerra com a Europa, n�o acha?
Voc� n�o fala muito!
Poderia ser um pouco mais generoso, n�o acha?
O m�nimo que poderia fazer,
O m�nimo que poderia fazer � trabalhar de bab� para mim.
Eu fiz algo, por acaso?
Voc� se ofereceu? N�o!
Ou�a, enquanto eu estiver fora, fa�a algo.
Eu me distraio pintando, decorando, sabe?
O F�hrer teve de fazer isso!
Sabe, antes de estudar arquitetura,
antes de converter-se em orador p�blico.
N�o deveria deixar entrarem de gra�a, n�o acha?
-Tendo em conta... -Tendo em conta, o que?
N�o, pagaremos.
Como bons cidad�os.
A sala est� cheia, Luper?
� melhor com lua cheia. Os ingleses podem ver melhor.
Me alegra saber que voc� gosta de ver os franceses ''t�o bem ocupados''.
Passion lhe envia suas sauda��es.
Est� muito bem casada. Tem um filho.
Seu marido � dentista.
Talvez se lembre dele.
Mas hoje em dia cuida dos dentes de Himmler.
e todos sabemos de quem cuida dos dentes de Himmler.
Apenas lamento que tenha de passar tanto tempo na escurid�o.
O homem n�o � um animal noturno.
MALETA # 46. O OURO DO HOLOCAUSTO.
Oh, Deus, agora n�o. N�o num cinema.
Muito escuro. Muitos alem�es.
Muito evidente. Tente numa catedral.
As pessoas se mostrar�o condescendentes numa catedral.
Um crime passional.
Um crime de vingan�a. Uma solu��o religiosa.
As catedrais s�o maiores. T�m mais eco.
S�o mais simb�licas. Mais dram�ticas.
T�m mais presen�a. Mais melodrama.
Mais sa�das.
Re�na-se comigo em frente � catedral no s�bado � noite, �s dez.
Madame Plens tinha grandes planos de vingan�a...
devido � maldade de Zeloty por t�-la jogado do carro,
em algum lugar de uma estrada vicinal do norte da Fran�a.
Mas Zeloty preparou uma estrat�gia sentimental...
baseando-se em sua natureza religiosa,
apelando para o fato dele ser o tutor dos onze filhos de Figura,
que, portanto, sofreriam sem a sua prote��o.
Madame Plens se deixou convencer...
e aceitou a responsabilidade de cuidar do seu bem-estar espiritual,
no santu�rio da catedral de Estrasburgo.
Apropriadamente,
a arma que Luper havia encontrado no piso do cinema " Arc-en-Ciel",
foi parar num inocente lugar de descanso.
Talvez por divers�o pr�pria,
ou porque isso lhe permitiu acesso a uma m�quina de escrever,
ou porque Luper estava interessado nos assuntos "post mortem" de Figura,
Luper escrevia por dinheiro. Literatura infantil em flamenco.
Cartas de s�plicas em franc�s. Pornografia leve em alem�o.
Era muito prol�fico.
Talvez se vira estimulado...
pelos filmes que via no cinema todas as tardes e noites.
Procure um lugar em que n�o se meta em confus�o.
Procure um lugar em que n�o se meta em confus�o.
Procure um lugar em que n�o se meta em confus�o.
Algum lugar em que n�o haja confus�o.
E acha que existe um lugar assim, Tully?
Tem de existir.
N�o � um lugar em que possa comprar um banco ou um trem.
Est� muito distante.
Vejo que por fim se converteu em Ad�o.
Joseph Smith ficaria orgulhoso de voc�.
Esta � sua fam�lia.
MALETA # 47. CRIAN�AS
Tantas crian�as e t�o rapidamente.
Tribos de Israel com sotaque flamenco.
Surpreendente.
O que � isto, uma esp�cie de piada?
Seu carcereiro est� morto...
e os descendentes dele est�o formando uma comunidade?
Cuidado, os espermatoz�ides de Figura est�o no ar.
Mathilda est� reproduzindo-se como uma coelha.
Guarda parte da ess�ncia de seu marido em sua pessoa.
Numa bolsa, talvez?
Estou certo que Figura...
engendrar� toda uma nova comunidade de p�s-guerra.
Est� seguro que voc� n�o � o respons�vel?
Lephrenic, chegou a hora de me deixar em liberdade.
N�o.
E para onde iria na Fran�a ocupada?
O que � a liberdade em tempos de guerra?
Ademais, voc� � um �cone.
Sabia que lhe colecionam?
Tenho uns s�cios que pagaram dinheiro...
por seus manuscritos de Antu�rpia.
