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Original subtitles

''DESCARTES - PARTE 1''

Ele desenhou as 6 estrelas de Touro, das Pl�iades:

seis porque a s�tima n�o aparece quase nunca.

Ao redor delas, espremem-se mais 40 estrelas...

invis�veis a olho nu...

a n�o mais de um semigrau de dist�ncia.

Gra�as � sua luneta, da qual apresento uma c�pia fidel�ssima...

constru�da com um sistema de conceituadas lentes holandesas...

a Via L�ctea, que para n�s parece uma nebulosa...

foi esmiu�ada e estudada t�o exatamente...

que podemos dizer que as disputas...

que atormentaram os fil�sofos durante s�culos foram resolvidas.

A Gal�xia mostrou-se, de fato...

como um aglomerado de estrelas.

E isso � evidente em qualquer �rea...

para a qual o observador apontar a luneta.

Galileu Galilei divulgou, em seguida...

que existem nos c�us...

desde a origem do mundo, 4 planetas nunca antes vistos...

e que tinha descoberto e observado suas localiza��es...

ao longo de 2 meses.

Disseram que o matem�tico do Gr�o-Duque de Floren�a...

descobriu tamb�m o segredo das manchas do Sol.

Que not�cias tem sobre isso?

Soube em Floren�a que Galileu estudou muito esse ponto.

Mas que, infelizmente, ainda n�o tem condi��es...

de dar uma resposta definitiva, ou seja, se as manchas...

s�o na realidade vapores, exala��es, nuvens...

ou fuma�as produzidas pelo corpo solar.

Ainda n�o est� seguro a respeito da natureza...

de tais manchas, que podem ser mil outras coisas...

impercept�veis para n�s.

Mas, no que concerne ao Sol...

ele pensa que deve afirmar sua convic��o...

como absolutamente certa...

seus estudos concordando com os do polon�s Cop�rnico.

Afirma a mobilidade da Terra e a estabilidade do Sol...

em torno do qual, segundo �rbitas pr�-fixadas...

movem-se os planetas.

-Se me permite... -Diga!

Se o Sr. Galilei insistir em seu erro...

N�o � um erro, mas uma hip�tese razo�vel!

Mas ele nega a B�blia!

Josu� ordenou, de fato, que o Sol se detivesse e...

� sua ordem, o Sol, que se movia atrav�s dos c�us, parou!

� evidente que as palavras da B�blia...

devem ser interpretadas em outro sentido. Galilei...

Se ele continua insistindo nesse erro...

definitivamente n�o vejo raz�o para que se continue a divulgar...

sua teoria em nosso meio...

Justo aqui, no nobre col�gio La Fl�che!

Falou de Galilei como de um novo Arist�teles...

Sua doutrina � um erro...

um erro que ele cometeu por soberba...

e que confunde a f� do povo!

A Terra � o centro do universo.

Todos os testemunhos dos homens, humildes ou doutos...

desde o in�cio dos tempos confirmam esta verdade.

Considero exagerada essa sua indigna��o, Sr. De Bastion!

Nossa intelig�ncia nunca deve se submeter...

a um temor irracional do erro.

Ela deve, ao contr�rio, enfrent�-lo, conhec�-lo...

para ser capaz de venc�-lo.

As hip�teses de Galilei suscitaram in�meras cr�ticas.

Homens da ci�ncia e da lgreja apressaram-se a censur�-lo.

Mas sobre a sua doutrina, que se saiba...

ainda n�o foi pronunciado nenhum ju�zo definitivo.

E se os c�lculos se revelarem exatos...

n�o poder�o, de modo algum, contradizer a verdade.

Creio que � importante que todos voc�s...

se apliquem ao estudo das informa��es...

que o Sr. De Simone nos trouxe de Floren�a. Deo gratias!

Deo gratias!

-Adiante, os outros! -Afirmo que � absurdo...

comparar Galilei a Arist�teles.

Arist�teles construiu sua doutrina...

com base em um sistema perfeito de silogismos.

A ci�ncia de Galileu nasce da observa��o do universo...

-e do c�lculo matem�tico... -N�o � permitido falar, Sr. Descartes!

Desculpe, senhor.

Espada em linha... Sauda��o.

Em guarda.

A fundo... Em guarda.

A fundo...

Em guarda. A fundo...

Em guarda, parada de segunda.

Em guarda. A fundo...

Em guarda... Meio c�rculo...

A fundo... Moinho.

Entre!

Pediu permiss�o para ler A Magia Natural...

de Corn�lio Agrippa e...

o texto de Giovan Battista Della Porta, sobre o mesmo assunto.

Quero compar�-los. Aprecio as coisas curiosas.

Dizem que, em A Magia Natural...

encontram-se as melhores explica��es...

do magnetismo que � poss�vel ler...

e as mais agudas observa��es sobre a c�mara escura.

Tem a minha permiss�o para l�-los.

Devo, por�m, recordar o que nossa Regra aconselha.

''Nos estudos, assim como conv�m incitar...

estimular e encorajar aqueles que precisam...

� necess�rio frear os que correm depressa demais...''.

E voc� corre muito, meu caro Descartes!

''Nosso objetivo � adquirir saber para ajudar as almas...

com o favor de Deus.

Por isso, em todo estudo...

deve-se seguir a doutrina mais segura e apropriada...

e adotar os autores que a ensinam. E que se siga uma ordem!

Por isso, somente depois de ter constru�do um fundamento s�lido...

com o conhecimento do latim...

das artes human�sticas e da l�gica...

a filosofia natural e moral...

a metafisica e a teologia podem se tornar objeto de estudo atento''.

Atenho-me escrupulosamente a esta Regra...

mas tais ci�ncias n�o me despertam nenhum entusiasmo.

Eu sei. O livro sobre A Magia Natural de Corn�lio Agrippa...

certamente lhe dar� mais prazer...

que um texto de filosofia escol�stica! Pode ir.

Agrade�o-lhe, padre.

O jovem Descartes � cheio de curiosidade.

Dei-lhe permiss�o para ler mais dois livros.

Sua paix�o pelas novas ci�ncias talvez seja excessiva.

Est� convencido de que as novas ci�ncias...

ao se aproximarem da verdade, ajudam a descobrir...

e a amar a Deus, que � a suprema verdade.

Ainda est� estudando?

Pedi licen�a para concluir esta leitura de �tica.

Sei, e deve deixar o col�gio amanh�.

Ah, � sempre Della Porta! Gosta muito de fisica...

Mas, a bem da verdade, sempre foi diligente...

em todas as mat�rias.

Fui aluno desse col�gio por 9 anos.

N�o creio que exista outro lugar no mundo...

onde se ensine melhor a filosofia. Mas o senhor tem raz�o...

o que mais amo s�o as novas ci�ncias.

Gostaria de tornar-se matem�tico, astr�nomo?

Sim. Mas, em vez disso, meu pai ordenou...

que me laureasse em Direito na Universidade Poitiers.

E o Direito realmente n�o me interessa!

O que vai fazer ent�o?

Ainda n�o sei.

Mas vou tentar descobrir, padre.

Mande-me not�cias quando puder.

N�o gostaria de ficar sem saber nada de voc�.

O importante, no entanto, � que n�o se perca no mundo.

E fa�a tudo pela maior gl�ria de Deus.

Certo. Tentarei n�o me perder.

Ah, o Angelus!

Vamos.

Continuarei a leitura em seguida.

� morte, Eleanora Concini!

� fogueira, bruxa maldita!

Os guardas do rei mataram seu marido, o grande marechal d'Ancre.

O regente do governo era ele.

As culpas do desgoverno s�o suas.

Era ela a alma negra do marido!

Dois italianos, com o favor da Rainha m�e...

pretendiam comandar a Fran�a.

O Rei Lu�s Xlll deu prova de grande habilidade.

Livrou-se deles e deixou o povo satisfeito!

O Sr. Levasseur d'Estioles est� em casa?

Sim, senhor.

Ren� Descartes, Sr. de Perron.

Mande entrar!

J� o esperava h� alguns dias. Como est� seu pai?

-Escreveu-me de Rennes. -A bem dizer, n�o sei, meu senhor.

Venho de longe, da Touraine.

N�o o vejo h� mais de 2 meses.

lnfelizmente, encontrou muita agita��o em Paris!

Oh, n�o conhe�o as intrigas da corte...

mas me parece justo que o jovem rei...

queira governar pessoalmente, em vez de deixar tudo...

nas m�os de um cortes�o intrigante qualquer.

�, tem raz�o!

O que pretende fazer, agora que est� em Paris?

Quais os seus projetos? Poderia ajud�-lo.

J� disse a meu pai...

queria tanto que ningu�m me ajudasse!

Resolvi n�o come�ar carreira alguma.

Ainda preciso esperar.

Mas se est� indeciso, precisa de ajuda.

N�o! Porque n�o estou realmente indeciso!

Quero descobrir por mim, sozinho...

como � feito esse mundo.

Paris, por exemplo.

Desde que sa� do col�gio, percebi que n�o aprendi nada...

que possa me ser �til na vida.

Meu Deus! Como adoro teus cabelos...

S�o ondas macias em tua fronte...

Acariciando leve a tua beleza.

E me enchem de ci�mes quando te beijam!

Tens uma boca de �mbar e rosa

Mas tuas palavras me afligem

Se n�o em dizes beijando-me

Que amar � uma coisa sublime.

Vem comigo O vento uiva forte

E n�o pode nos ouvir decerto!

E o que n�s fizermos aqui Ser� um dulc�ssimo mist�rio!

Maravilhoso! Th�ophile de Viau!

Diz que n�o ama o Direito, mas com certeza ama a poesia.

Estou certo de que logo vir� me dizer...

que, em Paris, descobriu o amor!

Quero descobrir coisas bem diversas em Paris!

-Toma-me por f�til, senhor! -N�o, tranq�ilize-se.

N�o � f�til de modo algum.

Venha, vou lev�-lo a seu quarto.

Eis o seu quarto, espero que lhe agrade.

Estarei muito bem!

Seu pai escreveu dizendo que � um pouco selvagem.

Mas aqui pode se sentir em casa.

Agrade�o-lhe, senhor.

Coloque-a ali.

Senhor...

-Senhor... -O que h�?

Sabe que n�o quero ser perturbado!

Sei, senhor, mas j� � meio-dia.

H� duas horas, est� aqui um homem que espera...

resposta para este bilhete.

� um convite do Padre Mersenne para o Convento dos M�nimos.

Mersenne � um antigo aluno do Col�gio La Fl�che.

Responda que irei.

V�, v�...

O que pensar, ent�o, daquelas falsas ci�ncias...

que afirmam sem nada provar...

invocando as qualidades ocultas da Lua e das Constela��es?

O que pensar daqueles que me deixam orar a Deus e aos Santos...

para endere�ar preces m�gicas aos astros?

O que pensar dos astr�logos...

que ousam fazer o hor�scopo...

de Nosso Senhor Jesus Cristo?

O homem s�bio n�o � um adivinho...

e menos ainda um mago...

mas aquele que ama a verdade e, como Arist�teles...

acredita que a natureza nos mostra claramente o seu rosto...

nos estudos das causas e na sucess�o dos fen�menos.

� certo que n�o aprovo Arist�teles em todas as suas partes.

Passaram-se quase 2 mil anos de sua morte...

e a ci�ncia do homem progrediu muito.

Mas quanto � busca da verdade...

repetirei aqui o que tenho dito tantas vezes...

Arist�teles � uma �guia...

os outros n�o s�o mais que pintinhos.

Mas, reverendo padre, na busca da verdade...

Plat�o diz uma coisa...

Arist�teles outra e Epicuro outra ainda.

Agostinho parece indicar...

uma via diversa daquela de Tom�s de Aquino.

Tel�sio, Campanella, Bacon e os outros inovadores...

trazem ainda outros argumentos.

O senhor diz que, salvo Arist�teles, s�o todos pintinhos.

N�o lhe parece exagerado?

As sumas dos fil�sofos escol�sticos...

fundadas nas doutrinas de Arist�teles...

s� parecem constru��es perfeitas que conduzem � verdade...

quando s�o estudadas dentro das paredes de uma biblioteca...

ou de um col�gio, mas parecem bastante distante delas...

quando confrontadas com os milhares de fen�menos...

que formam a realidade do nosso mundo.

E quem mais, entre todos esses, nos ensinar� com autoridade...

alguma coisa sobre a qual n�o possa pairar nenhuma d�vida poss�vel?

Voc� ainda � muito jovem, ainda tem muito o que estudar.

E fala de Arist�teles!

lncr�vel! Provavelmente, s� conhece de Arist�teles...

as cita��es que nos reportam �s sumas.

E voc�? Certamente � o Sr. Descartes.

Meu jovem condisc�pulo de La Fl�che.

O Pe. Fran�ois, da Companhia de Jesus...

recomendou-me este jovem.

O Sr. Descartes tem grande paix�o pelas ci�ncias matem�ticas.

Ter�o ocasi�o de conhec�-lo melhor em seguida.

Certamente, senhores, mas pe�o que continuem...

e que desculpem minha intromiss�o.

Bem, retomemos o nosso discurso.

Venha ver.

Venha!

Tive uma id�ia: encontrei um modo de medir a umidade do ar.

Vou lhe mostrar agora o que inventei.

Olhe bem aquelas duas tiras de papel.

A primeira est� em seu estado natural...

a outra, que molhei anteriormente, encolhe ao secar.

Utilizando esse meio, creio que poderei medir...

os diferentes graus de umidade, como s�o medidos com um termosc�pio...

os diferentes graus de calor.

lnteressante!

Ver� o efeito em alguns minutos.

Vejo que, em mat�ria cient�fica, n�o segue Arist�teles.

Mas n�o entendo...

Se refuta sua ci�ncia...

por que defende a sua filosofia?

N�o v� me dizer que voc� tamb�m � do partido dos inovadores...

e que rejeita qualquer tipo de filosofia!

N�o rejeito a filosofia...

mas as doutrinas que me parecem constru�das...

sobre fundamentos pouco firmes...

como a areia.

N�o gostaria que essa via o levasse ao ceticismo.

lsso � um perigo, sabe bem disso!

O que faz para evit�-lo?

N�o procuro outra ci�ncia...

sen�o aquela que possa verificar por mim mesmo...

e tiro minhas li��es de vida, mais do que dos livros.

Mas, se suspeita da autoridade dos fil�sofos...

quem voc� pensa que poderia gui�-lo?

A convic��o, padre...

de que existem, em estado natural...

sementes de verdade em nosso esp�rito...

e que essas sementes, justamente...

t�m a faculdade de nos dar a capacidade...

de distinguir o falso do verdadeiro.

Sementes de verdade?

Deveria escrever essas observa��es...

sobre a filosofia de nosso tempo.

Delas poderia nascer uma discuss�o muito �til.

Escrever? Oh, n�o, n�o!

N�o posso fazer isso, padre! Ainda n�o refleti o suficiente.

Espero, ao menos, que venha me encontrar algumas vezes...

para falar comigo e com meus doutos amigos.

Ser� um prazer.

Claro, n�o faltarei. Agrade�o.

Olhe l�!

Um dia, o velho marechal de Roquelaure...

levou-me para visitar uma certa Guglielmetta...

para que constatasse que era capaz de falar as mais variadas l�nguas...

quando estava possu�da pelo Diabo.

Aproximei-me e comecei a falar-lhe...

em 5 ou 6 l�nguas diferentes...

sem obter nenhuma resposta al�m de palavras...

incompreens�veis e horr�veis blasf�mias em gasc�o.