Minha fortuna prospera com o seu encarceramento.
Seria um louco de lhe deixasse ir.
Nunca havia visto um vagabundo t�o perfeito.
Mas o que...? Est� louco.
Sabe? Num momento ou outro, pequenos �ndios,
qualquer ator ou atriz est� obrigado a morrer e a foder.
Fazer amor.
Fazer amor?
Bom, fazer amor.
Sempre me pareceu uma express�o muito estranha, mas tudo bem.
S�o obrigados a morrer em p�blico e fazer o segundo em segredo.
J� imaginaram se fosse o contr�rio?
-Foder... -Fazer amor.
Dormir junto.
Essa � ainda mais engra�ada.
Dormir juntos em p�blico e morrer em segredo?
O final de muitas pe�as e �peras seria chato.
Sendo assim, o ator n�o morre e...
estamos bastante seguros de que n�o fode.
Faz amor.
-Dorme junto. -Copula.
-E o que significa isso? -� o mesmo, mas sem enfeite.
O ator n�o morre e...
estamos bastante seguros de que n�o copula.
Ainda que nos pe�am que acreditemos em ambas as coisas.
E � dif�cil que a cabe�a o aceite se o cora��o n�o quer.
Se soub�ssemos que realmente morrem...
para nos dar uma certa emo��o, algo de melancolia gratuita,
n�s sentir�amos o mesmo?
Claro que n�o.
No m�nimo, nos sentir�amos incomodados. Eu me sentiria incomodada.
Por que diabos um ator iria morrer num filme?
Para proporcionar sofrimento?
As pessoas morrem ao nosso redor como moscas...
e n�s pagamos para ver como fingem morrer como moscas.
As pessoas fodem ao nosso redor,
copulam, fazem amor, dormem juntas...
-O que mais queiram. -Se fosse assim, n�o ganhar�amos nada.
Ia dizer,
que vamos ao cinema porque queremos pensar...
que o fazem fora da tela, em segredo.
Talvez realmente o fa�am.
Aquela atriz italiana com verrugas talvez n�o fa�a.
-Verrugas? -� pouco prov�vel.
Uma atriz com verrugas seguramente far� tudo em segredo.
Incluindo atuar.
Se os atores n�o morrem, nem fodem, etc.,
por que ir�amos ao cinema?
O cinema teria desaparecido h� anos.
Cissie?
Onde esteve esse tempo todo? Como me achou?
N�o foi muito dif�cil te encontrar.
Um homem que passa a vida num cinema � uma atra��o.
Mas n�o tinha id�ia de que trabalhava tamb�m num bordel.
E com umas camas t�o c�modas.
Voc� � um personagem misterioso.
"O ingl�s que rasga os ingressos".
Me d� a impress�o de que o p�blico vem ver voc�, e n�o o filme.
-O que? -Igual a mim.
Tem muita gente aqui. Vamos para minha casa.
-� muito distante? -N�o, � bem ali.
J� vi "Joana D'arc" tr�s vezes.
Me surpreende...
que a Gestapo te deixe projetar um filme t�o patri�tico.
O diretor � dinamarqu�s.
Mas simpatiza com os franceses.
Est�o procurando outra Santa Joana.
Ficarei dez minutos aqui.
O que significa...?
Que Trixie � muito virtuosa.
Tem um dicion�rio de ditados e pernas bem longas.
E umas covinhas profundas na parte de tr�s dos joelhos.
Essa era a melhor forma de chegar at� voc�.
Deus meu, est� certa.
-Oh, Deus. -O que?
O que �?
31 RAMO DE FLORES
De um admirador. Para sua amiga Trixie.
De seu marido.
Eu tenho para voc� um presente melhor que umas rosas.
Eu tenho motorista e carro.
-E a catedral. -Catedral?
E o motorista e o carro s�o meus.
A catedral pertence a Deus.
Re�na-se comigo em frente � catedral,
�s dez, no s�bado � noite, debaixo do p�rtico.
Debaixo dos anjos
Debaixo dos anjos de Deus.
Eu perten�o a um grupo de salva-vidas.
Mas eu nunca salvei ningu�m, n�o tive a oportunidade.
-Por sorte. -Tem que saber nadar.
Nunca aprendeu?
Minha especialidade eram os cavalos que fugiam.
Como est�, meu amigo?
-Estou morto? -Est� muito vivo.
-Foi contra minha vontade. -Ainda n�o � o mesmo.
Tem de fazer de novo.
-O que foi que disse? -Pode ser que esteja louco.
-Aonde vai? -Afogar-me.
Outra vez?
Eu falei s�rio.
-Por qu� me tiraram? -Para salv�-lo.
Saltei para me salvar.
Estou farto da vida.
MALETA # 48. ROSAS MORTAS.
Cissie Colpitts estava esperando no p�rtico da catedral,
na noite de doze de novembro.
Luper nunca chegou. Luper havia sido preso.
Como aconteceu? Tudo era especula��o.
Havia um bom n�mero de possibilidades.
Cavalheiros do J�ri, chegaram a um veredicto?
Chegamos, Excel�ncia.
Culpado por homic�dio em 2� Grau.
E logo seu peito estava coberto de sangue,
E ela come�ou a gritar assim!
Havia muitos planos poss�veis de fuga.
A maioria deles copiados...
das centenas de filmes que Luper via no cinema " Arc-en-Ciel",
de fato, em seu caso, a realidade e a fic��o eram a mesma coisa.
As diferen�as entre a realidade e a fic��o n�o eram relevantes.
Uma situa��o que, por interesse de certas pessoas,
deliberadamente se deixou sem resolu��o.
N�o est� claro que artif�cio Luper utilizou para escapar.
Talvez se deveu � uma distra��o causada por um bombardeio,
Quando o cinema estava cheio de moradores locais...
que possu�am uma confian�a injustificada no teto de cimento.
Ou talvez saiu �s escondidas...
com um grupo de festeiros, na noite de Natal,
depois de mais uma propaganda pr�-francesa.
MALETA # 49. TRENS DE BRINQUEDO.
...O lanterninha do " Arc-en-Ciel", virou o bode expiat�rio.
Mas se isso devia-se � realidade...
ou a uma inten��o de castig�-la por sua loquacidade,
n�o se sabe.
Se alguma vez quis atuar em filmes,
era uma forma muito curiosa de ver realizados seus sonhos.
-N�o chorarei. -Gosto assim.
Adeus, Tulsey.
O que � certo � que � meia-noite de 14 de novembro de 1940,
Cissie Colpitts desapareceu.
77 TREM
Dispararam num dos g�meos...
que eram os diretores do cinema " Arc-en-Ciel" de Estrasburgo.
E Luper, seguramente ia num trem,
acompanhado por duas crian�as e um caix�o que cruzaria a Fran�a,
dirigindo-se a Dinard, na costa francesa.
86 CAIX�O
As Maletas de Tulse Luper Epis�dio 6
Este � um retrato de Madame Moitessier,
pintado em 1840 pelo pintor franc�s Ingres.
Meus filhos me contaram que voc� � um homem em apuros.
Este � um segundo retrato de Madame Moitessier,
terminado seis anos antes.
Meu marido e eu estamos preocupados.
Eu acredito em voc�.
Podem ver como as mulheres dos retratos...
envelhecem de 23 a 36 anos.
A despeito do segundo retrato ter come�ado antes do primeiro,
foi terminado depois deste.
� muito dif�cil, e eu sei que sabe disso.
Neste retrato, a mulher de carne e osso...
foi envelhecendo enquanto este permanecia inalter�vel.
Enquanto neste retrato,
a mulher foi pintada mais jovem do que era na lembran�a,
em homenagem a um estado anterior.
Tempos dif�ceis.
Poderia ser dito que este era um quadro do futuro.
E este era um quadro do passado.
Uma fascinante desloca��o do tempo.
Mas o tema destes quadros carrega muito tempo morto.
E sua tenra carne branca estava em decad�ncia.
Perdi uma serva. Seq�estrada � for�a.
Suspeito que agora deva estar na Alemanha...
num campo de trabalhos for�ados.
"Cest la vie". n�o se pode evitar, suponho.
"Cest la vie". n�o se pode evitar, suponho.
� judia.
Houve uma certa ressurrei��o e reencarna��o da desej�vel,
embora de aspecto distra�do, Madame Moitessier.
N�o em 1840, em Paris,
mas em 1940, em Dinard, na costa francesa.
Tulse Luper conheceu esta reencarna��o.
E era,
�, estou segura de que continua sendo,
"maleheureusement" uma costureira maravilhosa.
Voc� sabe costurar? Voc� sabe bordar?
-O bot�o de uma camisa. -Bom, que pena.
"Quelle domage". Talvez possa aprender.
MALETA # 50. AGULHAS. Me parece que a senhora j� tem uma excelente costureira
N�o ligue para ela.
� muito feia.
E cheira mal.
Poderia ser de Arg�lia.
Temos o direito de substituir nossos servi�ais perdidos.