A certa altura, entrou no quarto um frade...

e ela recuperou o ju�zo.

Uma mistifica��o, senhores, nada mais.

Sim, uma mistifica��o...

Th�ophile de Viau, tenho o dever de adverti-lo de que...

� for�a de n�o acreditar no Diabo, acabar� n�o acreditando em Deus.

E, por isso, creio no Diabo.

Duplo seis. Ganhei!

Sr. de Candalle, permita que lhe apresente...

o meu amigo Ren� Descartes, Sr. de Perron.

Seja bem-vindo, Sr. Descartes!

Quer experimentar o ch�, bebida que as naus holandesas...

-nos trazem da China? -Obrigado.

Dizem que tamb�m � muito salutar.

Oh, sim. De fato, meu m�dico recomenda que beba...

ao menos 50 ta�as por dia.

Talvez demais. Por favor.

Trago sempre no bolso o Sanctum regnum...

um livro precioso, uma das provas cient�ficas...

da ignor�ncia e da hipocrisia de nosso s�culo.

Se n�o fossem seus amigos, evitaria mostr�-lo...

pois ainda h� muita gente na Fran�a...

que se diverte erguendo fogueiras de hereges e bruxas.

Vejo que tem medo.

Pois bem, felicito-me.

Os que t�m medo s�o s�bios.

Ou�am! � um livro cient�fico.

''Quem deseja fazer um pacto com o Diabo...

deve decidir que Diabo invocar.

N�o � l�cito perturbar Satan�s se uma pot�ncia infernal subalterna...

� suficiente para satisfazer seus desejos''.

Bem, como podem ver, o discernimento...

� uma virtude necess�ria at� no inferno!

Para a evoca��o, prescreve-se...

''Uma pedra sang��nea vendida nos ervan�rios...

e duas velas de cera benta''.

H� tamb�m uma prece de efeito certo.

''�, lmperador L�cifer, senhor dos esp�ritos rebeldes...

suplico sua ajuda enquanto invoco seu Ministro, Luc�fugo Rofocal...

para estipular um contrato com ele.

Fa�a com que apare�a em forma humana...

e sem mau-cheiro''.

N�o lhes parece que s�o loucuras, exageros...

sobre os quais at� a Corte discute...

e a Sorbonne anuncia debates teol�gicos? � absurdo!

N�o h� por que se espantar. Em Paris, discute-se tudo.

N�o se pode mais usar tranq�ilamente a pr�pria raz�o...

pois sempre se topa com algu�m disposto a demonstrar, com ast�cia...

que existe uma verdade mais verdadeira que uma outra.

Seria necess�rio que nos livr�ssemos...

dos Conselheiros da Coroa, dos membros da c�ria...

dos jesu�tas e dos dominicanos, dos doutores de Sorbonne...

e das cortes�s influentes.

E tamb�m do Sr. de Luyne, o favorito do rei.

-� justo! -N�o se espante, senhor.

S�o honrados cavalheiros, mas n�o suportam mais os padres...

o partido espanhol ou os jesu�tas...

que s�o, ali�s, a mesma coisa.

Querem, acima de tudo, ser livres!

O Sr. de Saumaise os conhece bem.

� um deles!

Eu sou Guez de Balzac, e quero parabeniz�-lo, Sr. Descartes.

Pude ouvi-lo no Convento dos M�nimos...

e devo reconhecer sua coragem.

O Sr. de Claves foi condenado por ter dito em p�blico...

coisas muito mais prudentes do que as suas.

N�o poderia imaginar...

Senhores!

N�o brindam voc�s tamb�m a Maur�cio de Nassau?

E por que deveria faz�-lo?

Est� preparando um novo ex�rcito!

Libertou a Holanda dos preconceitos...

abriu-a para os com�rcios...

expulsou todos os padres pedantes.

A sua � a �nica terra no mundo onde calvinistas e cat�licos...

vivem juntos sem grandes inc�modos.

N�o ligue para o que ele diz!

Todos sabem que o nosso grande Th�ophile de Viau...

o poeta da liberdade, entusiasma-se com facilidade.

De cat�licos, a bem da verdade, restaram muito poucos na Holanda.

Fico feliz de brindar com o senhor...

a Maur�cio de Nassau, mas sobretudo ao senhor...

cuja espl�ndida poesia aprecio e amo.

Agrade�o o cumprimento, mas aviso que a adula��o me incomoda.

O que me d� muito prazer, ao contr�rio...

� encontrar um amigo verdadeiro, pronto para beber comigo.

E o senhor, tamb�m pretende se alistar...

entre os cat�licos do Pr�ncipe de Nassau?

Hoje, a melhor juventude de Paris...

s� pensa em transferir-se para os Pa�ses Baixos...

e militar sob suas bandeiras.

Mas eu prefiro ficar em Paris.

N�o sei como viveria sem seus sal�es.

O Sr. Descartes est� bem distante dos ensinamentos...

dos reverendos padres da Companhia de Jesus.

A rebeli�o contra os ensinamentos dos antigos libera o mundo.

A via que os antigos tra�aram na busca pela verdade...

me parece a cada dia mais cheia de confus�o.

Precisamos escrever nossos livros...

levantar os homens com a poesia...

que por sua natureza mesma, � liberdade.

Devemos tentar impedir que falsidades nos cheguem pelos livros dos antigos.

Muitas vezes, diante de problemas cuja solu��o desconheciam...

os antigos demonstraram o erro como verdade...

Gostaria de ouvi-lo e de colocar-lhe algumas quest�es...

se me fizer a honra de deixar seu endere�o.

Moro na rue du Four, na resid�ncia do Sr. Levasseur d'Etioles.

Agrade�o.

Abram um lugar � mesa para o Sr. Descartes e deixem-no jogar.

O Sr. de Balzac ama tanto a liberdade, que n�o suporta nem as suas jarreteiras.

Ouvir dizer, senhor, que n�o pretende militar sob Maur�cio de Nassau.

-Verdade? -De fato!

Pois faz muito mal.

Os �nicos pa�ses onde ainda existe um resqu�cio de liberdade...

s�o Veneza e a Holanda.

Veneza � uma rep�blica onde se faz com�rcio...

sem discutir os credos dos clientes...

assim como os Pa�ses Baixos...

onde Maur�cio de Nassau esmagou a lnquisi��o espanhola...

valendo-se da ajuda dos mais valorosos oficiais das armas da Fran�a...

em sua maioria cat�licos.

Quer come�ar a jogar?

Os srs. Balzac e Saumaise vieram visit�-lo.

Fa�a-os entrar.

Desculpe a intrus�o, senhor.

Sabemos que Descartes mora com o senhor e...

O Sr. Descartes? Escondeu-se!

Deixou-me sem me dizer nada.

Seu criado veio ter comigo em grande segredo.

Diz que o patr�o foi se esconder num sub�rbio...

e n�o sai do quarto h� dias.

Confesso que estou preocupado.

Uma esp�cie de fogo deve ter tomado seu c�rebro.

Considero-me autorizado pela amizade que me liga a seu pai...

a violar seu retiro.

Estava justamente de sa�da. Os senhores me acompanham?

Cuidado a� embaixo!

J� faz mais de meia hora que caminhamos e nada!

� aqui.

Ele nos fez atravessar Paris para encontr�-lo!

Quem est� a�?

Seu amigo Levasseur, em companhia do Sr. de Balzac...

-e do Sr. de Saumaise. -Ah, entrem!

Confesso, caro amigo, que, depois de tanto tempo...

sem not�cias suas, temi que estivesse doente.

Encontramos por acaso, o seu criado, que nos trouxe...

devo dizer que a contragosto, at� o senhor.

Seus cuidados me comovem, mas n�o se preocupem, estou muito bem.

Fechei-me neste quarto sozinho, por muitos dias...

refleti sobre cada momento que ainda recordo de minha vida passada...

e cheguei a uma conclus�o...

se pretendo saber do que a raz�o humana � capaz...

preciso absolutamente me libertar de minha inf�ncia.

Quero dar-lhes uma not�cia, senhores.

Ser�o os primeiros a saber: resolvi abandonar os livros...

e ir para a Holanda...

alistar-me no ex�rcito de Maur�cio de Nassau...

como muitos outros jovens franceses.

O que acham?

Est� mesmo convencido de que conseguir� deixar na Fran�a...

aquela parte de si que mant�m sua raz�o prisioneira?

Ora, � preciso que fa�a alguma coisa para livrar-me...

dos preconceitos com os quais cresci e fui educado.

lncr�vel! Admite que tenha preconceitos.

� coisa rara em nossos dias que algu�m o reconhe�a.

Quando �ramos pequenos...

aprendemos que, com caprichos e l�grimas...

nossas amas faziam o que quer�amos...

convencendo-nos de que o mundo estava � nossa disposi��o.

Assim tamb�m, desde a Antiguidade...

que � a inf�ncia da humanidade...

o homem persuadiu-se de que a Terra � plana e n�o redonda...

e que permanece im�vel no centro do universo.

E estabeleceram-se in�meras opini�es...

falsas tamb�m, sobre a realidade...

das quais � muito dificil desfazer-se ainda hoje.

Nossos professores revestiram com palavras s�bias...

estas opini�es arcaicas...

e, ao faz�-lo, radicaram profundamente em n�s...

a for�a do erro que elas cont�m.

E acredita que, indo para a Holanda...

conseguir� libertar-se do cont�gio de tais erros?

Preciso afastar-me do ar dessa cidade...

do rumor que as palavras e as opini�es dos outros produzem...

para que minha raz�o funcione livremente.

Decidi recusar qualquer opini�o, mesmo as minhas...

como se fossem todas falsas.

E decidi tamb�m que s� aceitarei...

depois de t�-las examinado atentamente com a raz�o...

aquelas sobre as quais tiver certeza absoluta.

Farei como o comerciante de ma��s que esvazia todo o cesto...

temendo que algum fruto esteja podre...

e rep�e apenas os frutos s�os.

Sempre acreditei que Paris fosse a cidade...

mais capaz de estimular o intelecto e dar a maior liberdade � raz�o.

Eu tamb�m!

Mas, viajando pelo mundo...

poderei conhecer a verdade muito melhor...

do que pelas discuss�es dos doutores parisienses.

Vejo que j� tomou sua decis�o.

Escreveu a seu pai?

Claro! Nunca viajaria sem avis�-lo.

-E quando parte? -lmediatamente.

E com uma pequena bagagem, na qual n�o haver�...

lugar para nenhum livro.

Quem ama a liberdade deve segui-la onde quer que pense que ela vive.

E vejo que, para o senhor, a liberdade vive na Holanda.

Se realmente a encontrar, escreva-me.

Escreverei, senhor.

-Mais uma garrafa de vinho. -Traga cerveja.

Traga cerveja.

Parece que nesse pa�s s� vivem marinheiros e comerciantes.

Onde est� minha cerveja?

Permitem? Queremos lhes falar.

Sente-se.

Quase todas as manh�s, a esta hora...

vejo que v�m beber sua cerveja.

E ent�o, � boa?

O que quer de n�s, senhor?

Sabemos que manejam bem a espada.

Todos os cadetes s�o espadachins.

Mas disseram que voc�s s�o mestres.

E h� dias que os observamos: nunca ficam b�bados.

J� disse, senhor, o que deseja de n�s?

Oferecemos um emprego:

2 mil florins por ano como mestres de armas em dois navios...

por conta da Companhia das �ndias Ocidentais.

Somos cadetes sem soldo, senhor.

Cada um de n�s tem como se manter.

Mas se amam a aventura e a liberdade...

n�o h� nada melhor do que a vida no mar.

Oferecemos o embarque em navios mercantes novos de 600 toneladas...

rec�m-constru�dos.

S�o barcos que parecem pal�cios.

T�m trinta canh�es e estivas maiores que os armaz�ns...

do Sr. Van Clift de Amsterd�.

Ter�o uma cabine e a tarefa �nica...

de instruir os marinheiros e comandar a guarda do barco.

E de quantos meses seria o engajamento?

Para uma �nica viagem, senhor, 12 meses.

Ficariam com a beleza de 2 mil florins no bolso...

pois, enquanto estiverem viajando, ter�o muito poucas despesas.

V�o perceber que � um �timo neg�cio!

Os navios aportar�o na col�nia holandesa de Nova Netherland...

na foz do rio percorrido por Hudson...

no qual se navega como num vast�ssimo mar.

Quanto a mim, sua oferta n�o me interessa realmente.

N�o poderia levar meu criado comigo...

e n�o teria nenhuma das comodidades...

que me s�o indispens�veis para viver e pensar.

� estranho que um soldado seja t�o apegado �s suas comodidades!

E o senhor, tamb�m recusa a oferta?

lnfelizmente, devo voltar a Paris no final do ano...

do contr�rio, aceitaria.

Toda manh� bebo um copo de cerveja aqui nessa taberna.

Se mudarem de id�ia, � s� dizer.

No que me diz respeito, senhor, n�o conte com isso.

H� dois dias que afixei o texto desse problema...

e ningu�m se apresentou at� agora com a solu��o.

V�, ent�o, amigo, e boa sorte. Adeus e obrigado!

Desculpe, senhor, mas ouvi que falava minha l�ngua.

Poderia me fazer a cortesia de traduzir o texto?

N�o entendi alguns detalhes.

Com prazer, senhor.

Aqui est�: ''problema de matem�tica para uma mente ilustre.

Uma pedra cai de A para B em uma hora.

Ela � atra�da perpetuamente pela Terra com a mesma for�a...

sem nada perder a velocidade impressa pela atra��o precedente.

Ora, o que se move no v�cuo, move-se eternamente.

Pergunta-se: de quanto tempo a pedra precisar� para cruzar um certo espa�o?''

Bem... A solu��o � simples.

Simples!

Mas sim!

Fui eu mesmo, senhor, quem p�s esse an�ncio...

desesperan�oso de encontrar, algum dia...

a solu��o do problema. E sou um matem�tico!

Quando quiser, estou pronto a fazer-lhe a demonstra��o.

Espero pelo senhor em minha casa.

Estou ansioso para ouvi-lo.

Aqui em Breda todos sabem onde mora...

lsaac Beeckman de Middelburg!

Aqui est�.

Neste tri�ngulo ret�ngulo, ABC representam o espa�o...

isto �, o movimento.

A desigualdade do espa�o do ponto A � base BC...

representa a desigualdade do movimento.

Conseq�entemente, AD ser� realizado no tempo...

representado por ADE...

e DB no tempo representado por DEBC.

Donde, AB ser� atingido tr�s vezes mais lentamente que AD.

Exato!

Exato!

Sabe o que um douto escol�stico teria respondido em seu lugar?

''Todas as coisas presentes no universo...

pertencem a um lugar que lhes � natural.

O lugar que mais lhes conv�m!

Podemos dizer que o peso nada mais � que o apetite...

que as coisas t�m de reencontrar esse lugar de beatitude''.

''Sr. Beeckman'', diria...

''o seu problema est� simplesmente mal colocado.

Basta que me diga primeiro qual � o corpo que est� caindo...

e lhe direi imediatamente qual � o seu lugar predileto...''.

Tudo isso � simplesmente absurdo!

Vejo que se recusa, como eu...

a explicar os fen�menos fisicos atribuindo aos corpos...

qualidades que pertencem apenas ao esp�rito.

� por isso que amo a matem�tica e pratico a medicina!

Tem raz�o. A matem�tica � a �nica disciplina...

que pode nos proporcionar certeza.