Mas n�o podemos contratar um servi�al masculino.
Todos os servi�ais homens sadios...
foram convocados.
No seu caso teria que aceitar algum subterf�gio.
� pegar ou largar.
N�s somos artistas.
Nestes tempos dif�ceis.
Os artistas precisam de modelos.
Ingres era um pintor de retratos de grande renome.
Desenhou e pintou mulheres elegantes do Segundo Imp�rio...
com grande experi�ncia,
mas Madame Moitessier lhe causou consider�veis problemas.
Come�ou este quadro para logo abandon�-lo,
para voltar a come��-lo e abandonar de novo.
No total, umas quatro vezes.
Foi dito que o pintor estava apaixonado por sua modelo.
Falou para uns amigos...
da brancura de sua garganta e do volume de seus seios.
Mencionou o encanto...
de seu temperamento repentinamente violento...
e que havia notado nela...
uma certa tend�ncia � crueldade calculada.
Mas durante muito tempo ele havia se queixado...
de que o seu retrato de Madame Moitessier...
faltava algo, que estava incompleto.
Me sentiria muito honrada se pudesse posar para n�s,
para aulas de desenho, classes de pintura...
nu.
" Au naturel".
-Outra coisa. Voc� � judeu? -N�o.
Poderia provar? � necess�rio convencer meu marido.
� um perito em judeus.
Talvez voc� deseje ir ao corredor e...
convencer meu marido de que n�o � judeu.
Tem um pouco de corrente de ar a� fora.
No entanto, os dois devem se apressar.
Tem um pouco de corrente de ar a� fora.
No entanto, os dois devem se apressar.
Sil�ncio, F�lix. Muito barulho.
Eu estava apaixonado pela sua predecessora.
Mostre as m�os. Ela tinha m�os muito bonitas.
Compreendo que deve me convencer de que n�o � judeu.
-N�o sou judeu. -Demonstre.
Se voc� � judeu e vive na minha casa,
na nossa casa, nesta casa,
preciso saber.
N�o penso em voltar a passar por t�o desagrad�vel assunto.
N�o � seguro para as crian�as.
Saber� que esta n�o � uma prova conclusiva.
Mas � claro que a circuncis�o � uma prova conclusiva.
Noutros tempos, a circuncis�o...
foi uma obsess�o prussiana de sa�de que estava muito em voga.
Todos os membros da fam�lia real inglesa,
todos os bons alem�es arianos foram circuncidados.
Talvez inclusive as mulheres.
Essa � uma piada de p�ssimo gosto.
Mesmo que haja gentios circuncidados,
sob nenhuma circunst�ncia encontrar� judeus n�o circuncidados.
Minha esposa nos pegou no quarto das crian�as.
Ela ficou mais perturbada com o fato de termos usado o quarto das crian�as..
do que com o pr�prio adult�rio.
Temos um dilema.
Voc� tem um dilema.
Segundo sua defini��o,
eu seria taxado como judeu, mas n�o sou judeu.
Pois ser� melhor que se comporte.
Depois que minha esposa nos encontrou juntos,
organizou para que sua antecessora fosse descoberta.
MALETA # 51. CHUVEIROS.
Quando a detiveram,
Marion estava no jardim...
recolhendo couves.
Tinha belas m�os.
...recolhendo couves.
Recolhia couves no jardim, apenas para mim.
Fitas vermelhas no cabelo, para que n�o ca�sse sobre seus olhos.
Onde est� agora? Marion, onde est� agora?
N�o gosto de couve.
A �gua do couve cheira como a urina menstrual.
A levaram a Rouen,
e eu a segui. A levaram a Lyon.
A torturaram, eu sei. Num sal�o escuro.
Estava no ch�o.
Por tr�s de um grande sof�.
Com freq��ncia a vejo por estes corredores,
na hora do ch�.
Mais ou menos na hora em que vinha me ver com sua coifa e seu avental.
Deus!
Cinco deles. Os cinco uniformizados.
Oh, Deus, n�o!
A seguraram.
Oh, Deus! Era chutada!
Depois disso, quem sabe. Talvez a levaram para Dachau,
aonde me disseram ter uma f�brica de meias.
Cada prisioneiro judeu...
tem que confeccionar cem pares de meia por dia.
Uma meta imposs�vel e muito pouco realista. Meias!
"Les temps d�seagr�ables".
Minha esposa me d� um pagamento...
para procurar cad�veres para dissec�-los.
Agora mesmo, a Europa est� cheia de cad�veres.
Na sua pris�o em Moscou,
Luper escreveu uma obra de fic��o intitulada " Augsbergensfeldt".
Era a hist�ria de um anatomista do in�cio do s�culo XVII,
que buscava a alma humana...
que segundo ele se encontrava no corpo humano.
Como por exemplo, o c�rtex do c�rebro,
ou uma se��o do cora��o, ou parte do f�gado ou do p�ncreas.
Luper, talvez sim talvez n�o, se viu influenciado por ele...
tenebroso esp�rito anat�mico e suas macabras investiga��es.
" Augsbergensfeldt" � uma obra de fic��o...
na qual Luper trabalhou ao longo de sua estadia na pris�o.
Com freq��ncia se via obrigado a come�ar novamente,
quando cada manuscrito se perdia ou era confiscado.
Me enganaram. Paguei por dois.
Mas sigo esperando a entrega de seu irm�o.
Que aparenta ser o gerente de um cinema.
No entanto, o outro g�meo est� vivo e dominado por um grande pesar.
Quer enterrar o corpo, mas n�o o encontra.
Pensou em realizar uma compara��o...
das gl�ndulas linf�ticas.
Parece que lhe fuzilaram por...
permitir que um importante prisioneiro escapasse.
Um comunista, sueco... ou algo assim.
Acusado de in�meros delitos.
N�o entendo por qu� se empenham em fuzilar gerentes de cinema.
O cinema � o �nico meio que temos na atualidade...
para escapar de nossas inflex�veis e pequenas pris�es.
N�o acha?
Eu levo meus filhos ao cinema regularmente.
Parece mentira, mas eles gostam dos filmes de fuga.
Um g�nero menor, mas n�o med�ocre.
Segundo Martino Knockavelli,
que supostamente ouviu direto de Luper,
Madame Moitessier empregou uma mulher chamada Guam Ravillion,
para que cuidasse de seu extenso vestu�rio.
� poss�vel que fosse argelina, ca�da em desgra�a.
Os Moitessier prosperavam em conspira��es e prisioneiros secretos.
� poss�vel que marido e mulher competissem em prisioneiros,
cada um tentando superar o outro em conspira��es de prisioneiros.
Temos que engordar voc�.
N�o queremos que te levem.
Vai tocar a tuba numa manifesta��o.
Cortaremos seu cabelo.
Com o que n�o comer, alimentaremos Charlie.
Vai ficar encantado com ele.
Poderia pedir ao seu marido que deixasse de fumar?
Me d� enxaqueca.
Meu marido tem suas pr�prias regras, Wolfgang.
N�o o direi o que deve fazer.
-Achei que voc� gostasse de fumar. -Seu h�bito de fumar ser� minha morte.
Oh, duvido disso. Tua m�sica ser� sua morte.
Vou dizer o que faremos.
Acho que deveria se parecer um pouco mais com Schumann.
Diga a Guam Ravillion que lhe corte o cabelo como Schumann.
Se ficar parecido com Schumann n�o v�o te levar.
Odeiam os t�sicos. S�o muito rom�nticos.
Ademais, Schumann se parecia um pouco com Ferdinand.
E eu gosto disso. E Charlie tamb�m.
Charlie � um King Charles Spaniel...
que leva seu nome em homenagem a Charles II, da Inglaterra.
Esse sim que era um homem e tanto, Wolfgang.
Voc� n�o � muito nacional-socialista.
-Por qu� n�o ter um pastor alem�o? -N�o, s�o muito feios.
Au, Au, Wolfgang.
''Bom, que meu pr�ximo pensamento seja da tumba''.
A morte pode ser a melhor carcereira de todas.
Os quadros do dormit�rio de Madame Moitessier,
s�o os mesmos que muito mais tarde...
se converteram no centro do romance "55 homens a Cavalo".
Depois de conhecer Constance Bulitsky,
na Checoslov�quia, em 1953,
Luper escreveria uma descri��o muito fant�stica...
de cada um de seus 55 cavalos.
O que est� fazendo aqui? Voc� � meu servo, n�o dela.
Trazia o caf� da manh�.
Estava admirando os quadros.
A carne de cavalo lhe interessa?
Pertenciam a minha m�e.
55 deles.
Valor: 55 favores.
Fa�a-me 55 favores, e pode ficar com eles.
Um ap�s o outro.
MALETA # 52. 55 HOMENS � CAVALO.
Noutros tempos, grande parte da diplomacia,
se baseava nos resgates.
Vamos devolver o seu prisioneiro vivo por 400.000 francos.
A metade disso pelo cad�ver. � muito dinheiro.
O resgate de um Rei. Como Ricardo I da Inglaterra.