As ci�ncias matem�ticas nos ensinam a enumera��o...

e o c�lculo de qualquer movimento...

as rela��es, as propor��es... entre todas as coisas existentes.

Da luz, do som...

As opera��es da matem�tica exprimem sempre...

uma l�gica evidente e concreta.

Por exemplo, como sabe, o sinal igual � fundamental.

A matem�tica mostra de modo rigorosamente certo e exato...

todas as igualdades poss�veis...

e permite que nos defendamos do engano das apar�ncias.

O que me agrada no senhor � o fato de que n�o fala...

a linguagem dos escol�sticos...

e discute ci�ncias como nenhum dos meus concidad�os...

seria capaz de fazer.

Sabe, s�o quase todos bons calvinistas: ouvem os serm�es...

e n�o falam de outra coisa sen�o neg�cios e teologia.

O senhor n�o � cat�lico, n�o � mesmo?

N�o, de fato!

E o senhor � certamente cat�lico romano!

Sou franc�s, senhor, e cat�lico...

mas tenho certeza de que isso n�o impedir� de conversar com o senhor.

Tenho simpatia pelo senhor.

Confesso que nunca pensei que encontraria um matem�tico...

e um fil�sofo escondido sob as vestes de um soldado.

Espero que volte a visitar-me, senhor, e com freq��ncia.

Enquanto permanecer em Breda.

Ser� uma grande honra para mim!

Esta manh� o senhor n�o foi aos exerc�cios de cavalaria.

Quer perder o encontro com o Sr. Beeckman?

N�o!

Essas camas holandesas me fizeram perder o gosto de dormir.

N�o, esse n�o. D�-me a roupa civil.

E assim, senhores, a alma desse animal...

uma alma inferior em rela��o � alma do homem...

que � superior...

faz com que esse est�mago digira...

extraindo dos alimentos...

os sucos necess�rios � manuten��o da vida.

O doutor atribui � alma fun��es que s�o pr�prias do corpo.

� um preconceito antigo. Uma sensa��o infantil falaz...

como todas as sensa��es e fonte de erros ruinosos.

-Pe�o desculpas por intervir. -Fale!

Engana-se ao considerar as sensa��es falazes.

Quando um jovem mergulha um bast�o em um riacho...

a vista pode faz�-lo acreditar que est� quebrado.

Mas se, fechando os olhos, tateia o bast�o...

em todo o seu comprimento, na �gua e fora dela...

perceber� que o bast�o continua inteiro.

Corrigir� ent�o a sensa��o da vis�o com o tato...

e restabelecer� a verdade sem sair do mundo das sensa��es.

N�o, senhor, pois em nosso caso a raz�o do jovem interveio...

levando-o a controlar a sensa��o da vis�o com o tato.

� a raz�o que o leva a retificar seu erro.

Sem o controle da raz�o...

as sensa��es s�o todas enganadoras.

Aqui est� o cora��o do animal que a alma movia...

gra�as � faculdade pulsativa que possui.

O doutor faz observa��es...

cuja verdade n�o saberia demonstrar com evid�ncia.

E n�o sabe dizer de que modo...

a alma inferior desse animal age diretamente sobre seu cora��o.

O que t�m a objetar, senhores?

Por que n�o falam em voz alta se t�m algo a dizer?

Penso que, para justificar suas afirma��es...

repete antigas teorias aristot�licas sobre a alma...

e confia em suas sensa��es pessoais.

O que ensino � verdade evidente, meu senhor.

Para a maioria dos homens, a evid�ncia � aquilo que sempre viram...

desde a inf�ncia...

quando os adultos forneciam �s suas mentes explica��es simples...

para todas as coisas.

No entanto, para descobrir com absoluta certeza a natureza das coisas...

devemos nos livrar da vis�o do mundo...

que fomos construindo, de pai para filho...

ao longo dos s�culos...

devemos nos liberar do engano das sensa��es...

e aprender a nos servir melhor da nossa raz�o.

Eis o que tenho a dizer.

E que vis�o do mundo teria para nos oferecer em troca, caro senhor...

visto que nega que a experi�ncia secular dos antigos nos transmite?

Uma vis�o de mundo que resulte evidente...

como aquela que vem dos n�meros, das matem�ticas.

Pretende, portanto, substituir os ensinamentos da filosofia...

e das ci�ncias, que nos v�m de uma longa tradi��o de s�bios...

pelo ensinamento dos matem�ticos de nossos dias?

Mas a realidade n�o � feita de quantidades.

Existem as qualidades das coisas e elas s�o percebidas por meio das sensa��es!

Estas sensa��es que o senhor tanto teme!

Permita-me, senhor, adverti-lo contra as suas pretens�es...

pois corre o risco de mergulhar sua mente...

em uma obscura floresta de n�meros.

O meu jovem amigo � um h�bil e profundo matem�tico...

e quero crer que compreender� seu entusiasmo...

talvez um pouco excessivo pela clareza proveniente do n�mero.

Sim, com certeza.

Pe�o desculpas por t�-lo interrompido, senhor.

Pe�o-lhe que continue sua exposi��o.

Senhores...

Senhores, n�o sei se em dois anos, ou seja...

quando a ''tr�gua dos 12 anos'' tiver fim...

a guerra contra os espanh�is vai continuar.

Em todo caso, o glorioso ex�rcito das Prov�ncias Unidas...

dos Pa�ses Baixos ter� que ter nessa �poca uma artilharia...

ainda mais poderosa do que aquela que os espanh�is conheceram...

�s pr�prias custas, antes da tr�gua.

Eis, ent�o, a tarefa da li��o de hoje...

devem calcular a al�a de mira de tr�s canh�es...

em rela��o � altura dos basti�es que defendem a cidade de Ostenda...

para efetuar um ataque que seja o mais seguro e potente poss�vel.

Eis as dist�ncias dos canh�es dos bast�es...

o primeiro encontra-se a mil p�s...

o segundo a 750 e o terceiro a 5 mil.

Em 1603, a conquista desse porto por nossas tropas...

custou 4 milh�es de florins...

mas certamente teria custado muito mais...

se o Pr�ncipe Maur�cio de Nassau...

n�o pudesse contar com a melhor artilharia do mundo.

Os c�lculos da al�a de mira s�o fundamentais para a artilharia.

� por esse motivo que recomendo...

a aplica��o mais atenta aos estudos desse problema.

Bom dia, senhores.

Os c�lculos, como sempre, ser�o feitos pelo nosso amigo Descartes.

Vai faz�-los, n�o?

Eis os seus c�lculos, senhores.

Mas fiquem certos de que, quando a guerra chegar...

n�o estarei aqui para ajud�-los.

N�o se preocupe, no momento a guerra ainda est� repousando.

O Pr�ncipe Maur�cio de Nassau mant�m um ex�rcito armado...

s� para sustentar sua luta pol�tica contra Van Oldenbarneveldt.

Lutaram juntos contra os espanh�is, � frente das prov�ncias confederadas...

pela liberdade da Holanda, e agora lutam um contra o outro...

como os piores inimigos.

Oldenbarnedeldt � mais velho, mais s�bio...

e goza do favor do p�blico.

Porque deseja que a Holanda seja uma rep�blica.

E sobretudo porque n�o quer que Maur�cio de Nassau...

se torne rei da Holanda.

Acham que o Pr�ncipe Maur�cio usar� o ex�rcito contra Oldenbarneveldt?

N�o vai precisar disso.

O Pr�ncipe de Nassau j� acusou Oldenbarneveldt de heresia...

pelo apoio que deu a uma dissid�ncia dos calvinistas: os arminianos.

Tamb�m entre os calvinistas uma acusa��o de heresia...

pode destruir um homem mais que um ex�rcito inteiro!

Mas se condenarem Oldenbarneveldt...

seus correligion�rios v�o se rebelar.

Aconte�a o que acontecer, dentro de 3 meses n�o estarei mais aqui!

Estarei na Alemanha em um m�s.

O Duque Maximiliano da Baviera est� arregimentando tropas...

e certamente, com a patente da nossa Academia...

poderei encontrar um bom posto de oficial junto a ele...

e com direito a soldo.

E contra quem ele far� guerra?

Contra os bo�mios, rebeldes a seu Rei e ao lmperador Fernando ll.

Meu tio escreveu-me de Ulma.

''Depois que os nobres calvinistas bo�mios...

jogaram os enviados imperiais e seus secret�rios...

com os quais deveriam firmar os termos de um acordo...

pela janela do Castelo de Praga...

tropas est�o sendo armadas em v�rias partes da Alemanha.

Os imperiais cat�licos preparam-se para assaltar e destruir...

os protestantes bo�mios, chefiados pelo Pr�ncipe Eleitor do Palatinado''.

Na Alemanha, n�o passa um ano sem que se arme um ex�rcito.

Sempre foi assim.

Sempre existiram alistamentos muito vantajosos.

E uma �tima cerveja tamb�m.

E mulheres bel�ssimas!

O Sr. Beeckman.

Bom dia, Sr. Descartes.

Finalmente o encontro desperto t�o cedo.

Oh, sim! Tenho muita nostalgia das boas camas francesas.

Recebi seu bilhete.

Por que deseja abandonar o ex�rcito?

N�o vim para ficar.

Tornei-me soldado para estudar os homens...

e colocar-me em contato com a vida.

lrei agora para a Dinamarca, e depois, talvez, para a Alemanha.

Ainda n�o sei bem.

Abandona, ent�o, os seus projetos?

Prometeu, h� algum tempo, que publicaria...

um tratado de mec�nica e geometria.

Mas desde que chegou a Breda...

n�o o vi escrever uma linha sequer sobre o assunto.

Oh, n�o � que n�o tenha apreciado o �timo comp�ndio de m�sica...

que me mandou de presente no Natal, � claro.

Mas confesso que esperava mais de sua mente matem�tica.

Escreverei!

Manterei todos os meus projetos, n�o tenha medo.

Mas ainda preciso refletir.

Compreendi que os homens, quando assaltados pela curiosidade...

correm o risco de arrastar a intelig�ncia...

por vias que lhes s�o desconhecidas...

de vagabundear sem uma meta precisa...

sem uma expectativa razo�vel, ao sabor do acaso...

guiados apenas pela fantasia.

Mas j� o vi formular, mais de uma vez, hip�teses precisas e c�lculos exatos.

Preciso refletir mais.

Ent�o deve me prometer, antes de partir...

que me enviar� pelo menos uma c�pia de tudo o que escrever.

Prometo, meu amigo.

Voc� me despertou, aqui em Breda...

de uma in�rcia que me levava para tr�s...

e reconduziu minha mente desviada a um estudo s�rio das matem�ticas.

Como poderia esquec�-lo?

Na Alemanha, no in�cio do inverno...

o aquartelamento for�ado do ex�rcito...

obrigou-me a permanecer num alojamento...

no qual, na falta de cuidados e de paix�es...

que perturbassem meu esp�rito, ficava o dia inteiro na solid�o...

em um quarto bem aquecido onde podia mergulhar...

tranq�ilamente em meus pensamentos.

Assim, depois de uns poucos dias de reflex�o...

surgiu, l�mpido como uma ci�ncia admir�vel...

um novo fundamento do saber, a partir do qual � poss�vel...

produzir uma ordem entre todos os pensamentos...

que podem caber no esp�rito humano...

assim como existe uma ordem natural entre todos os n�meros.

Na noite em que vislumbrei esse novo princ�pio...

tive tr�s sonhos.

Os dois primeiros assustaram-me mortalmente, eu confesso.

O terceiro, ao contr�rio, foi muito suave, muito agrad�vel.

Nele, tive a impress�o de ver nascer uma nova esperan�a para o futuro.

Conte-me esses sonhos.

Pois bem, eu me vi caminhando por uma rua...

atormentado por um turbilh�o pavoroso de vento.

Tinha a impress�o de que ia cair a cada passo.

Apareceu, ent�o, um col�gio e l� me refugiei.

Tentando alcan�ar a igreja do col�gio para rezar...

vi no p�tio ventoso um conhecido...

que eu tinha ultrapassado sem cumprimentar.

Quis voltar atr�s para desculpar-me pela falta...

mas n�o pude....

fui empurrado pelo vento com viol�ncia inaudita...

embora essa pessoa e as outras que a cercavam...

permanecessem eretas e est�veis sobre seus p�s.

Eu, ao contr�rio, seguia curvado e vacilante...

como se o turbilh�o de vento soprasse apenas sobre mim.

Quando acordei, fui dominado por uma dor terr�vel.

Pedi a Deus que me defendesse do maligno...

e depois de duas horas em profunda medita��o...

sobre os bens e os males deste mundo, adormeci.

E logo tive outro sonho: ouvi um trov�o...

e o medo me despertou outra vez.

Ao abrir os olhos, vi o quarto...

invadido por centelhas ardentes...

o que j� tinha me acontecido antes.

Maravilhoso! O fogo e a luz s�o sinais importantes!

Em pouco tempo, abrindo e fechando os olhos...

tudo se dissipou.

E ent�o reca� no sono com uma grande calma.

Um momento depois, tive o terceiro sonho.

Conte, conte!

Tinha nas m�os uma colet�nea de poesia.

Abri e li o seguinte verso...

''Que caminho escolherei para minha vida?''

Um homem que nunca tinha visto antes me apresentou...

naquele mesmo instante, um texto em versos...

que come�ava assim...

''Sim e n�o''.

S�o sonhos muito curiosos e parecem esconder importantes revela��es.

J� descobriu seu significado?

Examinei-os atentamente.

O primeiro sonho indicava os erros e os temores...

as d�vidas da vida passada.

O segundo s� podia ser um sinal evidente...

de que o esp�rito da verdade descia sobre mim.

O terceiro indicava o futuro...

� o ''Sim'' e o ''N�o'' de Pit�goras.

Um futuro no qual a verdade me ser� revelada...

mas junto com ela...

a falsidade dos conhecimentos humanos...

e das ci�ncias profanas.

N�o sei que destino o espera, Sr. Descartes...

mas recomendo ardorosamente que pe�a a Deus...

que lhe conserve a humildade...

pois est� escrito que a ci�ncia corrompe os s�bios.

A verdade absoluta, vale dizer, Deus...

permanecer� um mist�rio para todos, meu caro.

Seus conselhos s�o sempre cheios de...

sabedoria.

Est� sempre t�o inquieto, t�o inst�vel. � incr�vel!

N�o chegar� nunca a um bom resultado...

se n�o escolher de uma vez uma moradia fixa...

para estudar, para escrever.

Tem raz�o, mas quando me detenho numa cidade...

depois de ver como se vive e de falar com todos aqueles...

com os quais acho que vale a pena falar...

sou tomado por um grande desejo de voltar a viajar.

E tem a inten��o de permanecer em Paris por quanto tempo?

Muito pouco, caro padre.

Encontrei o Sr. Levasseur, que me falou de seus sonhos.

Disse que voc� acredita ter descoberto...

um novo fundamento para conhecer a verdade com absoluta certeza.

O Sr. Levasseur exagerou.

Ainda preciso refletir sobre o que intu�.

Ah, mas voc� duvida de tudo.

Muitos o veriam como um c�tico!

Disseram-me que tem a inten��o de repudiar todas as suas velhas cren�as.

Mas n�o a da f�, padre, fique tranq�ilo...

pois o caminho do c�u est� aberto...

tanto para os ignorantes quanto para os doutos.

E quanto a duvidar de tudo, acalme-se.