-"Coeur de Lion". -Bom.
Eu sou um resgate profissional. Mas ningu�m oferece dinheiro por mim.
-eu tenho alguns francos. -N�o � o suficiente, Cecile,
mas obrigado.
Alguns prisioneiros passaram toda a vida nessa situa��o.
Ningu�m queria recuper�-los.
Era uma maneira de livrarem-se dos indesej�veis.
O que s�o indesej�veis?
Ciganos, aleijados, cegos, homossexuais...
O que s�o homossexuais?
Homens que gostam de homens e mulheres que gostam de mulheres.
N�o gostamos de tais conversas por aqui.
Intelectuais, como seu pai.
-Generais estrangeiros -Maus servi�ais.
-Judeus. -Sim, judeus.
Marion era judia.
Papai, por que est� chorando?
Porque eu amava Marion.
Sim, j� sabemos. Mam�e nos disse.
Luper a viu.
S�rio? Bobagem.
Tinha uma mulher que me olhava no fim do corredor.
Estava sentada no vaso.
Devia ser Guam Ravillion. Ela tinha p�ssimos h�bitos de higiene.
Era muito grande para ser Guam Ravillion.
Voc� n�o gosta de Guam Ravillion, n�o � mesmo, papai?
Tamb�m era uma servi�al.
Em qual banheiro?
No de tr�s, do jardim da cozinha.
� permitido gostar dos servi�ais?
Claro.
Assim � mais f�cil gostar de voc�.
Se os homens podem gostar dos homens...
e as mulheres das mulheres,
posso deixar de me preocupar se voc� � um homem ou uma mulher,
N�o � mesmo?
Tudo � muito triste.
� evidente que Madame Moitessier gostava dos joguetes,
dos disfarces e dos rituais.
Sem d�vida, eram das coisas que lhe davam poder...
sobre os desafortunados que a rodeavam.
Seus c�es, importados em grandes quantidades de Staffordshire,
a ajudavam a manter a ordem, como fazem os c�es.
Mas tinha de haver freq�entes execu��es.
E o jogo chamado de "Os 6 c�es" era o preferido.
Um, dois, tr�s.
Um... por seu marido.
Um... por si mesma.
Um por Wolfgang Speckler. O in�til compositor.
Um por Guam Ravillion, a servi�al devota.
Um por Marion, a desaparecida costureira judia.
Um por Martha, o fantasma asm�tico residente.
E o s�timo... Seria por Tulse Luper?
Ravillion foi castigada por atrever-se a supor isso.
MALETA # 53. C�ES DE PORCELANA.
Nunca deve meter os dedos dentro dos copos de cristal, n�o o fa�a.
Deve peg�-los pelo bra�o.
O p�.
Nem sopre neles. Assim se propagam os ''vermes''.
-Germes. -O que s�o os germes?
S�o como os ''germ�nicos''. S�o venenosos.
-Mam�e toma veneno. -Ah, �?
Est� na garrafa azul da su�te.
Vou busc�-la.
Poder�amos provar algo na ta�a de cristais.
A ta�a de cristal da sobremesa. Esque�a-se do plural ao pronunci�-lo.
Nunca aprender� a dobrar os guardanapos.
Deveriam ficar como barcos velados.
Barcos � vela. N�o velamos os barcos.
N�o consegui encontrar o veneno,
Mas encontrei isto � uma pistola.
-Isto � um rev�lver. -Ou uma autom�tica.
Por que se usa tantas palavras para definir uma s� coisa em ingl�s?
Porque � o ingl�s � insaci�vel
MALETA # 54. PINC�IS.
Os convidados do jantar se viram num dilema.
Tinham de pintar o que viam?
Ou tinham de pintar o que esperavam ver?
Ou o que queriam ver?
Vieram para pintar uma mulher...
mas se depararam com o corpo de um homem.
Todos eram colaboradores pol�ticos de um tipo ou de outro.
Mas tamb�m estavam dispostos...
a alimentar-se na mesa dos Moitessier.
Se pintassem Luper como mulher,
se submeteriam � lei das for�as de ocupa��o,
segundo a qual uma casa podia empregar uma serva,
mas n�o um servo var�o.
Se o pintasse como homem, estariam obedecendo a seus olhos,
mas trairiam os Moitessier.
Alguns escolheram o caminho,
com a verdade e a inoc�ncia, das for�as de ocupa��o.
Outros escolheram o caminho oposto, e acabaram por trair a todo o resto.
N�o havia forma de algum deles preservar sua integridade,
a verdade de seus olhos, ou o oportunismo,
tudo ao mesmo tempo.