N�o tenho nada em comum com os c�ticos...

s� quero construir minhas convic��es sobre a rocha e n�o sobre a areia...

pois realmente n�o pretendo imitar os viajantes que...

perdidos numa floresta...

p�em-se a vagar sem dire��o.

N�o posso me impedir de suspeitar...

que existe orgulho em suas afirma��es.

O empestado est� ali, doutor!

Mandei construir um ba� bem c�modo para minhas viagens.

Observe o trabalho do artes�o.

Nossos aristot�licos afirmam que o martelo...

deve ser batido velozmente...

pois a velocidade surpreende a natureza...

sem lhe dar tempo de reunir suas for�as...

para resistir ao uso do martelo.

N�o lhe parece uma teoria absurda?

Completamente!

Logo estar� pronto.

Voltarei de tardinha.

Um m�todo capaz de vencer a d�vida e produzir certeza...

a meu ver, deveria ser semelhante �s artes mec�nicas...

que cont�m em si mesmas os princ�pios segundo os quais...

se deve construir os instrumentos que lhes s�o necess�rios.

-Ah, esse barulho! -Sim, � ensurdecedor.

Melhor sairmos.

Preciso me apressar para partir!

Quando partir�? E para onde?

Talvez para a lt�lia.

Mas antes de partir visitarei meus campos na Touraine...

para vender minha parte da heran�a materna...

em terras e rebanhos.

Mas n�o venderei sem antes separar para o senhor...

um pouco de manteiga de minhas vacas.

Obrigado. N�o esque�a de escrever.

-N�o. -Que Deus o acompanhe!

Aqui est�o os dois contratos de venda.

O Sr. Ren� Descartes receber� do Sr. Dien-le-Fils...

pela compra das herdades da Grande Maison e de Marchais...

2 mil libras de Tours.

Outras 3 mil lhe ser�o depositadas pelo Sr. Chatillon, pelo feudo de Perron.

O Sr. Pierre Descartes, irm�o do Sr. Ren� Descartes...

n�o tem nenhuma obje��o?

-N�o, nenhuma! -Que fique bem claro...

a compra dos direitos sobre a terra da Bibini�re...

faz parte da mesma transa��o.

lsso consta do contrato, nos termos acertados...

oportunamente com o Sr. Descartes.

Muito bem, s� nos resta assinar.

Segundo os termos, o contrato entrar� em vigor em 8 dias.

-Senhores. -Senhores.

-Bom dia! -Bom dia!

E ent�o, resolveu se livrar de uma parte da heran�a?

Sinto muito, pois vejo que decidiu n�o voltar a viver conosco.

N�o ama a Fran�a!

Quero viver onde me for �til, onde me agradar...

onde possa descobrir alguma coisa...

onde poucos me conhe�am e possa refletir em paz.

Quando poderei rev�-lo?

N�o sei. Com certeza quando voltar da lt�lia.

Vendeu terra boa, gorda.

Mas tive um bom lucro.

Th�ophile de Viau � um libertino t�o impuro...

que teve a imprud�ncia de escrever horr�veis blasf�mias contra Deus!

Com seus versos execr�veis, fez de nossa Paris uma Gomorra!

Ele fugiu, mas o queimamos em efigie...

e junto com sua efigie queimamos tamb�m os escritos...

de todos os outros libertinos...

cujas almas foram possu�das pelo Diabo!

O Pr�ncipe das trevas deve ser expulso...

de volta para seu reino, ao fogo eterno ao qual Deus o condenou!

Deve ser queimado vivo!

A intoler�ncia � como a peste.

Estive fora tr�s anos, mas sempre que retorno a Paris...

encontro algo que me perturba...

e me faz desejar partir o mais r�pido poss�vel.

Certamente n�o poderia gozar de um espet�culo t�o excitante na lt�lia.

Tanta barb�rie e vulgaridade me espantam e me perturbam.

Ser�o jogados no inferno e gritar�o em v�o!

O parlamento exilou os autores da tese contra a filosofia aristot�lica de Paris...

e proibiu, sob pena de morte, sua divulga��o e ensino.

E condenou Th�ophile, com muitos de nossos amigos libertinos.

Seus v�cios s�o capazes de enrubescer at� o papel onde s�o escritos!

Ainda bem que Th�ophile de Viau conseguiu fugir de Paris.

Assim, t�m que se contentar em queim�-lo em efigie.

Mas o fogo purificar� a Terra de seu orgulho...

e far� justi�a a Deus!

O produto da mente dos soberbos deve ser destru�do!

� como a ciz�nia que sufoca as almas dos simples!

Ser�o jogados no inferno!

Morte aos libertinos! Morte! Morte!

Digam ao Pe. Mersenne que, se n�o fui v�-lo, � porque faz muito tempo...

que n�o saio de casa.

O ar de Paris tornou-se irrespir�vel para mim.

Podem garantir, por�m, que n�o faltarei � reuni�o que preparou para mim.

Obrigado, senhor.

Somos muitos os que desejamos conhecer o fruto de suas reflex�es.

Pe. Mersenne falou bastante do senhor.

Senhores, cedendo � insist�ncia de Pe. Mersenne...

quero relatar o que comecei a escrever sobre esse assunto...

depois de anos de longa reflex�o:

as 21 regras para guiar a intelig�ncia.

Parece incr�vel que um grande n�mero de pessoas...

indague com tanto fervor sobre os costumes dos homens...

sobre as virtudes das plantas, sobre os movimentos dos astros...

sobre as transforma��es dos metais e sobre muitas outras disciplinas...

e que quase ningu�m se d� ao trabalho de indagar...

sobre a mente do homem...

sobre como deve funcionar corretamente...

sobre a mente humana que � fonte maravilhosa...

e universal de sabedoria, sem a qual n�o haveria conhecimento.

Primeira regra: o prop�sito dos estudos deve ser guiar...

a mente para ju�zos seguros e verdadeiros...

sobre tudo aquilo que a ela se apresenta.

Se algu�m quer buscar a verdade seriamente...

n�o deve se dedicar apenas a uma ci�ncia em particular...

pois as ci�ncias s�o todas correlatas e dependentes umas das outras...

na unidade do saber.

A segunda regra: devemos tratar apenas dos objetos...

cujo conhecimento certo e seguro nos pare�a poss�vel...

de alcan�ar por meio da intelig�ncia.

Com esse prop�sito, � preciso ter em mente que...

das ci�ncias hoje conhecidas, apenas a aritm�tica e a geometria...

est�o isentas de falsidade e incertezas...

pois consistem por inteiro em deduzir logicamente...

uma s�rie de conhecimentos.

Versam sobre uma mat�ria pura e simples e...

para existir, n�o sup�em nada que a experi�ncia concreta...

poderia tornar incerta.

Com seu aux�lio, o homem s� pode cair em erro por desaten��o.

Terceira regra: n�o devemos nos dedicar a estudar...

as opini�es e conjecturas dos outros ou as nossas pr�prias...

mas tentar intuir, com a clareza da evid�ncia...

o conte�do real das coisas.

Para tanto, usamos a intui��o e as dedu��es.

Por intui��o, n�o entendo o fruto inconstante...

das sensa��es ou das imagina��es...

mas o conceito que brota de uma mente pura e atenta...

t�o claro e distinto que a seu redor n�o resta d�vida alguma.

Por exemplo: 2 e 2...

s�o a mesma quantidade que 3 e 1 , isto �, 4.

Quanto � dedu��o, ela � tudo aquilo que aceitamos...

como necessariamente verdadeiro...

em conseq��ncia de conhecimentos precedentes...

que j� tenham sido obtidos com absoluta certeza.

Destas regras, decorrem todas as outras...

e sobretudo, a 4�, que deduzo das precedentes...

para a busca da verdade, � necess�rio um m�todo.

Um m�todo que conduza os pensamentos com ordem...

procedendo dos objetos mais simples e mais f�ceis de conhecer...

para ascender aos poucos at� os mais dificeis.

Ap�s tivermos intu�do um certo n�mero de preposi��es simples...

se delas resultarem conceitos claros e distintos...

num movimento cont�nuo do pensamento...

passaremos a refletir sobre suas rela��es rec�procas.

Nessa busca met�dica da verdade...

usaremos o intelecto, a imagina��o, os sentidos e a mem�ria...

seja para intuir distintamente as proposi��es simples...

seja para confrontar corretamente...

as coisas indagadas com as que j� s�o conhecidas.

Parece-me que todas as coisas...

que est�o ao alcance do conhecimento dos homens...

se sucedem como aquelas longas cadeias de raz�es simples e f�ceis...

das quais os ge�metras costumam se servir...

para realizar suas demonstra��es mais dificeis.

Esses, senhores, s�o apenas alguns dos argumentos...

com os quais sustento as 21 regras...

que fixei para o uso correto da mente humana.

Desculpe-me, senhor, enquanto falava...

senti um grande desejo de ler as suas argumenta��es.

Diga, quando pretende public�-las?

N�o saberia dizer, senhores, quando as publicarei.

Quem me conhece, sabe muito bem: sou um peregrino.

Amo viajar entre meus pensamentos...

assim como amo viajar pela Europa...

com o objetivo de observar os homens e as coisas...

e de descobrir melhor as infinitas faces...

da verdade e do erro.

FIM DA PARTE 1

''DESCARTES - PARTE 2''

Senhor...

Sim, meu caro Bretagne.

-O que aconteceu esta manh�? -Um �timo dia, senhor.

Vejo que nessa noite consumiu, mais uma vez, v�rias velas.

Trabalhou at� tarde. Mas senhor, senhor...

-Sim? -� quase meio-dia.

Meio-dia?

Sim. E j� temos algu�m � espera h� mais de meia hora.

Mande-o embora!

� seguramente um b�rbaro, para me incomodar...

a uma hora dessas!

� um comerciante e vem de Paris.

Diz que tem uma carta de Pe. Mersenne para o senhor.

Quer que o mande embora?

N�o diga bobagem!

V�, diga que estou em vestindo e que vou receb�-lo em seguida.

Ah, avise na cozinha que quero que preparem o almo�o para dois...

e bem rico e suculento.

Muito bem, senhor.

Deve ser mesmo um h�spede importante...

pois seu patr�o mandou comprar as frutas mais caras do mercado.

Por aqui, venha.

Devo dizer a nossos amigos parisienses que, por enquanto...

n�o tem nenhuma inten��o de voltar � Fran�a?

Certamente!

� mesmo inacredit�vel que prefira esta cidade...

de comerciantes e marinheiros a viver em Paris...

que � a cidade dos doutos.

Desde que me estabeleci em Dordrecht...

n�o desejei nem uma vez voltar a Paris.

A bem da verdade, prefiro este retiro.

Eu o prefiro n�o somente ao sil�ncio dos conventos...

dos cartuxinhos e dos eremit�rios...

mas tamb�m � discri��o de certas cidades da Fran�a e da lt�lia...

nas quais se costuma, em geral...

buscar ref�gio para estudar.

empre comodidades que se encontram em cidades cc

Mas Paris � uma grande cidade!

Sou conhecido demais.

Aqui, ao contr�rio, n�o h� ningu�m, salvo eu...

que n�o exer�a o com�rcio.

E cada um est� t�o ocupado com seus interesses...

que poderia passar a vida inteira...

sem ser incomodado por nenhuma alma viva.

H� uma escola de letras latinas.

E nessa escola, � exce��o de meu �nico amigo, Beeckman...

ningu�m mais est� interessado nas coisas que ocupam minha mente.

Vou passear todo dia...

em meio � confus�o de uma multid�o...

com a mesma liberdade e com a paz que voc�s encontram...

em uma cidade do interior.

E olho os homens que encontro...

como olharia as �rvores e os animais de uma floresta.

Nem mesmo o rumor do tr�fego...

consegue interromper meu devaneio...

mais do que o murm�rio de um riacho faria.

E depois, diga-me, o senhor que viaja...

em que outro pa�s do mundo se poderia, como na Holanda...

gozar de uma liberdade t�o completa?

Mas o clima...

O inverno � muito duro.

A umidade da n�voa corr�i os ossos!

Basta ter uma boa estufa.

E basta n�o sair de casa se o tempo est� ruim.

O senhor � um teimoso invenc�vel!

Em duas semanas, pode passar para pegar minha resposta...

para a carta de Pe. Mersenne que me trouxe.

Esperava que a entregasse agora mesmo!

N�o!

A resposta a Pe. Mersenne exige muita reflex�o.

E agora n�o posso interromper um novo e dificil estudo...

sobre �tica que estou desenvolvendo.

S� voltarei a Dordrecht no final de minha viagem...

em 30 dias.

Ent�o deixarei um envelope para o senhor...

com a dona da pousada.

Dentro de um m�s, n�o estarei mais aqui.

E onde estar�?

Ainda n�o sei.

Pois estou convencido que sabe muito bem...

mas n�o quer dizer.

Dizem que, quando escreve aos amigos de Paris...

data misteriosamente as suas cartas...

n�o do lugar onde mora, mas de outras localidades.

Amsterd�, Leiden, em suma, qualquer lugar...

onde se pode ter a certeza de n�o encontr�-lo.

� muito dificil encontrar frutas t�o belas em Paris.

Aqui, na Holanda, chega uma infinidade delas, das �ndias Ocidentais.

Tem certeza de que n�o fazem mal aos intestinos?

Absolutamente!

S�o muito menos indigestas...

que os discursos de certos doutores.

Agrade�o infinitamente por ter me informado...

de seu ponto de vista acerca da hip�rbole.

Mas ao mesmo tempo, fico triste...

porque veio me dizer tamb�m...

que est� decidido a partir novamente.

� irrequieto como nenhum outro homem que eu tenha conhecido.

Diga-me ao menos aonde pretende ir!

Vou para Franeker.

E assim vou perd�-lo outra vez.

Dez anos atr�s, quando partiu de Breda...

prometeu que nunca me deixaria sem not�cias suas...

mas ficou dez anos mudo!

E esperei em v�o os seus textos sobre mec�nica e �lgebra...

e terei que esperar mais, pois ainda n�o foram escritos.

Tem raz�o em censurar-me.

Sua mente foi criada com aptid�o para as matem�ticas...

e, a meu ver, faz muito mal em desperdi�ar seu tempo...

e seus talentos em disciplinas que nada t�m a ver.

Acho que minha mente � atra�da pelas matem�ticas...

j� repeti isso muitas vezes, s� porque se desenvolve...

segundo procedimentos que, a meu ver...

s�o capazes de mostrar as verdades metafisicas...

com maior evid�ncia do que aquela que se alcan�a...

usualmente com as demonstra��es da filosofia.

� essa sua seguran�a que me parece excessiva.

Acha poss�vel aplicar � metafisica...

� poss�vel!

J� leu o que demonstrei nessa folha!

Os raios, como v�, atingem a lente em posi��o paralela.

A lente desvia seu curso e eles convergem...

e coincidem perfeitamente em um ponto.

Tudo parece claro, simples, evidente.

E tem a pretens�o de levar a mesma clareza...

e a mesma simplicidade para as demonstra��es filos�ficas...

usando procedimentos das matem�ticas?

Meu caro amigo, talvez esteja perdendo de vista...

o fato de que a filosofia n�o considera apenas...

as realidades materiais, mas, pelos caminhos da raz�o...

guia o homem para a contempla��o de Deus.

Tem certeza de que os procedimentos das matem�ticas...

s�o adequados, por sua natureza mesma...

para aproximar a mente do homem...

de uma realidade t�o sutil como a de Deus?

Caro Beeckman...

escrevi sobre isso a Pe. Mersenne...

repito para voc� e repetirei para todos aqueles...

que levantarem obje��es sobre esse ponto.

Nunca falarei das coisas da teologia, nunca.

Elas dependem de verdades...

reveladas por meio da palavra de Jesus Cristo...

e de seus profetas.

Mas quanto �s quest�es de filosofia...

digo, ao contr�rio...

que devem ser examinadas por meio da raz�o humana.

Foi por esse caminho que provei os fundamentos da fisica.

E pelo mesmo caminho, estou firmemente convencido...

de que posso demonstrar, al�m das ci�ncias fisicas...

as quest�es da filosofia e da metafisica.

Quanto � quest�o que me colocou...

se os procedimentos matem�ticos seriam...

por sua pr�pria natureza...

adequados para aproximar a mente humana do mist�rio de Deus...

respondo que toda a cria��o � obra Sua.

E as verdades matem�ticas...

que dependem dela tamb�m o s�o...

como todo o resto da cria��o.

Dizer que essas verdades s�o avulsas e independentes d'Ele...

seria como comparar Deus a J�piter ou Saturno...

seria como querer submet�-lo a uma realidade externa a Ele...

e independente d'Ele.

A clareza das matem�ticas, suas regras, v�m de Deus...

e submetem-se a Ele.

Por que, ent�o, temer que sejam utilizadas por n�s, homens...

como instrumento para conhecer toda a verdade?

Como sempre, seus racioc�nios s�o exatos e agudos.

E me entristece que sua partida...

v� me privar, no futuro, da consola��o de poder ouvi-lo.

-Escreverei. -Nisso eu n�o acredito.

Conhece-me muito pouco, caro Beeckman.

O pensamento de sua amizade ser� sempre um grande conforto para mim.

O sangue de todos os seres vivos palpita entre as veias...

e � movido e empurrado por todo lado simultaneamente.

Assim, as veias pulsam todas no mesmo instante...

pois todas dependem do cora��o que as move continuamente.

lsso � o que ensinou Arist�teles que, como todos os antigos...

chama de veias aquelas que hoje chamamos de art�rias.

O cora��o � a causa desse movimento.

O cora��o da enguia, por exemplo, uma vez extra�do...

e colocado numa mesa ou na m�o, comporta-se claramente desse modo.

E o mesmo acontece ao cora��o dos peixes pequenos...

e todos os seres de sangue frio.

Embora nos peixes...

e em todos os seres de sangue frio...

como serpentes e r�s, o cora��o seja mais p�lido quando se move...

e s� retome a sua cor vermelho-vivo nos momentos de �xtase.

Essas observa��es, senhores, n�o s�o minhas.

Mas posso dizer que as confirmei em minhas experi�ncias...

pois realizei in�meras vivissec��es e disseca��es...

de animais de terra e de mar.

Essas observa��es foram escritas pela primeira vez...

em um livro que o tip�grafo Wilhelm Fritz imprimiu em Frankfurt...

chamado ''De Motu Cordis et Sanguinis in Animalibus''...

escrito por um homem que reputo entre os maiores da ci�ncia mundial...

sir William Harvey.

Ele o dedicou, em 1628...

ao seren�ssimo e invicto Carlos...

rei da Gr�-Bretanha, Harvey escreveu...

''O cora��o dos seres animais � o fundamento da vida...

o senhor de tudo aquilo que � ligado � vida...

o sol do microcosmo.

Todo ato vital depende do cora��o...

toda a energia e todo o vigor...

prov�m do cora��o, � o sol do Estio''.

O sangue consegue chegar �s partes mais extremas do corpo...

por meio das art�rias e, espalhando-se no interior dos tecidos...

atrav�s de dutos cada vez mais finos...

ele os irriga e lhes d� vigor. Ele os faz viver!

As veias, por sua vez, recolhem o sangue...

trazendo-o de volta ao cora��o. E isso determina um circuito perene.

Ou seja, o senhor sustenta que o sangue est� vivo no corpo dos animais...

dos peixes e dos homens sem nenhuma influ�ncia externa.

Nega a influ�ncia dos astros?

Certamente.

Ao dissecar um corpo e observar a vida pulsando...

no interior de um organismo...

fica-se convencido de que muitas das doutrinas...

sustentadas at� os nossos dias por homens de ci�ncia...

que nos procederam, s�o pura fantasia.

Descobrir os segredos da natureza obriga o estudioso a um longo esfor�o.

� preciso observar, medir, calcular, confrontar por dias e dias...

e se n�o bastar, por anos e anos.

� preciso saber corrigir humildemente os pr�prios erros...

e, se necess�rio, recome�ar do in�cio sem nenhuma presun��o.

A via do saber � terrivelmente lenta e nada tem a ver...

com as excita��es ilus�rias da fantasia!

Suas palavras s�o iluminadas, senhor.

E ouvidas muito raramente entre os doutores de nosso tempo.

Eles preferem tomar como infal�veis as f�bulas...

que os antigos escreveram sobre a natureza do mundo.

Ent�o compartilha da doutrina do doutor?

Claro que compartilho.

Tamb�m realizei disseca��es e tamb�m estou convencido...

de que o sangue circula da forma que o Dr. Harvey ensinou.

E acrescento que, a meu ver, o sangue � efervescente pela pr�pria natureza...

e que sua cont�nua fervura no cora��o...

� a causa das pulsa��es que se constatam em todos os corpos vivos.

Sobre esse ponto, senhores, concordo com a doutrina de Arist�teles.

O cora��o � um vaso muito quente...

e isso explica facilmente o mecanismo do movimento card�aco.

� como uma lareira que cont�m e conserva a mat�ria...

e o princ�pio do calor inato...

e a partir da qual ele se transmite para todos os outros �rg�os.

Sobre esse detalhe, n�o posso concordar.

Como diz o Dr. Harvey, os movimentos do cora��o...

consistem em r�pidos, rapid�ssimos batimentos...

em golpes instant�neos, produzidos como se fosse um m�sculo...

e esse processo de ebuli��o de que o senhor fala...

n�o tem rela��o com tudo isso.

E um processo de ebuli��o, como sabe...

n�o se pode verificar mais que uma lenta subida e uma lenta descida...

enquanto no cora��o de qualquer esp�cie de animal...

ao contr�rio, o que temos s�o batimentos veloc�ssimos.

Preciso pensar melhor sobre esse ponto.

Espero que venha a esta universidade todo dia para confrontar...

suas reflex�es com as nossas.

� uma pena que n�o possa retornar...

pois aprecio muito a sua companhia...

mas nos pr�ximos dias irei a Amsterd�...

para me encontrar com outros estudiosos.

Faz bem, senhor, faz muito bem. Eu o invejo!

Em nosso s�culo, n�o � poss�vel adquirir doutrina sen�o viajando...

visitando as universidades e confrontando...

os diversos pareceres dos estudiosos.

Precisamos nos livrar, como disse Bacon, dos �dolos da falsa filosofia...

e construir uma nova ci�ncia.

Sobre esse ponto, estamos de acordo, senhor.

No mesmo ano em que o cardeal Richelieu assediava La Rochelle...

Wallenstein assediava Stralsund, na Alemanha, na foz do Oder.

Mas Richelieu venceu La Rochelle e os huguenotes foram derrotados.

Wallenstein, ao contr�rio, foi obrigado a abandonar o ass�dio e retirar-se.

Sim, aquele ano foi fatal para ele.

Teve de submeter-se aos suecos, e seu filho morreu, seu herdeiro...

�nica esperan�a para a sua descend�ncia.

H� tr�s anos, em 1630, eu estava em Regensburg a neg�cios e...

justo naqueles dias, a Dieta dos senhores da Alemanha...

pediu e obteve do lmperador o afastamento de Wallenstein...

que, no entanto, tinha sido um grande timoneiro.

Mas suas tropas eram odiadas em toda a Alemanha.

Nunca se tinha visto soldados mais arrogantes...

e violentos que os dele, nunca!

Lembro tamb�m que n�o se encontrava ningu�m...

que tivesse coragem de transmitir-lhe a not�cia de sua destitui��o.

Mas, uma vez destitu�do, tiveram que cham�-lo de volta aos gritos...

quando, depois de v�rias derrotas...

n�o havia mais ningu�m capaz de colocar-se � frente...

das tropas imperiais dos cat�licos...

contra o ex�rcito de Gustavo Adolfo, da Su�cia, que chegou pelo Dan�bio.

Wallenstein s� p�de parar Gustavo Adolfo...

porque Gustavo Adolfo morreu no campo de batalha.

Essa foi a sorte dos Habsburgo e da Liga Cat�lica.

N�o voltou mais � Baviera?

S� uma vez, a Munique, para vender uma grande partida de especiarias.

Mas desde que a luta entre os ex�rcitos...

dos pr�ncipes cat�licos e dos protestantes come�ou...

tenho preferido mandar meus comiss�rios.

As estradas n�o s�o seguras e h� regi�es inteiras...

flageladas pela escassez e pela peste: por toda parte...

de Augusta a Wittemberg, da Tur�ngia ao Palatinado.

Um de meus comiss�rios disse que, na Bo�mia...

viu bandos de lobos entrarem dentro da cidade.

� incr�vel que essas guerras terr�veis aconte�am na Europa...

justo agora que o mundo est� se tornando cada vez maior...

e que haveria espa�o para todos.

As �ndias Ocidentais e as �ndias Orientais regurgitam de riquezas...

das quais todos poderiam usufruir.

A nossa sorte, dos holandeses, � que os pr�ncipes europeus...

ainda n�o se deram conta.

Assim, enquanto eles fazem guerra uns contra os outros...

a Companhia das �ndias Orientais e a Companhia das �ndias Ocidentais...

fizeram tantos neg�cios e tanto dinheiro nos �ltimos 30 anos...

que os cofres dos nossos banqueiros...

s�o muito mais ricos do que os do rei da Espanha.

Os ingleses j� se deram conta disso.

Nossa frota � muito mais potente que a deles...

e nossos marinheiros s�o certamente mais valentes.

Vou apresentar-lhes um amigo que chegou ontem das �ndias Orientais.

S�o os modelos dos navios que meu marido construiu.

Esse � o ''Beatrix'' e pesa mil toneladas.

� um dos maiores barcos constru�dos na Holanda.

Leva o nome de minha filha.

Esse, por sua vez, � o segundo, o ''Muiden''...

que agora est� nas �ndias Orientais.

Os navios deslizam entre o mar e os fluidos dos c�us...

seguindo a curva da esfera terrestre.

Sr. Descartes, estou certa de que vai gostar muito do aut�mato...

que meu marido comprou de um mec�nico bo�mio.

Senhores, conhecem o meu aut�mato?

-Sim! -Sim!

Senhores, querem vir conhecer o meu aut�mato?

Veja, Sr. Descartes, parece m�gica.

N�o derruba uma gota sequer.

Todos que o viram garantem que n�o existe no mundo...

um aut�mato t�o perfeito.

O que acha, Sr. Descartes?

Ah! N�o ousaria contradiz�-la, senhora.

� um mecanismo perfeito.

Usando pesos e contrapesos, alavancas, articula��es...

engrenagens, rodas de dimens�es diversas e tirantes...

� poss�vel imprimir movimento at� a uma mat�ria inanimada qualquer...

fazendo-a realizar gestos semelhantes aos dos homens...

ou animais.

Mas os ossos e os m�sculos de um homem s�o uma m�quina viva.

A maior das m�quinas �, no entanto, a m�quina dos c�us.

O Sr. Descartes certamente concorda comigo.

O astr�nomo Ciprus e Constantine Huygens, Sr. de Zuylichem.

-J� se conhecem? -Sim, nos conhecemos!

Sim, com certeza.

Tem raz�o.

O universo inteiro � uma grande m�quina.

Desculpe a interrup��o.

Mas gostaria de avisar ao Sr. Descartes...

que amanh� darei in�cio a novas observa��es astron�micas.

Oh, muita gentileza sua!

E seria uma grande honra se viesse me assistir.

lrei, sem d�vida, e agrade�o-lhe.

Efetivamente estou muito interessado na mec�nica dos c�us.

Observem!

� um instrumento delicad�ssimos e � poss�vel mov�-lo...

em qualquer dire��o sem nenhuma oscila��o.

Ao cair do sol, come�arei minhas observa��es.

Senhores...

A luneta revelou-nos os movimentos dos c�us.

Como diz Bacon, o homem � Ministro e int�rprete da natureza...

e s� pode compreend�-la observando, por meio da experi�ncia...

e do intelecto, a sua ordem.

Ele n�o sabe nada al�m disso, e n�o poderia saber.

Nada! Realmente nada!

� a ignor�ncia das causas...

que impossibilita o conhecimento dos efeitos...

e nos impede de agir sobre a natureza segundo as suas leis.

E, portanto, nos impede de submet�-la a n�s.

Esse � tamb�m o pensamento de Bacon...

pois s� se vence a natureza obedecendo-a.

Quando ignoramos as causas, nossas explica��es...

para os fen�menos naturais nascem de nossa fantasia...

e Deus sabe quanto a nossa fantasia � enganadora.

Cada s�culo tem as suas modas, mas as modas passam...

e o mundo permanece sempre o mesmo.

Tenho grande admira��o pelo senhor, astr�nomo Ciprus.

� o maior astr�nomo que conhe�o.

Por�m, se me permite diz�-lo, neste momento...

est� seguindo uma moda perniciosa...

incita as loucuras de certo inovadores...

que n�o aprovo de modo algum.

Ora! N�o lhe parece que est� exagerando um pouco?

Aprecio a sua doutrina, mas n�o posso aprov�-lo...

quando pretende descobrir novos planetas nos c�us...

com instrumentos que ningu�m sabe...

se s�o mais ou menos enganadores que o olho humano.

E sobretudo quando pretende acrescentar, sem nenhuma prud�ncia...

novos planetas aos que j� se conhece.

N�o consigo compreender como descobrir um novo planeta...

pode ser uma imprud�ncia.

� uma imprud�ncia extremamente grave!

Foi ao fazer isso que os outros, como o senhor, arruinaram a astrologia...

e destru�ram todas as suas conex�es com a medicina.

Acrescentaram novos planetas aos desenhos dos c�us...

sem pensar nas conseq��ncias!

Romperam a ordem do zod�aco...

abalaram as qualidades conhecidas das estrelas fixas...

o c�lculo dos meses, da forma��o do embri�o...

a influ�ncia e as raz�es dos astros...

no curso dos dias cr�ticos e outras in�meras verdades...

que dependem todas do n�mero seten�rio dos planetas.

Ent�o, em sua opini�o...

dever�amos deter todo progresso da ci�ncia...

s� porque d� trabalho recolocar em ordem os seus velhos manuais?

N�o devemos ter medo de escrever novos tratados...

novas sumas, novas explica��es da estrutura do mundo...

se n�o chegarmos ao paradoxo de Martin Horky.

Nunca ouvi falar desse senhor.

Um presun�oso que quando viu o verdadeiro desenho do c�u...

por meio de uma luneta, ficou perturbado porque o que via...

n�o correspondia aos desenhos dos astros...

que tinha estudado nos manuais.

Escreveu ent�o a Kepler dizendo que a luneta...

quando voltada para as coisas terrestres, faz maravilhas...

aumenta os objetos, e descobre tudo aquilo que n�o se v� a olho nu...

mas que, apontada para o c�u, n�o serve para nada!

Aprovo as teorias de Kepler, verifiquei muitas de suas observa��es...

e refiz muitos de seus c�lculos e...

se ele n�o tivesse morrido h� dois anos...

iria encontr�-lo em Lisboa, onde se refugiou...

por causa das guerras religiosas, para receber sua aprova��o.