Alguns esquivaram o problema. E Luper se transformou...
num hermafrodita de sexo indeterminado ou sem sexo algum.
Uma mulher o pintou completamente vestido,
o que foi um ato de imagina��o, n�o de observa��o.
MALETA # 55. DESENHOS DE LUPER. Luper contemplou as v�rias formas de consertar a imagem de si mesmo
...governada pelos olhos, o conhecimento e a conveni�ncia,
o fiz pensar na proposi��o:
"Um artista desenha o que conhece ou o que v�?"
Estava acordado na despensa dos Moitessier...
e escreveu uma obra intitulada "O Conflito do Desenhista".
Muitos anos mais tarde, a transformaram em filme.
-A de Abacaxi. -P de P�ssego.
Para o desenho n�mero 2,
das 9 da manh� at� as 11,
o gramado de tr�s,
incluindo o jardim da frente, ficar�o desocupados.
Nenhuma janela da parte de cima da casa se abrir�,
nem fechar�, nem nada ser� feito com elas.
O DESENHISTA
S�o os sentinelas, vi o clar�o.
-Est�o vigiando. -Sempre dispostos a disparar.
N�o respeitamos o toque de recolher.
Viram a luz vermelha da ponta de seu charuto.
-N�o diga besteiras. -Isso n�o � viola��o do toque de recolher.
MALETA # 56. INSTRUMENTOS MUSICAIS. Wolfgang Speckler fumava no jardim e a brasa de seu charuto...
...violou as estritas ordens do toque de recolher militar.
Como havia previsto, fumar foi, de fato,
a causa de sua morte e n�o suas composi��es musicais.
Luper ia saber de outro compositor de l�ngua alem� ainda mais c�lebre,
Anton Webern,
o qual tinha tido o mesmo fim por igual raz�o.
Luper escreveu uma trama para explicar a coincid�ncia,
e mais tarde se converteu numa �pera.
3. UM CHARUTO
Estes s�o os ingredientes para evitar uma conspira��o.
MALETA # 57. CHARUTOS FUMEGANTES.
Pulm�es, rins, test�culos...
O caix�o que acompanhou Luper em sua viagem de trem...
desde Estrasburgo a Dinard,
continha o cad�ver do gerente do cinema " Arc-en-Ciel".
Seu vingativo g�meo tivera a mesma sorte,
e virou um cad�ver...
para as disseca��es anat�micas comparativas de Moitessier.
Obrigado, Luper. Voc� � minha mascote da sorte.
MALETA # 58. PARTES DO CORPO.
Nunca fui completamente sincero com voc�.
Devo compartilhar minha alegria.
Esta � Marion. Como realmente �.
Meu amor.
Observar� como s�o majestosas as caracter�sticas que a identificam.
E posso reclamar certo m�rito por isso.
Gra�as a mim.
O que voc� n�o daria, Luper,
para ser t�o bem dotado como meu amor?
Voc� deveria se oferecer a mim e...
ser um homem orgulhoso.
Deus.
Venha se sentar comigo.
Madame?
Sente-se comigo, junto � janela.
Wolfgang se foi.
Sinto-me sozinha.
Madame, n�o posso faz�-lo.
Por que n�o?
Essa conduta n�o se reflete na natureza de meu contrato.
Contrato? N�o tem nenhum contrato.
Voc� � minha faxineira.
Tem de fazer o que eu disser.
-Tem de se calar e tem de gostar. -Sim, Madame.
-E aproveitar. -Exatamente, Madame.
Caso contr�rio, vai voltar para algum pa�s obscuro,
onde n�o h� nenhum assento de latrina de madeira...
e onde Deus � uma palmeira.
Sim, Madame, assim est� melhor. Muito melhor.
Mas voc� baixou a guarda.
MALETA # 53. QUADROS DE INGRES.
Me pediu para que sentasse com voc� e sorrisse.
Eu nunca sorrio. Ingres nunca pintou rostos sorridentes.
Sua devo��o por Ingres, Madame, se enfraquece.
Como se atreve?
Minha devo��o por Ingres � total.
Me deu permiss�o para desafi�-la e isso n�o me parece correto.
Quem lhe deu permiss�o para dizer o que pensa, faxineira?
Infelizmente, voc�.
Baixou a guarda.
E � poss�vel que volte a fazer, e n�o posso aceitar isso.
Voc� � um estrangeira impertinente, com o �tero infectado!
�timo, Madame. Mas � tarde demais.
Eu sinto muito, mas � tarde demais.