As �rbitas dos planetas s�o elipses...

nas quais o Sol ocupa um dos dois focos.

Quando Kepler fez os primeiros c�lculos...

extraindo-os das observa��es de seu professor, Tycho Brahe...

cometeu um �nico erro, que depois, ali�s, corrigiu.

Trocou as elipse ovais.

A id�ia genial�ssima de Kepler foi representar...

as observa��es do curso dos astros...

como seriam se fossem observadas do Sol ao inv�s da Terra.

Calculou em 687 dias o percurso inteiro...

isto �, a revolu��o de Marte ao longo de sua elipse ao redor do Sol.

Resolver, revolucionar, significa voltar continuamente ao ponto de partida.

No final de cada elipse, de fato...

o planeta retorna ao mesm�ssimo lugar no c�u.

Esse lugar e o lugar do Sol s�o os dois pontos fixos...

aos quais ele se referiu para poder determinar a posi��o da Terra.

Com essa esp�cie de triangula��o dos c�us...

Kepler conseguiu calcular o percurso de cada planeta ao redor do Sol...

a velocidade e as dist�ncias entre os planetas.

S�o estudos de grande import�ncia.

A Terra, por exemplo, nos parece muito maior...

do que todos os outros corpos celestes...

e a Lua e o Sol nos parecem maiores do que todas as estrelas.

Mas se corrigirmos nossos defeitos de vis�o...

por meio de racioc�nios geom�tricos...

que s�o os �nicos infal�veis, perceberemos que a Lua...

est� distante de n�s...

digamos, cerca de 30 vezes o di�metro da Terra.

E o Sol, cerca de 600 ou 700 di�metros.

E, comparando estas dist�ncias com aquele que �...

aparentemente, o di�metro do Sol e da Lua...

veremos que a Lua � menor que a Terra...

e que o Sol � muito maior.

O senhor tamb�m teria a inten��o de acrescentar...

algum novo planeta aos j� conhecidos?

Vejo que tamb�m se deixou excitar pelas modas dos inovadores.

N�o sou um inovador!

Busco simplesmente descobrir com absoluta certeza...

o verdadeiro rosto do universo.

Espero que, pelo menos tenha percebido que o universo � imenso...

e que seu verdadeiro rosto est� muito distante do senhor!

Enquanto esperamos que escure�a...

vamos nos esquentar com um chocolate quente.

E agora, senhores, vou lhes mostrar algo de maravilhoso.

Voltarei a luneta para as Pl�iades.

Apago a luz...

A� est�, senhores...

podem admirar as Pl�iades!

Devo admitir que funciona!

As maravilhas dos c�us!

Como � vasto o c�u!

-Por favor, n�o se mova, senhor. -Desculpe.

Concluiu os seus estudos sobre meteoros?

Est�o quase no fim.

Quando partir� para Deventer?

Amanh�.

-Senhor... -Desculpe!

O Dr. Gerolamus estar� aqui dentro em pouco...

com a carta que pediu que entregasse ao Sr. Regnier, em Deventer.

Sim, eu o conhe�o.

O Dr. Gerolamus � um grande devorador de livros.

Creio que n�o existe um livro em Amsterd� que ele n�o tenha lido.

Um homem de bem n�o tem a obriga��o de ter lido todos os livros.

H� muitas outras coisas a fazer na vida...

e o saber n�o depende apenas daquilo que um homem leu...

mas do que viu.

-Tem raz�o. -Senhor...

Tem raz�o voc� tamb�m.

Aqui est� o te�logo Gerolamus. Entre, doutor.

O Sr. Huygens disse coisas not�veis a seu respeito!

Parece que leu todos os livros que existem nesta cidade.

N�o, nem todos, e sinto por isso.

N�o pude, por�m, encontrar nenhum dos seus.

Escrevi poucos, e minhas obras ainda n�o se difundiram.

Sinto muito, pois soube pelo Sr. Huygens de suas doutrinas...

sobre o uso correto da intelig�ncia e achei-as bastante pr�ticas.

O Sr. Regnier, de Deventer, h� de apreci�-las muito.

E o senhor, tamb�m as aprecia?

Diga a verdade ao Sr. Descartes. Repita o que me disse.

Estou embara�ado.

N�o vejo raz�o!

Parecem ser fruto de uma incomensur�vel soberba.

� como se quisesse tirar a raz�o humana de sua subje��o...

a seu Criador e � B�blia...

� qual n�o faz absolutamente nenhuma men��o.

Muitos me criticaram por isso.

No entanto, posso garantir, senhor, que trabalho com toda humildade...

olhando dentro das coisas...

pois considero que as coisas s�o criaturas de Deus...

e carregam o signo da verdade...

enquanto os devaneios dos homens...

dos quais nascem tantas doutrinas obscuras...

s�o, eles sim, fruto da soberba.

Quando escrevi meu tratado de �ptica, n�o confiei na fantasia...

cortei e examinei in�meros olhos de animais...

e com as licen�as necess�rias, tamb�m os de homens mortos.

Observei, por exemplo, que o nervo �tico...

� composto de um grande n�mero de pequeno filamentos...

e que � um dos meios materiais para a forma��o da imagem...

cuja natureza permanece sendo sempre...

um misterioso dom da bondade divina.

Ora, esse procedimento de pesquisa...

submetido ao controle �nico da raz�o...

que combina dados simples e dedu��es precisas...

�, a meu ver, um trabalho humilde.

O Dr. Gerolamus certamente aprecia a sua defesa.

Aprecio muito, senhor.

Mas n�o era minha inten��o coloc�-lo sob acusa��o.

O senhor certamente trabalha com humildade.

Mas tenta, sem querer, a soberba do homem...

que encontra em sua doutrina as raz�es...

para uma independ�ncia sem limites.

No entanto, tenho certeza de que ser� um alento...

para o Sr. Regnier e seus alunos.

lnfelizmente, eles ir�o aplaudi-lo...

dada a sua desmedida paix�o pelas ci�ncias.

Eis o que escrevi a Regnier...

''Quanto a seu amor desmedido pelo saber...

recordo as palavras de nosso pai Calvino...

'O desejo que o homem tem de conhecer a verdade...

� uma centelha de luz.'

Mas esse desejo degenera-se em vaidade...

pois o esp�rito humano � t�o obtuso e d�bil...

que n�o consegue manter sozinho o reto caminho da busca pela verdade...

e no mais das vezes, � incapaz de discernir...

o objeto ao qual deve se dedicar...

para buscar o verdadeiro conhecimento.

O esp�rito do homem, deca�do de sua integridade...

mas ainda adornado com excelentes dons de Deus...

� demasiado d�bil, como diz a Escritura...

para servir-nos de guia em todas as ocasi�es de nossa vida...

se n�o for socorrido a rodo momento pela luz da gra�a divina''.

Ficarei grato se levar esta carta ao Sr. Regnier...

com meus cumprimentos.

E garanto que aprecio a sua paix�o pela verdade.

Tamb�m eu a tenho, mas, ao mesmo tempo, a temo.

Bretagne, � tarde!

Esta manh� tamb�m n�o vai conseguir levantar.

Desde que chegou, a febre n�o o deixou mais.

Minha cara Helena, n�o consigo levantar.

-Sinto que n�o levantarei mais. -N�o diga bobagens!

Quem experimenta o mal, apreciar� melhor o bem.

lrei eu mesma acordar o seu patr�o.

N�o h� dia longo que n�o chegue � noite!

Senhor, o caldo est� ali.

Seu criado continua com febre, n�o consegue se mexer.

E o senhor, levante-se, pois raposa que dorme fica de barriga vazia.

Que impertinente! Que horas s�o?

Meio-dia e passa! O tempo e a mar� n�o esperam ningu�m!

Ja � meio-dia!

Quem come, segue, quem jejua, morre!

Bom dia.

Deve ser um doutor famoso.

Em Deventer n�o fazem outra coisa sen�o falar dele.

Quando passa n�o olha para ningu�m...

e os estudantes da universidade o cumprimentam com respeito.

Talvez seja famoso, mas h� um prov�rbio que diz...

''Faz a fama e deita na cama''.

Tem h�bitos estranhos, com certeza.

Vive trancado no quarto, o mais sujo e desordenado da pousada.

Para mim, ordem � p�o, desordem � fome!

Senhores, tenho a honra de apresentar-lhes o Sr. Ren� Descartes.

Veio estudar entre n�s, � franc�s que nos deu a honra de vir a Deventer.

Escreveu sobre mec�nica e geometria...

sobre astronomia e matem�tica...

e fixou regras preciosas para guiar a intelig�ncia.

O Sr. Descartes abomina a obscuridade da filosofia escol�stica...

como muitos de n�s...

e, por outro lado, n�o ama os inovadores...

que pretendem maravilhar o mundo com doutrinas sofisticadas.

Porque ele sustenta, senhores...

que a ci�ncia � como uma mulher...

mostrando-se reservada ao lado do marido...

� respeitada por todos...

mas dando-se com todo mundo, �, ao contr�rio, desprezada.

� por isso que convidei o Sr. Descartes...

para apresentar-lhes o que pretende escrever...

no tratado no qual vem trabalhando h� muito tempo.

Pe�o-lhes que o escutem.

Agrade�o pelo convite aos ilustres professores dessa universidade...

e ao Sr. Regnier.

Estarei feliz em responder tudo o que desejarem saber.

Tenho inten��o de escrever em meu tratado...

tudo aquilo que pode explicar a natureza das coisas materiais.

Para poder exprimir mais livremente o meu pensamento...

sem ser obrigado a seguir ou a refutar...

as opini�es comuns dos s�bios de nosso tempo...

resolvi deixar de lado...

as imagens limitadas deste mundo em que vivemos...

e o seu desenho, para falar unicamente...

do que poderia acontecer em um novo mundo...

que farei nascer para o meu leitor em um espa�o imagin�rio.

Conduzirei meu leitor pela m�o nesse espa�o...

at� que perca de vista tudo aquilo que Deus criou desde o in�cio dos s�culos...

5 ou 6 mil anos atr�s.

Vamos nos deter, finalmente, em um determinado ponto dos espa�os...

e supor que Deus crie novamente, ao redor de n�s...

tanta mat�ria, que nossa imagina��o, para qualquer lado que olhe...

n�o possa, absolutamente, ver um s� lugar...

um s� espa�o que tenha ficado vazio.

Essa mat�ria de que falo n�o tem nada em comum...

com a chamada mat�ria prim�ria dos fil�sofos...

que eles t�o bem despiram de formas e qualidades...

a tal ponto que nada ficou dela sen�o uma vaga abstra��o conceitual...

muito dificil de conceber.

E, dado que tomaremos a liberdade de desenhar essa mat�ria...

segundo nossa imagina��o...

tomaremos tamb�m a de atribuir-lhe uma natureza...

na qual n�o exista nada que permita que algu�m...

possa conhec�-la com toda a perfei��o.

Suponhamos agora que Deus divida essa mat�ria em partes diversas....

algumas maiores, outras menores.

Umas com certa forma, outras com formas diferentes...

como nos agradar imagin�-las...

mas sem que se determine nunca qualquer separa��o entre elas...

de modo a evitar que entre elas exista v�cuo.

A diferen�a que Deus por� nessas partes da natureza...

consistir� na diversidade do movimento que Ele imprimir� a elas...

de modo que, desde o primeiro instante da cria��o...

elas possam continuar a se mover...

segundo as leis ordin�rias da natureza.

O que entende por natureza?

Quando falo de natureza, n�o entendo uma deusa...

ou qualquer outra pot�ncia imagin�ria.

Uso essas palavras para indicar a pr�pria mat�ria.

De modo que Deus continua a conserv�-la assim como a criou.

Ent�o, como disse, quando a natureza sofre mudan�as em suas partes...

n�o acredita que isso possa ser atribu�do � a��o divina?

Tudo depende da a��o divina.

Deus estabeleceu leis absolutamente perfeitas.

Mesmo que quis�ssemos supor que, no in�cio...

Ele tenha criado apenas o caos...

mais confuso que aquele que todos os poetas juntos possam imaginar...

suas leis s�o suficientes para dirigir todas as partes desse caos...

de modo que se disponham harmonicamente em uma ordem exata.

Que ter� a forma de um mundo perfeit�ssimo...

no qual poderemos ver claramente n�o s� a luz...

mas tamb�m todas as coisas existentes de qualquer natureza e forma...

que aparecem no mundo verdadeiro em que vivemos.

Em nosso mundo imagin�rio existir�o planetas, um sol?

Claro. E uma lua, uma Terra, homens.

Homens nascidos e compostos de uma alma e um corpo.

Descreverei separadamente seus corpos, antes de tudo...

depois a alma e, enfim demonstrarei como essas duas naturezas...

devem ser conjuminadas entre si...

para poder dar a vida a homens id�nticos a n�s.

Suporei que o corpo nada mais � que uma est�tua...

um monte de terra que Deus forma expressamente...

fazendo-a � imagem de nosso corpo e segundo seu desenho.

Por fim, explicarei que, quando a alma pensante...

for posta por Deus dentro dessa m�quina...

ela ter� sua sede principal no c�rebro...

a partir do qual dirigir� todos os movimentos do homem.

Tal, senhores, ser� a minha f�bula do mundo...

um escrito que, como todas as f�bulas ter�, espero, sua utilidade...

pois permitir� que compreendamos melhor esse mundo em que vivemos.

Eu j� os tinha avisado, senhores.

Este homem � o �nico Arquimedes de nosso s�culo.

� o Atlas do universo! � um confidente da natureza!

E responder�, posso garantir, de modo admir�vel e assombroso...

a todas as perguntas e quest�es que quiserem fazer...

sobre os segredos e sobre a ordem da natureza.

At� quando poder� ficar conosco, senhor?

At� esta noite.

E terei tempo para responder a todas as suas quest�es.

-At� mais ver! -Boa noite!

Ah! Finalmente voltou!

Ele chamou seu nome o dia inteiro. Est� ardendo em febre!

Estou muito mal, ajude-me se puder.

Ferva uma po��o com um copo de vinho...

algumas sementes de uva de Damasco...

dois gr�os de hissopo, dez de funcho e anis e reduza o l�quido a um ter�o.

� para a tosse. A febre vai passar sozinha.

Aqueles tr�s senhores o esperam. S�o franceses.

Vou falar com eles.

Pobre Bretagne, o que farei sem ele?

Fique com ele.

Sou Descartes. Perguntaram por mim?

Sou um comerciante de peles finas, senhor.

Meu nome � Antoine Poquet.

Pe. Mersenne pediu que viesse ter com o senhor...

para pegar o novo tratado que prometeu.

Ainda n�o acabei, senhores.

Digam a Pe. Mersenne...

que estou trabalhando dia e noite no novo texto.

E que, numa pr�xima ocasi�o, antes do Natal, espero...

tratarei de enviar-lhe. Meus cumprimentos, senhores!

Oh! Deus meu!

Ah, n�o! J� quer me tirar da cama?

As horas da manh� t�m ouro na boca!

� assustador. N�o entendo o que procura nas v�sceras dos animais.

N�o sabe que � proibido fazer m�gica? � pecado mortal!

N�o fa�o m�gicas, fique tranq�ila!

E o que �, ent�o? S�o coisas estranhas!

Lembre-se, um pecado puxa o outro.

Mas ent�o, por que me tomou a seu servi�o?

Para me enlouquecer com a desordem?

Nunca a tinha visto t�o irada! Vire-se, quero me levantar.

Paci�ncia levada ao extremo, a f�ria fomenta.

Esta casa � pequena demais para o senhor.

Parece um grou num pombal.

Entupiu tudo com mil pap�is e instrumentos estranhos.

Um homem de sua classe, de sua condi��o...

vivendo como o �ltimo dos mendigos!

N�o adianta nobreza se falta fineza!

Voc� reclama como fazia o pobre Bretagne.

E � in�til! Quem fala semeia e quem ouve colhe. Deveria colher!

Sinto tanto que Bretagne tenha morrido. Que n�o o tenha mais comigo.

Um golpe de l�ngua � pior que um golpe de faca.

Bretagne n�o se irritava nunca.

Mas voc�, quando se irrita, � bem mais bonita que ele.

N�o estou nada irritada. A lua n�o atenta ao c�o que uiva...

mas Bretagne tinha raz�o de reclamar, pois, no fundo...

falar da pr�pria pena j� � consolar-se.

Est� fazendo filosofia?

Filosofia? O que � filosofia?

Sou um fil�sofo. Amo a sabedoria.

Ora, o senhor � doido, s�bia sou eu.

Pode ser! Precisamos de uma casa maior.

Tem raz�o, Helena.

S� assim n�o ficaria t�o inquieta quando me dedico a certos trabalhos.

Quando a raposa faz a moral, pobres das galinhas!

N�o, Helena, estou falando s�rio. Vamos morar em Amsterd�.

Palavra pronunciada n�o pode ser apagada!

Lembre-se: quem promete cumpre.

Mais s�bio � quem concorda. Voc� me perdoa?

Almirante Patterbacker e General Van Eyck...

duas tulipas que valem hoje 4.400 florins cada uma.

N�o! Verdade?

Minha patroa conseguiu um bulbo precios�ssimo...

o Semper Augustus. Pagou 5.500 florins...

mas � a mais bela tulipa do mundo!

Poderia revend�-lo imediatamente, por 6.000 e at� mais.

Sua patroa � rica e quem tem dinheiro tem coragem!

J� o viu florido?

N�o, ainda n�o, mas foi t�o bem pintado...

no �lbum colorido da minha patroa que parece de verdade.

O c�lice � de um belo branco puro, levemente manchado de azul na base...

com uma listra vermelho-chama que corre ao longo de cada p�tala.

Uma maravilha!

Nunca poderei comprar um desenho desses, s�o caros demais para mim.

Se voc� n�o tivesse me mostrado, saberia bem pouco sobre as tulipas.

Posso inform�-la, mas sei bem que � in�til...

n�o vai querer arriscar um florim sequer.

Quem nada tem n�o pode arriscar!

Voc� perde a fortuna por excesso de prud�ncia.

Jacobs Darik, nosso ferrador, lembra dele?

Endividou-se at� a raiz dos cabelos para comprar o General dos Generais.

E se fez isso � porque est� seguro do lucro que vai obter, n�o?

O Sr. Gut vendeu a casa por cinco bulbos raros!

E de neg�cios ele entende!

Sim, mas eu sou uma dona-de-casa.

Sabia que o pintor Jan Van Goyen s� aceita que paguem seus quadros...

com bulbos de tulipa, em vez de florins?

Meu av� contava que seu pai, como todos naquela �poca...

pagavam suas compras com arenques.

Essa sim era uma moeda segura, pois alimentava.

Mas essa mania de tulipas � mesmo uma tolice!

Tolo � voc�, ora! Todos especulam com elas...

sobretudo os grandes senhores que sabem o que fazem.

De fato, a maior demanda vem da Fran�a.

Oh, Deus me livre, perdi a hora, preciso correr!

Obrigada, minha cara.

Ah, ou�a aqui, quanto pode valer o meu ''Rubro-amarelo de Coteleyn''?

Pode se alegrar, e muito! N�o menos de 2.500 florins.

-Vou abrir. -N�o!

Est� com as m�os sujas de gordura, deixa que eu vou.

� verdade que n�o se come tulipas...

mas sua beleza tem muito valor hoje em dia.

Como todos sabem, � a bela plumagem que faz o belo p�ssaro.

-Que deseja? -Sou Jean Maire, o tip�grafo.

O Sr. Descartes mandou me chamar.

Entre.

Oh! Suas roupas t�m um cheiro insuport�vel!

S�o os odores do meu oficio, a anilina e o chumbo das tintas.

Sinto muito. Est� se sentindo mal?

N�o � nada!

Espere um momento.

-O tip�grafo! -Mande entrar!

Entre.

Bom dia, senhor. Vim lhe dar minha resposta.

Concordo, vou imprimir seu tratado.

Eu lhe agrade�o. Espero termin�-lo nos pr�ximos dias.

-Helena! -� o seu cheiro, desculpe!

Um pouco de vinagre � bom para recuperar-se.

Falar � f�cil!

-Jan, Jan... -Senhor.

-Chame o Dr. Plempius. Corra! -Certo!

-Examinei a paciente. -E o que achou?

A paciente est� muito bem, eu diria.

E ent�o? Como explica o desmaio?

N�o sei se achar� a not�cia boa ou m�...

mas a paciente n�o tem doen�a alguma.

-N�o entendi! -Est� esperando um filho.

-Um filho? -Sim, um filho.

Helena, n�o se envergonhe...

este � o mais belo presente que poderia me dar.

N�o tenha medo, n�o vou abandon�-la nunca.

Quando o mal est� feito, o doido recobra o ju�zo.

-Descanse. -Agrade�o.

A tranq�ilidade nasce dormindo.

Venha, venha ao meu gabinete.

Agrade�o-lhe por ter descoberto logo, doutor...

e sobretudo...

por ter me dado a bela not�cia de que serei pai.

Jan, o vinho!

Um filho, meu caro doutor, merece um bom copo de vinho.

D�-me essa honra.

V�.

-Vai reconhecer a crian�a? -Claro.

Embora deseje que a coisa permane�a em segredo, por enquanto.

N�o por vergonha, mas porque temo, o senhor sabe...

tudo que possa perturbar minha tranq�ilidade.

A m�e ficar� com o senhor?

Escreverei a meu amigo Regnier, em Deventer...

e pedirei que encontre um ref�gio discreto.

Assim, Helena poder� esperar os meses necess�rios tranq�ilamente.

Se precisar de cuidados por esses dias, estarei � sua disposi��o.

S� confio no senhor.

Admiro muito a sua habilidade como m�dico...

embora deva confessar que n�o compartilho suas cr�ticas ao Dr. Harvey.

Por qu�? O errado n�o poderia ser o Dr. Harvey?

Desculpe, mas realmente n�o posso crer...

que seu conhecimento da fisiologia humana...

n�o o tenha convencido da veracidade de sua doutrina.

Uma circula��o do sangue, impulsionada pelas pulsa��es...

suporia que, a cada pulsa��o, o cora��o recebesse uma gota de sangue.

Mas considerando que, em uma hora...

ocorrem cerca de duas mil pulsa��es...

uma quantidade de sangue realmente incr�vel...

passaria pelo cora��o nesse curto espa�o de tempo!

A dificuldade �, na verdade, insuper�vel, embora...

tenha de admitir que a hip�tese de Harvey � sugestiva.

Discutiremos outras vezes.

Mas se a doutrina nos separa, a amizade nos une.

-Sa�de. -Sa�de.

O Sr. Descartes!

Caro Descartes!

llustre amigo, vim devolver o tratado de Golius.

� sempre um prazer rev�-lo.

Podia t�-lo mandado por um criado, sem se incomodar.

Passear pelas ruas do seu pa�s � um prazer para mim.

Sempre se encontra gente ocupada com o pr�prio trabalho...

como se realizasse o mais s�rio dos deveres para com Deus.

At� os muito ricos, que poderiam viver de rendas...

muitas vezes trabalham igualmente.

Os senhores espanh�is, italianos, franceses do s�culo Xlll...

apenas 300 anos atr�s, eram ao mesmo tempo capit�es...

propriet�rios de terras, administradores...

e, por vezes, homens de letras.

A bem da verdade, n�o sabiam fazer direito nenhuma dessas coisas.

E, se viviam de renda...

era sobretudo porque desfrutavam do trabalho dos outros...

dos camponeses e dos artes�os, os �nicos, naquela �poca...

fi�is � sua profiss�o por necessidade.

Um s�culo atr�s, os humanistas, conhecedores da l�ngua dos antigos...

pretendiam falar de tudo, da astronomia � arquitetura e � medicina!

Para n�o falar dos fil�sofos escol�sticos...

prontos a resolver qualquer problema da ci�ncia com princ�pios de Arist�teles...

com o �nico efeito de excitar a presun��o humana.

Nosso povo est� distante disso tudo.

Seu livro � a B�blia, seu mestre � Calvino. Ou�a.

A heresia de Calvino � inaceit�vel.

Ou�a o que escreveu cem anos atr�s, mesmo que considere her�tico.

Posso garantir que entender�.

''Deus ordena que cada um siga a pr�pria voca��o...

por meio das obras da vida.

lnfelizmente, por�m, o homem, por sua pr�pria natureza...

queima de inquietude, e muitas vezes, por leviandade...

por ambi��o e por cupidez...

� levado a esmorecer em sua voca��o...

e a abra�ar obras diversas que o confundem.

E por esse caminho, nasce a loucura do mundo.

Por temor que essa nossa temeridade nos arrastasse para longe d'Ele...

Deus permitiu, na hist�ria passada...

a queda, o fim de Estados, de costumes, de �pocas.

E para que n�o nos perd�ssemos completamente...

estabeleceu o que cada um de n�s deve fazer sem ultrapassar...

por pouco que seja, os pr�prios limites.

Cada homem deve viver a pr�pria voca��o...

humilde e obediente � sua natureza...

recordando que vive na mis�ria do pecado...

e nada pode fazer sem a luz de Deus.''

� verdade. S�o palavras s�bias.

E educaram um povo.

Eu tamb�m sigo a minha voca��o com fidelidade.

Mas queima de inquietude e tem uma cupidez de saber...

que o leva a abra�ar diversas obras ao mesmo tempo.

N�o h� nenhuma dispers�o em meu trabalho!

Todas as partes do meu novo livro, mesmo que pare�am tratar...

de temas diversos, s�o, ao contr�rio, estreitamente ligadas.

Toda a filosofia � como uma �rvore, na qual as ra�zes s�o a metafisica.

O tronco � a fisica e os ramos todas as outras ci�ncias...

que se reduzem a tr�s principais...

ou seja, a medicina, a mec�nica e a moral.

Refiro-me � mais alta e mais perfeita moral...

que, pressupondo um completo conhecimento das outras ci�ncias...

� o mais alto grau da sabedoria.

Quando vai public�-lo?

Antes do Natal.

Tem uma mente aguda e l�mpida.

Mas n�o sei como iria se arranjar com as autoridades da lgreja romana...

se, por desgra�a, elas resolvessem inquiri-lo.

Suas doutrinas s�o uma curiosa mistura.

N�o vejo por que a lgreja romana resolveria inquirir-me.

O que escrevo nunca invade o campo da teologia.

Talvez Galileu Galilei pensasse da mesma forma...

s� que estava enganado, pelo menos sobre esse ponto!

Tenho certeza de que seu tratado n�o deixar� de provocar...

o interesse dos te�logos romanos.

Mas voc� n�o tem nada a temer!

Aqui, est� bem longe de Roma.

Os primeiros tr�s cap�tulos.

Ainda preciso fazer algumas corre��es.

Ser� a obra mais importante do s�culo, como as de Bacon, Cop�rnico, Galileu.

� uma obra diversa, pois muitas das minhas hip�teses s�o totalmente novas.

Sobretudo no que diz respeito � estrutura do universo.

Dir� alguma coisa sobre o movimento dos c�us?

Ainda n�o sei.

Tenho, por�m, uma hip�tese original sobre esse tema.

Os antigos sempre acreditaram que a Terra fosse o centro do universo.

Ptolomeu ensinou essa hip�tese, mas, depois das observa��es...

realizadas nos �ltimos s�culos pelos astr�nomos, ela se mostrou falsa.

Em seguida, vem a hip�tese de Cop�rnico...

de que a Terra gira ao redor do Sol com os outros planetas.

A terceira hip�tese � a de Brache...

que diz que a Lua e o Sol giram em torno da Terra im�vel...

e que os planetas e os cometas giram em torno do Sol.

Eu negarei, com minha hip�tese, o movimento da Terra...

com mais agudeza que Cop�rnico e com mais verdade que Brache.

Explicarei que a mat�ria dos c�us � fluida...

como a que comp�e o Sol e as estrelas fixas.

Que os c�us, ao moverem-se...

transportam todos os corpos que cont�m.

A Terra, portanto, � circundada por todos os lados...

por um c�u fluid�ssimo, no qual repousa...

sem nenhuma propens�o ao movimento.

Ela � carregada em seu c�u como um barco movido...

pelo fluxo e refluxo da �gua do mar.

E como os outros planetas se parecem com a Terra...

tenho motivos para crer que tamb�m permanecem em repouso...

no interior dos c�us que os cont�m.

Quando entregar� o manuscrito definitivo?

Logo, espero. Estou trabalhando dia e noite.

O vento hoje est� gelado.

O que est� preparando de bom?

Couve com porco.

Ah, bom! Gosta?

Sim, mas cozinha gorda, testamento magro!

Dr. Hogeland, serei sempre grata por sua hospitalidade...

mas ficarei ainda mais grata se me puder ler essa carta do Sr. Descartes.

N�o sei ler. O Sr. sabe...

ver e n�o entender � como voltar da ca�a com o saco vazio.

''Cara Helena...

alegro-me por sua boa sa�de e pe�o a Deus que ela n�o lhe falte...

at� o t�rmino de sua espera.

Quanto a mim, faz j� 30 anos que n�o sofro de nenhum mal...

e tenho a impress�o de estar mais distante da morte agora...

do que em minha juventude.

Sei que gostar� de saber que trabalhei nesses dias...

para obter dos ju�zes dessa cidade a gra�a para a vida de Joachim...

o campon�s injustamente acusado de homic�dio.

Fa�o isso para realizar uma obra de bem, sobretudo para sua fam�lia...''

Uma boa consci�ncia � um bom travesseiro.

''Em nossa vida, devemos praticar...

sobretudo entre os ensinamentos de Cristo, a regra do amor...

o �nico sentimento que pode tornar mais feliz o caminho do homem na Terra.

Temo n�o poder ir encontr�-la no pr�ximo m�s, como prometera.

Mas esteja certa de que n�o a esquecerei.''

As palavras voam, os filhos ficam.

Hum! Quer que continue?

Sim.

''Mande-me not�cias pelo mensageiro do Dr. Hogeland...

e transmita-lhe os meus agradecimentos...

pela hospitalidade que lhe d�. Ren� Descartes.''

Quem promete muito, cumpre pouco.

Obrigada, doutor.

-Quando chegou? -Esta manh�, senhor.

� de Pe. Mersenne. Jan, minhas roupas!

Publicarei tudo.

N�o posso renunciar a imprimir um tratado em que trabalhei tantos anos.

Meu tratado estava quase acabado.

S� me faltava corrigi-lo e copi�-lo.

Mas se Galileu, um italiano que goza da estima do papa...

foi condenado, n�o tenho �nimo de continuar.

Talvez esteja exagerando.

Poder� public�-lo mais tarde.

Em sua carta, Pe. Mersenne foi muito claro e creio que tem raz�o.