Oh, Deus, o que vou fazer, Madame?
-Terminou. -O que terminou?
N�s, Madame!
Com a pele perfurada, o cabelo sujo! Que "n�s"?
Isso n�o � verdade! Louca est�pida, fora da minha vista!
Sim, Madame. Mas terminou.
Voc� falhou comigo!
� poss�vel que Guam Ravillion...
tivesse algo a ver com a morte de Wolfgang.
� poss�vel que pensasse que o antagonismo de Madame...
repartido entre suas duas faxineiras fosse muito dilu�do.
E que ela queria ser o �nico centro de seu desprezo.
E atirou nele.
Mas a possibilidade de que adquiriu um rifle...
e que, al�m disso, tivesse boa pontaria, � muito pouco prov�vel.
Pelo contr�rio, a haviam acusado de assassinato na Arg�lia,
quando seu amante, supostamente, lhe deu uma cama de plumas.
O menino insiste em ver...
a ''mulher com o vestido vermelho que parece um homem''.
Luper recebeu um enigm�tico presente numa sacola de papel pardo.
Cerejas. Emblema de muitas das coisas...
que lhe haviam afetado em suas aventuras.
Mas se tratava de uma fraude.
Muito doces e conservadas artificialmente.
Vamos jogar um famoso jogo de contar ingl�s.
Ia ter uma solu��o...
muito doce e artificial ao seu encarceramento?
ou era um aviso da iminente presen�a dos seus perseguidores?
Ou uma indica��o de que Cissie Colpitts pensava em resgat�-lo?
Um agitado Luper converteu o presente...
num jogo de adivinha��es enquanto esperava sua oportunidade.
-Voc� vai acabar sendo um mendigo. -Eu n�o.
Eu serei um soldado para fazer voar os alem�es.
Jonah!
Funileiro.
Alfaiate. Soldado. Marinheiro.
Homem rico. Homem pobre. Mendigo.
-Soldado. -Ladr�o.
N�o pode repetir soldado.
Funileiro. Alfaiate. Soldado. Marinheiro.
Homem rico. Homem pobre. Mendigo.
Artista.
Melhor artista que ladr�o. N�o sei, talvez n�o.
Espi�o.
Deveria ser ladr�o.
Funileiro, alfaiate, soldado, marinheiro.
Homem rico, homem pobre.
-Mendigo. -Patriota.
Espi�o.
-Colaboracionista. -Espi�o!
-Ferreiro. -Palha�o e avarento.
-Cozinheiro e amante. -Presidi�rio, predicante.
-Algoz e vagabundo. -Virgem, carniceiro.
Rei Holand�s.
Anjo!
MALETA # 60. VIDRO QUEBRADO.
A morte de Madame Moitessier, a finaliza��o do retrato.
Era isso o que faltava e que Ingres n�o podia encontrar?
MALETA # 61. OS VESTIDOS DE MOITESSIER.
Luper foi acusado de assassinato, mas j� que n�o podiam encontr�-lo...
ou talvez porque estivesse estranhamente protegido,
a pol�cia buscou outros suspeitos.
Na delegacia de pol�cia foi descoberto que a arma...
apenas tinha as impress�es digitais das crian�as.
Monsieur Moitessier n�o fez nenhuma s�plica a favor das crian�as.
Est�o querendo me torturar!
Inclusive chegou a sugerir que Madame Moitessier...
n�o era sua m�e.
Num informe da policia tentou-se transformar o caso...
num assassinato por encomenda.
Que Luper se dedicava a receber ordens...
de uma ag�ncia do partido comunista norte-americano,
e que a crian�a, Jonah,
havia apertado o gatilho, mas que Luper tinha dado a ordem.
Luper era um conhecido simpatizante dos judeus.
E em d�vida ouvira falar...
da deporta��o for�ada de Marion Haberlien,
conhecida pela Gestapo por suas fa�anhas nas cafeterias de Dinard,
como a "Pompadour" judia.
Meus filhos querem me torturar.
Meus filhos querem me torturar.
Homem rico, homem pobre!
Meus filhos querem me torturar.
Monsieur Moitessier alegou que seus filhos queriam atorment�-lo.
Que contrataram um vagabundo chamado Rufus,
para fingir ser seu grande amiga j� falecida, Marion Haberlien,
e para obrig�-lo a viver na adega,
e que intimidaram Moitessier fingindo que Marion havia ressuscitado.
Meus filhos querem me torturar!
Meus filhos querem me torturar!
Meus filhos querem me torturar!
Legendas: Gianfranco Marchi Revis�o: Vander Colombo
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