Mas, como eu disse antes, a Holanda � muito distante de Roma.

N�o quero correr o risco de contradizer nem perturbar a lgreja.

Estou quase tentado a queimar todos os meus pap�is.

Com certeza, n�o os mostrarei a ningu�m.

Toda a minha obra � t�o ligada � hip�tese do movimento dos c�us...

que � imposs�vel corrigi-la...

mesmo que o quisesse.

Se � assim, n�o posso censur�-lo.

Espere...

Aqui est�. Ou�a o que me escreveu um disc�pulo de Galileu:

''Depois de longo processo e infinitas inj�rias...

ele foi confinado na cidade de Siena...

de onde n�o pode sair sem permiss�o.

Seus escritos foram todos banidos...

porque tinham como verdadeira a falsa doutrina, ensinada por alguns...

de que o Sol � o centro do mundo e � im�vel...

e de que a Terra se move em modo diuturno.

E por ter, ademais, ensinado a mesma doutrina...

e t�-la difundido em cartas e escritos''.

A bem dizer, nunca tive desejo de escrever livros.

Se n�o tivesse cedido � insist�ncia de alguns amigos, nunca teria escrito.

Busco apenas a paz e a tranq�ilidade de esp�rito.

J� existem em filosofia muitas opini�es...

aparentemente s�lidas, que podem ser debatidas nas discuss�es...

e se as minhas n�o s�o mais s�lidas que elas...

e n�o podem ser aprovadas sem controv�rsias...

nunca aceitarei public�-las.

Est� sendo um pouco prudente demais.

Sabia que Galileu foi defendido na Fran�a?

Sabia, nosso bom frade Mersenne tamb�m est� entre seus defensores.

Mas ele tamb�m me recomendou prud�ncia.

Nunca farei o que n�o devo fazer.

� preciso aplacar a pr�pria excita��o, o desejo.

Esperarei, pois o que n�o parece poss�vel hoje...

pode s�-lo amanh�.

Francine, eu te batizo em nome do Pai, do Filho...

e do Esp�rito Santo. Am�m.

O pai.

As testemunhas.

Poderei voltar a morar com voc� agora?

N�o, Helena, agora n�o.

-Ent�o voc� n�o quer. -N�o diga isso...

A menina � linda.

Escreverei. N�o a abandonarei nunca!

Tem certeza de que partiu de Amsterd�?

Seu criado avisou que chegaria a Utrecht durante o dia.

O Sr. Descartes chegou.

Oh, ei-lo! Mande-o entrar.

O Sr. Ren� Descartes chegou. Cartesius.

Car�ssimo Descartes! Finalmente voltou a Utrecht!

Senhora, estou lisonjeado com tamanha honra.

N�s o esper�vamos.

Estive 15 dias em Amsterd�.

Neste sal�o, onde a Sra. Ana Maria Shurman...

recebe sempre os mais famosos s�bios dos Pa�ses Baixos...

sentia-se muito a sua falta.

Assim voc� me confunde, caro amigo!

Disseram que prepara com seu tip�grafo a impress�o de nova obra.

Ficamos decepcionados quando desistiu de imprimir...

o tratado sobre o mundo por temor.

Engana-se, n�o foi por temor.

Foi por respeito � autoridade e por prud�ncia, uma justa prud�ncia.

Esses amigos vieram ouvi-lo.

Minha nova obra retomar� id�ias e materiais do tratado do mundo.

Senhores, escrevi o projeto de uma ci�ncia universal...

que possa elevar a natureza a seu mais alto grau de perfei��o.

O que est� nos dizendo � muito pouco.

Falou-me tanto de seus progressos em metafisica.

Tem medo de exp�-los?

Escreveu um livro de metafisica?

Renunciou ao m�todo matem�tico?

Tranq�ilizem-se!

Pretendo demonstrar a verdade explicada a partir da metafisica...

por novas vias.

Seria in�til inventar um m�todo para o uso correto da raz�o...

e n�o utiliz�-lo para demonstrar os fundamentos...

da cria��o e do esp�rito e daquilo que nos circunda...

para al�m das teses dos escol�sticos...

sem nenhuma concess�o �s suas argumenta��es.

Eis um de meus novos racioc�nios:

''Todos sabem que, �s vezes, os sentidos nos enganam.

Suponho, ent�o, que nada do que vemos seja como os sentidos fazem parecer.''

Por�m, duvidando de tudo, parece-me imediatamente evidente...

que penso e, se penso, deve existir alguma coisa.

''Penso, logo sou, logo existo''.

Esta certeza de ser � extra�da de mim mesmo.

Sou uma subst�ncia cuja ess�ncia natural consiste...

r de forma totalmente independente de qualquer cois

Pois bem, esse eu ao qual me refiro...

� a alma pela qual eu sou o que sou.

Verifiquei demais...

que nenhuma das coisas que existem...

a terra, a luz, a cor...

mostram-se superiores a mim, mais perfeitas que eu.

Mas quem p�s em mim a id�ia de um ser mais perfeito que eu?

Perguntei-me.

Certamente uma natureza mais perfeita que a minha...

capaz de conceber a id�ia da perfei��o, isto �...

de um ser sobrenatural, absolutamente perfeito...

que indico com uma �nica palavra: Deus.

Em meu tratado, demonstro da forma mais clara...

tamb�m a exist�ncia, em mim e no mundo...

de uma subst�ncia pensante, distante da corp�rea.

Mas qual das duas � a natureza de Deus?

Demonstrarei que Deus...

certamente n�o pode ser um composto de duas subst�ncias...

a corp�rea e a pensante, pois a mistura seria sinal de imperfei��o.

Caro Ren�, fala da exist�ncia da alma de Deus de maneira realmente inaudita.

Estou comovida.

Seu des�gnio � muito audaz e agudo.

Mas a sua divis�o de realidade em subst�ncia corp�rea...

e subst�ncia pensante suscitar� muitas obje��es.

Responderei a todas.

No entanto, � necess�rio que publique...

o mais rapidamente poss�vel o meu tratado.

Pensarei nas obje��es depois.

Senhora!

Venha... Boazinha...

Coloquei p�o, manteiga, queijo, frutas cristalizadas...

e quatro pares de cal�as que fiz para voc�.

Quem possui um tesouro e n�o sabe...

� muito mais pobre de quem nada tem.

Quando chegar� a Leiden?

Em dois dias. Tenho um bom cavalo.

Ficou muito pouco conosco.

Tenho deveres a cumprir. N�o poderia fazer diferente.

Um pote de ouro n�o vale um lar!

Voc� n�o entenderia...

Falo por sua filha, n�o por mim.

Helena, espero que chegue o dia em que poderei viver com Francine...

e com voc� em fam�lia, como um homem qualquer.

Rezo a Deus por isso todo dia.

Sr. Descartes, seu criado j� preparou os cavalos.

Deveria aparecer mais em Deventer.

Sei disso. Agrade�o pelo que faz por Helena.

Voltarei logo.

� uma criatura bel�ssima, pois � perfeita.

Para mim, � como um milagre.

N�o � um milagre. � uma m�quina perfeita da natureza...

seus olhos, suas pupilas...

J� vou.

Que Deus o aben�oe!

D� adeus a papai, d�... Vamos!

Mas tinha me falado de um outro t�tulo: Projeto para uma Ci�ncia Universal.

Sim, mas em Paris e por todo lado os escol�sticos...

est�o prontos para tachar de heresia qualquer novidade.

Um bom frade aconselhou-me a ser prudente.

Deve ter sido o seu amigo Pe. Mersenne, mais uma vez.

Deve ser realmente um homem prudente.

Discurso do M�todo. Come�aria a comp�-lo imediatamente.

Logo, logo estar� pronto.

Amanh� trarei as dedicat�rias que deve imprimir nas primeiras tr�s c�pias.

A primeira, ao pr�ncipe de Orange, soberano deste pa�s.

A segunda, a Lu�s Xlll, rei da Fran�a.

A terceira, a seu primeiro-ministro, o cardeal de Richelieu.

Senhores!

Agrade�o-lhes por terem vindo.

Eu o admiro muito, meu caro Ren�.

Poderia me acompanhar at� em casa depois do debate?

N�o posso, senhora.

Devo partir imediatamente para Sanpoor.

Vai encontrar sua filha Francine?

Sim, voltarei para ela!

V�, eles o esperam.

As obje��es a seu tratado s�o numerosas.

E ent�o, passemos �s obje��es, senhores!

Afirmou que s� pode ter certeza de uma coisa:

de ser ''uma coisa que pensa''.

Mas ainda n�o nos disse o que seria para o senhor...

essa coisa que pensa.

N�o sabe se aquilo que pensa seria um corpo...

que, com movimentos diversos e secretos...

produz a a��o que indicamos com o nome de pensamento!

Diz: ''Sou uma coisa que pensa''...

''eu penso'', ''sou pensante'', logo existo.

logo sou um esp�rito, uma alma, um intelecto, uma raz�o.

A meu ver, a dedu��o n�o � exata.

� como se dissesse: sou pensante, logo sou um pensamento.

Ou ainda: sou inteligente, logo sou um intelecto.

Seria como dizer: sou um passeante, logo sou um passeio.

N�o podemos conceber nenhum ato sem o seu sujeito...

o pensamento sem uma coisa que pensa...

a ci�ncia sem uma coisa que saiba...

e o passeio sem uma coisa que passeia.

E isso parece ter como conseq��ncia...

que uma coisa pensada � tamb�m uma coisa corp�rea.

Sustenta que a id�ia de ''ser soberano'' n�o pode ter nascido de si mesma...

mas deve ter sido infundida no senhor e em todos os homens.

Mas acredita realmente que essa id�ia teria nascido em seu esp�rito...

se tivesse passado toda a sua vida no deserto...

e n�o na companhia de pessoas doutas?

Os canadenses e outros selvagens...

n�o t�m tal id�ia em si.

A id�ia de Deus que o senhor tem n�o � diferente...

da id�ia de um n�mero ou de uma linha...

que o senhor considera infinita.

N�o encontramos uma �nica palavra em seus escritos...

a respeito da imortalidade da alma humana...

o que, a meu ver, n�o deveria ter negligenciado de demonstrar...

para confundir todos os que s�o indignos da imortalidade...

pois a negam, talvez porque a temam.

Sr. Descartes, o senhor escreveu numa constru��o l�gica sutil...

ita mec�nica da raz�o, sem referir-se jamais aos sent

�s paix�es, ao cora��o do homem.

Nunca cita a B�blia.

E, escrevendo sobre Deus, nunca revelou que sua natureza � mist�rio...

do qual nasce para n�s a necessidade da f�.

Por sua natureza, a f� � um movimento da alma...

que vive al�m da raz�o e a ilumina.

Com seus escritos, ao contr�rio...

demonstrou que n�o h� nada fora da raz�o...

que seja capaz de conduzir o homem � verdade.

Senhores, ouvi com muita satisfa��o as suas obje��es...

pois elas me fizeram conhecer a benevol�ncia...

que demonstram para comigo e a sua piedade em rela��o a Deus.

Assim, s� posso me alegrar, n�o apenas...

porque consideram meus racioc�nios dignos de sua censura...

mas tamb�m porque n�o objetaram nada contra eles...

que n�o possa responder com tranq�ilidade.

Das coisas que pertencem ao esp�rito...

n�o tivemos at� agora mais que id�ias...

bastante confusas e misturadas com as id�ias...

que nos v�m das coisas sens�veis.

Essa foi a primeira e principal raz�o...

que nos impediu de entender com clareza tudo aquilo...

que podemos sobre Deus e sobre a alma.

E penso que n�o fiz pouco ao demonstrar, acima de tudo...

como distinguir as propriedades e qualidades do esp�rito...

daquelas do corpo, e como reconhec�-las.

Senhores, essa n�o ser� uma tarefa de pouca monta.

Est� com as provas da dedicat�ria?

Aqui est�o!

O Sr. Descartes n�o nos perdoaria se deix�ssemos...

algum erro de impress�o em seu novo livro...

as Medita��es Sobre Filosofia Primeira.

O Sr. Descartes � muito cuidadoso tamb�m...

com a ortografia e as v�rgulas!

Mas n�o voltar� a Paris ao final do trabalho?

N�o, ficar� nos Pa�ses Baixos.

''Ao Decano e aos Doutores da Sagrada Faculdade Teol�gica de Paris''.

O Sr. Descartes � muito prudente.

Certamente! Como deve ser um s�bio.

Mas, desde que o conhe�o, sempre disse e escreveu sinceramente...

tudo aquilo que pensa.

Escreveu sobre geometria e matem�tica...

sobre �tica e fisiologia...

para buscar uma nova maneira de filosofar...

na qual n�o seja admitida nenhuma raz�o...

que n�o possua uma absoluta evid�ncia matem�tica.

Desde a inf�ncia, essa tem sido a sua busca.

''Senhores, por mais for�a que tenham os meus racioc�nios...

n�o posso esperar que tenham um grande efeito sobre os esp�ritos...

se n�o os tomarem sob sua prote��o...

e n�o duvido de que dedicar�o tanta aten��o a este escrito...

a ponto de desejar, acima de tudo, corrigi-lo.

E, depois que os argumentos, com os quais provo que existe um Deus...

e que a alma humana difere do corpo...

forem conduzidos ao ponto extremo de clareza e de evid�ncia...

espero que tenham por bem declar�-lo e testemunh�-lo publicamente.

A verdade far� com que todos os doutos e todos...

os homens de engenho subscrevam os seus ju�zos.''

''Por Deus, entendo uma subst�ncia infinita...

a partir da qual eu mesmo e todas as outras coisas...

foram criadas e produzidas...

e n�o poderia ter id�ia de uma subst�ncia infinita...

eu, que sou finito...

se ela n�o tivesse sido posta em mim...

por uma subst�ncia verdadeiramente infinita.''

O Sr. Huygens chegou.

Mande-o entrar.

-Ren�! -Constantino!

Viu?

Louvores, obje��es, acusa��es.

� o sucesso!

Mas junto com o sucesso, Deus me enviou as maiores prova��es.

Morreu meu pai, na Fran�a...

e ningu�m me avisou, com medo de atrapalhar-me.

Foi o que escreveu meu irm�o.

E Francine tamb�m est� morta...

a luz dos meus olhos...

pela qual vim viver nessa casa com Helena.

Vivi pouco, muito pouco com Francine.

A ci�ncia impediu-me de viver.

Cada um de n�s tem a sua voca��o e deve viv�-la com fidelidade.

Tudo o que temos nos vem de Deus. � a sua merc�.

Sim.

Certo, continuarei a viver, e a pensar.

Mas agora fecharei os olhos, e obturarei os ouvidos...

apagarei meus sentidos.

Desejo apagar dos meus pensamentos...

todas as imagens das coisas corp�reas...

e entreter-me apenas comigo mesmo...

vivendo fechado em meu �ntimo.

Talvez, examinando dentro de mim...

consiga, pouco a pouco...

aplacar a dor e a confus�o desses dias.

Provarei a mim mesmo que uma coisa, uma alma que pensa...

significa uma alma que duvida, afirma, nega...

conhece poucas coisas e ignora muitas...

ama, odeia, deseja, j� n�o deseja mais...

recorda, imagina e sente.

Tentarei, na dor, estender meu conhecimento...

considerarei cuidadosamente se n�o � poss�vel...

descobrir dentro de mim alguma outra coisa...

que n�o tenha percebido at� este momento.

Tenho certeza de ser uma realidade que pensa...

mas de onde vem esta certeza?

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